Desde pequena, costumo pensar em uma estrada como algo pacato e silencioso. Sempre as mesmas coisas para se ver: o mesmo asfalto devidamente sinalizado com as mesmas placas, sempre com as distâncias erradas. O mesmo cenário sem graça tentando se passar por uma paisagem. Alguns pássaros e pares de tênis enroscados no fio elétrico. Acredito que o barulho violento do vento, sendo cortado pela alta velocidade dos milhares de carros que passavam por aquele asfalto diariamente, era o único sinal de emoção que uma estrada poderia oferecer. Não é a toa que dormir sempre foi meu principal passatempo em viagens, ainda que esse hábito me deixasse irritada por várias horas dentro do carro, pois meu irmão sempre dava um jeito de ocupar mais espaço que eu no banco de trás.
Mas não durante a primeira segunda-feira de todas as minhas férias de verão.
Por mais pacífica e sonolenta que fosse a estrada que saía de Londres e levava a Hogwarts, os ânimos dentro do ônibus eram os mais agitados possíveis.
— Ok, vamos lá... – Severus Snape, um garoto que eu conhecia desde minha primeira vez naquele ônibus, quando tinha apenas dez anos de idade, agitava um spray de espuma em suas mãos. – Qual é o time que vai vencer os jogos desse ano, Evans?
O grupo gritava entusiasmado em seus assentos, enquanto meu irmão se agitava sem sucesso, as mãos e os pés presos em dois pedaços de corda e segurados por mais dois outros rapazes.
— Sh... Sharks! – Ele gritou, entusiasmado, levando como resposta de Snape um jato de espuma no meio da cara.
Um coro de “Tigers!” invadiu o ônibus, e Luke agora possuía um bigode de pasta de dente para chamar de seu. Para combinar com o batom vermelho, a espuma e o banho de cerveja que já havia levado. Os garotos finalmente o deixaram em paz, e então me levantei do meu assento acolchoado para ir ao encontro de meu irmão.
— Não está cansado de passar por isso todos os anos? – Indaguei, dando risada de seu novo bigode. – A única pessoa dentro desse ônibus que não faz parte dos Tigers é você. Até o motorista ganhou uma bandana. – Eu ri.
— Faz parte. Lily, a culpa não é minha que meus melhores amigos são do time adversário. Logo, eu também sou. — Luke deu de ombros. – Mas acho que eu não sou o único traidor desse lugar. – Ele ergueu uma sobrancelha e olhou para Marlene Micknnon, uma de minhas grandes amigas. – Almonfadinhas me disse que ela estava muito ansiosa para vê-lo...
Rolei os olhos. Aquele romance de verão entre Lene e Sirius Black já alcançava o terceiro ano consecutivo. Eram Romeu e Julieta de Camp Hogwarts – ela dos Tigers, ele dos Sharks: a maior rivalidade de todos os anos do acampamento. O ano anterior havia sido a quarta vitória do time de Luke, contra apenas uma vitória de nosso time. Mas aquilo estava prestes a mudar, e o motivo de todo o meu otimismo me abraçou por trás, puxando-me pela cintura.
— Nate! – Exclamei, animada. – O que você acha do que fizeram com o meu irmão mais velho? – Perguntei, apontando para um Luke sujo, maquiado e molhado.
Os olhos cor de mel do garoto o analisaram, com um sorriso divertido estampado em seu no rosto.
— Quando você me disse que era uma competição, não pensei que fosse ser estilo medieval, Lily. – Ele riu. – Preciso confessar que agora sim fiquei ansioso para participar.
Era a primeira vez de Nathaniel Grant no Camp Hogwarts, e ele seria nossa arma secreta no futebol de campo, uma das modalidades dos esportes que competiam no acampamento. Ok, talvez não tão secreta assim, afinal Luke já sabia do potencial assombroso do garoto e com certeza contaria para todos de seu time na primeira oportunidade. Mas isso não iria diminuir o talento de meu...
Parei para pensar em Nate. Com certeza não era meu namorado, embora eu viesse esperando por um posicionamento da parte dele havia alguns dias. Por enquanto nada, mas não seria eu que iria me desesperar. O que importava para mim é que ele havia atendido minhas milhares de súplicas para jogar pelos Tigers naquele ano, quando descobri que jogava futebol com a mesma facilidade com que eu escovava os dentes. E, com certeza, com ele iríamos ganhar. Não havia ninguém tão bom quanto ele nos Sharks. Nem mesmo James Potter, pensei.
(James) Consultei o relógio de meu celular, discretamente. Seis da tarde em ponto. Olhei para o grande portão de madeira que delimitava aquele imenso local conhecido como Camp Hogwarts, sem sinal de movimentação. Estávamos todos muito bem camuflados, uma tarefa não muito difícil graças às grandes árvores centenárias, os bancos e mesas de madeira maciça e os arbustos e floreiras da entrada do acampamento. Um local que aparentava ser tranquilo, se não estivesse prestes a virar cenário de um massacre. Ri comigo mesmo pensando no que estava prestes a acontecer.
— Parece que tô escutando alguma coisa. – Remus sussurrou, e eu mirei o portão mais uma vez. Enquanto eu divagava, um grande ônibus aparecera no horizonte, adentrando o local com cuidado. – Está na hora! – Ele disse, empolgado, e apertei mais firme o objeto em minhas mãos, provavelmente assim como todos que estavam pacientemente esperando.
Os primeiros rostos de membros dos Tigers começaram a surgir quando a porta do ônibus se abriu. Reconheci Luke usando um vestido rosa florido, todos os centímetros de sua pele cobertos por mil tipos de produtos nojentos, e os cabelos arrepiados por alguma coisa grudenta. É, daquela vez eles pegaram pesado com o garoto. Não consegui conter um riso baixo ao ver meu amigo naquele estado deplorável. Aluado também se segurava para não rir.
Um por um dos garotos e garotas saía do ônibus, a maioria espreguiçando-se devido à longa viagem de Manchester a Newcastle. E, como eu previra, quando ninguém mais saiu por aquela porta, o primeiro “splash” foi ouvido. Uma bexiga de tinta violentamente estourada contra as costas de alguém, juntamente com o grito de um Tiger desavisado. Era o sinal para todos nós sairmos de nossos esconderijos e fazer o que sempre fizemos de melhor: atacar.
Luke correu em nossa direção, pedindo qualquer tipo de munição para atacar o time adversário. Dava para ver que os olhos dele gritavam por vingança. Em meu campo de visão consegui enxergar Aluado acertando três caras com uma jogada só. Eu realmente não sei como, mas ele conseguiu, deixando-os completamente melecados de tinta azul. Não demorou muito para que o desespero e os chiliques das meninas começassem. Tudo o que eu conseguia ouvir eram gritos e xingamentos avulsos.
— AH! Meu cabelo! Eu fui ontem no salão! – Alice Longbotton chorava, enquanto se escondia em uma árvore após ser atingida por alguém do Sharks.
— Isso é coisa do Potter! – Alguém que eu não reconheci gritou. — Ele se aproveita só porque o pai dele é dono disso aqui. Sempre sendo favorecido! – Mal ouvi o que tinham a dizer. Estava ocupado demais prestando atenção em Luke entrando em ação.
— Luke, seu filho da puta, você vai me pagar! – Severus Snape gritava, apontado para ele. Meu amigo havia se vingado daquele imbecil: eu e Almonfadinhas havíamos previamente preparado uma mistura com todos os tipos de ingredientes que provavelmente foram usados contra ele no ônibus: farinha, tinta, água e um pouquinho de cuspe. Nojento, eu sei.
— Cacete! Tem tinta no meu nariz! Tem tinta no meu nariz! – Gritava um nerd dos Tigers, enquanto Amos Diggory, de meu time, corria atrás de outro alvo.
Arthur Weasley chegara por trás de um Tiger e puxara a cueca do menino para cima e com toda a força existente. Mesmo eu cheguei a fazer uma careta involuntária de pena: o oponente urrava de dor, enquanto Arthur rolava no chão de tanto gargalhar. Almonfadinhas, que estava em cima de uma árvore, esperou o momento certo para despejar todo o saco de farinha que estava em suas mãos. Ela caiu como neve em cima de um menino que eu nunca havia visto nas outras edições do Camp, meio loiro e com cara de mauricinho. O cara ficou realmente puto enquanto a farinha grudava na tinta de seu corpo, enquanto Almonfadinhas praticamente se contorcia de tanto rir em cima do tronco. Num movimento ninja, Lupin apareceu e tacou três ovos no peito de uma das competidoras do Tigers, que com o susto, tropeçou na raiz de uma árvore e deu de cara no chão. Ainda escondido, eu ria a ponto de chorar. Aquilo estava perfeito, melhor do que eu pudesse esperar.
Lauryn Summers, a garota mais gostosa do Sharks, veio correndo por trás de dois Tigers que estavam em vão procurando um abrigo para se esconder do tiroteio de tinta. Sem que eles esperassem, com um único empurrão, Lauryn jogou os dois contra a terra próxima ao portão de entrada. O local estava parecendo um grande formigueiro de Avatar, quase um cenário digno de terceira guerra mundial. Vi meninas gritando e chorando pelas chapinhas destruídas. Outros caras corriam, caíam, a calça de alguns eram puxadas para baixo e para cima. O caos estava instalado, e eu estava curtindo cada segundo.
Os gritos e a correria aumentavam enquanto cada um do time adversário era bombardeado com tinta azul em todo lugar de seus corpos. Saindo de trás do tronco em que observava tudo de camarote, não escolhi meu alvo, simplesmente surpreendi uma garota que corria de costas para mim, tentando fugir em vão.
Splash – fez a bexiga num tiro certeiro a sua cabeça.
— Porra, Potter! – Ela gritou, quando virou-se e descobriu que era eu quem havia a acertado. Não tive muito tempo de identificá-la, apenas aproveitei a oportunidade e arremessei a outra bexiga que tinha em mãos contra ela, estourando certeiramente em seu rosto.
Enquanto eu apenas ria de sua ingenuidade, a garota colocou as mãos no rosto logo depois, cobrindo todo o rosto e ficando assim por alguns segundos. Pensei que houvesse acertado seus olhos e me preocupei, correndo em sua direção. Almonfadinhas havia me dito que a gente podia cegar alguém com aquela tinta, mas eu duvidei. Merda.
— Você está bem? – Perguntei, chegando mais perto. – Não era pra ter acertado seu olho, desc...
Não tive tempo de terminar a frase. Com a mão manchada da tinta azul que escorria por sua face, ela avançou repentinamente e conseguiu sujar
meu rosto. Filha da puta. Recuei um pouco e finalmente consegui reconhecer quem era a espertinha, não me surpreendendo nem um pouco.
— Lilian. – Cerrei os olhos, esfregando meu nariz, que agora estava apenas levemente manchado de azul, ao contrário do rosto da garota, que ainda escorria tinta. – Está bonita. Podia até fazer parte do Blue Man Group. – Provoquei.
Ela se limitou a franzir a sobrancelha e dar as costas pra mim. Não era a primeira vez que ela me deixava falando sozinho – vários anos se passaram desde a primeira vez que chegamos a Camp Hogwarts, e ela continuava com a maturidade de uma pré-adolescente.
Quando não havia mais nenhuma bexiga a ser estourada, e todos os Tigers se juntaram em um grupo manchado e assustado, subi em uma das grandes mesas de madeira com Almonfadinhas em meu encalço.
— Isso foi pelo que vocês fizeram com Luke. – Ele gritou, para todos os presentes escutarem.
— É apenas uma pequena recepção dos Sharks para vocês. – Sorri, com os olhos faiscantes para cada um dos cobertos por tinta azul. – Apenas uma demonstração do que os espera durante essa semana. Boa sorte para vocês, Tigers. Acho que ficou bem claro que vocês vão precisar. – Finalizei, descendo do banco no meio de muitas risadas dos membros de meu time, todos saindo com ar de vitoriosos. Nada melhor que reduzir os “tigres” a pequenos gatinhos, e logo no primeiro dia.
(Lilian) A água quente da ducha caía em meus ombros, enquanto eu tentava massageá-los por conta própria. Dei um longo suspiro inalando o vapor, ainda tentando me acalmar dos últimos acontecimentos. Não conseguia acreditar que havíamos caído nessa, e o mais chocante de tudo era que Luke não deixou escapar uma palavra! Ele realmente era um traidor. Sentindo-me limpa pela primeira vez desde que desci do ônibus, desliguei o chuveiro. Troquei-me dentro do banheiro do quarto que dividia com Lene e Dorcas, outra amiga, saindo de lá apenas para pentear os cabelos.
As duas estavam em suas camas, entretidas com um de nossos assuntos preferidos: Sirius Black.
— Eu não sei, mesmo com raiva dele eu ainda o acho super sexy. – Lene desabafou, com um travesseiro cobrindo o rosto, envergonhada, enquanto Dorcas riu e eu fingi fazer barulho de quem estava vomitando. – Eu o acho mais sexy que o Nate.
Logo após os dizeres de Lene, uma sirene tocou, nos avisando que era hora de seguir ao gramado central. Já era mais de oito horas da noite, e meu estômago gritava por um pouco de comida. Dorcas abriu a porta para sairmos, dando de cara com Nate, que provavelmente estava me esperando sabe-se lá há a quanto tempo.
— Então quer dizer que Sirius Black é mais sexy do que eu? – Perguntou para Lene, cujo rosto ficou vermelho imediatamente. Ele apenas riu, segurando minha mão. – Calma, era brincadeira.
Ela balbuciou algumas palavras que nenhum de nós entendeu e puxou Dorcas, andando na nossa frente visivelmente envergonhada. Eu e Nate diminuímos a velocidade de nossos passos. Parecia que aquele lugar ficava ainda melhor com ele ali, de mãos dadas comigo.
— E aí? – Quebrei o silêncio com um sorriso. – Por que você está aqui ainda? Qualquer ser humano normal depois de toda aquela confusão teria ido embora.
— Por você. Você pediu, eu estou aqui. – Ele também sorriu. – Ei, você é um ser humano normal também.
— Nenhuma das pessoas que está aqui é normal. Ano após ano sempre dizemos que estamos velhos demais para voltar ao acampamento de Hogwarts, mas não conseguimos dar adeus a esse lugar. Alguns na faculdade, outros no ensino médio. – Pensei. – E parece que todo ano só fica melhor. Acho que é porque aumenta a selvageria, como você deve ter percebido. – Ri comigo mesma.
Ele refletiu por alguns momentos, sempre com seu sorriso humilde no rosto.
— Bom, só espero ser contagiado pelo mesmo espírito. – Disse, soltando minha mão quando chegamos ao gramado central.
Na primeira e na última noite, era feita uma grande fogueira: algo muito bonito de se ver, quase uma centena de pessoas iluminadas apenas pelo fogo. Era hora de ouvir as informações que eu já sabia de cor.
— Bem vindos ao Acampamento de Hogwarts! – Charles Potter nos saudou. – Temos o prazer de contar com alguns visitantes nessa edição, então gostaria de colocá-los a par de algumas coisas. O acampamento conta com sete dias de jogos, e cada um de vocês está inscrito em pelo menos uma modalidade. Os novatos precisam se inscrever até amanhã à noite em um time, e temos quatro opções: os Falcons, os Bulls, os Sharks e os Tigers. Cada time possui uma média de vinte e cinto integrantes, todos lutando pela taça desse ano no futebol, basquete, handebol, vôlei e natação.
— É, ou pelo menos
tentando lutar, se o pai do Potter não roubar para eles mais uma vez. – Lene sussurrou para mim. Eu nunca soube se acreditava ou não naqueles boatos. Pontas parecia ser competitivo demais, algo que não faria muito sentido se soubesse que a vitória já estava em suas mãos ano após ano.
A verdade era que os Sharks eram realmente muito talentosos, e logo depois deles estávamos nós. Os outros dois times mal apareciam, vinham para se divertir no acampamento, sem se preocupar muito em ganhar ou perder.
— Durante o dia e a noite possuímos um refeitório, uma cantina e uma sala de jogos que funcionam vinte e quatro horas. Além disso, vocês possuem acesso irrestrito a todos os locais dentro das limitações do acampamento. Amanhã o dia começa com futebol feminino: entre os Tigers e os Bulls, e Sharks contra os Falcons. Durante a tarde temos basquete masculino e feminino: as duas modalidades dos Sharks e Bulls, e Tigers contra Falcons. Boa sorte a todos vocês!
O senhor Potter encerrou. Algumas pessoas esfomeadas, como eu, Nate, Lene e Dorcs, foram direto ao refeitório para jantar. Outras continuaram na fogueira, e uma grande parcela seguiu para outros locais do acampamento.
— Amanhã nós vamos destruir aquelas garotas dos Bulls! – Lene bradou, animada! – Mal posso esperar!
Eu também não.
Notas finais
Comentem. Amo vocês.
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