Notas iniciais
Leiam as notas finais (Se ainda tiver alguém aí ç.ç)

“Ás vezes o amor não é suficiente quando o caminho se torna difícil” — Lana Del Rey.

Minha cabeça doía mais que tudo, assim como minhas mãos. Encarei o saco de pancadas pendurado a minha frente e soltei um suspiro pesado antes de voltar a socá-lo com toda a força que restava em mim.

— Não seria melhor guardar toda essa raiva para a guerra?

A voz ecoou por toda a arena, fazendo com que todo o meu ser se arrepiasse. Por que a voz dele me causava tanto efeito? Isso não poderia estar acontecendo em hipótese alguma. Eu tinha um coração gelado demais – graças a ELA – e não podia me deixar levar pelos meus sentimentos. Parei de socar o saco e encarei Raecius com um sorriso debochado nos lábios.

— Já passou do toque de recolher, é hora de criança estar na cama — As palavras saíram mais geladas do que eu esperava.

Mas contrariando a minha vontade de ficar sozinha, Raecius olhou bem nos meus olhos. Fiquei algum tempo sustentando o olhar, até que não aguentei. Ele parecia estar lendo a minha alma.

— Seus olhos estão meio brancos — Ele disse num sussurro que quase não deu para que eu ouvisse.

Soltei um suspiro pesado e resolvi ignorá-lo. Se meus olhos estavam realmente brancos como ele dizia, eu não tinha muito tempo antes de ter um dos meus ataques, precisava extravasar a minha raiva antes que machucasse alguém. Voltei a socar o saco de pancadas até não aguentar mais, e quando parei para respirar um pouco Raecius já havia sumido.

[...]

Eu não sei que horas havia ido dormir na noite anterior, mas havia sido tarde o bastante para que eu levantasse xingando os Deuses e o mundo. A pressão para que todos do acampamento treinassem havia aumentado tanto que todos ali viviam sempre se matando de tanto treinar e geralmente nem dormiam direito, fazendo com que tudo resultasse em um lugar cheio de adolescentes cansados e estressados. Tudo por causa de uma maldita guerra que estava sendo desencadeada pelos deuses, de novo.

Era incrível o modo como eles tinham o grande poder para se meter em encrencas e deixar a sujeira para que seus filhos limpassem. Isso me fazia odiá-los cada vez mais, mas não o bastante para que eu decidisse pular a cerca para o outro lado. Ás vezes a vontade batia, mas eu tratava logo de mandá-la ao Tártaro. Eu não queria ser ruim, não queria sucumbir às vontades de minha mãe. Eu tinha certeza que ela ficaria orgulhosa se eu saísse dos trilhos pelo menos uma vez e a última coisa que eu queria era deixá-la orgulhosa. Não depois da merda toda que ela tinha feito comigo.

— Vamos, Anna! Ta esperando o que aí?

Encarei a minha mais nova irmã, que tinha acabado de me tirar dos meus devaneios. Seu nome era Milla e ela era a pessoa mais energética que eu já tinha conhecido, ela parecia até uma criança depois de consumir uma dose bem grande de açúcar.

Me arrumei o mais rápido que pude antes de sair do chalé carregando meu mais novo brinquedo: Um florete feito de gelo totalmente resistente e mais bruto que um diamante, minha arma poderia ser considerada inquebrável e não podia ser derretida. Eu sabia disso porque já tinha tentado destruí-la, simplesmente por ter sido um “presente” da minha mãe. Até decidir que não valia a pena destruir uma arma tão bonita e com poderes – sim, eu também tinha descoberto que com a arma eu tinha mais controle sobre o gelo – tão legais por pura birra. Agora a arma tinha se tornado inseparável.

Eu não demorei muito na mesa de café da manhã, ignorava tudo e a todos enquanto engolia o sanduíche como se fosse algum tipo de animal faminto. Toda aquela situação pré-guerra estava me deixando estressada e com a mão coçando pra enfiar o meu florete em alguns monstros, destruindo-os de dentro para fora até que não restasse nenhum para contar história, coisa que eu sabia que era impossível. Bom, dizem que a esperança é a última que morre né?

— Anna! Achei que nunca mais fosse te achar, garota — A voz de Alan me despertou de um de meus devaneios perfeitos.

Encarei o filho de Hermes com a sobrancelha arqueada. Não fazia muito tempo desde a última vez que tínhamos nos visto, mas eu tinha saído correndo. Alan queria me fazer de psicóloga amorosa se eu bem me lembrava, e eu não estava disposta a ocupar esse posto. Ele não sabia que meu coração ainda era congelado? Por Zeus.

— Se veio se lamentar por gostar de algum hétero... — Soltei um suspiro cansado. — É melhor voltar, amigo — Sorri debochada e me levantei da mesa, carregando minha arma comigo.

Comecei a andar para fora do pavilhão na esperança de que Alan me deixasse em paz. E ele não o fez. Eu estava sendo uma vaca com ele, eu sabia disso. Mas fazia tempo que eu não conseguia mais controlar os meus impulsos ruins, parecia que meu lado negro tinha resolvido mandar o bom pro espaço sem passagem de volta.

— Não precisa ser grossa, ok? Só quero te pedir uma coisa — Ele disse, parecendo meio ofendido com a minha repentina falta de educação.

Não que eu me importasse.

— Só posso ajudar se quiser aprender a dar uns bons chutes na bunda de alguns monstros — Resmunguei.

Não tinha me dado ao trabalho de encará-lo, mas podia sentir que ele estava sorrindo. Girei o florete em minhas mãos enquanto me virava em direção a arena.

— Eu ia pedir ajuda com isso mesmo! — Ele disse com uma animação de dar nos nervos. — Eu fui treinado, mas sinto que posso melhorar em alguns aspectos e quero que você me ajude.

Dessa vez eu voltei minha atenção a Alan. Ele parecia estar realmente empenhado em melhorar as suas habilidades e eu não iria negar ajuda.

— Tudo bem, vamos treinar — Pisquei para ele e adentrei a arena.

[...]

O suor tomava conta de cada partícula do meu corpo e eu estava tão exausta que poderia desmaiar de sono ali mesmo. Eu não tinha pegado leve no treino e muito menos o instrutor. Quando Allan e eu adentramos a arena alegando que treinaríamos em equipe, vários monstros de uma vez foram soltos.

Segundo o instrutor para “treinar nossa capacidade de resistência em batalha”. E para a nossa própria sorte nós tínhamos saído bem e agora estávamos jogados no meio da Arena com a respiração descompassada e o suor fazendo com que as roupas grudassem em nossos corpos.

— As crianças já cansaram?

Meus olhos encontraram o caminho até o dono da voz de imediato. Era como um imã sendo atraído por metais, sempre que ele falava eu sentia uma necessidade descomunal de analisar o seu rosto ou até mesmo seus lábios extremamente convidativos proferindo as palavras sílaba por sílaba.

Balancei a cabeça para afastar os pensamentos, eu não podia me deixar levar. Não por ele.

— Por que você não cala a boca e vai procurar uma de suas distrações? — Grunhi enquanto me sentava e encarava Raecius.

O sorriso maldoso habitual tomou conta de seus lábios, me fazendo vontade de ir lá e socar ele até que ele não sorrisse mais. Eu odiava o efeito que ele tinha sobre mim.

— Isso tudo é ciúmes, loirinha? — Ele perguntou com a voz carregada de deboche.

Aquilo só servia para me deixar com mais raiva, mas eu estava cansada demais até para ser o combustível e alimentar aquela briga.

— A tensão sexual entre vocês está começando a me incomodar — Alan que até agora estava quieto resolveu abrir a boca para falar um monte de besteira.

Como sempre. Encarei o filho de Hermes como se falasse “Cala a boca ou eu vou arrancar sua língua e costurar bem na sua testa”. E acho que ele entendeu o recado, pois se levantou do chão e saiu da Arena levantando as mãos em sinal de rendição.

— E então... — Raecius me encarou com um sorriso malicioso nos lábios. — Quer acabar com a tensão sexual?

Massageei minhas têmporas diante daquela pergunta. Como ele esperava que eu não tentasse matá-lo com todas aquelas provocações? Não era realmente possível. Me levantei do chão e resgatei meu florete. Caminhei até Raecius e sorri maliciosamente, um sorriso cheio de intenções que ele retribuiu, logo dando lugar a careta de dor que apareceu assim que eu chutei os países baixos dele.

— Vamos ver se você consegue acabar com a tensão sexual agora — Sussurrei próxima ao ouvido dele.

Logo depois saí da Arena assobiando uma música qualquer enquanto girava meu florete em minhas mãos.

Notas finais
Devo desculpas, muitas desculpas. Eu fiquei mais de 7 meses sem atualizar essa fic e por que? Porque eu ganhei um lindo block. Eu simplesmente não conseguia escrever NADA, nada mesmo. Esse capítulo é prova disso, eu to tentando escrever ele desde Junho. Eu prometi que não ia abandonar essa história e foi exatamente o que fiz, isso me deixou frustrada o bastante para tentar voltar com ela. Eu já estou escrevendo o próximo capítulo, pois foi nessa semana que eu consegui vontade para voltar a escrever. Mas só vou voltar a postar regularmente se alguém aparecer ;-; Espero que ainda tenha alguém vivo por aí, peço desculpas de todo o coração não só pela enorme demora, mas pelo capítulo não tão bom que eu trouxe para suprir isso. É isso, xx