Camp, sweet camp

1 Capítulo único


Minha vida nunca foi fácil. Longe disso. Mas de alguma forma, as coisas se complicaram bastante depois que entrei naquela escola… E conheci Kevin.

Nunca tive uma vida social muito boa. Um ou outro amigo, depois de meses de convivência. Além de ser tímida, o fato de ter dislexia e TDAH afasta as pessoas de mim.

Esse ano havia sido especialmente assustador porque não tinha meu irmão mais novo, Aaron, pra ficar ao meu lado nos primeiros dias. Costumávamos estudar na mesma escola, mas no ano passado eu fui expulsa por ter sido flagrada roubando os gabaritos das provas finais e vendê-los. Apesar de tudo, não me importei em ser expulsa. Eu odiava aquela escola mesmo, e ninguém iria sentir minha falta, já que ninguém gostava muito de mim também. Agora eu pelo menos tinha o Kevin, o também calouro que estranhamente grudou em mim desde o primeiro dia. Kevin é mais alto que eu; tem cabelos cacheados de um tom claro de ruivo, olhos verdes, sardas por todo rosto e alguns fiapos de barba. Ah, e ele usa muletas.

Era fim de maio, e estávamos na véspera do verão. Estávamos saindo da escola depois do último dia de aula. Kevin parecia ansioso, mas não prestei muita atenção nisso porque afinal de contas, quem não fica ansioso no último dia de aulas?Eu quase podia sentir o gostinho das férias: acordar a hora que quiser, ver televisão e usar o computador o dia todo, ocasionalmente sair com minha mãe e meu irmão pra algum lugar interessante, e depois ir dormir bem tarde. Eu não fazia ideia de como estava errada quanto a esse verão.

De repente, ele virou o rosto muito rápido pro outro lado e… Farejou?Segurou meu braço com força e começou a andar comigo pro lado oposto da rua.

- É melhor sairmos daqui. – Ele falou, nervosamente.

- Espera, o que pensa que está fazendo? – Puxei meu braço, mas ele não soltou, e continuou andando. – Kevin!Aonde estamos indo?

- Podemos ir à sua casa?Precisamos conversar. – Ele fez isso e deu sinal a um ônibus que passava.

- Kevin! Eu não vou entrar no ônibus! O que está havendo?

Ele se virou pra mim. Tinha uma expressão séria.

- Precisamos conversar. Se eu falar algo aqui, você vai sair correndo, e pode se machucar. Tenho que falar com sua mãe, também.

Estranhei totalmente aquele papo. Não fazia ideia do que ele planejava.

Subimos no ônibus e não trocamos uma palavra até chegarmos em casa.

Pra meu desapontamento, minha mãe não pareceu nem um pouco surpresa com a presença dele ali, apesar dele nunca ter ido à minha casa. Pelo menos Aaron, que estava no sofá da sala, pareceu estranhar. Nós entramos e antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa, decidi me pronunciar.

- Tudo bem. Já pode dizer agora?

Ele farejou de novo. Minha mãe nem pareceu perceber. Aaron fez cara dewtf.

- Sim. É seguro. – Ele se virou pra minha mãe. – Está na hora. Tenho de levá-los ao acampamento.

Eu não entendi nada, mas o mais estranho foi que minha mãe simplesmente olhou pra ele, com uma expressão meio triste, meio preocupada, e prosseguiu a conversa.

- Posso ao menos contar a história a eles?Pra que eles pelo menos saibam o mínimo?

- Seja rápida. Estávamos sendo seguidos.

WTF?

Minha mãe se sentou no sofá ao lado do Aaron e pediu que eu me aproximasse. Vamos resumir; porque ela falou muita coisa.

Ela começou contando a mesma história que sempre me contava quando eu perguntava sobre meu pai (que eu nunca havia conhecido). Que era muito jovem; e que o conheceu por acaso num aeroporto, e aí se apaixonaram perdidamente, e alguns meses depois, ele foi embora e mais meses depois eu nasci e ela nunca mais teve notícia dele. E aí, começou a história do pai do Aaron (éramos irmãos por parte de mãe); eu me lembrava vagamente dele. Ele se tornou cliente da loja em que ela trabalhava, e ela evitou o máximo que pôde se apaixonar por ele, com medo de ser abandonada de novo, mas não foi possível. Alguns meses depois, ela descobriu que estava grávida e tal, e aí ele foi embora, e ela também não ouviu falar mais dele. Mas teve uma parte inédita da história, que me fez perguntar se a saúde mental de mamãe não estava prejudicada. O pai do Aaron, diferente do meu pai, avisou que iria embora, tipo, de uma forma diferente. Meu pai disse que havia sido promovido e agora teria que fazer voos internacionais (ele era piloto de avião); mas Dioniso, o pai de Aaron, disse que estava indo mesmo. Ele contou a ela que eu e Aaron não éramos comuns. Éramos “semideuses” (nesse momento ambos tentamos interrompê-la, mas ela prosseguiu), e teríamos uma vida arriscada. Ele disse que os deuses gregos eram muito reais, e que ainda se apaixonavam por mortais, e seus dois filhos eram filhos de dois desses deuses. Aaron obviamente já estava declarado quem era o pai; mas minha mãe não fazia ideia de que meu pai também era um deus. E Dioniso não estava autorizado a dizer quem era, apesar de saber muito bem. Ele então explicou que depois de certa idade, seríamos encaminhados por um sátiro até um lugar apropriado para jovens como nós e receberíamos treinamento, pra sobrevivermos contra monstros. E só então saberíamos quem era meu pai, na verdade.

Depois que ela contou essa história, eu estava mais propensa a ligar pra um hospital psiquiátrico do que ir a qualquer “lugar apropriado”, seja com quem for.

- Kevin está aqui para levá-los até o Acampamento Meio Sangue.

- Kevin…? – A palavra sátiro, citada na história, veio imediatamente à minha mente. Pelo que eu sabia de sátiros, ele eram meio bodes, ou coisa assim. Eu percebi que nunca havia visto as pernas de Kevin, mas a ideia ainda parecia absurda.

Ele assentiu.

- Temos que ir.

Eu só consegui rir.

- Vocês só podem estar de brincadeira. E olha, admiro a criatividade de vocês, e mãe, me surpreendeu, vocês são mesmo ótimos atores, ou então estão completamente loucos. Deuses do Olimpo, monstros, semideuses, sátiros… Isso tudo não recebe o nome de mitologia por acaso.

- Béé! – Kevin baliu. Isso foi muito estranho.

E então, algo mais estranho aconteceu. Repetidas batidas, muito fortes, no portão de casa. Os olhos de Kevin quase saltaram do rosto.

- Ai meus deuses, temos que sair daquiagora.

- O que foi isso? – Aaron se encolheu no sofá.

- Não dá tempo de explicar agora, só precisamos sair daqui! – Ele disse, e puxou meu braço e o de Aaron pra dentro da casa, e minha mãe nos seguiu. Algo urrou lá fora, e ouvi o portão da frente ser arremessado até a porta da sala.

Chegamos até a porta do fundos, que nunca usávamos, na verdade, e que estava trancada.

Enquanto minha mãe abria a porta, com as mãos trêmulas (por algum motivo ela estava com a chave no bolso, e talvez o motivo fosse uma situação como essa), eu comecei a suspeitar de que eles estavam falando sério esse tempo todo.

Ela finalmente abriu a porta, e fomos todos correndo pela rua quase vazia, sem ter coragem de olhar pra trás. Só paramos quando chegamos à estação do metrô, algumas quadras depois. Eu nunca havia corrido tanto na minha vida, mas quando finalmente paramos de correr, percebi que não estava tão ofegante quanto os outros. E estava com um pouco de medo por eles correrem tão devagar; é melhor não ser tão lento na hora de fugir de seja o que for que estava lá em casa.

Compramos passagens pro primeiro metrô que fosse na direção de Long Island, e só ficamos um pouco mais calmos quando finalmente estávamos dentro dele.

- Ele ainda está atrás deles? – Minha mãe perguntou. No primeiro momento, achei estranho ela usar “eles”, e não “nós”, mas lembrei que ela explicara que monstros vinham atrás de semideuses.

Kevin deu de ombros, parecendo frustrado.

- Estamos no subterrâneo. Impossível ter certeza. – Não entendi muito bem sua resposta na época.

-… O que está vindo atrás de nós? – Aaron falou pela primeira vez desde que saímos de casa.

Kevin olhou à sua volta, tenso, e respondeu.

- Um lestrigão. Por sorte, só um.

-Sorte? — Perguntei

- Eles geralmente andam em bandos.

- Ah.Que ótimo… Foi o que você farejou na escola?

Ele assentiu.

- Mas o que é um lestrigão, exatamente? – Aaron perguntou.

- Gigantes canibais. Geralmente vivem no norte, mas já haviam relatos deles por aqui.

-… E se ele ainda estiver seguindo a gente?Como vamos sair daqui?

- Não pense assim. Vai dar tudo certo. Em breve estaremos no acampamento, seguros.

…

Mais ou menos uma hora depois, estávamos descendo na estação de Long Island e pegando um táxi. Quando estávamos chegando naquela parte rural, onde de acordo com Kevin, já era bem perto do acampamento, ouvimos um barulho alto e um urro familiar. Os pelos do meu braço se eriçaram e eu fechei os olhos com força.Não tinha como dar tempo, estava perto demais.

- Ah não. – Aaron estava com a voz trêmula.

- Vamos descer. – Kevin jogou dinheiro no banco do motorista e abriu a porta do carona, e nós três, no banco de trás, fizemos o mesmo. –Corram!

Não era necessário falar isso. Ele devia estar à nossa frente e nos mostrar o caminho, mas eu não conseguia evitar passar à sua frente; tinha que diminuir a velocidade toda hora, por mais que quisesse correr.

- Ali!Se chegarmos ali, estaremos à salvo! – Ele apontou pra uma colina logo à frente, com um pinheiro no topo.

O monstro parecia se aproximar cada vez mais, gritando e derrubando tudo o que encontrava pela frente.

Evitávamos olhar pra trás; mantínhamos a atenção na árvore, que parecia ter uma corda enrolada em seu caule, mas à medida que nos aproximávamos, parecia cada vez menos com cordas.

- Um dragão?! – Mesmo ofegante, Aaron parecia maravilhado.

- Peleu. Continuem correndo!Ele evita que monstros e mortais se aproximem demais.

Diminuí minha velocidade bruscamente. Minha mãe era mortal.

- Kevin!Minha mãe!

Ele também pareceu diminuir de velocidade, mas só por um instante.

- Continuem correndo!Vamos dar um jeito!

Quando finalmente chegamos à colina, fui obrigada a parar de correr devido à visão que tive. Lá embaixo, mais do que eu poderia esperar, um acampamento do tipo que não se vê por aí se estendia.

Uma casa grande, tipo de fazenda, um lago, florestas num canto, uma enorme parede de escalada, algumas construções no estilo clássico grego, um anfiteatro enorme, um pavilhão a céu aberto, uma arena circular, e um conjunto de chalés num formato de um ômega ao redor de uma fogueira.

Mas por incrível que pareça, o que mais prendeu minha atenção foram os dois guerreiros que desciam a colina à medida que subíamos. Eles vestiam armadura, por cima de roupas modernas, e seguravam espadas, arco e flechas e escudos.

Antes que pudéssemos ultrapassar o limite da árvore, de uma forma cinematográfica, os guerreiros acabaram com o monstro, transformando-o em poeira dourada.

- MANEIRO! – Aaron exclamou no mesmo momento que eu pensava “mas o quê…?”.

…

Os guerreiros se aproximaram e se apresentaram.

Will Solace, de Apolo, e Jake Mason, de Hefesto.

Demorei a aceitar a realidade de que deuses gregos tinham filhos, mas me forcei a acreditar pelo que tinha acabado de assistir.

Eles nos recomendaram descer e falar com Quíron. Sim, o mesmo Quíron das histórias do Hércules. Impossível?Não num mundo onde deuses gregos e monstros são reais, pelo visto.

Minha mãe se despediu de nós, alegando que estava tudo bem, que tanto nós quanto ela ficaríamos seguros, e que ela nos esperaria na base da colina no fim do verão. Não queria me separar dela; ainda sentia medo, mas por fim ela teve de ir.

Eu, Kevin e Aaron descemos a colina e eu pude ver mais de perto tudo o que vira lá de cima. Era simplesmente surreal.

O tal Quíron se aproximou, mas não era o centauro que eu esperava. Era um homem, aparentemente comum, numa cadeira de rodas. Nos apresentamos e ele falou algumas coisas que eu já tinha ouvido, e explicou que saberíamos quem eram nossos pais olimpianos em breve, talvez até naquela mesma noite, já que estava sendo comum semideuses serem reclamados assim que chegavam. E disse que por enquanto, poderíamos ficar no chalé 11, o de Hermes, o deus dos viajantes, que apadrinhava os novatos.

Mas como não nos sentíamos à vontade pra entrar nos chalés ainda, passamos o resto da tarde andando pelo acampamento, e depois fomos jantar no Pavilhão e tivemos o primeiro contato de verdade com semideuses, os do chalé 11, naturalmente.

Mais tarde, fomos à fogueira e estávamos ouvindo-os cantar quando um holograma de um cálice com alguns cachos de uvas ao redor pairou sobre a cabeça de Aaron, e o cheiro de vinho encheu o ar.

Os campistas pararam de cantar na mesma hora, e todos se ajoelharam, enquanto Quíron (agora na forma de centauro) falava que Aaron era filho de Dioniso (grande surpresa), deus do vinho, da insânia, das festas e do teatro.

E antes que pudéssemos voltar a cantar, um vento soprou à minha volta, desaparecendo tão rápido quanto apareceu. Quando vi uma luz acima de mim, olhei pra cima e vi um bastão alado, onde duas serpentes se enroscavam.

Todos voltaram a se ajoelhar, e Quíron falou

-Salve Charlotte, filha de Hermes, deus dos mensageiros e viajantes.

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