Canção Da Morte
16 Capítulo 16 - O que acontece ao redor
Maximus aguardava por Íllias na Casa de Sagitário, sua expressão era de reprovação, como se o rapaz tivesse feito algo errado. Assim que o jovem chegou, ele lhe disse:
- Aquele velho lhe ensinou alguma coisa não é?
- Ele apenas me deu uns conselhos. Não disse nada muito importante. – respondeu o garoto percebendo que seu mestre observara sua conversa com Aldebaran e por sua expressão, não havia aprovado.
- Ele sempre diz algo importante, mesmo que não pareça. Agora ande, vou intensificar seu treinamento. Quero que entre na casa e pegue um tecido de cor escura que está sobre a mesa da direita. – falou o mestre.
O jovem obedeceu sem tentar discutir ou questionar, afinal, ele sabia que seria inútil. Ele adentrou a Casa e ao encontrou a mesa, ao pegar o tecido uma estranha sensação passou por ele, como se algo estivesse rondando o local. Ele pensou ser algo de sua mente, mas reforçou seus medos assim que sentiu as estruturas do lugar tremerem. Toda casa parecia estar sendo retirada do lugar e sua primeira reação foi sair para saber o que estava acontecendo do lado de fora. Ao sair percebeu que não havia nenhuma movimentação anormal no Santuário, nenhum inimigo a vista, somente Maximus esperando por ele.
- Porque demorou garoto? Perdeu-se?
- Você não sentiu isso? Um forte tremor na Casa de Sagitário? – indagou o jovem assustado.
- Ora, não se preocupe com isso. É apenas o Aquiles treinando lá trás.
- O que? Mas como? O que ele...
- Chega de perguntas. Concentre-se no seu treinamento. Agora venha, vamos dificultar um pouco as coisas.
Íllias não compreendeu muito bem quando seu professor vendou seus olhos usando aquele tecido, ele se queixou e protestou, porém de nada adiantou. O cavaleiro de ouro insistiu que se ele quisesse se tornar mais poderoso teria que aprender a voar do modo mais difícil.
- Aquele velho lhe disse para controlar as correntes de ar não foi? Então é isso que você irá fazer, mais terá que controla-las bem, porque não poderá ver onde está indo.
- Como você sabe que ele me ensinou isso?
- Porque ele me ensinou a mesma coisa. Agora vá. Serenity já iniciou seu voo há dois minutos.
— Ei, espere! Como você... – suas palavras foram interrompidas assim que seu professor lhe deu um empurrão, lançando-o ao ar.
Os primeiros minutos foram tranquilos, ele estava conseguindo dominar o vento a sua volta, ordenando-o que o levasse para cima, para frente, para sua direita ou esquerda até mesmo para baixo. Talvez baixo demais, pois em três de seus voos ele bateu com a cabeça em uma das colunas da Casa de Libra. Nero já estava achando engraçado ver aquele garoto treinando, mas também estava preocupado com a coluna que poderia vir ao chão com mais uma ou duas pancadas como aquela. Disposto a ajudar o rapaz, o cavaleiro dirigiu-se para o pátio da Nona Casa, onde poderia auxilia-lo. Lá encontrou com Maximus, outra pessoa que estava se divertindo com os erros de Íllias.
- Nero, posso lhe pedir um favor? Pode vigiar esse garoto enquanto eu ajudo meu outro discípulo, ele está num treinamento mais árduo e quero acompanha-lo em cada estágio.
- Tudo bem. Estou sem tarefas no momento. E acho que vou me divertir bastante com esse treinamento.
- Obrigado. – disse Maximus indo em direção aos fundos da casa de Sagitário.
Pégaso continuava se esforçando em manter-se no ar, porém sem sucesso. Ora voava baixo demais, ora subia a alturas vertiginosas. Algumas vezes voava tanto para a direita que atravessava o Coliseu, outras ia para tão longe para a esquerda que sumia da visão de qualquer um no Santuário. Até que fez uma pausa, Nero esperava-o com um grande sorriso no rosto. Ambos começaram a conversar e o cavaleiro de Libra deu mais conselhos para o jovem.
- Você está fazendo tudo errado garoto. Precisa traçar uma trilha, um caminho.
- Como? Como posso criar uma trilha no ar?
- Você precisa de equilíbrio. Você está controlando o vento, mas ainda sim está sem controle sobre ele. Você está ordenando para que ele te leve para cima demais, ou que te traga para o mais baixo possível. Sem contar que seu senso de direção é horrível.
- Mas eu estou com os olhos vendados. Não tenho como me direcionar.
- Errado. Você pode usar seus ouvidos e principalmente, seu cosmo. Use-o para sentir o ambiente ao seu redor. Faça com que seu cosmo mostre o caminho, os obstáculos e tudo que existe em torno de você. – Seu rosto mudou, como se ele tivesse tido uma ideia repentina. – Façamos assim, eu fecharei os olhos e descreverei o ambiente ao redor e depois você tenta. Ok?
- Tudo bem. – concordou o jovem ainda cabisbaixo.
Então Nero fechou os olhos e começou a descrever o ambiente, ele disse a distancia exata entre eles e a Casa de Sagitário, disse que havia nuvens de chuva passando pelo Santuário e indo em direção ao Cemitério de Cavaleiros. Ele contou o numero de formigas que estavam andando pelo solo bem a sua frente e não deixou de mencionar a chegada de Serenity depois de mais um voo. Íllias ficou impressionado com a habilidade de um cavaleiro tão novo quanto ele, afinal ambos adquiriram suas armaduras no mesmo dia. Porém Nero demonstrava porque possuía uma armadura de ouro. Ele era muito mais poderoso. Depois de ser convencido a continuar com o treinamento o cavaleiro de Pégaso procurou concentrar seu cosmo para que criasse uma aura ao seu redor, assim poderia sentir tudo o que acontecia em volta. Vendou os olhos e alçou voo seguido por sua companheira de treino.
Agora o vento obedecia aos seus comandos, ele permanecia voando no mesmo sentido e na mesma direção, sua velocidade aumentava ou diminuía quando ele desejava e nesse momento ele queria apenas voar mais e mais rápido. Ele tinha que vencer a corrida. Tinha que se sair bem no treinamento. E logo que alcançou o relógio de fogo, seu objetivo na corrida, ele voltou em direção a casa guardada por Maximus. Logo que começou a fazer o caminho de volta ele sentiu um pássaro se aproximando, voando rápido. Era Serenity. A águia era tão veloz que estava emparelhando com ele. Percebendo a possibilidade de perder o desafio, Íllias convocou o vento e fez com que ele o impulsionasse, um pequeno vórtice de ar formou-se próximo aos seus pés e deu-lhe uma grande propulsão, lançando-o como um foguete até que chegasse a seu objetivo.
Nero parabenizou-o por ter conseguido, e elogiou-o por sua inteligência em usar o vento para impulsiona-lo. Serenity repousava no telhado da casa e se pudesse falar com certeza estaria insultando o cavaleiro de Pégaso. Aquiles e Maximus voltaram e Íllias percebeu que seu amigo não estava nada bem. Desde que havia começado seu treinamento, Aquiles manteve-se muito calado e distante. Sua expressão sempre demonstrava cansaço e ninguém sabia em que consistia seu treinamento. Ninguém, exceto seu Mestre Maximus. Seja como for, pensou Íllias, está drenando suas energias.
O sol estava se pondo no horizonte, mas a noite não chegou antes do retorno de Dante e Aoshi, Dante estava com muitos hematomas pelo corpo como se tivesse sido espancado, Aoshi possuía apenas um pequeno machucado no rosto, como uma pequena queimadura. Ambos estavam rindo e conversando como se algo realmente engraçado tivesse acontecido, o cavaleiro de ouro era o mais sorridente. Não demorou muito para que Hayato e Ryu adentrassem no Santuário, o cavaleiro de Dragão era amparado por seu mestre enquanto andava, ele parecia exausto e seu olhar estava pesado, denunciando o sono que estava sentindo, ainda assim conservava um largo sorriso no rosto. Ele tinha conseguido.
O mais feliz e com certeza mais barulhento dos cavaleiros de bronze chegou ao Santuário minutos mais tarde acompanhado por Magnus. Cleon não parecia machucado como os outros e ao ver o estado em que se encontravam os amigos começou a caçoar deles.
- Olhem pra vocês! Ryu, você parece alguém que foi atropelado! Íllias, esse galo na sua cabeça é maior do que aqueles que vemos nos desenhos animados. Dante, da próxima vez que algum valentão te bater, chame por ajuda rapaz, não fique bancando o cara durão que resolve tudo sozinho. E Aquiles, olha acho que nem vou falar nada sobre você. – disse em meio a muitas gargalhadas.
Dante levantou-se e saiu de perto dos companheiros, ele andou em direção a saída do Santuário e desapareceu mais uma vez, enquanto saía ele ouviu Cleon gritar.
- Ei Dante! Não fique ofendido! Estamos apenas brincando! – mais uma vez sua fala foi acompanhada por uma risada de deboche.
- Ele não ficou ofendido. Apenas não está com paciência para ouvir você falando. Sinceramente, eu também não estou. – disse Ryu enquanto saía para descansar.
Naquela noite a reunião ao redor da fogueira ficou mais vazia. Dante, Ryu, Íllias e Aquiles estavam ausentes. Três deles foram descansar mais cedo do que o comum e o outro estava longe o suficiente para não ser incomodado. Cleon teve que se contentar com a companhia dos outros cavaleiros de bronze e de Aldebaran, que insistia em vigiar os aprendizes. Porém a reunião não durou muito porque as nuvens de chuva que Nero havia sentido mais cedo não passaram do Santuário e derramaram suas aguas sobre o Coliseu, As Doze Casas, o Templo de Athena e tudo mais. Os jovens cavaleiros se retiraram para dormir antes do horário desejado, a chuva caía forte mais depois de duas horas já estava mais amena. As gotas cessaram antes da última dupla do dia regressar ao Santuário. Mesmo que não estivesse treinando, o cavaleiro mais jovem estava muito abatido. Todos acordaram assim que alguém deu a notícia de que eles haviam chegado. Muitos foram ao encontro dos dois cavaleiros para receber a notícia que tanto aguardavam. Mas a notícia não foi a esperada.
E foi assim que as gotas começaram a cair sobre a terra, não gotas de chuva, mais gotas de dor. Lágrimas dos cavaleiros que sentiram o desespero estampado no rosto do mais querido entre todos. Coincidentemente, a chuva recomeçou, como se o céu chorasse junto com eles. Como se os astros também lamentassem a morte do Leão Dourado.
Fale com o autor