Caminhos para o meu coração
7 Poucas palavras, muitas verdades
Seu eu pudesse ser diferente, juro que seria. Menos fria, grossa e mais a menina meiga que um dia eu fui. Não espero nada de ninguém, mas sinto falta de esperar, não me apaixono mais, mas tenho saudades de me apaixonar. Porém, sentimentos assim nascem naturalmente, como um trevo de quatro folhas no jardim, você não pode obrigá-lo a nascer lá, simplesmente acontece.
O problema é Carol, minha mãe biológica e ausente. Eu sempre esperei muito dela quando pequena. Ela dizia que viria num final de semana e ficava dois, três meses sem aparecer, fazendo sabe-se lá o quê.
Mas hoje ela decidiu aparecer, para me irritar, claro. Queria saber se íamos para a casa dela comemorar seu aniversário, que ela faria churrasco. Eu disse que não e pedi desculpas.
— Mas por que não? — Ela perguntou.
— Tenho a Olimpíada de Física no mesmo dia. Desculpa, mas como já me inscrevi eu não tenho mais como voltar atrás.
— Você não pode simplesmente não ir?
Eu dou uma risada, mas daquelas falsas mesmo. Para ela entender que não falou algo com algum sentido lógico.
— Claro que não! É importante pra mim, eu vou e pronto! Não tem o que discutir.
— Eu sou sua mãe, July, deveria ser mais importante para você.
— Ah, assim como nós somos pra você? — Abro um sorriso recheado de ironia no rosto e a fito, esperando uma resposta.
— Chega Ju. — Minha mãe Adriana pede.
— Chega nada. Quantas vezes você deixou de vir em nossas festinhas de aniversário? Sabia que estou esperando presente de aniversário desde os 12 anos? Não venha bancar a mãezinha ofendida, que eu só tive duas mães! Uma morreu e a outra NÃO É VOCÊ!
— CHEGA JULIA! PASSOU DE TODOS OS LIMITES! SAI DAQUI! — Grita minha mãe.
Olho para Carol, com raiva, ela não me olha, ela está com a mão na boca, apoiada na mesa, virada de perfil para mim, vejo uma lágrima escorrer.
— Dói né? Ver que todas as besteiras que fez na vida trouxeram consequências, e que uma delas é não ter o amor de suas filhas.
Dito isso me retiro do local, deixo uma lágrima escapar, não de tristeza, mas de raiva, e vou para meu quarto, onde deito e durmo até amanhecer.
Minha mãe está na beira da cama no momento que acordo. Ela me olha enquanto durmo e me faz carinho. Eu sorrio para ela e murmuro um "bom dia", as lembranças da noite passada não demoram a aparecer e atormentar minha mente.
— Eu sei que mandar você pedir desculpas não vai adiantar nada. Mas na próxima, pensa bem no que vai dizer pra ela. Palavras cortam mais que espadas.
— Mãe... Eu não tenho ódio dela, nem nada. Sei que não parece, mas eu gosto dela. Eu só não aguento quando ela se faz de vítima da situação, como se fosse uma santa imaculada.
— Eu também não aguento, ou pensa que só você? A Carla também não aguentava, mas veja, ela é tão sozinha que quer chamar atenção, e só tem a nós.
— Também, brigou com o resto da família, ela queria o que?
Minha mãe respira fundo, ela ia começar a falar mas eu a corto:
— Relaxa, eu não vou ser assim com ela sempre, é que algumas coisas ficam engasgadas. E uma hora ou outra eu explodo.
Ela acaricia minha cabeça uma última vez antes de levantar e sair do quarto. Não me arrependo de minhas palavras, nem um pouco. Não disse nada de errado e nenhuma mentira.
Levanto da cama e vou tomar banho. Hoje, mais uma vez passo o dia de sábado estudando. Quero ir muito bem na Olimpíada de Física e nada vai me impedir ou atrapalhar. Vou aproveitar para estudar hoje já que amanhã é festa junina do meu colégio, e eu adoro a festa junina de lá. É diferente por ser um colégio árabe. As danças, as músicas e as comidas são típicas árabes, tendo uma coisa ou outra típica de festa junina.
Meus estudos duram até às dez horas da noite, quando eu me canso e me arrumo para deitar e ver televisão. Mexo no celular e vejo mensagens do Lelo.
"July?"
"sim...?"
"Como vai?"
"Bem, dentro do possível, e vc?"
"pq dentro do possível? O que aconteceu?"
"Briguei com a minha mãe biológica, mas nada D+"
"ela fez algo errado?"
"Como sempre, e aí eu falei algumas verdades que ela precisava ouvir, mas msm assim não foi agradável"
"Nunca é, mas se o que você falou foi apenas verdades, deveria estar confortável, pois pensa comigo. Agora ela sabe que está fazendo tudo errado, e talvez ela comece a fazer certo"
"é, talvez"
Jogo o celular no canto e volto a assistir televisão até adormecer e me transportar para o mundo dos sonhos, onde nada me faz mal, ou me atrapalha. As únicas oito horas consecutivas de descanso mental.
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