Campos da Morte
1 Introdução
O mundo já foi destruído dezenas de vezes. Para alguns ele nunca foi realmente reconstruído. Para muitos ele sequer existe.
Colunas de fumaça começavam a subir rumo ao céu conforme a noite aproximava-se, a cidade enchia-se com o cheiro de cadáveres na pira e as labaredas rubras davam à terra um brilho sepulcral. Fora o fogo tudo parecia cinzento, incluindo a criança que mancava entre os escombros.
Infante que era, Mark já vira o sofrimento e a morte de perto, sentira na pele, e ainda sentia na perna que já não mais existia, toda a dor deste lugar. Cambaleante com suas muletas improvisadas ele perambulava pela cidade em ruínas onde somente os pobres e estropiados permaneceram. Ali viviam esquecidos até mesmo da guerra, que deixara somente o que existe de triste e feio para trás. Sua busca nesse momento era por abrigo, por sobrevivência.
As gigantes fogueiras erguidas para os mortos ao longo faziam um espetáculo para os moribundos daquelas partes. Eles preferiam esquecer o fedor da putrefação e das cinzas e da carne queimada e o fato de que muito amigos e parentes haviam queimado. Observavam os tons vermelhos, amarelos e laranjas a tingir o firmamento, cores tão parecidas com o pôr do sol de outrora... Toda vez que via as fogueiras o garoto sentia-se à beira das lágrimas. Imagens do fogo lambendo os corpos inertes de seus pais, os gritos da irmã e a dor da perna em sangue golpeavam-no qual punhos, ele descobrira cedo que memórias podiam ser tão dolorosas quanto balas.
Na tentativa de encontrar esconderijo Mark evitou reunir-se a todos os conhecidos a assistirem o espetáculo. Perambulava por entre as ruínas das casas, procurava as poucas que ainda estavam em pé e não apresentavam sinal de desmoronar na cabeça de qualquer desavisado que delas se aproximasse. Muitas delas já abrigavam residentes. Quando o sol desaparecia do céu todos sabiam que o frio chegaria, após a guerra percebeu-se logo que o frio era tão temível quanto as armas dos soldados.
Tentando não ser percebido por passantes ao redor, o garoto entrou um dos casebres com facilidade. A porta destrancada exibiu pouco desafio. O interior parecia estar cheio de sussurros dos mortos. Cada passo da criança deixava sua assinatura na poeira espessa, ele escutava com atenção a cada ruído, cada ranger da construção.
O recinto era pequeno, um fogão há muito não usado descansava num dos cantos. Ele aproximou-se. Abriu com cuidado a mochila que carregava (cuidado nunca era demais por essas partes) e acendeu um pequeno fogo nos restos de lenha para aquecer-se. Poderia descansar um pouco, finalmente.
Deitar-se na coberta fina e antiga era um luxo para Mark. Aconchegado perto do fogo e encolhido no agasalho, a lã ainda cheirava a sua mãe, ele tentava dormir um pouco, olheiras profundas sob os olhos castanhos indicavam infinito cansaço. Mark não dormia desde aquela noite, temia sonhar com os cadáveres, temia ver novamente a morte.
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