Canção Da Morte
15 Capítulo 15 - Frieza
Robert olhava pela janela de sua casa e admirava o rebanho de ovelhas que se dirigiam para o pasto guiadas por alguns de seus empregados. De todos os bens que possuía, seu rebanho era um dos que mais gostava, pois dele vinha grande parte de seus lucros. Ele vivia na Suíça há pelo menos vinte anos e durante esse tempo tinha conseguido ser bem-sucedido nos negócios e fornecer uma boa vida para sua esposa e filhos. Um deles estava acompanhando o rebanho que se distanciava cada vez mais da casa, o menino andava feliz ao lado de sua ovelha favorita, aquela com quem sempre brincava, aquela que ele fazia questão de alimentar e a qual ele vigiava sempre. Até tinha dado um nome para ela. Seu pai percebia que o jovem Cleon nutria um amor por aquele animal, mesmo possuindo um cão pastor em sua propriedade o garoto preferia a companhia da pequena ovelha e lá ia ele mais uma vez acompanhar os pastores em sua tarefa.
Todos na casa sabiam que estava chegando aquela época do ano e que seria necessário se retirar daquela região por um tempo, segundo a previsão, o inverno desse ano seria um dos mais rigorosos já enfrentados. A família, os empregados, os animais, todos precisariam partir para outra propriedade e esperar com que o inverno passasse para que pudessem retornar. E quando chegou o momento, todos haviam partido, bom, quase todos.
Cleon brincava com sua ovelha em uma montanha não muito longe de casa quando viu que todos estavam se preparando para deixar o lugar, ele distanciou-se da ovelha por uns momentos para observar a movimentação em sua casa, porém quando retornou para o lugar onde a havia deixado, ela já não estava mais lá. Ele começou a procurar e a chamar por ela, mas não a encontrava, o tempo estava passando e ele precisava voltar logo para casa, mas não queria abandonar seu animal de estimação que com certeza sofreria com o frio intenso. Então ele subiu cada vez mais a montanha, ficando fora da vista de seus pais e dos empregados da família, em sua mente ele acreditava que não demoraria muito para encontrar o animal e voltar para casa. Estava errado.
Felizmente, nem todos estavam tão ocupados com a saída e tinham tempo para observar o ambiente em volta e ver garotinhos subindo montanhas sozinhos. Gerard, o filho mais velho de Robert seguiu seu irmãozinho para saber em que confusão ele iria se meter agora, contudo ele mesmo não sabia que também estava sendo seguido. Alice, sua irmã caçula e Peter, o filho de um dos empregados de seu pai, viram-no indo para as montanhas e ficaram curiosos para saber o que ele ia fazer. Porém, nenhum deles esperava que o inverno chegasse tão rápido e tão forte. Para começar foi uma queda brusca de temperatura, depois uma pequena tempestade, um misto de chuva e neve. Cleon continuava sua busca pela ovelhinha perdida até que encontrou uma caverna, onde pensou ter visto seu animal entrar, enquanto ia para o fundo da caverna ele ouviu uma voz.
- O que você veio fazer aqui? Nós temos que ir embora. – avisou Gerard.
- Eu estou procurando pela minha ovelha, a Novelo de Lã. Ela veio pra cá e não consigo encontra-la. – Cleon disse.
— Cleon, todas as ovelhas já foram levadas. Não há nenhuma por aqui, ande vamos para casa. – explicou o irmão mais velho enquanto abraçava o menor. – E eu ainda não entendo que nome idiota foi esse que você deu para aquela ovelha. Não pensou em nada melhor?
- Ah, cala a boca. Eu gosto desse nome. – disse Cleon.
Ambos estavam caminhando em direção à saída da caverna quando foram surpreendidos mais uma vez.
- Irmão! – gritou uma garotinha de cabelos loiros.
- Alice, por que você está aqui? Não deveria estar com a mamãe? – questionou Cleon.
- Eu disse pra ela que estaria com você, ela deixou, disse que não teria problema.
- Tá, tudo bem. Depois nós nos explicamos, agora vamos sair daqui. Concorda Peter? – falou Gerard.
- Sim! Estou morrendo de frio! Não sei como o Cleon consegue vir aqui sem nenhum agasalho.
- Ora, você sabe que eu não sinto frio, nem um pouco.
Ele sabia. Peter se lembrava de vezes em que brincavam na neve e Cleon nem se importava. Ou de uma vez em que ambos estavam sobre um lago congelado e o gelo quebrou. Peter ficou três semanas de cama com uma grande febre, enquanto Cleon não sentia nada e até se aventurou a mergulhar no lago de novo, de algum modo ele era resistente a baixas temperaturas.
Todos estavam ansiosos para deixar aquele lugar, mas infelizmente não conseguiram. A tempestade tornou-se muito mais forte e acabou aprisionando-os dentro da caverna. A entrada havia sido coberta por uma verdadeira parede de neve, como se uma avalanche tivesse acontecido. Até onde eles sabiam aquela era a única saída da caverna e agora estava bloqueada.
Passaram-se horas, a temperatura havia caído rapidamente e já estava abaixo de 0º C, se o resgate demorasse muito todos morreriam. Longe dali, os pais de Cleon não sabiam o que estava acontecendo com seus filhos.
- Querida, onde estão Gerard, Cleon e Alice? – Robert perguntou a sua esposa.
- Eu me lembro de que Gerard disse que iria em um dos caminhões com os empregados. Eles conseguiram colocar uma mesa na parte de trás e como o caminho não é muito acidentado, poderiam jogar cartas durante a viagem. Acredito que Cleon e Alice estão com ele, você sabe como ambos gostam do irmão. – respondeu Clea.
A noite havia chegado e piorado as coisas, durante o dia havia certa luminosidade dentro da caverna, com o por do sol veio a escuridão e o desespero de todos só aumentou. Gerard era o mais velho e sabia que não podia permitir que ninguém ali se machucasse, ele precisava encontrar uma solução para esse problema. Foi então que ele tomou uma decisão:
- Escutem, quando amanhecer nós teremos um pouco de luz aqui dentro e eu vou adentrar ainda mais nessa caverna para saber se existe outra saída. Mas eu preciso que vocês permaneçam aqui. Entenderam? Agora tentem dormir um pouco.
Eles tentaram, mas não foi fácil. Aquele lugar estava realmente muito frio e úmido, nenhum deles possuía agasalhos ou outra forma de se aquecer e as crianças podiam jurar que existiam animais dentro daquela caverna, embora não tivessem visto nenhum. Quando amanheceu, todos estavam cansados, famintos e com muita vontade de deixar aquele local. Gerard apressou-se e saiu para explorar o interior da caverna, se tivesse sorte ele encontraria outra saída.
- Fiquem juntos, ok? Se ficarem juntos, vocês podem vencer qualquer coisa. – ele falou.
Então ele saiu e sumiu nas sombras do fundo da caverna, Cleon não imaginava, mas aquela seria a última vez que veria seu irmão mais velho. Seus pais já haviam chegado ao seu destino e ao perceberem a ausência das crianças decidiram voltar para procura-los, eles viajaram de volta com apenas dois veículos, mas em certo ponto não puderam prosseguir viagem devido ao rigoroso inverno. A tempestade havia piorado e as estradas estavam cobertas por neve, seriam necessários veículos próprios para aquela ocasião e eles só conseguiriam tais transportes em pelo menos um dia, na melhor das hipóteses.
Na caverna, as crianças ainda esperavam pela volta de Gerard ou que algum grupo de resgate chegasse, mas nenhum deles veio. Os três mantinham-se unidos para resistir ao frio. Porém Peter demonstrava sinais de que não conseguiria, Cleon emprestou-lhe sua camisa para que usasse e isso afastou o frio por um tempo, mas não muito. Assim, na metade do dia ele viu seu amigo fechar os olhos e não despertar mais. Sua irmãzinha chorava e chamava pelo amigo, mas este não podia ouvir e nem responder aos gritos da menina. A noite voltou e a esperança não veio com ela, ambos permaneciam presos e assim que o dia amanheceu Cleon teve outra decepção. Alice havia dormido nos braços do irmão, mas nem mesmo ele pôde salva-la. A pequena criança também havia sucumbido ao frio. Cleon chorava bastante e suas lágrimas rolavam por seu rosto e encontravam a pele gelada de sua irmã. Sua raiva era extremamente grande e ele se culpava pela morte de Peter e Alice. Ele sabia que não podia ficar ali por muito tempo, não queria morrer, não poderia perder sua vida daquela forma. Colocou os corpos próximos um do outro e correu para a entrada da caverna, a parede de neve parecia muito sólida. Estalactites desciam do teto e pendiam sobre ele, tão afiadas que podiam perfurar sua pele, ele tinha o estranho pressentimento de que a qualquer momento elas cairiam sobre sua cabeça. Seus socos atingiam a parede, mas não surtiam efeito algum. Estava fraco, faminto, cansado, porém sua raiva impedia-o de desistir.
Ele começou a sentir o ar gélido da caverna rodeando seu corpo, a baixa temperatura já não o afetava e do chão uma fina camada de gelo subia por suas pernas e cobria seu corpo. Uma estranha aura azulada surgia a sua volta, seu coração batia mais rápido. Então ele reuniu suas forças, concentrou-se e deu um soco na parede, sua mão atravessou a camada de neve, mas ele não tinha forças para abrir outro buraco. Com o impacto do golpe, o chão, as outras paredes, bem como o teto começaram a tremer, as estalactites balançavam e pareciam prestes a cair, Cleon entrou em desespero, se caíssem iriam acerta-lo em cheio. Até que ele sentiu alguém segurar sua mão, ele fechou os olhos e foi puxado para fora no momento exato. Quando os abriu novamente ele viu um homem com uma roupa dourada, seus cabelos verdes voavam com o vento que corria pela montanha e sua mão estava estendida na direção da caverna. O garoto olhou e viu que todas as estalactites que estavam no teto estavam paradas no ar, como se flutuassem. Com um movimento da mão daquele estranho homem elas se uniram e o gelo mudou de forma, transformando-se num grande pássaro feito de gelo, o homem apontou uma direção e o pássaro seguiu-a voando cada vez mais longe.
- Sua família já esta a caminho. Eles serão guiados até aqui. – Disse o estranho que se distanciava.
- Espere! Quem é você? Porque estava aqui? Como fez aquilo com o gelo? – o garoto perguntava assustado.
- Eu sou Magnus. Cavaleiro Dourado de Aquário. Eu estava procurando por alguém. Uma menina. E eu tenho o domínio de uma força que você desconhece. Por isso tenho todo esse poder. Agora eu preciso ir. – disse o homem.
Cleon sabia que sua família estava preocupada, sabia que seria um alívio para eles encontrarem-no, mas também seria um sofrimento enorme acharem os corpos de Alice e Peter, ele seria culpado pela morte de ambos por toda sua vida. E ainda havia Gerard que não tinha retornado, provavelmente morto também. Ele pensou e decidiu que não podia ficar ali, não conseguiria encarar sua família. Então ele gritou:
- Ei! Deixe-me ir com você! Por favor!
— Escute menino, não serei babá de ninguém. Não sou do tipo que faz discípulos, talvez algum dos outros te aceite...
- Ótimo! Me leve até eles. Mas por favor, não me deixe aqui. Já passei por sofrimento demais.
E assim ele seguiu com o cavaleiro, sempre aprendendo e treinando pelo caminho até que chegaram ao Santuário.
Cleon voltou a si, aquelas memórias eram muito dolorosas. Ele ainda não entendia porque Magnus o fez revivê-las. Mas estava disposto a concluir sua tarefa, seu treinamento.
- Então mestre, como isso vai ajudar?
- Lembra-se daquele gelo? Aquele que surgiu do chão? Como você o descreveria?
- Estranho, gelado, assustador, puro... Sei lá.
- O que mais? O que ele tinha de diferente? O que tinha em comum com o pássaro de gelo que você viu?
- Estava vivo. Movia-se por sua própria vontade.
- Correto. Bom, não por sua própria vontade, afinal o gelo não possui vontade. Mas pela vontade de quem o invocou. Eu quis que o pássaro viesse à vida e usei o gelo para dar-lhe forma. Assim como você quis que algo te protegesse daquelas coisas pontudas que estavam no teto. Você precisa dar vida ao gelo, dar-lhe forma, propósito, um objetivo. Só se torna-lo vivo poderá fazer com que supere a correnteza do rio e congele-o. Assim é que o gelo se torna flexível, maleável, inconstante. Agora pense e faça. – Magnus explicou ao seu aluno.
Cleon criou outra ponte sobre o rio e pensou: como o gelo pode vencer a água, como posso derrotar essa forte correnteza? Então ele pôs suas mãos na água e peixes aproximaram-se delas, então a ideia surgiu. Sua mente começou a trabalhar, ele se lembrava de Magnus falando sobre encontrar o ponto fraco dos inimigos e usar isso ao seu favor. O ponto fraco do rio era sua nascente, se ela secasse ou fosse bloqueada, a água pararia de correr. Ele se concentrou e criou um grande peixe de gelo, desejou que ele nadasse e mandou-o rio acima, mas seus desejos foram além disso, ele desejou que o peixe usasse a água que estava ao seu redor para produzir mais gelo e adicionasse esse gelo ao seu corpo.
Magnus permanecia deitado sob a sombra das árvores, com seus olhos fechados, parecendo dormir, até que ele ouviu passos. Alguém se aproximava, ele abriu os olhos e viu Cleon correndo, o rapaz passou por ele e subiu em uma árvore, bastante amedrontado. Seu mestre não entendia o motivo para tal medo.
- O que foi garoto? Algum peixe bateu em você? Hahahaha – debochava o professor.
- Eu não ficaria ai se fosse você... – alertou o aluno.
Foi então que um leve tremor percorreu o chão abaixo dos pés do cavaleiro dourado e ele percebeu sobre o que Cleon estava falando. Ao olhar para o rio ele viu uma verdadeira correnteza de gelo vindo pelo curso do rio, porém essa era muito maior e mais forte que a normal e o gelo estava avançando rapidamente pelas margens e adentrando o espaço em volta. Prontamente ele correu e subiu em uma árvore também, a tempo de salvar-se da incrível onda de gelo que continuava percorrendo o caminho feito pelo rio, até congela-lo completamente.
- Hahahahahahaha! Rapaz, essa foi melhor do que a encomenda! Eu não esperava que você fizesse isso!
- E então? Agora você me ensina aquela técnica especial?
- Não. Você não está preparado. Talvez em outros treinos eu te ensine algo parecido.
- Mas mestre! Eu...
- Sem mais! Você terá que me derrotar para aprender a Execução Aurora.
- Então parece que esse é o desafio dos próximos treinos. – falou o jovem num tom de desafio.
- Se é assim que você quer, então assim será. – falou Magnus. – Agora vamos, o Santuário nos espera.
- Athena nos espera. — corrigiu Cleon.
E assim eles deixaram seu lugar de treino e voltaram para o Santuário, onde Cleon talvez pudesse esquecer algumas coisas e ter algum tempo para esfriar a cabeça.
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