Caminhos sem Volta
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Olho a hora e vejo que já é hora de Amanda voltar para casa. Talvez seja minha tia tocando a campainha.
Levanto-me da cama, desço às escadas, pego as chaves e destranco a porta e lá estão elas, minha tia e minha irmã.
—Clem! – Gritou Amanda me abraçando.
—Oi! – Digo, retribuindo o abraço.
—Ela se comportou como um anjinho. – Disse minha tia.
—Isso é bom, muito bom!
—Seus pais já voltaram? – Perguntou minha tia.
—Ainda não. Estou começando a ficar preocupada, eles nunca demoraram tanto. – Eles sempre chegam exatamente às sete horas. Eles nunca me deixam tanto tempo sozinha com Amanda.
Minha tia se despede e volta para a sua casa.
Tranco a porta novamente.
—Amanda, por que você não vai lá para cima tomar um banho quente? – Digo a ela.
—Tá bom, eu te chamo quando eu acabar! – E ela sobe a escada, em direção ao banheiro.
Vou para a sala e sento no sofá para ver o noticiário na TV.
A notícia era sobre um carro que havia caído da ponte após colidir com outro.
E as vítimas desse acidente eram meus pais.
E agora, o que eu digo para Amanda?
Eu não acredito que eles se foram, ainda era cedo demais... Eu não acredito.
Pego meu celular e digito o número da minha tia o mais rápido que posso.
Ela atende com a voz rouca:
—Algum problema, Clem?
—Tia, meus pais... Eles... – Eu não conseguia falar direito, estava chorando tanto. – Morreram.
Minha tia não disse nada por um instante até perguntar:
—O que você vai dizer para Amanda?
Senti meu coração parar por um instante.
—Eu não sei...
—Você vai ter que saber o que dizer a ela. – Disse minha tia. – Ela não irá descobrir sozinha.
—Clem! – Escutei Amanda me chamar.
—Preciso desligar, Amanda está me chamando. — E finalizo a ligação.
Desligo a TV e subo correndo as escadas.
Abro a porta do banheiro e lá está Amanda, enrolada em uma toalha rosa.
—Por que você demorou? – Ela perguntou.
—Estava conversando com sua tia. – Respondi. – Fique aqui, vou pegar a sua roupa.
Sai do banheiro, rumo ao quarto de Amanda.
Peguei a primeira roupa que apareceu na minha frente, uma camisola rosa e pantufas de coelho.
Voltei ao banheiro e Amanda estava se enxugando.
Agachei-me para ajudar Amanda com o braço quebrado. Eu não sabia como ou o que iria dizer para Amanda sobre nossos pais.
—Quando mamãe e papai vão chegar?
Aquela pergunta me deixou de coração partido. O que vou responder?
Acabei de vesti-la e decidi contar a verdade.
—Amanda, nossos pais não vão voltar.
Ela me olhou com seus olhos verdes.
—O que você quer dizer com isso? – Sua voz parecia estar mais séria do que antes.
—Eles morreram num acidente de carro...
—Por que você não me contou antes? – Amanda não costumava me interromper.
—Eu não sabia também. Eu descobri há pouco tempo.
Amanda pareceu triste, mas deu um sorriso para mim. Havia lágrimas em seus olhos. Ela me abraçou e começou a chorar.
—Tudo bem, foi bom você ter me contado. Seria pior se não tivesse. – Essas palavras foram tão inteligentes que nem parecia minha irmã de oito anos e meio.
Eu senti que eu devia ter contado para Amanda. Talvez, se eu não tivesse contado ela iria me odiar por toda a vida. Eu não queria isso.
Acompanhei-a até o quarto, em silencio. Ela deitou na cama. Dei um beijo em sua testa.
Quando eu ia sair do quarto, Amanda disse:
—Clem, não sou a única pessoa que tem que saber disso.
Não entendi o que Amanda queria dizer, mas respondi:
—Tudo bem. – Ela se virou na cama e pareceu dormir.
Sai do quarto, deixando-a dormir em paz.
Tomei banho, me vesti e fui para o meu quarto. Eram 19:40.
Sentei-me na cama, pensativa. Como eles morreram? Por quê?
Olhei para a janela, lá estava Andrew. Seus cabelos loiros estavam molhados. Acho que ele havia acabado de sair do banho.
Ele estava mexendo no celular até perceber que eu estava olhando.
—Oi. – Ele cumprimentou.
—Oi. – Respondi.
—Você está bem?
Eu queria contar, mas sentia que não era o momento certo. Eu não conhecia Andrew o suficiente para conversar sobre esse assunto.
—Tudo. – Menti. Uma garota de cabelos castanhos e olhos negros apareceu ao lado de Andrew. Talvez seja sua irmã, Kate.
—Andrew, mamãe está te chamando para jantar.
—Diz para ela que eu já vou. – Kate saiu correndo e Andrew voltou sua atenção para mim. – Aonde você estuda?
—Em um colégio no final da rua. – respondi. – Estou no último ano.
—Minha mãe me botou nesse colégio. Lá é tipo, legal? – ele perguntou.
—Eu acho que nenhum colégio é legal. – respondi. – Mas algumas pessoas são legais.
— Pelo menos eu não serei muito estranho por lá. Já que te conheço...
—Andrew, vem jantar agora! – gritou a mãe de Andrew.
—Já vou! – respondeu Andrew. – A gente se vê amanhã.
—Tchau. – me despedi.
Deitei em minha cama, absorta em meus pensamentos. Agora terei de ser responsável pelo bem de Amanda. Conversarei com minha tia pela manhã para levar Amanda à escola para não me atrasar. Talvez eu encontre Andrew no caminho e assim poderei me abrir com ele, contar sobre meus pais. Eu me sentia mais viva perto dele, eu gostava dele. Não sei se eu sentia amor por ele, não posso sentir isso, não agora depois de tudo o que aconteceu. Eu nunca havia me sentido assim antes, era como se eu estivesse caminhando nas nuvens. Sem preocupações e tristezas, somente eu e ele. Juntos.
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