Caminhos Traçados
35 O último adeus
Notas iniciais
Acordei com o corpo quente, mas não abri os olhos. Tateei a mão pela cama, procurando pelo corpo do Emo que nas minhas breves recordações me fez dormir ontem à noite, mas nem sinal, eu estava sozinha na cama.
Suspirei e abri os olhos levemente. De primeiro a imagem do quarto ficou meio turva, mas depois ela se focou normalmente. Olhei para o resto do quarto, não tinha nem sinal de toda aquela turma que estava aqui ontem. Estava normal, Sofia na cama dela, eu na minha, o dormitório relativamente arrumado, os videogames que ontem estavam conectados na TV, hoje já não estavam mais. Tudo estava normal.
Suspirei e levantei da cama, sorri, eu ainda estava com a roupa que eu tinha usado ontem. Que loucura, ontem tinha sido um dia bem louco.
Olhei para o relógio e me assustei, ele dava exatamente 04h10min da madrugada. Oque deu em mim para acordar tão cedo?
Ah, quer saber, não faz mal.
Caminhei até o guarda-roupa e peguei meu all star, enfiei ele no meu pé e fiz um coque desajeitado que ficou meio largado, peguei um casaco e sai do quarto silenciosamente.
Logo a ventania fria da madrugada tomou conta do meu corpo, estremeci e tomei caminho até algum lugar da escola, eu estava andando sem rumo no meio da madrugada.
Que normal Fernanda, você acorda no meio da madruga, em uma época de inverno e resolve caminhar por aí sem nem se importa se vai gripar.
Bufei e atravessei o campus. A neve começou a cair sob meu coque desajeitado, mas eu preferi acreditar que a neve estava formando uma coroa, eu estava me sentindo como uma princesa, uma princesa que tinha dois príncipes, uma princesa que não usava vestido, uma princesa normal.
Eu sou uma princesa como todas as outras garotas, daquelas que usa calça jeans e all star, sou especial mesmo sendo como todas as outras, afinal, todas são especiais.
Eu já iria sair do campus quando escutei uma fungada alta.
Meu corpo inteiro entrou em estado de alerta. Não estou sozinha, merda. Estou ferrada.
Olhei ao redor do campus e por um instante praguejei por estar nevando, eu quase não conseguia enxergar.
Mas quando eu consegui ver quem era, eu me arrependi totalmente por ter procurado. Era Harry, ele estava sentado debaixo de uma árvore cujas folhas estavam se soltando.
Aproximei-me dele e o observei, ele estava com uma jaqueta preta de couro, um tênis igualzinho á o meu, oque me fez rir, mas minha risada desapareceu no mesmo instante em que eu percebi que ele estava chorando.
– Harry? Você está bem? – perguntei alarmada.
Ele levantou em um pulo da grama coberta de neve e pareceu desorientado.
– Eu... Eu, estou bem – ele disse e passou a costa da mão no rosto, forçou uma risada e eu o encarei séria.
– Não Harry, você não está bem, você está chorando – falei e me aproximei dele
Ele me encarou por alguns segundos e a neve agora encharcava toda a jaqueta preta.
Os olhos azuis levemente inchados me encaravam sem brilho, como se ele tivesse vontade de falar algo muito importante, mas não pudesse.
– Você, iria sentir minha falta? – ele perguntou de súbito e eu franzi o cenho e o olhei curiosa.
– Como assim? –
– Não sei, caso algum dia eu vá embora... –
– Hãn... Como assim ir embora? – perguntei e ele sorriu e baixou a cabeça, a franja que caía sob a testa dele tomou conta dos olhos azulados e eu não consegui ver a feição dele.
Por um instante eu vacilei e deixei um suspiro escapar, como assim essa conversa de ir embora?
– Você... Você quer dançar comigo? – ele perguntou e levantou o rosto me encarando.
Arregalei os olhos e se eu estava confusa, agora eu não sei nem se eu estou dormindo ou sonhando.
– Mas por quê? Você está louco? Dançar no meio da neve? E porque você estava chorando? – perguntei
Ele tirou o celular do bolso e depois tirou a jaqueta, jogou a jaqueta no chão e colocou uma música no celular, colocou o celular em cima da jaqueta e se aproximou de mim.
– Harry oque... ? –
– Eu vou explicar para você – ele disse e pegou minha mão direita, puxou a e entrelaçou nossos dedos. Passou o outro braço na minha cintura e colou nossos corpos, começando a dançar um tipo valsa que tocava no celular dele.
O calor que emanava no corpo dele se misturou ao meu e eu estremeci, o braço que estava envolta de mim apertava minha cintura levemente.
– Sabe essa dança? – ele sussurrou no meu ouvido e meu corpo inteiro se arrepiou ao sentir o hálito quente entrar em contato com a minha pele. Quanto tempo que eu não sentia o Harry ficar tão... Perto de mim. Fiz que sim com a cabeça, respondendo a pergunta dele.
– Era pra eu ter dançado ela com você naquele baile – ele disse e eu estremeci mais uma vez, meus joelhos bambearam por um instante fazendo com que os braços fortes que já rodeavam a minha cintura se apertassem ainda mais contra mim.
A lembrança de ter recusado o pedido do Harry de ir ao baile com ele naquele dia se fez presente na minha memória.
Eu iria falar algo, eu iria... Pedir desculpa talvez, eu estava tentando formular algo para falar enquanto nós nos balançávamos no ritmo da valsa, de um lado para o outro, de frente para trás, eu sabia aqueles passos...
Mas eu não consegui falar nada e por instinto eu recostei minha cabeça no peitoral dele, só que para minha surpresa o coração dele batia rapidamente e isso me fez sorrir sem nem perceber.
– Essa pode ser nossa última primeira dança – ele disse e meu sorriso se desfez no mesmo instante era a segunda vez que ele fazia meu sorriso se desfazer.
Levantei o braço que estava livre e coloquei sob o peitoral dele apertando levemente a camisa do time de basquete que ele usava.
– Oque? – minha voz saiu falha
– Eu vou... Embora – ele disse e eu pisquei meus olhos rapidamente e empurrei-o abruptamente com toda a força que eu tinha.
Senti minhas pernas paralisarem e minha respiração acelerar, como se em algum instante u pudesse ficar sem oxigênio.
– Oque?! – gritei
– Nanda, por favor, fica perto de mim, não me afasta, não agora, amanhã eu... Bom, eu não vou mais estar aqui amanhã, fica comigo, só hoje, por favor–
O olhei incrédula
Como assim ele não iria mais estar aqui amanhã? Oque deu nele? Ele iria ir embora? Ele iria me deixar mais uma vez? Ele ficou maluco?
– Você... Você, não... Como assim? Como assim você não vai mais estar aqui amanhã? –
– Eu fui selecionado para entrar em um time de basquete Nanda, um time de verdade! Uma liga de basquete daqui da cidade! E eu... Eu aceitei o pedido para viajar –
– Você oque? Harry você... Você conseguiu entrar em uma liga de basquete! – falei e corri até ele o envolvendo no abraço mais apertado que eu podia dar, meus dois braços estavam no pescoço dele e eu escutei ele sorrir e retribuir o abraço envolvendo os braços dele na minha cintura.
– Eu vou ter que ir... -
– Não! – interrompi – Não fala que você vai ter que ir embora, eu já estou aqui comemorando que você conseguiu entrar na liga da cidade só para segurar meu choro então, por favor, não fala que você vai ir embora... –
Ele ficou calado por alguns segundos e eu apenas continuei abraçada á ele. a ideia de deixar ele de novo... Parecia tão insuportável, parecia que... De alguma forma iria arrancar um pedaço de mim.
Afinal oque eu sentia pelo Harry? Eu já não estava mais conseguindo entender. Eu já estava me enganando, enganando ele e enganado todos.
– Eu vou sentir tanto a sua falta, eu achei que mesmo tendo que deixar você ser feliz com o Emo eu podia ser feliz só por ver você todos os dias, mas agora até isso eu vou ter que deixar de lado, mas sabe, entrar na liga de basquete... Isso é o meu sonho... É oque eu sempre quis fazer... E eu vou ir como capitão da equipe Nanda, capitão da liga de basquete da cidade! Você sabe oque é isso?! – ele disse e eu sorri
– Sim Harry sim! Meu Deus! Você conseguiu! Você vai ser o Capitão da liga Harry! – eu disse e levei minhas mãos ao rosto dele – Você conseguiu realizar o seu sonho! Você... — não terminei a frase sentindo o peso do olhar dele sobre mim, aquele olhar que me fazia viajar na imensidão azul, aquele olhar que lia minha alma. Você está lendo minha alma Harry? Você consegue sentir oque eu sinto agora? Estou feliz, mas estou triste. Sinto duas coisas ao mesmo tempo, amo duas pessoas ao mesmo tempo... — Você vai embora... – eu disse e baixei meu olhar
– Mas você vai ficar com o Emo, você vai ser feliz – ele disse baixinho e levou uma madeixa de cabelo minha para trás da orelha.
– Mas... E você? – perguntei
– Você me fez duas promessas, você lembra? A primeira foi de que você nunca iria me esquecer, e a segunda foi de que no dia que você... –
– Não amasse mais o Emo iria amar você – completei e ele assentiu
– E vou sempre levar essas promessas comigo – ele disse e eu baixei meu olhar ou vez
– Não foi nesse sentido que eu perguntei, eu perguntei como você iria... Me ver – falei e me afastei dele
– Eu não sei, eu vou estar sempre viajando então... Vai que a gente se reencontra nos aeroportos... – ele disse e eu não consegui conter uma risada
– É, vai que a gente se reencontra de novo em algum aeroporto por aí – eu disse e ele se aproximou de mim novamente
– Com licença, mas você interrompeu minha dança – ele disse com um sorriso de canto e entrelaçou nossos dedos novamente colando nossos corpos outras vez. E de novo a sensação do calor dele envolveu meu corpo. — Nós sabemos que eu não posso deixar de lado meu sonho, e sabemos que você escolheu o Bruno, então nós precisamos aproveitar só mais hoje, pense que hoje é o nosso dia — ele disse
De um lado para o outro, de frente para trás... Ele ia me conduzindo ao som leve da valsa e eu o acompanhava. Dançar de All Star não exatamente a imagem que eu tinha para uma valsa, mas para mim estava sendo perfeito. De um lado para o outro, de frente para trás... Eu seguia ele, mas na verdade eu estava seguindo o som do coração dele que invadiu meus ouvidos que estavam acomodados sob o peito dele. De um lado para o outro, de frente para trás... A neve estava caindo sobre nós, e eu me via com ele como se fosse a última vez, e talvez fosse, eu não sabia dizer. na verdade, nesse instante, eu não sei de mais nada além dos passos lentos e do silêncio confortável que se fazia ali, não precisávamos falar mais nada, o silêncio estava dizendo tudo, para nós dois.
Quando a música acabou eu escutei ele sorrir.
– Pelo menos dois dos meus sonhos já foram realizados, dancei com a garota da minha vida e realizei meu maior sonho de ser capitão de uma liga de basquete. Oque um homem pode querer mais? – ele sussurrou no meu ouvido
"Um homem pode querer que a garota da vida dele ficasse do lado dele" pensei e fechei meus olhos levemente.
Que droga, porque as coisas são sempre tão complicadas para mim? Porque eu sempre sou submetida á escolhas difíceis? Porque eu sou capaz de amar duas pessoas? Porque isso tinha que acontecer comigo? Podia ser com qualquer pessoa, podia ser com a Sofia, ou com a Laura, ou quem sabe com a Geovadia, mas tinha que ser comigo... Alguns podem dizer que é sorte, ter dois garotos... Mas sabe para mim isso é um azar, ter que escolher entre os dois garotos, por quê?
– Você estava chorando por causa disso não é? – perguntei e levantei meu olhar, olhando para ele.
Ele me encarava sereno, como se tentasse decorar minha feição pois nunca mais fosse me ver, e eu praguejava porque eu sabia que talvez fosse verdade eu ainda amava Bruno, e eu não sabia dizer quem amava mais, isso já havia se tornado um inferno para mim.
Ele maneou a cabeça em afirmação e eu suspirei. Me soltei dele e sentei no chão.
Ele sentou do meu lado e passou a mão pelos cabelos dele tentando tirar a neve de lá, minha jaqueta de tecido fino também estava cheia de neve. Passei a mão pelo meu ombro tirando um pouco da neve e ele guardou o celular dele no bolso e sacudiu a jaqueta de couro.
– Eu vou sentir tanto a sua falta seu bobo – falei olhando para frente e senti ele colocar a jaqueta de couro em meus ombros.
– Eu também, você nem imagina como – ele disse e eu sorri.
Olha só para mim, me despedindo do Harry,. Pelo menos dessa vez houve tempo para despedida, da última vez foi pior.
Me arrastei um pouco mais para perto dele e deitei minha cabeça no ombro dele, ele passou um dos braços pela minha cintura e me acomodou melhor sob ele.
– Eu não sei quando vou poder falar isso para você de novo então... — ele começou e eu olhei para ele – Eu te amo – ele disse e eu continuei o encarando.
Sorri levemente, essa era a nossa despedida, e nós dois sabíamos disso, estava tão claro no olhar dele como no meu.
– Eu... Também – falei e observei ele se aproximar mais de mim.
Nossas respirações mesclavam e eu cai na tentação de ir fechando meus olhos, a respiração dele batia contra a minha e algo em mim queimava para sentir os lábios dele, e quando isso aconteceu foi como se meu corpo houvesse explodido em uma mistura de sensações, amor, medo, angústia, felicidade e dor...
Abri um pouco minha boca dando espaço para ele adentrar com a língua e foi como se nossas línguas travassem uma batalha, explorando cada canto da boca um do outro. A mão dele que estava envolta na minha cintura agora passeava pela minhas curvas, arfei levemente quando ele apertou minha cintura e isso não passou despercebido por ele que me puxou para cima das pernas dele, deslizei minhas mãos pelo peitoral convidativo dele e ele apertou minha coxa direita com vontade, fazendo eu arfar mais uma vez. Nos separamos quando a falta de ar invadiu-nos pela terceira vez.
Eu que estava sentada sob as pernas dele deitei minha cabeça na curvatura do pescoço tentando normalizar a respiração e ele que tinha ambos os braços envoltos na minha cintura, apenas se apoiava em mim para normalizar a respiração.
O cheiro de colônia masculina que emanava no pescoço dele tomava conta de mim, e eu não consegui me conter, depositei um beijinho leve no pescoço dele, uma das mãos apertou minha cintura e eu mordi levemente o pescoço dele, e essa foi a vez dele de arfar. Levei minha mãos aos cabelos dele e fiz um carinho leve lá.
Ficamos trocando carícias por mais algum tempo, quando resolvemos olhar o horário no celular dele. Já eram 05h00min da manhã.
Ele se esticou na grama coberta de neve e deitou, deitei sob o peito dele e ficamos conversando sobre como seria os jogos de basquete de agora em diante e o grande passo que ele iria dar na carreira dele, a partir de agora ele iria ter aulas particulares, porque não iria ter tempo para frequentar a escola.
Depois de mais alguns minutos, resolvemos nos levantar.
– Então é isso – ele disse assim que ficamos de pé.
– Sim, é isso – falei encarando ele.
Ele não disse nada, apenas me encarou por mais algum tempo e sorriu.
– Obrigado, obrigado por hoje, por me colocar no meio daquela vingança maluca e me fazer reatar amizade com meu primo, obrigado por essa 1hora que você acabou de passar comigo, obrigada por me apoiar, e Nanda, eu te amo – ele disse e me abraçou.
– Hey, eu já te prometi duas coisas, você tem que me prometer uma agora – falei e ele me encarou.
– Oque você quiser – ele disse
– Eu quero que você prometa, que algum dia, mesmo que você já seja bem velhinho, você vai me encontra de novo – pedi – Promete de mindinho –
– Prometo – ele disse e roubou um beijo estalado de mim quando cruzamos nossos mindinhos.
– Adeus Harry – falei e ele sorriu triste
– Adeus Nanda — ele disse
Andei para um lado e ele para o outro, assim como havíamos feito o trato, sem olhar para trás. Meu coração batia acelerado, como se eu quisesse voltar e pular nos braços dele gritando: Ei! Garoto! Não vai! você é uma parte de mim, ou não vai, ou deixar eu ir junto!
Mas eu não podia — nem iria — fazer isso, porque além dele, existe outra parte de mim que está aqui, uma parte Emo, uma parte que todos, inclusive eu com toda a minha confusão, sabia que eu amava.
Mas algo, lá no fundo, bem no fundo mesmo do meu coração me reconfortava, porque eu sabia que o amor que eu acredito — e sinto — é um amor assim, uma amor que poderia passar por qualquer distancia, por qualquer barreira, mas iria se encontrar de novo, porque quando as pessoas amam de verdade é assim, não é? O amor não congela, não derrete, não muda e nem acaba, o amor de verdade perdura á eternidade. E isso se chamava Caminhos Traçados, caminhos que se separam, se esbarram, se encontram, vão embora e permanecem...
Adentrei o meu dormitório e retirei a jaqueta de couro que ele havia decidido que ficaria comigo. Guardei-a cuidadosamente no guarda-roupa e me deitei, puxei o lençol e me acomodei na cama. Não era como o peito do Harry, mas era o que eu tinha agora, e eu não iria chorar. Não, eu não iria.
Puxei o lençol e cobri minha cabeça.
– Boa noite Harry — sussurrei mais para mim mesmo do que para ele.
Depois de algum tempo eu adormeci.
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