Caminhos Traçados
7 Choros
Notas iniciais
Acordei com alguém me chacoalhando e abri os olhos lentamente, uma claridade solar os invadiu.
— Hora de acordar — Sofia falou sonolenta.
— Bom dia — bocejei.
— Bom dia.
— Quem vai usar o banheiro primeiro? — perguntei olhando de relance para ela.
— Quem chegar nele primeiro.
Nos encaramos por alguns segundos e eu levantei da cama em pulo, pisoteando o edredom e correndo até o banheiro, mas Sofia não ficava para trás. Eu preciso chegar no banheiro primeiro pois sei que ela demora muito no banho.
Com um braço a empurrei, mas ela não ficou atrás e puxou meu pijama fazendo com que eu escorregasse no chão. A morena passou na minha frente e chegou na porta do banheiro, onde apertou a maçaneta e piscou para mim.
— Isso se chama experiência.
— Sua maluca — falei e a escutei rindo. Acabei soltando uma risada também.
Arrumei o lençol de minha cama e passei a lembrar da noite anterior. Deslizei os dedos pela boca recordando do beijo dele e logo meu coração acelerava.
Havia muito mais que apenas o desejo de beijá-lo naquele momento, eu sabia disso. E não era luxúria, lascívia ou qualquer indecência... Era desejo de conhecê-lo no mais profundo de seu ser.
Suspirei. Algo em Bruno me deixava extremamente inquieta, talvez fossem os olhos já que eu nunca conseguia encará-lo sem enxergar uma escuridão. E isso não se tratava da íris dele e sim de seu interior, ele parecia perdido.
— Que isso, amiga? — Sofia falou e eu quase tive um infarto, assustada com a presença súbita.
— Quer me matar, desgraça?
— Você que tá aí sensualizando com os dedos na boca — ela colocou a mão na cintura, arregalando os olhos após alguns segundos — Não vai me dizer que beijou o emo?
Sorri sem graça. Na noite anterior eu saí do quarto do Bruno diretamente para minha cama, e caí no sono sem ao menos notar se Sofia estava aqui ou não.
— Bom...
— GRAÇAS A DEUS! — bradou Sofia me sacudindo freneticamente pelos ombros — Pensei que esse menino não tinha nem coração — debochou e eu revirei os olhos.
— Foi muito bom, viu? Para sua informação.
— Ih alá, o emo tem pegada.
Gargalhei e desviei a atenção de Sofia, passando a catar minha toalha dentro da gaveta.
— Aliás... Você não estava no quarto quando eu cheguei, estava? — indaguei e logo a morena enrubesceu.
— Digamos que eu tive uma noite bem agitada.
Soltei um gritinho animado me aproximando novamente dela.
— Como foi?
— Ah, Fê... — olhou para um ponto cego na parede e seus olhos pareceram brilhar — Foi mágico, sabe? Ele foi incrível e eu me senti tão bem.
Sorri boba pela garota e a encarei durante alguns segundos. Tudo em sua expressão refletia felicidade e eu só conseguia pensar no quão bom era o fato dela encontrar o que a satisfazia em Jason.
Avancei para abracá-la porém logo meu corpo entrou em alerta ao ver a feição da morena se fechando e a primeira lágrima escorrer.
— Sofia? — perguntei assustada a abraçando.
— Isso dói muito, Fê — sussurrou com a voz embargada pelas lágrimas.
— O que? O que dói?
Ela se afastou e inspirou fortemente, buscando calma.
— Dói lembrar o quanto me senti amada ontem mas acordar sabendo que nunca vamos ser nada além de amigos.
Meu coração apertou.
— Oh, meu amor... — apertei o abraço novamente, afagando seus cabelos.
— Ele nunca vai ser meu — ela sussurrou — Quando estamos na cama parece que o mundo lá fora não existe, sabe?
Assenti.
— Tudo encaixa ali, desde os toques até os olhares dele... — ela suspirou olhando para o teto com olhos repletos de lágrimas — Ele me olha como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo, só que quando chega o outro dia eu percebo que ele não está apaixonado por mim, que ele não me ama do mesmo jeito.
— Como você pode ter certeza disso? — indaguei passando os polegares por seus olhos, em uma tentativa de limpar as lágrimas — Como sabe que ele não te ama? Ele pode estar apenas sentindo medo de falar, você sabe, medo de estragar uma amizade tão antiga.
— É impossível, Fê, Jason jamais teria medo de falar disso comigo.
— Já passou pela sua cabeça que ele pode pensar o mesmo de você?
A morena pareceu refletir.
Alguns minutos depois de tomar meu banho, rumamos para o refeitório pois já passava um pouco do horário de café da manhã. Chegaríamos atrasadas na aula hoje.
Sofia falava alguma coisa sobre conversar com Jason e expor seus sentimentos, e eu tentava prestar atenção mas acabei esbarrando em alguém. Quando fui me desculpar, dei de cara com Harry.
Seus olhos estavam avermelhados e um pouco inchados, além de possuir olheiras fracas que evidenciavam além de uma péssima noite de sono, um choro.
— Harry? — eu estava abismada com a situação dele.
— Nanda... Ontem, eu não terminei de falar... Por favor, você previsa me escutar — falou me encarando.
— O que aconteceu?
— Eu não consegui dormir.
Uma pontada de culpa me atingiu. Eu sentia raiva de Harry pelo acontecimento do primeiro dia de aula? Sentia. Porém jamais pensei que isso faria mal a ele. Essa nunca foi minha intenção.
— Você... — eu formulava algo para falar mas fui interrompida por ele.
— Eu preciso terminar o que eu tinha para falar ontem — suplicou me olhando nervosamente
— Tudo bem.
Ele pegou minha mão e foi puxando para fora do refeitório. Sofia apenas acompanhava a situação atônica com o olhar. Andamos até o pátio de trás e sentamos em um banco ao lado de uma de uma árvore.
— Nanda, eu queria pedir desculpas por tudo. Tudo o que aconteceu desde o primeiro dia, eu não queria que tivesse sido desse jeito — ele falou e seus olhos começaram a ficar embargados — Eu sei que demorei demais pra dizer isso, já que pelo visto você está com Bruno, mas eu preciso falar, há um mês eu não tiro você da cabeça.
Eu estava estática. Meu coração pulsava acelerado.
— Eu gastei todo esse tempo tentando te tirar da minha cabeça, me convencendo de que isso é a coisa certa, mas simplesmente não consigo, estou quase pra ficar louco... preciso de você.
— Você não precisa... — sussurrei negando com minha cabeça — Você consegue, Harry, não complique as coisas — falei sentindo o bolo se formar em minha garganta.
O rapaz revirou os olhos e eu pude ver as lágrimas acumuladas brilhando.
— Você não entende, não é, Nanda?
— C-como/ — gaguejei e ele virou-se para frente no banco e socou sua coxa, frustrado.
— Eu queria poder te falar, mas eu não posso!
— Do que você está falando?
— Você precisa entender — ele suplicou com a voz baixa e as lágrimas escorrendo — Por favor, pensa mais, você precisa entender.
A confusão era visível em meus olhos. Nada mais do que Harry falava fazia sentido, porém o estado dele era tão desesperador que decidi não fazer mais perguntas.
A única coisa que consegui pensar foi em puxar os braços dele e o envolver em um abraço, sendo abraçada de volta quase instantaneamente. O rosto dele afundava em meu pescoço e eu sentia as lágrimas caírem.
— Harry, nós dois não podemos ficar juntos...
O rapaz suspirou, afastando-se.
— Não precisamos! — falou nervoso — Se você não quer, então não precisamos, mas por favor seja pelo menos minha amiga. Não suporto mais você me evitando.
Sorri sem graça.
— É claro que desculpo.
Ele me abraçou novamente e ficou ali por alguns segundos.
Eu sentia um reboliço dentro de mim. Estava completamente confusa com tudo que ele tinha dito, mas entendia o que ele queria naquele momento: o mais puro perdão. E isso fazia-me sentir confortada em estar com ele.
Quem sabe poderíamos recomeçar...
Esperamos a feição avermelhada no rosto dele amenizar e fomos caminhando até a sala de aula sem trocar nenhuma palavra.
Eu só esqueci que já estávamos atrasados, e assim que entramos na sala todos os olhares se voltaram para nós.
Fale com o autor