Caminhos Entrelaçados
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Nunca pensei muito sobre o ciclo da vida. Nascer, crescer, viver, morrer... Isso é uma coisa tão banal, mas ainda assim esse é o ciclo que todo e qualquer ser vivo está fadado a passar, afinal quando vivemos à única certeza que temos, é vamos morrer algum dia, para uns de forma mais rápida e para outros de forma mais lenta. A vida para alguns passa como uma bela música, suas doces melodias os fazem caminhar pelo o mais belo caminho. Já para outros a vida segue por caminhos tortuosos e difíceis, mas ainda assim essa pessoa segue por seu caminho, que mal ou bom, o faz viver.
Sentir... as emoções que o faz vivo.
Acreditar... na melhoria do próximo amanhecer.
Continuar... a viver independente da dor.
Uma pequena gota caiu em cima da maça do meu rosto e escorreu até meu queixo. Poderia se assimilar a uma lágrima, para quem visse de longe, mas as minhas não caíram e nem cairão... Não sei se foi o choque ou eu não querer causar mais dor a minha mãe, mas eu ainda não chorei o luto por meu avô... Minha mãe já o fazia todos os dias, ela chora por mim e por Souta. Creio que por meu avô ser seu único porto-seguro, sua perda foi um baque para ela. Minha avó falecerá no parto de minha mãe, e meu pai faleceu alguns meses depois de Souta nascer. Realmente foi uma perda difícil para ela. As gotas passaram a ser mais constantes, molhando meu vestido preto, mas não me importava, o céu derramava suas lágrimas por mim... Em vista que eu me sentia incapaz de fazê-lo.
Nunca esperamos perder alguém, mesmo quando sabemos que essa pessoa mais cedo ou mais tarde irá partir. Pensando dessa forma, o que farei quando perder minha mãe? Meu pai faleceu quando eu era criança, passei pouco da minha vida com ele, e ainda assim não pude prestar um luto digno, em vista que eu pensava que ele somente dormia naquele caixão, tanto que eu esperei por seu retorno durante um mês inteiro, até minha mãe ter a coragem de me dizer que ele nunca mais iria voltar... Crianças não entendem o real sentido da morte.
Mas agora é tudo muito diferente, eu estou maior e simplesmente entendo. Creio que a vida queria que eu entendesse como era ficar de luto verdadeiramente, levando somente agora meu avô... Sei que mais cedo ou mais tarde será minha mãe... Será eu e Souta a sentir essa dor de forma mais intensa, e seremos nós a vela-la no fim de seus dias, mas no momento vou focar somente na perda de meu avô. Uma grande perda para todos nós. O pequeno lírio branco em meus dedos foi estendido até o túmulo, e colocada dentro do pequeno balde de madeira cheio até a metade com água limpa. Na lápide que eu tanto observava – sem nada ver realmente — pequenas palavras estavam escritas. Palavras que agora expressavam o que era o fim para o meu avô.
“Vovô Higurashi.
Um pai e avô exemplar.
“Quando eu nasci – nasceu uma estrela,
Quando eu morrer – surge uma cruz.
Mas quantos do que aqui repousam
Hão de pensar assim:
Ponham-me uma cruz no principio de tudo...
E a luz da estrela no fim de minha existência!”.
Essa era a frase favorita de meu avô, e ele sempre deixou claro que a queria em seu túmulo... Minha mãe cumpriu sua promessa afinal. Eu dei uma última olhada para a lápide, já estava na hora de voltar para casa, mamãe precisava de mim. O cemitério não era muito longe de minha casa, por isso preferi vir sozinha, mamãe não aguentava nem sair de casa por enquanto e Souta estava com ela, não podia deixá-la sozinha. E o meu irmão está muito chateado também, ambos precisam de mim.
Já tem dois dias que eu voltei da Era Feudal, mas só vim ver meu avô hoje, em vista que ontem minha mãe ficou trancada no quarto o dia inteiro se recusando de sair para tudo. Eu respeitei o luto dela, afinal minha mãe não conheceu minha avó e ela só tinha ao pai... Perdê-lo repentinamente foi um choque e tanto para ela... Alias não só para ela, e sim para todos nós, afinal não tivemos tempo de nos preparar, porque quando a pessoa na idade de meu avô adoece já se espera o pior, mas conosco foi diferente... Meu avô se foi enquanto dormia, uma morte tranquila e sem dor.
Logo cheguei em minha casa, minhas roupas grudadas em meu corpo devida a chuva forte que começou de repente, mesmo se eu tivesse levado um guarda-chuva eu estaria nesse mesmo estado, a diferença seria meu humor, que com certeza estaria pior. Minha mãe estava na cozinha, preparando alguma coisa e Souta na sala assistindo a TV. Eu não queria que ela soubesse que eu havia ido ao cemitério, por isso passei rapidamente em direção as escadas e fui direto para o banheiro, tomar um banho longo e demorado.
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Hoje estava completando exatamente uma semana que eu voltei da Era Feudal. Mesmo esse tempo já tendo passado eu ainda não havia chorado, não por ser indiferente a morte de meu avô e nem por não estar sofrendo, a verdade era por puro receio de minha ver e todo o progresso que ela estava demonstrando ter, ir por água a baixo. Nem mesmo antes de dormir eu o fazia, com medo de meu choro se descontrolar e eu não conseguir conter os soluços.
Nessa uma semana, minha mãe já demonstrava alguns sorrisos tímidos para nós e também voltava lentamente a sua rotina. A sua maneira ela estava demonstrando que estava superando a perda de meu avô e seguindo em frente, como deve ser. Eu estava preocupada com o que ela pudesse fazer, mas agora eu já sei que ela enfim aceitou a sua perda. Eu me levantei de minha cama, já havia algum tempo que eu tinha acordado e estava pensando no que fazer... Talvez ainda hoje eu voltasse para a Era Feudal, afinal ainda poderia estar tendo problemas por lá.
Eu voltei num momento crítico, afinal um novo inimigo realmente muito forte estava à solta por aí e de alguma maneira, eu tinha que impedi-lo. Ainda não sabia quais eram suas reais intenções, muito menos quais eram os seus aliados, mas eu sei que ele não parou um instante se quer. Desci as escadas e segui para a cozinha. Meu irmão já estava tomando o café e minha mãe terminava de preparar algo de costas para nós. — Bom dia — eu murmurei chamando a atenção dela.
— Bom dia meu amor — ela disse me dirigindo um sorriso e vindo se sentar a mesa, trazendo uma cesta de pães — Você pretende voltar para a Era Feudal hoje? — ela me fez essa pergunta todos os dias desde que eu voltei. E eu todos os dias desconversava, para ela não se sentir “culpada” por minha estadia aqui.
— Acho que sim... — eu disse passando a comer. Ela somente deu um leve sorriso e assentiu com a cabeça, passando a comer também. O clima estava muito agradável, mas ainda assim podia ser sentido a quilômetros de distância que faltava algo, ou mais precisamente, alguém.
— Mana, porque o irmão cachorro não vem mais? — Souta perguntou me retirando de meus devaneios, olhei para ele e ele estava olhando para mim, um pouco triste.
— Bom Souta, algumas coisas aconteceram durante esses anos que eu fiquei sem vir aqui e agora só eu consigo passar pelo poço — eu disse o explicando, mas eu não sei se Inu-yasha havia tentado passar — Por isso ele não veio mais — eu acariciei os fios negros de meu irmãozinho.
— Uma pena — ele disse se levantando e colocando a louça na pia — Estou em meu quarto jogando videogame — e subiu. Férias escolares era uma coisa tão boa, sinto falta de férias... Eu também retirei a louça da mesa e quando voltei para arrumar a mesa, minha mãe me dirigiu um sorriso.
— Kagome, sente-se aqui rapidinho — ela me mostrou o local ao seu lado e assim eu fiz, me sentando ao lado dela — Filha, eu sei que você ficou aqui esses dias por minha causa — eu fiz menção de interrompê-la quando ela me parou — Me deixe continuar. E eu agradeço, mas eu sei que você está com problemas do lado de lá... — ela segurou minha mão gentilmente, mãe sempre sabe das coisas, não? — Se quiser ir, se sinta a vontade para fazê-lo.
— Mamãe, eu não fiquei aqui por causa da senhora — eu disse a olhando — Eu também precisava de um tempo para mim, mas sinto que já está na hora de eu voltar — ela assentiu levemente dando um mínimo sorriso — Só não podia te abandonar no momento em que mais precisava de nós...
— Eu sei e agradeço por isso, mas eu já estou melhor na medida do possível... A morte é uma coisa que sempre estará conosco, você querendo ou não. Espere um momento — ela se levantou e saiu de meu campo de visão. Eu continuei sentada onde estava e não demorou muito minha mãe retornou — Kagome, seu avô queria lhe dar algo, mas não houve tempo de ele o fazer — ela pegou um pequeno embrulho e me estendeu.
— Não é nenhum daqueles presentes estranhos, não é? — eu disse dando um sorriso para tirar o ar melancólico de minha mãe e deu certo.
— Não, segundo ele esse é um presente que sempre te fará lembrar-se do que a vida lhe trouxe de melhor — eu peguei o embrulho de sua mão e o abri. Um pequeno chaveiro com a Joia de Quatro Almas estava em minha mão. O amuleto do Santuário Higurashi — Como sabe, nosso Santuário protege a Joia de Quatro Almas e como sabemos a verdade por trás dela, seu avô queria que você sempre se lembrasse de que graças a ela, você conheceu pessoas maravilhosas e que de alguma forma, são importantes para você.
Eu me levantei e dei um abraço em minha mãe. — Obrigada por me dar esse último presente, vovô! — Ouvi minha mãe suspirar e sabia que ela queria chorar... Ainda não seria a minha vez. — Esse será meu amuleto mamãe — eu disse quando me afastei. Ela limpou as lágrimas que teimavam em cair e sorriu. — Agora irei arrumar minhas coisas, quero chegar lá ainda cedo. — ela assentiu e eu subi para meu quarto, sabia que ela queria ficar só.
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Meu irmão e minha mãe seguiram comigo até o mausoléu do poço come-ossos. Ambos vieram se despedir de mim. Eu já vestia meu kimono, e estava com minhas armas e com minha mochila, que agora continha o chaveiro que meu avô deu guardado em um dos bolsos — Não demore para nos fazer uma visita Kagome — minha mamãe disse me abraçando e eu somente assenti.
— E tenta trazer o irmão cachorro da próxima — Souta disse dando um sorriso, Buyo estava em seus braços. Eu somente assenti, pulando no poço em seguida.
Logo eu já estava na outra Era e dei um suspiro pesado. Minha mente estava uma bagunça e eu não sei ao certo o que fazer. Eu subi sem dificuldade alguma, mesmo estando com minhas armas e com minha mochila, esse não era esforço algum. Quando terminei de subir, me sentei à beirada do poço, observei a paisagem ao meu redor, estava uma bela paisagem. Eu sabia que Inu-yasha e os outros não estavam no vilarejo, então eu teria que caça-los por aí. Fiquei olhando para aquele lugar sem nada ver realmente, até decidir seguir meu caminho em busca de meus amigos, mas quando fui me desencostar do poço eu senti uma presença se aproximando rapidamente e eu somente aguardei.
Não demorou muito e Sesshoumaru entrou em meu campo de visão, sua expressão era impassível, mas seu olhar era muito irritado. Verdadeiramente, eu não estava a fim de ter que lidar com ele, pelo menos não hoje e nem agora — Olá Sesshoumaru — eu disse dando um sorriso de canto — O que lhe trás aqui?
— Ora humana, onde estava? — ele disse sério e muito frio. Eu revirei os olhos e me desencostei do poço, sinceramente o que ele pensa que eu sou? Um objeto que pode ser manipulado? — Eu estava a sua procura...
Eu franzi o cenho confusa e eu estava levemente irritada — O que eu tenho com você? Que eu saiba não temos assuntos em comum — eu disse dando de ombros e dando alguns passos na direção contraria a que ele estava.
— Não me ignore Kagome — ele disse mais frio do que antes e eu pude perceber que ele estava muito irritado, parei onde estava e me virei para ele. Sesshoumaru estava com a mão apoiada na Bakusaiga e a outra mexia em seus cabelos, em claro sinal de frustração — Eu não viria atrás de você, se Rin não insistisse tanto — eu acabei deixando minha irritação de lado e o olhei preocupada; ele entendeu que era um prossiga — Rin adoeceu e pediu por seus cuidados, mas você simplesmente desapareceu e eu tive que caçá-la. — ele me lançou um olhar irritado, mas sua expressão continuava impassível — Tens ideia do quão vergonhoso isto é a este Sesshoumaru? Caçar uma humana?
Eu resolvi deixar a prepotência dele um pouco de lado, afinal Rin precisa de mim — Sinto muito, mas eu não sou dessa Era e tenho uma vida por lá — eu respondi um pouco irritada, esse povo acha que eu tenho a obrigação de sempre estar por perto! Ele me olhou irritado e depois deu um leve suspiro — Mas vamos logo, Rin pode ter piorado...
— Hm — foi o único som que ele fez antes de seguir pela floresta, me deixando para trás. Mas se ele acha que eu não conseguirei segui-lo, ele está muito enganado! Eu passei a correr na mesma direção que ele seguia, claro que ele já estava muito a frente.
Eu somente seguia seu youki, não precisava vê-lo para isso. Enquanto o seguia, acabei me lembrando de sua expressão. Sesshoumaru é sempre tão frio quando fala e quase nunca demonstra seus reais sentimentos, mas se tem uma coisa que ninguém pode esconder é o olhar. Eles são as portas para a alma, aquilo que existe de mais secreto em nós. Aprendi a desvendar olhares através de Takeo, afinal no começo ele não se abria comigo, sua personalidade se assemelha muito a de Sesshoumaru, por isso eu tinha que me aproximar aos poucos.
Com o tempo depois de conseguir entender como ele “funcionava” eu fui me aproximando. De olhares frios e irritados a olhares amigáveis e reconfortantes. Será que eu poderia tentar me aproximar de Sesshoumaru, assim como fiz com Takeo? Acho que não... Afinal, Takeo de certa forma queria ser meu amigo, só era tímido demais para se aproximar por livre e espontânea vontade. Senti Sesshoumaru mudar de direção e fiz o mesmo.
Não demorou muito e estávamos em frente a uma cabana abandonada no meio da floresta. Ela estava silenciosa e o único som que se podia ouvir pelo local era de alguns pássaros cantando. A cabana estava um pouco acabada devido à falta de cuidados, mas pelo menos ainda tinha um teto, portas e janelas. Sesshoumaru entrou na mesma e eu o segui. Dentro da cabana – que não era muito grande, era composta por dois cômodos – estavam Arurun e Jaken, Sesshoumaru passou direto por eles e foi para o outro cômodo, eu somente o segui.
— Senhor Sesshoumaru — escutei Rin murmurar fracamente — Seja bem vindo — ela disse tentando dar um sorriso, eu saí de trás de Sesshoumaru e joguei minhas coisas no chão, Rin abriu os olhos um pouco assustada, mas depois me dirigiu um sorriso fraco — Mana Kagome...
— Olá meu amor! — eu disse lhe dirigindo um sorriso, passei a mão em sua testa e constatei que ela tinha febre — Eu vou cuidar de você agora, tudo bem? — ela assentiu fechando os olhos — Eu já volto.
Eu saí da cabana indo atrás de um rio próximo para pegar água, não demorei muito e logo voltava com água em uma garrafa plástica que eu havia pego em minha mochila. Achei uma espécie de balde na parte de trás da cabana e seria suficiente no momento, voltei ao quarto e coloquei o pano úmido na testa de Rin para baixar a febre. Sesshoumaru estava sentado no outro canto do quarto de olhos fechados, sinal claro de que ignorava minha presença. Eu peguei uma fita e amarrei os cabelos de qualquer jeito, afinal eu não consigo fazer um laço sozinha.
Para mim ficou claro como água que Rin somente tinha uma gripe, eu peguei minha mochila e de lá tirei um kit de primeiros socorros, havia alguns comprimidos lá dentro. Guardei o kit novamente, quando Rin acordasse eu pegaria novamente e eu daria o remédio a ela. Molhei o pano novamente, ele já estava quente demais. Sesshoumaru saiu da cabana algum tempo depois, me dando um leve susto. Eu me esqueci de sua presença no local, tão silencioso ele era. Fiquei assim durante quase uma hora, quando Rin deu sinal de que iria acordar.
— Olá pequena — eu disse quando ela abriu os olhos — Ainda está se sentindo mal?
— Um pouco... — ela corou levemente antes de prosseguir — Na verdade, eu estou com um pouco de fome — ela abaixou o olhar, sem graça.
Eu nem havia pensado na possibilidade de Rin acordar com fome e não fui atrás de nada, e comida industrializada seria muito ruim para ela nesse momento — Hm... Eu vou atrás de algo — eu disse, quando escutei passos se aproximando lentamente.
Sesshoumaru entrou no quarto com algumas frutas na mão, ele parecia contrariado com algo, mas não procurei entender com o que... Talvez ele somente estivesse envergonhado por eu presenciar seus momentos com Rin.
— Eu trouxe comida — ele disse estendendo tudo a Rin. Ela se sentou e passou a comer, Sesshoumaru se sentou na frente dela a observando atentamente. A febre de Rin havia abaixado consideravelmente e ela já demonstrava um pouco de cor, aposto que após ela tomar o remédio ficará melhor. Percebi que Sesshoumaru olhava para alguma coisa que estava em mim, mas não procurei saber o que era.
— Obrigada Senhor Sesshoumaru — ela disse dirigindo um sorriso a ele.
— Rin, eu tenho uma coisa que te fará melhorar rapidinho — eu disse puxando a mochila — Ele se chama remédio e é muito eficiente, trouxe de minha Era — quando eu puxei o kit de dentro da mochila, ele enroscou em uma das alças e fez cair tudo que estava dentro. Eu teria me preocupado mais, mas o chaveiro também caiu, fazendo eu me lembrar daquilo que por algumas horas eu havia esquecido... A morte de meu avô.
Eu coloquei o kit no chão ao meu lado e coloquei tudo de volta da mochila, eu fazia tudo de forma mecânica, afinal eu não conseguia desviar o olhar do chaveiro, em meu peito a dor latente que eu escondi durante uma semana estava querendo sair.
— Está tudo bem Kagome? — escutei Rin perguntar e eu olhei para ela. Ambos me olhavam como se eu fosse uma louca, Rin mais preocupada. Eu terminei de guardar tudo e peguei o chaveio e o Kit.
— Aqui o remédio — eu disse dando a ela, junto com a água. Depois guardando o kit novamente.
— Está tudo bem mesmo? — ela insistiu, e eu só queria fugir dali um pouco. Eu somente assenti levemente e ela continuou me encarando, eu apertava fortemente o chaveiro em minha mão.
— Não precisa se preocupar Rin — eu disse me levantando e colocando minha mochila num canto qualquer da cabana — Eu vou buscar mais água — eu disse pegando a garrafa e saindo dali rapidamente.
Eu saí correndo em direção ao rio, o mais rápido que eu podia. A única coisa que eu tinha em mente era que não tinha nada para me impedir de chorar agora, cheguei à beira do rio e me sentei ali. O Sol já estava se pondo, mas não me importei. Pequenas lágrimas desciam pelo meu rosto e tudo o que eu podia fazer, era não me descontrolar. Sinceramente falando somente nesse instante eu compreendi a dor de minha mãe, chorar um luto pode ser desgastante às vezes e isso acaba com nosso emocional.
Eu abracei meus joelhos pousando minha cabeça em meus braços, eu apertava fortemente o chaveiro em minhas mãos, desejando que somente aquilo acabasse logo. A dor de se perder alguém pode chegar a ser indescritível às vezes. A lua já estava alta no céu, quando eu consegui me acalmar um pouco, mas ainda assim eu chorava. Minha respiração já estava melhor, mas sentia meu rosto e olhos inchados. Levantei o chaveiro na frente dos olhos e dei um mínimo sorriso para ele.
Tanta coisa aconteceu por causa dessa Joia e o mais irônico é agora graças a ela terei também viva à lembrança de meu avô. Escutei passos próximos demais e quando fui fazer algum movimento, Sesshoumaru já estava ao meu lado. Eu não queria que ele me visse assim, mas o que eu posso fazer.
— O que você quer aqui? — eu perguntei voltando meu olhar ao chaveiro em minha mão.
— Rin ficou preocupada, pediu para eu vir — ele disse indiferente se sentando ao meu lado. Eu continuei da forma como estava, abraçada aos meus joelhos. Sesshoumaru pegou o chaveiro de minha mão e eu não me movi, estou sem força até pra brigar com ele por ser tão enxerido — O que você faz com a Joia de Quatro Almas? — ele me olhou um pouco confuso.
— Não é de verdade — eu disse estendendo a mão para pegá-la de volta, ele me entregou parecendo contrariado — Acho que você sabe que eu vim de uma Era no futuro, 500 anos mais precisamente — ele nada disse, mas parecia prestar atenção. Sinceramente, mesmo que não estivesse eu iria falar, precisava disso — Na minha Era eu moro num templo, o templo Higurashi e lá somos conhecidos por sermos os guardiões da Joia — Sesshoumaru me olhou de forma sarcástica e eu revirei os olhos — E lá distribuímos, ou vendemos, esses amuletos com replicas da Joia.
— Mas a Joia verdadeira não existe mais — ele disse olhando para frente, sem se importar em me olhar enquanto fala.
— Eu sei — eu disse segurando o chaveiro — Mas as pessoas de minha Era acreditam em tradição. — eu dei um sorriso fraco e desviei o olhar. Meus olhos marejaram novamente e eu não consegui me conter.
Abaixei a cabeça e comecei a chorar baixinho, sem me importar com Sesshoumaru ao meu lado. Nesse momento eu não me importava em levantar minha barreira, eu somente queria ser eu mesma. Não liga pra quem me via chorar, nem se isso incomodava alguém, eu somente queria dar vazão a minha dor. Surpreendi-me quando Sesshoumaru se dirigiu a mim novamente.
— Porque choras? — perguntou baixinho.
— Porque eu perdi uma pessoa muito importante para mim — eu disse sem me mexer — Meu avô faleceu essa semana que passou, por isso não estava aqui — eu acabei fungando um pouco — Não podia chorar na frente da minha mãe, ela estava acabada e durante uma semana eu segurei a minha dor.
Senti meus cabelos serem soltos e depois presos novamente, não me incomodei com o que ele fazia, depois os senti serem afagados lentamente e levantei a cabeça olhando para Sesshoumaru, agora eu estava curiosa... — Sabe que eu não entendo vocês humanos, mas sei como é perder alguém importante — ele não tirou a mão de minha cabeça, a deixou ali parada — Mas sei também que isso passa...
Naquele momento eu soube, que mesmo ele sendo da maneira como é, ainda existe um coração em Sesshoumaru. Eu lhe dirigi um sorriso e murmurei um obrigada, abaixando a cabeça novamente.
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Pov’s Sesshoumaru.
Após Kagome sair da cabana, Rin me lançou um olhar sem graça. Ela percebeu que algo mexeu com a humana e isso a preocupou. Rin ficou chateada porque ela causou algo a outra, e ela estava bem abatida. Ela pegou aquele treco que disse ser ursinho de pelúcia e começou a brincar com ele... Acho que o pegou para se distrair um pouco, afinal Rin odeia magoar os outros. O tempo foi passando e Kagome não voltava, a noite já começava a avançar e nada dela. Rin já havia parado de brincar, comido novamente e nem sinal da outra voltar.
— Senhor Sesshoumaru? — Rin chamou minha atenção, ela já estava quase dormindo — O senhor pode ir atrás da irmã Kagome? — ela me lançou um olhar pidão e eu revirei os olhos — Ela saiu sem as armas dela e está à noite...
Que humana mais irresponsável! Saindo assim desprotegida e ainda me fazendo de babá. Jaken estava no outro cômodo e quando eu saí nem precisei lhe dizer nada, ele já seguiu para o quarto onde Rin estava. Bom, ela disse que iria buscar água, então vou na direção do rio. A noite já estava escura, e a lua já estava alta no céu... Quanto tempo será que se passou e eu não prestei a atenção?
Enquanto me aproximava de onde ela estava, eu pude escutar seu choro. Ela parecia estar distraída, afinal até agora não sentiu minha presença. Quando ela entrou em meu campo de visão, estava olhando fixamente para uma coisa em sua mão, que eu identifiquei ser a Joia de Quatro Almas... Mas como? Eu soube que ela foi usada para dar a vida a aquela morta-viva! Quando ela enfim me percebeu, eu já estava ao lado dela.
— O que você quer aqui? — ela perguntou de forma malcriada, voltando seu olhar para aquela coisa em sua mão. Eu estava contrariado, afinal porque ela me trata assim, se eu nem fiz nada? Percebi que ela ainda chorava por isso resolvi deixar pra lá... Somente dessa vez...
— Rin ficou preocupada, pediu para eu vir — eu disse indiferente me sentando ao seu lado. Ela não se moveu, continuou abraçada aos seus joelhos e olhando aquela coisa. Eu queria saber o que era, por isso peguei de sua mão sem a sua permissão e comecei a analisá-lo, ela não protestou. A pequena pedra em minha mão era idêntica a Joia de Quatro Almas, tanto no tamanho quanto na cor — O que você faz com a Joia de Quatro Almas? — eu perguntei a olhando, eu estava um pouco confuso. Como pode ainda existir?
— Não é de verdade — ela disse me estendendo a mão para pegá-la de volta, eu a entreguei, ainda intrigado com o que aquilo poderia ser... Era idêntica a original. — Acho que você sabe que eu vim de uma Era no futuro, 500 anos mais precisamente — eu nada disse, apesar de saber que ela não era desse tempo. Verdadeiramente, eu sabia muito de Kagome, afinal ela é uma humana de outro tempo... E nunca me temeu, mesmo com medo. E eu sempre quis saber o porquê, mesmo não demonstrando — Na minha Era eu moro num templo, o templo Higurashi e lá somos conhecidos por sermos os guardiões da Joia — eu a olhei como se dissesse “sério?”, a Joia já não existia na época dela — E lá distribuímos, ou vendemos, esses amuletos com replicas da Joia.
— Mas a Joia verdadeira não existe mais — eu disse olhando para a lua.
— Eu sei — ela voltou a falar — Mas as pessoas de minha Era acreditam em tradição. — Senti cheiro de lágrimas e quando olhei para Kagome, ela estava de cabeça baixa e chorava baixinho.
Ouvi-la chorar ao meu lado estava me incomodando um pouco, afinal estava claro que era um choro sofrido, um choro de dor. Eu queria saber por que ela chorava, e mais ainda porque ela ainda não me pediu para ir embora e deixá-la só. Dei um sorriso irônico, minha curiosidade me leva a cada coisa...
— Porque choras? — eu perguntei baixinho, na esperança dela não escutar. Mas ainda assim expondo minha curiosidade em voz “alta”.
— Porque eu perdi uma pessoa muito importante para mim — ela me respondeu sem me olhar, então não viu minha cara de espanto por ela ter escutado, realmente Kagome mudou muito... — Meu avô faleceu essa semana que passou, por isso não estava aqui — então foi por isso... — Não podia chorar na frente da minha mãe, ela estava acabada e durante uma semana eu segurei a minha dor.
Não resisti e acabei arrumando o laço de seus cabelos – que já estava me incomodando desde quando eu coloquei os olhos nele – a pequena fita vermelha estava com um laço perfeito agora, depois acabei acariciando os cabelos dela – seu cabelo é tão macio -, o que fez a mesma levantar a cabeça um pouco assustada e curiosa. Aqueles azuis ficavam tão lindos enquanto derramavam algumas lágrimas. — Sabe que eu não entendo vocês humanos, mas sei como é perder alguém importante — Eu não me mexi enquanto falava, sinceramente eu sabia que ela precisava de ajuda, mas eu não sei ao certo como fazê-lo — Mas sei também que isso passa...
Ela me dirigiu um sorriso e murmurou um obrigada, abaixando a cabeça novamente. Eu ainda fiquei a olhando tentando entender o porquê eu dirigir essas palavras a ela. Eu não me importo com Kagome, então porque senti a necessidade de falar com ela? De tentar acalmá-la? Isso não é de meu feitio... Escutei Kagome se movimentar ao meu lado e logo sinto um leve impacto em meu braço direito.
Kagome dormia encostada a mim. Como ela pode dormir assim? Ela esquece que eu sou um youkai? Dei um suspiro cansado, me levantei e a peguei em meu colo, ela se aconchegou mais a mim, não acordou em nenhum instante. Eu gostei da sensação de tê-la assim, próxima, mas eu sou um Daí-youkai e não posso ter afeição por humanos... Rin é uma exceção. Segui de volta para a cabana, tentando reprimir aquele sentimento de proteção que crescia cada vez mais dentro de mim.
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