Notas iniciais
Ira: sf 1. Cólera, raiva contra alguém. 2. Desejo de vingança.

Ino puxou a barra do vestido pra cima, para que ela não pisasse e tropeçasse acidentalmente, caindo de cara no tapete persa do castelo. A garota passou por um espelho em cima de uma prateleira no meio do caminho e parou para observar sua imagem.

Não que ela fosse vaidosa, não era isso, mas se sua mãe neurótica visse que um fio de cabelo estava fora do lugar...Ino teria problemas. E também, ela nunca precisara de muito para ficar bonita, Ino tinha uma beleza natural invejada por muitas mulheres da corte.

Os cabelos estavam elegantemente deslizando pelos ombros, com somente duas mechas presas atrás da cabeça por uma presilha em forma de borboleta.

Ao virar em outra corredor, Ino ofegou de susto e corou, envergonhada: o príncipe de Suna estava beijando ardentemente uma garota no meio do corredor do seu castelo. De novo.

Ino tentou passar despercebida, se virando para ir embora, mas sentiu que outra pessoa passou mais rápido por ela, esbarrando em seu braço. Era a garota que o príncipe estivera beijando.

–D-desculpe...eu não tive a intenção... – Ino começou, se virando para o príncipe, que continuava no mesmo lugar de antes, agora, porém com um sorrisinho maroto a brincar-lhe nos lábios.

–Acho que está apaixonada por mim, princesa, sempre aparece nos momentos mais...oportunos.

Era verdade, sim, que Ino pegara Gaara beijando outras garotas três vezes desde que ele viera passar algumas semanas em Konoha com a Família Real de Suna.

Mas era a mais absoluta mentira que ela estava apaixonada por ele. Onde já se viu? Ino jamais se deixaria chegar aos pés daquela garotas ridículas que faziam fila por uma noite com o príncipe.

Ino admitia, sim, que ele era bonito, com seus olhos verdes e seu cabelo ruivo, mas desde que ele entrara no castelo, ela o achara arrogante e frio. Não que ela detestasse o príncipe. Só não gostava muito do jeito dele.

Mas nem por isso ela iria deixar barato para aquele principezinho irritante.

–EU NUNCA IRIA ME APAIXONAR POR VOCÊ! – a loira gritou – EU NÃO SOU MAIS UMA DAS VADIAS COM...

Esse era um dos defeitos principais de Ino: ela se deixava irritar facilmente e tinha um humor bem exaltado, por isso gostava de resolver tudo aos gritos.

Ela sentiu sua boca ser tapada pela mão forte e gelada de Gaara. A garota continuou a tentar emitir sons e começou a dar tapas e socos no braço do ruivo, mas ele era forte demais e não a soltava.

–As mulheres são bem melhores quietinhas, você não acha, princesa? – ele disse com um sorriso malicioso e a voz arrastada – Ah, me esqueci...você não pode falar.

Ino desistiu de tentar se livrar de Gaara, cruzando os braços e franzindo a testa em sinal de indignação;

–Ah, bem melhor assim. Uma mulher obediente.

O príncipe tirou a mão da boca da moça, que instantaneamente saiu correndo em disparada pelo corredor, abandonando Gaara com uma expressão cansada.

–RETARDADO! – ela gritou, raivosa, mas ao mesmo tempo risonha.

Ele saiu correndo atrás dela, alcançando-a logo em seguida.

–ME LARGA AGORA! – a princesa gritou, quando sentiu seu braço ser agarrado por Gaara.

–E se eu não quiser? – Gaara provocou.

Ino olhou estreitando os olhos para ele e mordeu o braço do rapaz com força, fazendo com que ele a largasse.

A loira novamente saiu correndo, pretendendo entrar pela porta no fim do corredor, apesar de ela não ter bem certeza de onde esta a levaria.

–Yamanaka, volte aqui! Não terminamos ainda de conversar.

Ao mesmo tempo em que Ino respondia gritando, ela abriu a porta.

–EU JÁ DISSE QUE EU NÃO SOU UMA DAS VADIAS COM AS QUAIS VOCÊ DORME!

Por azar, essa porta dava para o salão de baile do qual a princesa estivera fugindo por causa de sua mãe. E, justamente nesse momento, o rei, pai de Ino, estava fazendo um discurso, por isso não havia música para abafar os gritos da loira, que estava vermelha de cólera.

Todos no salão se viraram para ver quem estava gritando, e se depararam com Ino totalmente descabelada pela corrida, sendo segurada pelo braço pelo príncipe de Suna.

Várias pessoas começaram a abafar risadinhas. Talvez logo a princesa de Konoha precisasse se casar com o príncipe de Suna porque sua barriga já começara a crescer.

Ino sentiu seu braço direito sendo largado pela mão forte de Gaara, que entrou no salão, e repentinamente seu braço esquerdo foi agarrado por uma mão magra e de dedos finos.

–Você terá que se explicar, mocinha!

A princesa se virou e viu sua mãe, com a cara extremamente severa, a puxando para fora do salão pela mesma porta em que entrou, a fechando logo em seguida.

–Uma dama não poder ser irada desse jeito e sair gritando palavras de baixo calão com um cavalheiro. Ainda mais com um príncipe! É absolutamente deselegante. Explique-se, Ino! Aliás, o que a senhorita estava fazendo sozinha em um corredor com ele?

–Não houve nada. Verdade.

–Se eu digo que houve é porque houve. Primeiramente, porque não estava no salão?

–Eu não estava me sentindo bem. – Ino mentiu – Então, saí para tomar um ar. E encontrei com o príncipe...ele estava beijando uma garota nos corredores. Foi só isso.

–Isso não explica o seu cabelo desarrumado e seus gritos indecentes, mocinha! – a rainha sacudiu o dedo na cara de Ino.

A loira ia dar uma resposta educada e obediente à mãe, como seria de bom tom para uma donzela como ela, mas quando abriu a boca disse outra coisa:

–Cansei! Cansei, está bem? – Ino tirou a presilha do cabelo e jogou aos pés da mãe, que estava boquiaberta – Preciso respirar!

A princesa se virou e, apoiando-se nas paredes arrancou os sapatos de camurça dos pés e largou-os junto a presilha, saindo correndo novamente. A rainha simplesmente ficou olhando chocada para a filha que corria como...uma plebéia.

–

–

Gaara gostava de olhar a Lua. Ela era sua companheira de todas as noites de insônia em que ele saía para se sentar à beira do lago em seu castelo. Mas agora ele estava em Konoha e não havia um lago para ele sentar.

Mas a Lua ainda estava lá. E o ruivo resolveu sair do salão de baile excessivamente cheio de gente e sair para se sentar na grama e ficar admirando-a.

Tudo estava silencioso nos jardins reais, exceto por alguns grilos que estavam no gramado fazendo barulhos característicos. De repente, Gaara ouviu passos. Passos apressados que corriam amassando a grama molhada de orvalho.

Ele se virou e viu um vulto feminino que corria, com os cabelos ricochetando no rosto com o vento cortante que soprava.

Mas ela não veio em direção a ele. Provavelmente nem o percebeu onde estava. A moça passou por trás de alguns arbustos e Gaara percebeu-a se sentar no chão.

Ele se dirigiu até lá e viu que era Ino que estava sentada na grama, observando o céu completamente absorta e os cabelos agora soltos esvoaçando.

–Fugiu de novo?

A loira se virou, assustada, mas fez uma expressão raivosa ao ver quem era.

–SAI DAQUI, GAARA!

O ruivo a ignorou, sentando ao seu lado na grama.

–A noite está bonita hoje, não? A Lua cheia é linda.

Isso pareceu desarmar Ino momentaneamente, que suavizou as linhas fundas em sua testa.

–Você gosta de observar a Lua? – ela perguntou, cética.

–Toda noite – ele deu uma pausa, observando o rosto iluminado da moça, que agora abandonara o ceticismo e estava de olhos fechados sentindo o vento – E eu sei que você também gosta.

Ino abriu os olhos e lançou um olhar confuso pra ele.

–Toda noite desde que eu cheguei aqui eu vejo você olhando a Lua pela sacada do seu quarto – ele deu de ombros.

–ANDOU ME ESPIONANDO? ISSO É UM ULTRAJE! — ela gritou, furiosa.

–Quer parar de gritar tanto? Isso está ficando chato. – ele resmungou entediado.

–EU QUERO SABER PORQUE VO...

Ino foi interrompida por Gaara, que tinha lhe roubado um beijo e pedia passagem com a língua quente. Primeiramente, Ino empurrou Gaara e tentava gritar. Mas logo ela passou a não se importar com nada e retribuiu o beijo do príncipe, colocando as mãos delicadas no peitoral dele.

Ele a soltou, olhando pra ela em dúvida.

–Vai recomeçar a gritar?

–Não. – ela respondeu e se deitou na grama, observando as estrelas.

Depois de um tempo em que Gaara observava a princesa absorto em seus pensamentos, ele a ouviu murmurar:

–Estou me sentindo uma vadia.

–Por quê?

–Eu fui só mais uma pra sua lista, entende? Depois de amanhã você volta pra Suna e eu provavelmente só vou te ver de novo em alguma Reunião de Famílias Reais idiota...

–Eu já te disse que você fica melhor calada. – Gaara reiterou, revirando os olhos.

–Eu só disse a verdade.

Os dois ficaram em silêncio. Gaara ficava remoendo se devia ou não falar o que estava pretendendo desde a primeira vez em que a vira observando a Lua na sacada.

–Ino, quantos anos você tem?

–21 primaveras muito bem vividas. – ela respondeu, brincando com uma moita de capim.

–Já está na hora de aceitar casar comigo.

Ino se virou surpresa pra ele ainda deitada na grama molhada.

–Ca-casar?

–É, casar. – Gaara se inclinou para cima da loira – Ou você pretende ficar encalhada?

Ino puxou Gaara para mais um beijo, que ele retribuiu com entusiasmo, aceitando isso como uma resposta positiva.

Ino pensou enquanto beijava ele que, talvez, nem toda garota que se agarrasse com Gaara tinha necessariamente que ser uma vadia.

FIM