Canção Da Morte

14 Capítulo 14 - Mudanças e Presentes


Athena. Esse nome estava na mente de Íllias desde que Zaru havia dado a notícia, ele não parava de imaginar como ela era e qual era sua aparência. Dois dias atrás ele havia visto Hikaru de Leão e Azore de Peixes saírem para a missão de encontrar Athena e de trazê-la para o Santuário a salvo de qualquer investida inimiga. Particularmente ele desejava que Ryoji tivesse sido um dos escolhidos do Grande Mestre para executar tal tarefa, ao menos poderia ver seu professor mais uma vez, já fazia mais de um mês que ambos não se encontravam e Íllias já tinha dificuldades para lembrar claramente do rosto de seu tutor. Tudo indicava que o bode velho (como era chamado por Aldebaran) tinha pensamentos diferentes, suas escolhas haviam sido baseadas no fato de que Azore era o único que já tinha entrado em contato com Athena e de alguma forma ganhado a confiança dela. Já Hikaru foi chamado porque poderiam surgir complicações durante a missão e se fosse preciso... Bem, ele saberia o que fazer. Segundo o próprio cavaleiro de peixes, ele entregara uma de suas rosas para Athena, portanto não seria muito difícil encontra-la.

Mesmo com seu pensamento fixo na deusa que havia permitido com que ele se tornasse um de seus cavaleiros, Íllias sabia muito bem que não podia negligenciar seu treinamento, não agora que ele começava a compreender o modo de voar de Serenity. O jovem sentia-se um tolo por não perceber isso antes e mesmo que no começo ele ficasse com raiva da águia, agora nutria uma rivalidade agradável, como se ambos fossem amigos que estão sempre competindo só pelo prazer de competir. Os conselhos de Aldebaran de Touro foram bem úteis também; sempre que tinha tempo ele procurava o velho cavaleiro para conversar e ouvir algumas de suas sábias palavras. Em sua última conversa ele havia dito:

- Sabe garoto, o mar e o céu são muito parecidos. Ambos são fascinantes e neles podemos ver criaturas deslumbrantes, como sua amiga, por exemplo, animais totalmente adaptados para aproveitar esses ambientes da melhor maneira possível. Acredito que você já tenha ouvido falar das correntes marítimas não é?

- Sim. São grandes massas de água que migram pelos oceanos, seguindo vários rumos diferentes e mantendo suas características próprias, mesmo que estejam circulando por águas diferentes daquela que compõem a corrente. Por exemplo, se uma corrente fria passa por um local onde a água possui uma temperatura maior elas não vão trocar calor. Algumas espécies utilizam essas correntes de água para se locomover de um lugar para outro dentro do oceano.

- E você sabia que existem essas correntes também no ar? – perguntou o cavaleiro dourado.

- Correntes de ar? Elas funcionam como as correntes marítimas?

- De certo modo, sim. Todos reconhecem que o vento é o ar em movimento, porém poucos percebem que esse movimento não acontece de forma aleatória como a maioria pensa. O vento possui direção, sentido e características próprias também, semelhante as correntes encontradas nos oceanos. E assim como muitos peixes utilizam as massas de água para sua locomoção, diversas aves aproveitam as massas de ar para ajuda-las em seus percursos. Talvez você devesse prestar mais atenção a isso enquanto estiver treinando. Lembre-se que o cosmo é capaz de controlar qualquer tipo de matéria, isso inclui as moléculas que estão no ar a nossa volta.

- Interessante. Eu acreditava que o cosmo só poderia ser usado para alterar materiais sólidos. Não imaginava que o ar pudesse ser influenciado também.

- Rapaz, se você tiver força de vontade, pode fazer tudo o que quiser. Agora vá, sua companheira de treino já esta chegando. – falou o homem apontando para um grande pássaro que surgia no horizonte e ficava cada vez mais próximo.

- Sim, estou indo. Obrigado pelo conselho senhor Aldebaran. – Íllias se despediu.

- Quando quiser. – ele respondeu enquanto o jovem foi correndo em direção a Casa de Sagitário, onde Maximus já o aguardava para dar início a mais um dia de treino.

Dante não estava adaptado ao ritmo de treino de Hikaru e agora ele tinha ido embora, no primeiro dia, desde que ficou novamente sem mestre, ele treinou sozinho, agora estava na companhia de outro cavaleiro de ouro, um professor substituto como o próprio havia se intitulado. Dante carregava no peito o cordão que Hikaru deixara, o pingente era uma moeda dourada com o rosto de uma mulher usando um elmo cunhado nela. Athena. O cavaleiro de Leão afirmou que se a alma do portador fosse para o Submundo, o mesmo poderia usar aquela moeda para pagar o barqueiro das almas e talvez voltar para casa. Se não conseguissem barganhar, ao menos manteriam suas almas vivas devido a proteção que Athena depositou naquelas moedas. Hikaru também carregava uma em seu pescoço, por via das dúvidas.

- Ouça moleque, sei que o Hikaru andou treinando com você e que ele ensinou-o a se defender de ataques. Ele me explicou um pouco sobre ser prudente, pensar antes de agir e bla, bla, bla... Mas eu tenho outro estilo de luta, você ficaria incomodado se eu mudasse seu treinamento um pouco?

- De maneira nenhuma, mestre Aoshi. – Dante respondeu.

- Olha, parece que já estamos nos entendendo. – Aoshi disse. – Agora me deixe explicar: Hikaru te disse que a defesa é o mais importante em uma luta, que é preciso se proteger dos ataques inimigos para não acabar morto. Porém, a minha opinião é diferente, eu acredito que a melhor defesa é o ataque, nenhum inimigo poderá feri-lo se você acabar com ele antes. Minha filosofia é: destrua para não ser destruído. O que você acha? – Câncer questionou.

- Eu concordo plenamente. – falou Dante com um sorriso no rosto. – Não haverá ameaça se eu aniquilar qualquer coisa que possa me ameaçar.

- Vejo que está começando a entender. Então, seu novo treinamento é baseado nisso, eu quero que você tente me atacar e eu vou me defender. Quero que use toda sua força para me ferir, não hesite em nenhum momento, pense como se eu fosse seu inimigo. Consegue fazer isso cavaleiro?

- Agora você está falando a minha língua! Vamos lá! – Dante pareceu bastante animado.

- O que está esperando? – Aoshi debochou.

O cavaleiro de Fênix correu em direção ao seu mais novo professor, ele demonstrava estar feliz por iniciar esse novo treinamento, seu forte nunca fora a defesa, sempre que entrava numa batalha ele só pensava em atacar e destruir tudo o que aparecia em seu caminho e agora ele estava recebendo essa chance, a oportunidade de atacar alguém que poderia lidar com a força de seus golpes. Quase que instantaneamente surgiram chamas em suas mãos, contudo ele não teve a chance de lançar qualquer técnica em seu adversário. Com uma velocidade impressionante Aoshi se moveu em direção ao jovem e deu chute tão forte que o fez voar por alguns metros antes de cair ao chão, ainda atordoado Dante levantou-se e parecia não compreender o que havia acontecido.

- Porque você fez isso? Está ficando louco? – Fênix questionou, havia raiva em sua voz. — Você disse que eu deveria atacar e você iria apenas se defender!

- Exato. Mas se bem me lembro, eu disse que para mim a melhor defesa é o ataque. Destruir antes de ser destruído. Lembra-se? Agora me responda: vai continuar ou prefere ficar chorando ai no chão? – Câncer ria da situação.

Dante se levantou e percebeu que treinar com esse homem seria mais difícil do que ser ensinado por Hikaru, mas ele parecia gostar disso, quanto maior era a dificuldade, mais gostava. Já de pé ele limpou a sujeira de suas roupas e invocou novamente as chamas em suas mãos.

- Isso vai ser muito divertido! – exclamou enquanto corria para enfrentar seu novo mestre.

Ryu dormia aos pés de uma árvore enquanto esperava pela chegada de Hayato, seu mestre havia dito que buscaria alguns oponentes para ajudar no treinamento do cavaleiro. O jovem esperava que os novatos se juntassem a ele, como os cavaleiros de Leão Menor, Lobo, Hidra ou Ursa Maior, as armaduras perdidas que Zaru havia recuperado e levado para o Santuário. Porém quando acordou percebeu que seus companheiros de treino eram bem diferentes.

- Acorde garoto! Não poderá dormir durante uma briga. Venha, seus novos amigos estão esperando. – disse Escorpião enquanto posicionava três bonecos de treino a alguns metros de distancia.

- Já é tarde? Nossa! A manhã passou tão rápido que eu nem vi. – Ryu exclamou e percebeu um sorriso de Hayato, como se ele tivesse dito algo importante, talvez importante demais.

Agora enquanto se alongava ele percebia que esse era um dia diferente dos outros em que treinaram juntos, dessa vez não havia vento e o solo já apresentava algumas gramíneas que cresciam por todo o lugar.

- E então? Podemos começar?

- Antes, gostaria que você atacasse. Quero que repita os movimentos que fez naquele dia.

- Ok. Vou lhe mostrar mais uma vez. Quer escolher qual dos manequins devo acertar?

- Sim. Quero que atinja o braço esquerdo do manequim da direita.

- Tudo bem. Olhe e aprenda. – disse o mestre.

Mas Ryu sabia que mesmo olhando fixamente para Hayato não conseguiria acompanhar suas ações, ele se lembrava das palavras de Ichiro: — “Você tem uma ótima habilidade, assim como meu discípulo Zaru, você tem olhos atentos, mas mesmo seus olhos podem lhe enganar, muitos cavaleiros e espectros tem a capacidade de criar ilusões e armadilhas para seus adversários, já outros são tão velozes que você não poderá vê-los, mas isso não significa que não possa derrota-los. Mesmo os mais velozes deixam rastros quando passam por algum lugar”.

Enquanto seu professor preparava seu ataque, Ryu olhou para a grama que estava debaixo e ao redor de seus pés, e quando o cavaleiro dourado atacou ele viu um pequeno balançar da grama, como se uma brisa passasse por ali, entretanto parecia que Hayato continuava parado, embora seu aluno já soubesse que não.

Agora ele pensava em tudo o que passa despercebido aos olhos humanos, tudo que acontece ao redor das pessoas e elas nem se dão conta. Desde as reações entre moléculas que são tão pequenas que é preciso um microscópio para serem vistas até as explosões de estrelas que estão a milhões de anos-luz da Terra. As alterações no ambiente, as mudanças na vida animal, a diversidade da flora, o comportamento humano, as tendências que o mundo segue, a vida. Tudo acontece, ora de forma simples, ora de forma complexa, mesmo assim são poucas as pessoas que prestam atenção a tudo isso. Ryu estava feliz por ser uma dessas pessoas, alguém que consegue observar atentamente o mundo que o cerca.

Ele se posicionou e esperou a hora certa para agir, sua respiração estava tranquila, serena, ele fechou os olhos e respirou fundo, nesse momento tudo o que pensava era em seu objetivo, esqueceu-se que seu mestre o observava esperando por um bom resultado, esqueceu da grande responsabilidade de ser um Cavaleiro de Athena, limpou sua mente de toda preocupação com o mundo que o cercava, sua audição aguçou-se, agora ele ouvia o som das folhas das árvores balançando com o vento, o som de sua respiração e até mesmo o som de seu coração pulsando em seu peito. Então, depois de concentrar bastante energia, depois de mergulhar em um silencio profundo, ele retornou, seus olhos se abriram, o ar que estava em seus pulmões foi liberado e sua voz percorreu o campo onde estavam, um grito de fúria pôde ser ouvido. Sua mão esquerda moveu-se de forma tão natural, porém tão veloz, seu punho cortou o ar e mandou uma descarga de energia na direção de seu alvo, mesmo que não pudesse ver a energia que saía de sua mão ele sabia que tinha conseguido. O manequim colocado a metros de distancia tombou e quando Hayato levantou-o de volta havia um enorme buraco em seu peito, Ryu podia olhar através dele e ver a vegetação do outro lado, algumas árvores com seus galhos cortados e caídos no chão. Ele havia conseguido, havia lançado um golpe realmente forte na mesma velocidade que tinha visto antes, porém seus olhos começaram a ficar pesados, sua cabeça girava e seu corpo doía, instantes depois Ryu estava caído no chão desmaiado.

Cleon já estava ficando acostumado com as constantes quedas na água fria do rio. Toda vez que tentava congelar aquelas águas, a correnteza se mostrava mais forte e derrubava-o. Ele havia até construído uma ponte para que pudesse executar sua tarefa estando no meio do rio, ele pensava que fazer isso da margem seria mais trabalhoso, mesmo assim não conseguia o resultado esperado. Seu mestre ria toda vez que ele caía e isso não era algo muito encorajador. Até que Magnus o chamou e disse que lhe daria uns conselhos.

- Escute Cleon. Você sabe que a água geralmente se apresenta em três estados. Podemos ver a água em seu estado mais comum que é o líquido, ou podemos aquecê-la e vê-la se transformar em vapor. Temos também a possibilidade de reduzir sua temperatura e fazer com que a água se torne gelo. Entre esses três estados, o gelo é o mais constante entre eles, tanto a água quanto o vapor são muito maleáveis, muito flexíveis, muito inconstantes. Entretanto, o gelo é diferente, é rígido, sólido, difícil de lidar. – Dizia Magnus enquanto seu discípulo ouvia atento. – Essa é a imagem que as pessoas têm sobre o gelo, porém ele vai além disso. É possível fazer com que o gelo seja mais maleável, fazer com que ganhe vida e seja menos rígido, menos inflexível.

- Como mestre? Como poso fazer isso? Ensine-me. – Pediu o garoto que já parecia frustrado por seus fracassos anteriores.

- Você se lembra daquela semana em que nos conhecemos? – perguntou o cavaleiro de Aquário.

- Não me lembro de muita coisa.

- Eu preciso que você se lembre, assim poderá entender sobre o que estou falando.

Então ele se concentrou em trazer a tona antigas memórias, lembranças de um passado distante e sofrido, mas que se faziam necessárias. E ele lembrou de cada detalhe, porém preferia não ter lembrado.