Camouflage

1 – 666


Seis meses antes.

A noite era fria, muito fria. O garoto tinha vestido roupas quentes, e estava em frente à cafeteria Soberfor, decidindo se entrava ou não. Passou a mão pelo cabelo negro que lhe caia sobre a testa, respirou fundo e entrou pela porta principal.

O sininho na porta indicou que a mesma havia sido aberta, as cabeças das muitas pessoas que se encontravam no recinto se viraram para a porta. O garoto sentiu-se envergonhado, as bochechas coraram e o coração bombeou o sangue mais rapidamente, por razões desconhecidas tinha um péssimo pressentimento, mas ignorou. Por sorte (dependendo do ponto de vista) o ar estava quente dentro do estabelecimento, e isso trouxe certa tranquilidade para o garoto que caminhou confiante sem se abalar por estar ali sozinho, indo conhecer um estranho; O mesmo começou a procurar dentro do local, sua cabeça girava para todos os lados. Foi então que ouviu uma voz masculina, bonita e forte a chamar seu nome. Virou-se e encarou o homem que havia lhe chamado. Era alto, bonito, forte, podia-se notar o físico forte por baixo do suéter de lã. O sorriso debochado de lado, a barba por fazer e um olhar forte e sombrio. O garoto sorriu. Sentiu o corpo arrepiar e uma sensação ruim lhe passou pela cabeça novamente, ele só precisou dar de ombros e pensar na noite maravilhosa que poderia ter como um homem tão bonito como aquele. Então assim apenas caminhou até a mesa que o homem estava sentado a sua espera.

Oi, Josh! — Disse o garoto sorridente, e sentou-se a mesa junto ao homem que sorria como se visse um pedaço do seu bolo de chocolate favorito.

Dias atuais.

O dia era bom, o sol entrava pelas frestas da janela e isso incomodou Ethan, que se sentou sobre a cama e coçou os olhos avermelhados ainda por conta do sono. A boca abriu-se involuntariamente em um bocejo e ele fez uma careta horrível incomodado pelo seu próprio bafo, tratou de fechar a boca rapidamente e abanou a mão em frente ao rosto tentando espantar o cheiro horrível que ficou ali em frente ao seu rosto.

— Ethan amiguinho, você está com um bafo que derrubaria um exército. Que horror. —Indagou o jovem sozinho, riu e se perdeu em pensamentos por alguns segundos lembrando-se de algo, então sua carranca habitual voltou ao seu rosto bonito. — Precisamos dar um jeito nisso.

Rapidamente ele levantou-se da cama e se dirigiu ao banheiro do quarto, mas não antes de olhar no espelho e ver o estrago que havia feito na noite passada. O cabelo castanho estava totalmente emaranhado como se não visse um pente pelo menos há uns quatro anos. Os olhos bonitos e expressivos não estavam tão bonitos assim com aquelas olheiras horríveis, foi então que bateu o olho em seu pescoço, havia marcas de chupões roxas, não apenas uma ou duas, mas várias. O jovem soltou um gritinho esganado de desgostoso e segurou o pescoço com as duas mãos tentando esconder as marcas, ele fechou os olhos por poucos segundos e balançou a cabeça em negativa. Virou-se entrou no banheiro.

Apesar de a água quente relaxar seu corpo, Ethan não demorou muito no banho. Ele se sentia mal e um enjoo começava a dominar seu corpo. Estava com vontade de tomar um remédio pra dor de cabeça e voltar pra cama, mas ele tinha compromissos, um dia cheio na redação o esperava. E principalmente Marrone, seu velho, chato e gordo chefe. Enrolou-se no roupão branco e em frente ao espelho o garoto tentava consertar um grande erro, com maquiagem no pescoço ele tentava esconder aquelas marcas roxas que estavam ali por “acidente” pensou ele.

Ethan saiu apressado do seu apartamento e chamou o elevador, a bolsa carteiro pendurada na lateral do corpo. Os olhos escondidos por óculos escuros e uma cara de impaciente. O elevador não dava sinal de vida. O jovem continuou apertando o botão para chamara a máquina que não dava sinal, estava começando a realmente ficar irritado com aquilo, chutou a porta do elevador.

— Está com defeito. — A voz feminina falou alto.

Ethan assustou-se e virou para o lado rapidamente. Uma jovem loira subia pela escada e sorria educadamente para ele.

— Ah, obrigado!

Falou o rapaz ainda assustado e se dirigiu em direção as escadas. Ele estava assustado, como sempre. Ele vivia assustado, talvez escrever manchetes sobre assassinatos em massa não estivesse fazendo bem para ele. Respirou fundo e entrou na escada, a luz ascendeu e o coração de Ethan subiu na boca. Ele sorriu sem jeito e começou a correr nas escadas, queria descer o mais rápido possível. Saiu na portaria e passou correndo pelo porteiro chegando à rua.

Salvo. Pensou o jovem.

Então se dirigiu para o metrô.

— Está atrasado mais uma vez, Snow! — Falou o gordo careca que passava pela mesa bagunçada em que um jovem se encontrava de costas. — Mais uma vez eu terei de descontar o seu salário, você sabe que você é o único que perde certo?

O homem saiu a caminhar pela redação do jornal e Ethan sentiu o corpo murchar, assim como tudo que estava pensando. O jovem sabia que precisava sair daquele emprego, sabia que tinha que ir embora e tentar a vida em outra profissão, ser um jornalista não estava lhe fazendo mal, ainda pior sendo um jornalista criminalista. Estar sempre envolvido em crimes e tendo que aturar um chato como chefe estava fazendo seu cabelo cair.

— É só ignorar esse babaca, Ethan! — A voz de Kate disse mansa e suave. Ethan sabia que era ela. — Não importa, ele é um maldito do caralho, só precisa ignora-lo.

Ele se virou para a amiga. Era baixinha, gordinha, os cabelos ruivos e cacheados davam um ar rebelde para a moça. Ela arrumou os óculos no rosto sardento e sorriu para o amigo.

— Não importa Liz! Eu vou embora daqui, vou pedir demissão agora mesmo! — Ele levantou-se e olhou para a amiga, sabia que ela odiava quando ele a chamava de Liz, mas não podia evitar, adorava.

— Você não pode fazer isso, Snow! — Disse ela para provocar. — E meu nome é Kate, apenas Kate.

— Eu posso sim e farei...

Ele foi interrompido pelo chefe que vinha gritando seu nome e correndo com a grande barriga balançando. Era uma cena horrorosa, Ethan sentiu repulsa só de imaginar o grande amor da sua vida, daquela forma correndo em sua direção. Então ele se corrigiu, ele não tem um amor da vida.

— É o seu caso! Você tem um novo assassinato, Snow. Os policiais já foram mandados para lá e você tem entrada vip. Então corra para lá e anote tudo que precisa para a matéria perfeita, já até imagino a manchete. — Disse ele levantando as mãos e gesticulando mais que o normal. — Então vai logo, Snow, e não perca nada. Nada!

Ethan sabia do que se tratava. Era o caso conhecido como “pele de lobo”. Ele estava envolvido há seis meses nesse caso e a polícia não tinha desvendado nada, nenhuma novidade acontecia. O assunto era intrigante e assustador, algum novo maníaco vinha matando adolescentes gays entre dezessete e dezoito anos. E as únicas pistas eram que os garotos eram todos da vizinhança, ele, o maníaco não vinha atacando em outros bairros, os garotos eram todos parecidos, seguiam a mesma linha de aparência e o fato principal, eram todos enrustidos, quando os pais sabiam como seu filho havia sido morto, era um choque grande, todos alegavam não saber que seus filhos fossem veados, como um dos pais comentou. Essas eram todas as pistas que tinham, pelo menos eram apenas essas que o departamento de policia local tinha divulgado para a imprensa. O caso estava parado há dois meses já que não tinha acontecido nenhum ocorrido, mas agora parece que tinham novas pistas, ou pior. Ethan sentiu o corpo gelar, um novo assassinato. Ele jogou a bolsa no ombro e puxou papel e caneta e saiu correndo para fora da redação, sua velha bicicleta aguardava lá embaixo.

— Ethan Snow, escritor e redator do Eleven Diario! — Disse o jovem apresentando um crachá para um dos policiais que estavam em frente à faixa evitando que intrusos e curiosos adentrassem a cena do crime.

O policial alto e negro olhou atentamente o crachá e acenou positivamente com a cabeça. Ethan apenas abaixou e passou por baixo da faixa, então caminhou para onde os outros policiais e peritos médicos se encontravam.

Era uma casa abandonada no final da Rua Al. Dumbledore Smith 13, o lugar parecia estar abandonado há meses, talvez alguns anos. Ethan sentiu-se apreensivo, mas continuou caminhando para a cena do crime.

— Ei, o que está fazendo aqui? Você não pode estar aqui, moleque, é uma cena de crime. — Disse uma voz forte atrás de si.

Ethan virou-se e sentiu-se embasbacado. Era o cara mais lindo que ele já tinha visto. O homem era um belo policial. Bronzeado sem parecer artificial, bem alto, bonito, forte, podia-se notar o físico forte e atlético por baixo da farda policial. O queixo quadrado e lábios exibindo lábios grossos emburrados Ele tinha a barba por fazer e um olhar forte e sombrio. O jovem jornalista sentiu as entranhas remexerem.

— Ethan... Hm, eu trabalho no Eleven Diario. — Ele arrancou a credencial da bolsa e mostrou para o homem. — Estou aqui a pedido da própria policia. E você seria..? Não sabia que o caso tem um novo oficial, onde está o Oficial Honlkes?

— Oficial Shepphurd. — Disse o policial diminuindo a carranca e olhando Ethan de cima a baixo. — O oficial Honlkes se aposentou no mês passado, e eu fui escalado para cuidar desse caso. Mas não se preocupe estou apto a trabalhar tão bem quanto ele.

Ethan apenas assentiu e ficou olhando o policial, até que o barulho no rádio do homem o assustou e tirou do transe.

— Certo então o que aconteceu dessa vez? — Ele perguntou ligando o gravador e preparando a caneta e o papel em sua mão.

— O mesmo de sempre, parece que o maníaco conhecido como o lobo atacou novamente. Mas dessa vez há novidades, ele deixou um símbolo estampado na parede e ao que tudo indica desenhado com o próprio sangue da vitima. — O homem disse começando a caminhar.

Ethan o seguiu em silêncio anotando tudo que o outro tinha dito, e anotando detalhes que ele via na cena do crime.

— E o que mais, oficial... — Ele esqueceu o nome do policial.

— Shepphurd! — O homem disse incomodado, porém tentando parecer normal e totalmente desligado ao fato. — E o jovem dessa vez foi abusado sexualmente antes de entrar em óbito. É um fato crucial na investigação, dessa vez temos mais coisas que pode nos levar a esse safad... A esse meliante.

Abusado sexualmente.

— Não papai, não! — Gritava o garotinho enquanto sentia as mãos brutas do homem mais velho arrancar suas roupas. — Não, não, por favor, não papai! — Dizia o garotinho aos berros.

Ethan sacudiu a cabeça tentando espantar os pensamentos antigos, não deixaria os fantasmas que ficaram no passado lhe assustarem novamente. Não tinha mais medo do bicho papão em baixo da sua cama.

Ele saiu tirando fotos da cena do crime até que símbolo chamou sua atenção. Era vermelho, feito com o sangue da vítima. O desenho era um circulo bem feito, com um corte no meio na vertical. O que aquilo queria dizer? Ethan não fazia ideia, dentro havia um triângulo com um A maiúsculo. Ele não via sentido algum naquilo.

— Acreditamos que seja um código ou algum símbolo antigo, nossos historiadores já começaram a trabalhar nisso. Quanto mais rápido descobrimos o que aconteceu aqui, mais rápido pegaremos esse cara. — Disse Shepphurd.

Ethan baixou sua câmera para tirar fotos do chão e então notou o corpo no chão, estava coberto por um pano preto, mas os pés estavam de fora, um descalço e o outro com uma bota amarela, igualzinha a que ele tinha, o jovem sentiu seu corpo tremer com força e se afastou dali. O policial o seguiu.

— Você está bem?

— Estou, acho que já tenho o necessário. — Ele disse se afastando. — Foi um prazer, a manchete saíra amanhã cedo, obrigado pela entrevista.

Teve vontade de correr para longe daquela cena, mas caminhou devagar.

O garoto tinha passado a mão pelos cabelos uns duzentos vezes e os fios estavam rebeldes, ele estava mais uma vez sozinho na redação, todos tinham ido embora, mas ele precisava terminar a manchete.

ATAQUE: O LOBO DE NOVA VESTRÓIA ATACA NOVAMENTE
Suicídio de mais um jovem gay acontece em Al. Dumbledore Smith. O corpo foi encontrado na última manhã e desde então os polícias que investigam o caso veem fazendo seu trabalho. Ao que parece há novas pistas na investigação. Ritual satânico ou ódio gratuito? Leia completa na página 5.

A luz piscando estava incomodando Ethan, talvez até o assustado. Ele apenas tentou espantar os pensamentos sombrios e voltou a se concentrar no seu trabalho. Mais duas horas se passaram, e ele enviou tudo para impressão. Estava exausto, precisava da sua cama, era tudo que queria. Teria o próximo dia de folga, o que era maravilhoso, porque talvez não conseguisse dormir à noite. A imagem do corpo no chão não saia de sua cabeça.

Pegou as suas coisas e desligou o computador e saiu para casa.

O elevador estava funcionando dessa vez para alivio total de Ethan. Encostou-se ao vidro e fechou os olhos, só abriu quando a porta do elevador se abriu em seu andar. Ao colocar o pé pra fora trombou com um corpo masculino forte.

— Desculpa! — Disse o jovem virando o rosto para cima para olhar quem ele havia atropelado. — Oficial Shepphurb?

O homem sorriu. Era um sorriso debochado de lado, perdido em meio aquela barba por fazer e um olhar forte e sombrio. Ethan sentiu o corpo arrepiar.

— Josh! Aqui eu sou apenas Josh! — Ele disse sorrindo. — Me mudei para o apartamento número 666 ontem, e estou indo lá embaixo buscar umas coisas que acabaram de chegar. Não sabia que seriamos vizinhos... — Ele deu uma ênfase, uma reticencia na voz que Ethan logo reconheceu.

— Ethan! — Disse ele apontando a mão para o homem forte.

Os dois apartaram as mãos e o homem sorriu.

— É um prazer, Ethan! Um grande prazer.