Já se passava da meia noite quando Maria abria o pequeno e estreito portão para entrar em casa. Ela passava a chave e o fechava com cuidado, mas era impossível não ouvir o barulho do ferro já enferrujado pelo tempo.

A casa ficava dentro de uma vila de pequeninas residências num bairro perto do centro principal da cidade.

Lá morava Maria com o pai Pepe e a tia Felipa.

O pai também sempre fora muito presente e trabalhador, foi carregador de caminhão de frutas do Mercado Municipal durante toda a vida, porém foi obrigado a deixar de trabalhar devido a idade e um problema no joelho.

Maria era filha única, sua mãe morrera quando ainda era uma criança, lembrava-se pouco dela, mas a tia paterna Felipa substituíra com louvor esse papel materno em sua vida.

Felipa era lavadeira, trabalhava alí mesmo nos tanques da vila com outras mulheres vizinhas e companheiras de profissão.

Maria por sua vez, começou a trabalhar desde cedo para poder ajudar a família e terminar os estudos.

Atualmente tinha dois trabalhos, de dia ajudava a tia com a roupa carregando as troxas pesadas, lavando, entregando e a tarde até a noite ajudava num bar no centro da cidade.

Pepe: Hoje chegou muito tarde, filha! — dizia sentado no sofá bebendo um copo de leite.

Maria: Sim papai! Hoje a noite foi cheia, o bar estava lotado...

Pepe: Filha não gosto que chegue tão tarde, é perigoso!

Maria: Papai eu preciso trabalhar e não tem perigo não. Eu sei me cuidar, não se preocupe. — Maria beija a testa do pai e se dirige ao quarto — Agora eu vou tomar um banho e dormir porque eu preciso. Boa noite!

Pepe: Boa noite, filhinha!

...

Ao mesmo tempo do lado nobre da cidade, um porshe branco adentrava numa mansão.

Um rapaz alto e forte entra pela porta da sala principal e um mordomo vem ao seu encontro.

Josué: Boa noite, senhor Nando! O Senhor seu pai está o esperando no escritório e disse para ir até lá quando chegasse...

Nando: Fala pro meu pai que estou muito cansado Josué. Amanhã nos falamos, obrigado! — ele bate nas costas de Josué gentilmente e sobe em direção ao seu quarto.

Por sua vez, o mordomo avisa o senhor Antonio que seu filho preferira subir para seus aposentos, é então que o pai contrariado vai ao seu encontro.

Antonio: Eu disse que queria falar com você! — diz entrando sem cerimônias no quarto do filho e encontrando-o deitado na cama ainda vestido como chegara da rua.

Nando: Pai, será que não podemos falar amanhã? — Nando esfregava os olhos.

Antonio: Eu disse agora, Nando! Você me deve algumas explicações...

Nando: Como por exemplo? — o filho já sentava na cama com dificuldade e ia tirando os sapatos

O senhor Antonio observava o filho um pouco mais lento e percebe que havia ingerido álcool.

Antonio: Porque não foi na reunião da empresa? Eu convoquei você na qualidade de 1o herdeiro. Era uma reunião importante onde iriamos decidir o futuro da empresa, empresa essa que um dia será sua!

Nando: Pai, o senhor sabe que eu não tenho o menor interesse em...

Antonio: Você não tem interesse em nada, Nando! — interrompe — A empresa que seu avô criou, a maior empresa do ramo turístico do nosso país! Referência nacional e mundial, o seu futuro e da família que virá ter um dia e você simplesmente não aparece na reunião em que eu e os principais acionistas vamos decidir quem será nomeado o vice presidente. — apontando para o filho, dando a entender que o cargo seria entregue a ele.

Nando: Pai, eu já disse que eu não quero ser vice presidente de coisa nenhuma. Quantas vezes eu tenho que dizer ao senhor que meu ramo é a fotografia?

Antonio: Fotografia, o que?! Isso não vai te levar a lugar algum!

Nando: Pai, o senhor nunca parou pra pensar que eu posso ser bom no que faço?

Antonio: Fernando, você não faz nada! A unica coisa que quer é ficar viajando, vivendo na farra, chegando assim alterado em casa...Sua vida é festas, bares...Quando criará juízo? — enfurece-se o pai.

Nando: Talvez quando o senhor levar o meu trabalho a sério ou então quando eu finalmente for embora dessa casa pra viver a minha vida! — diz bravo também.

Antonio: E assim você vai destruir o nome da nossa família? Saindo de casa, vivendo essa vida de farra, estampando as primeiras páginas dos jornais... Deixando nosso nome na boca do povo?

Nando: Pai, não seja exagerado! Eu posso viver do meu trabalho...

Antonio: Se você tivesse dinheiro para investir, mas se sair de casa e insistir em tirar fotos, do meu dinheiro você não verá um centavo!

Nando: Então porque não quero seguir os mesmos passos profissionais que você , você me deserda?

Antonio: Quero que você cresça, que tenha juízo, Fernando!

Nando: Não pai, você quer que eu seja como você!

Antonio: E o que há de mal em seguir os passos do seu pai e do seu avô?

Nando: Que eu tenho outra vocação, pai! O senhor não entende que eu tenho meus próprios sonhos, quero seguir meus próprios passos e que eu posso ser muito bom no que faço?

Antonio: Não entendo, Nando! E fique sabendo que transferi a reunião pro começo da semana que vem e espero que você esteja lá sentado ao meu lado na hora marcada, nem um minuto a mais nem um minuto a menos. Boa noite!. — E sai do quarto do filho, batendo a porta.

Nando respira profundamente e joga-se de novo na cama, com as mãos no rosto, pensativo.

O que seria preciso fazer para que seu pai entenda e aceite sua verdadeira vocação?

...

O relógio marcava 6 horas da manhã, Dom Pepe saía do quarto ainda com cara de sono. Maria estava na cozinha conversando com tia Felipa enquanto jogava a água quente no coador cheio de pó para fazer o café.

Maria: Senta papai, o café ja está saindo. Comprei o jornal, está encima da mesa...

Pepe: Obrigada, filha. Preciso mesmo dar uma olhada nos jornais. — diz ele abrindo e passando os olhos atentos pelas páginas enquanto esperava seu dejejum.

Felipa: Que interesse todo é esse pelo jornal, Pepe? — comendo um pedaço de pão com manteiga.

Pepe: Estou procurando emprego, minha irmã! — respondia sem sequer tirar os olhos das páginas. Maria o olha surpresa, colocando o bule de café na pia imediatamente.

Maria: Que história é essa de procurar emprego, papai?

Pepe: Isso mesmo, filha! Quero voltar a trabalhar.

Maria: Mas pai, eu trabalho e com o que eu ganho no bar e ajudando a tia Felipa podemos viver!

Pepe: Maria, voce trabalha demais! Além disso, mesmo assim você ganha muito pouco e não é justo que sustente a nós e toda a casa.

Felipa: Mas eu também trabalho...

Pepe: Eu sei mas também posso trabalhar... Eu sou velho mas não sou inválido!

Maria: Eu sei papai, mas o seu joelho...

Pepe: Também não gosto que você chegue tarde toda noite! Não, já está resolvido. Eu vou voltar trabalhar! — riscando alguns anúncios.

Maria e tia Felipa se olham sabendo que não adiantaria mais discutir, então resolveram terminar a conversa alí. Ainda havia muito trabalho a ser feito. Maria tinha que levar 2 troxas de roupas limpas as suas devidas casas e buscar a roupa suja.

Passou a manhã toda andando de lá pra cá pela cidade, buscando e entregando roupas nas casas mais "granfinas" da cidade.

Chega em casa, faz o almoço e ja se prepara para ir pro bar.

Poderia pegar um ônibus, mas estava acostumada a andar, além disso gostava de caminhar pela cidade.

Durante o caminho, Maria encontra com Vicente, seu amigo de infância.

Vicente e Maria moram na mesma vila desde criança, estudaram juntos e foram namoradinhos durante a adolescência, um namoro passageiro. Para Maria hoje Vicente não passa de um bom e velho amigo, já ele não pensa o mesmo sobre ela...

Vicente: Oi Maria, já tá indo pro bar?

Maria: Sim, o senhor Alfredo pediu para eu chegar cedo. E você pelo jeito está voltando pra casa agora, acertei?

Vicente: Ah, tive algumas coisas pra resolver aí... — tentando justificar-se.

Maria cruza os braços vendo as voltas que o amigo dava — Não precisa me dar explicações, Vicente!To indo pro trabalho, a gente se você, tchau!

Chegando no bar, o dono seu Alfredo vem falar com Maria.

Alfredo: Maria, precisamos conversar! Na verdade, eu tenho uma proposta a lhe fazer.

Maria: Pode falar, seu Alfredo.

Alfredo: Essa semana inauguramos o palco do bar e Leon, o rapaz que virá tocar aqui está precisando de uma voz feminina para acompanhá-lo nas músicas. Já vi cantarolando pela cozinha e falei de você pra ele...O que pensa a respeito?

Maria: Eu não sei se consigo, eu nunca cantei assim pras pessoas!Além disso, como fica o meu trabalho na cozinha e servindo as mesas?

Alfredo: Consegue sim, você é ótima!Quanto ao seu trabalho, você ajuda na cozinha de tarde e a noite canta com ele. Claro que te pagarei um pouco mais por isso.

Maria: Tudo bem e quando eu começo?

Alfredo: Hoje a noite!

Passam algumas horas e Maria começa a se preparar para a apresentação de logo mais a noite, ensaia algumas músicas tradicionais com Leon e as outras garçonetes ajudam Maria a dar um jeito no visual

Maria vestia uma calça jeans clara, colocaram-na uma blusa frente unica branca com pequenos pontos de brilho, um sapato mais alto para dar-lhe um pouco mais de postura ao palco e prenderem seus cabelos cacheados e rebeldes num coque mal feito, deixando alguns cachos cairem sobre o rosto e ombros. Ajudaram na maquiagem e lá estava Maria pronta pro show.

...

Josué bate na porta e entra no quarto de Nando que terminava de se vestir frente ao espelho.

Josué: Senhor Nando, seu carro já está pronto!

Nando: Obrigada Josué, já vou descer! — dizia terminando de prender o cinto.

Ao descer as escadas encontra com senhor Antonio que o indaga.

Antonio: Já vai sair de novo?

Nando: Sim, não precisa me esperar pra jantar. — pegando a chave do carro da mão de Josué.

Antonio: E eu posso pelo menos saber aonde vai?

Nando: Sair, pai. Boa noite! — sai em direção ao seu porshe branco e o arranca de uma só vez mansão afora.

Antonio olha sério pra Josué — Mais um dia de farra. Quando meu filho vai criar juízo naquela cabeça?

Josué: Não se preocupe senhor, logo o senhor Nando arranja uma namorada, se casa e sossega!

Antonio: Ah Josué, como eu queria que isso acontecesse logo. Que o Fernando encontrasse logo uma boa moça, se casasse, me desse netos e finalmente assumisse o seu verdadeiro lugar dele na empresa. Mas a cada dia vou perdendo mais as esperanças...

Josué: Não fale assim, senhor Antonio! O senhor Nando é um bom rapaz! Além disso, muitas moças de boas famílias o cortejam e gostam dele.

Antonio: Isso é que me preocupa, Josué. As moças das familias mais próximas a nós são tão ou piores sem juízos que ele! Se ele se envolver seriamente com algumas delas, será o caos!

Josué: Então, senhor? — ele olha o patrão sem entender muito bem.

Antonio: O que meu filho precisa é de uma boa moça, Josué. Uma moça séria, que não pense somente em compras, em se exibir nas festas da alta sociedade... Só vejo essas garotas nas mesmas farras que ele.

...

Nando: Vamos, Eduardo! Não estou afim de ficar em casa, meu pai não para de pegar no meu pé. Preciso de ar, de bebida, de boa música... — dizia Nando ao celular com o melhor amigo enquanto dirigia.

Eduardo: Não te dou certeza, cara! Mas qualquer eu te encontro lá.

Nando resolve ir a um bar no centro da cidade. Não era exatamente um bar frequentado pelas pessoas do seu convívio social, mas era exatamente isso que ele queria.

Estava cansado das pessoas chamadas "do seu nível", dos mesmos lugares, das mesmas pessoas, das mesmas conversas. Precisava ir a outro lugar, ver novas pessoas, novos ares como ele mesmo disse ao amigo.

Chega no bar encosta no balcão e pede uma bebida. Olha envolta e vê dois rapazes montando uma instrumentação no palco, pergunta ao barman:

Nando: O que vai ter essa noite?

Barman: Hoje será a estréia de uma "nova cantora", dizem que é muito boa! — prefere resumir-se o rapaz, aproveitando para fazer uma boa propaganda da futura atração a fim de realçar a curiosidade de Nando pelo show de logo menos.

Nando se encosta e espera que a atração comece. Queria mesmo ouvir boa música.

Ele olha algumas moças que o cercavam. Nando era alto, porte atlético dado aos anos de colégio e faculdade que praticava futebol americano e basebal.

Tinha a pele bronzeada, olhos cor de mel, maxilar largo, lábios carnudos, cílios longos e um sorriso terrivelmente encantador. Com cabelos castanhos quase loiros, curtos e os deixava um pouco mais bagunçados.

Chamava atenção por onde passava e geralmente andava muito bem vestido.

Estava com uma camisa branca com as mangas dobradas até o antebraço, uma calça social cinza e sapatos pretos. Usava sempre um terço preto no pescoço por debaixo da camisa, terço esse que ganhou de sua falecida mãe.

Maria esperava numa salinha que ficava ao lado do palco do bar. Ali ela e Leon faziam as ultimas combinações sobre as músicas que apresentariam naquela noite.

Ela estava um pouco nervosa, mas Leon era músico experiente e tratava de acalmá-la.

Finalmente seu Alfredo apresenta a atração da noite. Todos estavam curiosos pela nova cantora.

Maria e Leon se posicionam e ele começa a tocar. A voz de Maria era doce porém presente e apesar da timidez, formava uma figura graciosa no palco.

Nando gostava do que ouvia, realmente era uma boa dupla. Vira-se para observar melhor e fica apoiado no balcão, observando a moça cantar e bebendo seu drink.

"Era bonita", pensou ele. Mas não foi muito além disso. Haviam muitas moças bonitas por ali, algumas demonstravam claramente interesse em se aproximar dele.

De certo modo ele estava acostumado com isso, mas não era algo que lhe subia a cabeça.

Nando apreciava uma boa conversa e personalidade e na sua opinião, aquilo estava raro de encontrar nas noites . Na verdade, não estava em busca de nada, só querendo respirar novos ares e ver gente diferente.

Segue tudo como esperado, o público dá um ótimo retorno a dupla e Maria vai ficando mais a vontade no palco.

O show chega ao fim e era a hora do DJ tomar a frente com a música.

Maria e Leon voltam para a sala anterior e ele e seu Alfredo vão agradecer e parabenizar a moça pela excelente apresentação.

Maria apesar de mais calma ainda tremia um pouco e o dono do bar resolve dar o resto da noite descanso pelo bom trabalho executado.

Ela resolve ir até o balcão e pedir um pouco de água, respirar um pouco antes de ir pra casa.

Um rapaz tenta uma aproximação:

"Parabéns, você canta muito bem!" — diz se encostando cada vez mais na moça.

Maria se surpreende com a rapidez do rapaz, dá um passo pra trás e agradece o elogio, batendo no balcão esperando sua garrafa d'água para sair logo dalí.

Ele insistia.

"Você canta em muitos lugares?Quer dizer, canta e encanta!" — fazia o galanteador efusivo quase se encostando nela.

Maria: Será que você pode me dar mais espaço? — dizia ela.

"Espaço pra que? Vc fica muito melhor assim, bem juntinho de mim!" — passa a mão pela cintura dela e a traz num tranco pra junto de si. Dava pra sentir de longe que ele havia usado alcool e fumo. Estava bêbado, talvez drogado e consequentemente bem mais forte do que ela.

Nando vira o rosto bebendo seu drink e vê o casal. Reconhece que a moça trata-se da cantora de logo antes. Percebe também que não era necessariamente um casal. O rapaz segurando-a notóriamente a força e ela por sua vez tentando se esquivar.

Não pensa duas vezes e vai até lá. Mesmo que se tratasse de um casal de namorados, não se segura nenhuma mulher assim contra sua vontade, pensava ele. E aproveitando que estava já um pouco mais solto pela bebida, não seria difícil deixar sair umas boas verdades para o tal troglodita.

Nando: Ei, acho que a moça quer ficar sozinha! — indaga Nando ao rapaz.

Os dois o encaram de forma dferente, Maria surpresa e o rapaz com uma expressão irada.

"E quem é você?" — pergunta ele para o intrometido Nando.

Nando: Sou alguém que jamais agarraria uma mulher contra a sua vontade. — nesse momento

Maria já havia se desvencilhado das garras do rapaz que insistia em permanecer ali do seu lado. — Acho melhor você deixá-la em paz e ir embora daqui!

"Eu acho que você está achando demais!" — tentando iniciar uma briga.

Nando não se intimida e dá um passo a frente encarando o rapaz por cima.

Maria, que estava acostumada a separar brigas nos bares, coloca-se no meio dos rapazes — Acho melhor vocês dois se acalmarem ou então irem resolver suas diferenças lá fora, ninguém aqui dentro é obrigado a presenciar uma competição de quem está mais bêbado! — diz ela nervosa entre os dois.

O rapaz beija sinica e rapidamente o ombro dela, que o empurra com força pra longe, quase derrubando-o no chão.

Nando o encarava sério, olha rapidamente pra ela sem mudar a expressão e sai sem dizer nada.

Maria pega sua água e vai se trocar, tirar toda aquela produção pra finalmente ir embora pra casa.

Coloca seus pertences numa mochila e passa pelo bar pra ir embora.

Quando passa pelas mesas que ficam na calçada frente ao bar, vê Nando sentado sozinho.

Pensa que foi rude com o rapaz que tentou ajudá-la. Vai até ele...

Maria: Olá! — diz sem saber o que dizer.

Nando a olha sério e nada diz.

Maria: Obrigada por me ajudar a escapar daquele cara, não quis ser rude com você!

Nando sorri irônicamente: Deu pra perceber com toda a sua grosseria.

Maria: Eu trabalho aqui, estou acostumada com investidas de bêbados... Sei me defender!

Nando: Isso também deu pra perceber. — ainda irônico.

Maria se irrita com as ironias do rapaz, foi ali para agradecer e pedir desculpas, não para aguentar aquele tipo de reação. — De qualquer forma, obrigada! Boa noite.

Mas antes que pudesse sair, Nando se levanta ficando frente a ela olhando-a nos olhos.

Agora sim poderia reparar um pouco melhor no rosto dela, era realmente muito bonita, pensava ele sem querer estender-se nesses pensamentos.

Nando: Não precisa agradecer, qualquer pessoa teria feito o mesmo! — sorri.

Maria sabia que não, pois trabalhava no bar a bastante tempo.

Realmente estava acostumada a ouvir galanteios e investidas mais atrevidas de rapazes que passavam dos limites na bebida e tivera que aprender a defender-se sozinha e desvencilhar-se disso, pois os frequentadores mal olhavam na cara das pessoas que trabalhavam ali.

Maria: De qualquer forma obrigada! — despede-se dele.

Nando: Não por isso... — responde e acompanha com o olhar Maria atravessar a rua e virar a esquina desaparecendo do seu campo de visão.

Resolve por terminar seu ultimo drink e ir embora pra casa, a essa hora seu pai já estaria dormindo e no dia seguinte iria acordar cedo para ir buscar sua avó no aeroporto.

Nando foi criado pelo pai Antonio e pela Avó Carmella, por quem ele era extremamente apaixonado.

Uma doce jovem senhora que quase sempre estava em viagem, atrás de conhecimento, outras culturas, novos costumes e que apesar da sua idade estava sempre a frente do seu tempo e recíprocamente também era louca pelo seu neto.

...

Maria chega em casa e conta para o pai e tia Felipa sobre o ocorrido, o pai não se agrada muito da idéia da filha começar a cantar em bares, mas Maria afirma que o dinheiro viria em boa hora e o trabalho era como qualquer outro.

E assim, vai logo pra cama. Precisava dormir pois o dia seguinte era sabado, dia de ajudar a tia Felipa com as roupas.

Mas o sono estava difícil de chegar. Havia tido muitas emoções naquela noite, o show, a briga entre os 2 rapazes... E o rapaz que a ajudara.

Quem seria ele, perguntava-se Maria.

"Provavelmente um riquinho como a maioria dos outros rapazes que frequentava o bar" — respondia ela — "deveria estar esperando a namorada" — concluia.

Ainda lá no bar, uma moça se aproxima da mesa de Nando. Ele paga-lhe uma bebida.

Ela deixa bem claras suas intenções com ele e depois de algumas conversas e bebidas, Nando resolve por passar a noite com ela.

...

No dia seguinte Maria levanta cedo para ajudar tia Felipa com as roupas.

Felipa: Me conta essa história direito, então a partir de agora você vai cantar no bar também? — dizia enquanto esfregada a roupa no tanque.

Maria — Só alguns dias na semana, tia. Nos outros vou continuar ajudando na cozinha e servindo as mesas.

Felipa: você sabe o quanto o seu pai vai pegar no seu pé por causa disso, né?

Maria: Ele vai acabar entendendo! Nós precisamos desse dinheiro e veio muito a calhar.

Felipa: Agora me conte como foi ontem!

Maria conta à tia sobre sua estréia no bar, sobre as musicas que cantou e a reação do público. E por fim resolve contar sobre o rapaz que a ajudou.

Felipa: Mas ele chegou a bater no rapaz bêbado? — interessada.

Maria: Não porque eu não deixei! Já imaginou se acontece uma briga por minha causa?

Felipa: Acho que você já começou roubando corações! -rindo.

Maria: Não é nada disso, tia. Eles estavam bêbados!

Felipa: E como ele era?

Maria: Ele quem?

Felipa: O rapaz que te ajudou!

Maria: Ah tia, acha que eu reparei nessas coisas?

Felipa: Maria, você o viu, falou com ele e até discutiu, depois voltou pra agradecer! Teria como não notar? Como ele era?

Maria: Sei lá... Alto, forte, meio loiro...

Felipa: Hum parece ser um rapaz bonito! E a cor dos olhos? Azuis?

Maria: Não sei, tia! Acho que não.E que conversa é essa? — volta a esfregar a roupa com força. — Vamos terminar essa roupa, vai!

Felipa ri imaginando que Maria realmente se surpreendeu com a atitude do misterioso rapaz. Sempre contava pra tia sobre as péssimas atitudes dos rapazes no bar e de como tratavam desrespeitosamente as moças na noite. Realmente encontrar alguém disposto a ajudar era uma raridade nesses lugares.

...

Nando tinha dificuldades em abrir os olhos. Sua cabeça doía demais, ele olha para os lados e se dava conta que não estava no seu quarto.

Ao seu lado estava a moça com quem passara a noite. Não lembrava o nome dela, na verdade não lembrava de quase nada sobre a noite anterior.

Sentou-se na cama sem saber direito o que fazer. Não queria acordá-la, não queria falar com ela, nem sobre o acontecido entre eles.

Esfregou as mãos no rosto, a moça acorda e o abraça pelas costas.

"Bom dia", disse ela beijando seu pescoço.

Nando se sentia desconfortável, não fazia idéia de quem ela era. Ele levanta e começa a se vestir.

"A noite passada foi incrível! Esse motel é maravilhoso, podíamos voltar aqui mais vezes" — dizia ela sentando na cama, observando o quarto.

Nando somente olha sério pra ela, não pretendia voltar a vê-la.

Já vestido ele pega todos seus peternces e senta na cama.

Nando: Agradeço pela...companhia, mas eu preciso ir embora! Não se preocupe, vou deixar tudo pago!

"Ah não, pensei que fossemos ficar mais tempo aqui!", se insinuava ela.

Nando: Eu não posso!Tenho um compromisso importante agora cedo, na verdade já estou atrasado.

"Vamos nos ver novamente?" — passava a mão pelos braços dele, mordendo os lábios.

Nando prefere ser sincero, não tinha intenção de voltar a vê-la. Não sabia sequer o seu nome e preferia assim. — Não quero que me leve a mal, como eu disse gostei muito da sua companhia! Mas eu acho melhor isso acabar aqui.

"Por que? Você é casado?"

Ele percebe a insistencia da moça, sabia que se dissesse não ela ficaria atrás dele, então resolve mentir para colocar um ponto final naquilo tudo. — Sou sim! -diz.

A moça mostra-se conformada. Nando trata-a educadamente, paga a estadia no motel e um táxi para ela. Podia ter muitos defeitos, mas mesmo entre "trancos e barrancos" era um cavalheiro.

Precisava correr para o aeroporto, precisava buscar sua avó que chegava de viagem.

Pelo caminho, por três vezes teve flashes do que aconteceu naquela noite. Em um deles veio em sua mente o rosto de Maria.

"Menininha briguenta!" — diz sorrindo enquanto lembra dela. Mas logo sua mente era tomada por outros pensamentos.

...

Maria andava pelas ruas da praça da catedral levando uma pesada troxa de roupa suja. É então que 3 rapazes a cercam para conversar, eram os amigos de Vicente.

Vicente: Hoje é sábado, Maria! — diz pegando a troxa das suas mãos.

Maria: Quem precisa trabalhar não vê sábado ou domigo, meu bem!

Vicente: Fiquei sabendo do show que você fez no bar ontem. Como seu pai reagiu? — dizia mudando sua rota e seguindo com ela pra casa, ajudando com a roupa pesada e deixando os amigos pra trás.

Maria: Não reagiu muito bem, você conhece ele! Mas esse trabalho veio em boa hora e eu vou continuar cantando enquanto precisarem de mim!

Eles chegam em frente ao portão da casa de Maria. Ela pega a troxa da mão de Vicente, o agradece e entra em casa.

Maria: E o meu pai? — pergunta à tia Felipa.

Felipa: Saiu cedo, não tomou nem o café em casa. Não faço idéia pra onde foi.

Maria: Que estranho...

...

Dom Pepe andava na calçada com o jornal na mão, procurando o endereço do anúncio. De repente um homem forte e alto passa por ele as pressas, trombando em seu ombro sem nem ao menos olhar pra trás. Deixa cair um envelope no chão e não se dá conta disso. Dom Pepe se abaixa e pega o envelope, olha a direção que o homem caminha e resolve ir atrás dele.

Ele andava muito mais devagar que o ele, devido ao problema no joelho, mas mesmo assim não desiste e segue-o.

O homem para em frente a um carro muito luxuoso. Se aproxima devagar e de forma humilde bate no vidro do carro.

Percebe que há uma discussão ça dentro, do homem que já ocupava o banco do motorista parecia estar levando bronca do outro homem no banco de trás.

"Como você perde algo tão importante?" .

Ele bate no vidro novamente e o motorista abre o vidro já cheio de raiva.

"O que quer?" — dizia com muita rispidez.

Pepe: Perdão senhor, mas o senhor deixou cair esse envelope. Eu peguei do chão e vim atrás para devolver. — estendendo o envelope.

"E como vou saber que não roubou nada daqui?"- questionava ele.

Pepe: Eu nem ao menos sei o que tem aí dentro, senhor!Eu vi que é seu e quando caiu do seu paletó.

Senhor Antonio abaixa o vidro de trás do carro olhando perplexo para Dom Pepe e sua honestidade. Havia muito dinheiro naquele envelope.

Antonio: Senhor? Será que poderia entregá-lo a mim? — estendia a mão para Dom Pepe q entrega o envelope imediatamente.

Seu Antonio abre e vê o dinheiro ainda lacrado do mesmo jeito que saiu do banco. Olha novamente a Dom Pepe.

Antonio sai do carro e observa a figura simples e honesta de Dom Pepe. — Não tenho como agradece-lo! Será que tem alguma forma de retribuir esse seu gesto?

Pepe: Não precisa!Só devolvi algo que pertence ao senhor...

Antonio: E o que fazia na rua nesse exato momento que viu o envelope cair?

Pepe: Bom, na verdade eu estava procurando o endereço do anuncio do jornal. Estava procurando emprego.

Antonio: E com o que o senhor trabalha?

Pepe: Eu posso trabalhar com qualquer coisa, senhor!

Antonio: Sabe dirigir?

Pepe: Claro que sim! Eu trabalhei por 25 anos dirigindo e carregando caminhão de frutas daqui do Mercado Municipal.

Antonio: Caso lhe interesse, peço que vá amanhã nesse endereço! — tira um cartão do terno e entrega a Dom Pepe. — Como o senhor se chama?

Pepe: Me chamo Pepe Gonzáles!

Antonio: Te espero amanhã, senhor Pepe! Muito obrigada e até amanhã! — estende a mão ao bom homem e entra no carro indo embora.

Dom Pepe fica parado lendo o nome do cartão: "Antonio Vergara". Seria seu dia de sorte?

...

Carmella: Meu amor, que saudades eu estava de você! — abraçando forte o neto.

Nando: Ah, eu também estava vó! — pegando as bagagens da avó.

Carmella: E como estão as coisas lá em casa?

Nando: O mesmo de sempre, meu pai pegando no meu pé por tudo!

Carmella: E você pelo jeito também continua o mesmo. Ou vai me dizer que dormiu em casa? — reparando na expressão cansada e as roupas amassadas dele.

Nando: Eu saio de casa pra poder respirar, vó!

Carmella: Os dois precisam aprender a ceder um pouco, meu amor!

Nando: Eu acho difícil algo parecido acontecer.

Carmella: Me conte o que andou aprontando. Onde passou a noite?

Nando: Ah vó, não quero te contar essas coisas!

Carmella: Nando, desde quando há segredos entre a gente?

Nando: Fui a um bar ontem. Conheci uma garota e oresto dá pra imaginar!

Carmella: E qual o nome dela?

Nando: Eu não sei, vó. Na verdade foi uma noite estranha.

Carmella: Nando, até quando você vai insistir com essas moças que...

Nando: Vó, eu não to insistindo — interrompe ele — Simplesmente aconteceu!

Dona Carmella fica em silêncio. Nando a olha de lado, dirigindo pra casa.

Nando: Eu conheci uma outra moça...

Carmella: Quem?

Nando ri de si mesmo — Na verdade eu também não sei o nome dela. Ela canta lá no bar. Canta muito bem por sinal.

Carmella: E vocês conversaram?

Nando conta como foi com Maria e a reação da moça.

Carmella: Esta aí, eu gostei dela!

Nando fica pensativo por uns instantes e muda de assunto.

...

Maria: Mas assim, do nada o homem disse que vai te conseguir um emprego?

Pepe: Ele parece ter muito dinheiro, filha!Pelo carro, pelo homem que trabalhava com ele, pelo jeito que falava...

Maria: Ele provavelmente se surpreendeu com a sua honestidade, papai! E saiba que eu tenho muito orgulho do senhor! — abraça e beija a testa do pai.

Pepe: Também sinto muito orgulho de você, meu amor! E se realmente conseguir um bom trabalho, você pode deixar o bar.

Maria: Ah não, papai! Eu não quero deixar de trabalhar, o senhor sabe que eu sempre trabalhei!

Pepe: Eu só quero um emprego melhor pra você, que não precise chegar tão tarde em casa, andar sozinha de noite pela rua, aguentar bêbados e inconsequentes. Você precisa pensar mais em você, arranjar um namorado. Na verdade filhinha, você ja está na idade de casar, me dar netos...

Maria: Papai, acho melhor mudarmos o rumo dessa conversa. Aliás, você não tem que ir lá na casa do tal senhor?

Pepe: Eu já vou. Mas essa conversa continuaremos depois!

Maria: Boa sorte lá.

...

Dom Pepe chega na mansão da Família Vergara, como dizia uma placa banhada a bronze no alto do portão.

Era uma mansão surreal, Dom Pedro nunca havia visto uma propriedade tão grande.

"Com certeza eu vou me perder aí dentro" — pensava.

Disse seu nome ao porteiro que imediatamente avisa sua chegada ao mordomo. Minutos depois ele já estava na entrada principal e Josué levando-o até o escritório onde o senhor Antonio o aguardava.

Pepe: Boa tarde, senhor Antonio! — estendia a mão.

Antonio: Boa tarde, Pepe!Sente-se, por favor. — cumprimentava-o. — Pepe, confesso que fiquei muito surpreso com a sua atitude de ontem. Devolver assim um envelope com uma quantia tão alta em dinheiro realmente conota uma grandeza de carater.

Pepe: Não fiz nada de mais, senhor! O homem deixou cair por acidente o envelope. Eu o peguei, mas aquilo não era meu, independente do que tinha lá dentro.

Antonio: Você havia me dito que estava procurando emprego.

Pepe: Sim. Eu preciso e quero voltar a trabalhar. Fui afastado do meu antigo trabalho por causa do meu joelho e da minha idade. Tenho uma filha e uma irmã muito boas que me ajudam, principalmente minha filha que trabalha de dia e de noite. Mas eu sou o pai e quero tirar um pouco o peso de cima dela.

Antonio: Eu te entendo, Pepe! Bom, na verdade eu preciso de um motorista. Mais do que isso, de um homem de confiança. Aquele homem que você viu é o meu segurança, que está desempenhando essas 2 funções.

Pepe: Imagino que o senhor seja muito importante!

Antonio sorri de maneira humilde — Sou dono da maior empresa do ramo turístico do nosso país, Pepe! Essa empresa foi construída pelo meu falecido pai quando eu ainda era um garoto.Digamos que sou "importante" sim — fazia gesto de aspas com as mãos — Mas pessoas na minha posição sempre são muito visadas e nem sempre com boas intenções!Por isso precisamos de tantas pessoas trabalhando envolta da gente: Motoristas, seguranças.

Pepe: Entendo, senhor!

Antonio: Pela sua atitude de ontem, vi que você é um homem em quem se pode confiar. E então, aceita o emprego de motorista?

Pepe: Claro que sim! E o senhor não sabe o quanto lhe agradeço.

Antonio: Agradeça com seu trabalho e me provando que posso mesmo confiar em você!

Pepe: Inteiramente, senhor. Quando eu começo?

Antonio: Pode começar amanhã mesmo! Esteja aqui as oito horas, o Josué lhe passará todas as instruções.

...

Na segunda feira daquela semana, Dom Pepe começa a trabalhar para o senhor Antonio.

Era dia de reunião no Grupo Vergara, seria nomeado o vice presidente da empresa.

Senhor Antonio entra no quarto de Nando, que ainda dormia.

Antonio: Quero você pronto em 15minutos!

Nando: Pra quê? — tentava acordar e entender o que acontecia.

Antonio: Eu já disse pra que, hoje é a nomeação do vice presidente!

Nando: E eu já disse que não vou, pai!

Antonio: Se você não vai, pode arrumar suas coisas e procurar outro lugar para morar! — dizia em alto tom.

Nando: Pode apostar que sim! — esbravejando também.

Dona Carmella entra no quarto ao ouvir os dois exaltados.

Carmella: Posso saber o que acontece aqui?

Antonio: Seu neto precisa criar juízo, mãe!Crescer, ser alguém na vida.

Nando: E seu filho precisa aprender a respeitar as minhas escolhas, vó!

Antonio: A escolha é sua, Fernando! Ou esteja em 30 minutos na empresa ou procure outro lugar pra morar. — e sai do quarto.

Nando olha para a avó — O jeito é ir embora!

Carmella: Claro que não! Você vai se arrumar e ir pra empresa agora mesmo!

Nando: Mais vó...

Carmella: Não vai ser o fim do mundo também, Nando!Demonstre boa vontade em pelo menos ouvir as propostas do seu pai e dos acionistas!

Nando: Não tem proposta, Vó!Ele vai exigir que eu tome posse do cargo e pronto!

Carmella: Se ele fizer isso, você diz que não se sente ainda apto para ocupar tal cargo, que prefere ficar na empresa por um tempo observando e aprendendo algumas coisas. Nisso você usa esse tempo para mostrar ao seu pai que você é responsável. Com certeza ele vendo seu empenho entenderá que pode ser resonsável em qualquer trabalho que possa vir a escolher.

Nando: Ele não quer outro trabalho, quer que eu seja como ele!

Carmella: Nando, se você ceder ele também irá. Seu pai pode ser teimoso, mas é um homem justo! Confie em mim e faça o que eu digo.

Nando: Está bem, mas faço isso somente pela senhora!

...

No carro a caminho da empresa.

Pepe: Algum problema, senhor? — observando o jeito do patrão.

Antonio: Ah Pepe, esses filhos! Tenho muitos problemas com o Fernando.

Pepe: Essa juventude de hoje é mesmo muito inconsequente!

Antonio: Eu sei que na verdade ele é um bom rapaz. O problema é que ele é muito sonhador, não quer seguir os passos da família.

Pepe: E qual seria o problema dele ter outra profissão?

Antonio: Temo que essas escolhas o levem à ruína! Ele é meu único filho e se não tomar a frente do Grupo Vergara, a empresa que meu pai construiu com tanto esforço sairá da família!

Pepe: Entendo, senhor! E não imagina alguma solução para convencê-lo?

Antonio: No momento não!

Pepe: E se ele se casasse, senhor? Talvez a idéia de ter uma família o faça manter mais os pés no chão!

Antonio para e pensa no que Dom Pepe acaba de dizer — Não sei, Pepe! Pode ser que sim, mas as garotas com quem meu filho anda só ajudaria a chegar à ruina mais rápido! Essa juventude só pensa em festas, bagunça e diversão. Bom, você tem uma filha jovem, pode me entender!

Pepe: Na verdade não tenho o que me queixar da minha Maria! Ela é uma moça muito responsável, até mais o que precisaria pra idade dela. Ela trabalha de dia e de noite, praticamente sustenta a casa sozinha. E tudo isso pra não sobrecarregar minha irmã e a mim! Não é porque é minha filha, mas é uma menina de ouro.

Antonio: Pois eu te invejo, caro amigo! Gostaria de conhecê-la!

Pepe: Claro senhor, um dia a conhecerá!

Eles chegam no Grupo Vergara, trinta minutos depois Nando adentra e reunião deixando todos surpresos.

Nando ouve atentamente o que dizem os acionistas, o pai e os principais parceiros, advogados e etc.

A maioria dos presentes deixam claras as intenções de Nando assumir a vice presidencia da empresa.Ele seguindo o conselho da sua avó diz:

Nando: Eu agradeço a confiança de todos, mas como devem saber eu não tenho experiência para assumir um cargo tão importante. Minha área é a fotografia e não tenho condições para ser vice presidente! Com licença. — e sai da sala.

Todos se olham sem saber o que dizer, senhor Antonio passa a mão no rosto inconformado e vai atrás do filho, o pega pelo braço e e mesmo contrariado leva-o até sua sala.

Antonio: Quem você pensa que é para me fazer passar por isso na frente de todos?Seu irresponsável!

Nando: Pai, tenta entender que eu como vice presidente não daria certo!Mas fique despreocupado, hoje mesmo estou saindo da sua casa.

Antonio: E terá todos os seus cartões zerados, seu carro confiscado!

Nando: Eu já esperava por isso.

Antonio: E como viverá?

Nando: Eu tenho minhas economias, tenho meu equipamento de fotografia, eu tenho como trabalhar!

Nando: Filho, se sair não terá volta!

Nando: Eu sei, pai! Mas eu prefiro assim, começar do zero como o meu avô do que passar a vida toda sendo algo que eu não sou! Um dia vou provar para o senhor que posso fazê-lo ter orgulho de mim!

Eles se olham, os olhos de Nando enchem-se de lágrimas, mas ele sai logo da sala. Senhor Antonio fica estático, sem saber o que fazer.

...

Carmella: Mas você disse que iria seguir o meu conselho! — ao ver o neto arrumando suas malas.

Nando: Me perdoe vó, mas não pude! Meu pai não aceitaria um meio termo. Vai ser melhor assim.

Carmella: Mas você vai viver de quê, Fernando?

Nando: Do meu trabalho!Ou a senhora também não acredita em mim?

Carmella: Claro que acredito, sei o quão grande é o seu talento, meu amor! Mas eu me preocupo demais! — segurando o rosto dele.

Nando segura as mãos da vó e as beija. — Não se preocupe, dona Carmella! Eu já sou bem grandinho! -sorri.

Ele sai de casa e vai para um hotel onde passaria alguns dias.

Alguns dias se passam, Nando fica no hotel entrando em contato com empresas nas quais poderiam se interessar pelos seus serviços.

Seu Antonio passa dias terriveis. Triste, decepcionado e sentindo falta do filho. No fundo, sabia que não deixaria o filho sem nada e ainda estava tentando buscar uma solução para tudo aquilo.

Com o tempo, Dom Pepe se tornava cada vez mais confidente do patrão. Era um excelente motorista, em contrapartida implicava cada vez mais para a filha parar de trabalhar no bar.

Ele alegava que já ganhava um bom salário para sustentar a família.

Maria por sua vez continua trabalhando como garçonete e cantando algumas vezes por semana no bar, sempre contrariando seu pai, claro.

No geral ela o obedecia, mas quando se tratava de trabalho sempre batia o pé.

Numa manhã no meio da semana, dom Pepe andava com senhor Antonio pelo centro da cidade e avista filha carregando as troxas de roupas sujas.

Pepe: Veja, senhor Antonio! Aquela é a minha Maria! — mostrava a filha orgulhoso — Está levando as roupas para a tia e ela lavarem.

Senhor Antonio olha a moça caminhar. Era muito bonita e de longe demonstrava a energia ao carregar aquelas troxas notóriamente pesadas uma em cada braço. Seu jeito determinado de caminhar, seus cabelos rebeldes voando contra o vento que batia, seu olhar.

O homem observou Maria calado por algum tempo, até que finalmente falou — Quero conhecê-la Pepe, vamos até ela!

Dom Pepe segue com o carro até alcançar a filha, parando ao seu lado e chamando-a ate fazê-la parar!

Maria se assusta com a abordagem repentina, mas logo reconhece o pai e se surpreende, sorridente.

Pepe: Filha, o senhor Antonio meu patrão quer conhecê-la!

Maria não entende muito bem e fica parada, até senhor Antonio abrir a porta do carro e de dentro dele pedir para a moça entrar.

Antonio: Entre aqui Maria, vamos leva-la pra casa pra não carregar tanto peso!

Maria: Imagine, essa roupa esta suja! Eu levo sem problemas, estou acostumada.

Antonio sai do carro e pega as trouxas da mão dela — Eu insisto, filha! Assim aproveito para conhece-la melhor. — Dá passagem para ela entrar, mesmo receosa Maria entre e ele em seguida também.

Antonio: Prazer, sou Antonio Vergara! Seu pai fala muito de você! — estendendo a mão pra ela.

Maria: Prazer em conhecê-lo!- cumprimentando-o.

Antonio: Seu pai disse que tem dois empregos...

Maria: Não exatamente. Eu ajudo minha tia com as roupas de dia e a noite eu trabalho num bar. Sirvo as mesas, ajudo na cozinha...

Antonio: E não estuda?

Maria: Eu terminei o colégio e até tentei começar a estudar, mas não pude! O senhor deve imaginar...

Antonio: Sim, eu imagino! Seu pai me disse que você também gosta muito de ler, te convido pra ir um dia lá em casa conhecer nossa biblioteca!

Maria: Vocês tem uma biblioteca em casa?-surpreende-se.

Antonio: Sim e pode ir conhecer quando quiser! — sorri vendo o quanto Maria parecia ser uma moça inteligente.

Maria: Agradeço o convite, senhor! — vendo que ja chegavam em casa — E a carona também!

Senhor Antonio ajuda Maria a retirar as troxas do carro. Eles se despedem e cada um segue para seu lado.

Pepe: E ai, o que achou da minha menina, patrão?

Antonio: Realmente Pepe, uma moça admiravel! Responsável, centrada, madura... Queria que meu filho fosse assim. Eles precisariam se conhecer.

Dom Pepe fica todo orgulhoso com as palavras do patrão. Antonio por sua vez fica pensativo sobre seu filho. Realmente seria uma idéia interessante Nando e Maria se tornarem amigos?

Maria poderia ser uma boa influência para Nando?

...

As vezes Dona Carmella ia visitar Nando no hotel. Eles saiam juntos, iam tomar café da tarde, visitavam exposições de arte, conversavam muito como sempre. Mas desde que Nando saiu de casa não voltara mais nem para uma visita ao pai.

Isso chateava muito o senhor Antonio que sentia muito a falta do filho.

Ele, por sua vez estava sempre perguntando do filho para a mãe. Como estava, se precisava de dinheiro, se estava trabalhando e outras coisas mais.

Um certo dia no meio da tarde, ele pede a dom Pepe chamar Maria para conhecer a sua biblioteca, como havia dito. O pai vai buscá-la e leva a filha ( um tanto a contra gosto) para a mansão dos Vergara.

Maria entra observando discretamente aquela casa descomunal. "Com o dinheiro que ganhava no bar, precisava de 3 vidas para ter uma casa assim", calculava ela para si mesma.

"Não preciso de uma casa desse tamanho para ser feliz, não saberia como viver aqui", concluia.

O mordomo Josué vem logo ao seu encontro.

Josué: Senhorita Maria, boa tarde! Venha comigo, vou levá-la até o senhor Antonio! — conduz a moça até uma sala onde estava Antonio sentado, numa poltrona . Ele imediatamente levanta e vai de encontro a ela.

Antonio: Maria como está, filha? — cumprimentando a moça com um respeitoso beijo no rosto.

Maria: Bem, senhor! — dizia sem graça.

Antonio: Trabalhando bastante?

Maria: Sim, sempre!

Antonio: Como prometido, eu queria te apresentar a nossa biblioteca, vem comigo! — levando-a ate lá.

Ele abre a porta e mostra a luxuosa biblioteca a Maria. A moça fica boquiaberta com a quantidade de livros contida ali.

Eram incontáveis prateleiras, as mais altas precisavam de escadas, que podiam correr para todas as direções através dos varões e corrediças.Haviam livros muito antigos e alguns atuais. Era quase impossivel saber o que escolher.

Maria andava olhando pros lados, encantada com aquela imensidão de livros.

Maria: Como o senhor consegue escolher apenas um para ler?

Antonio: Sei onde está cada um deles! — ri.

Maria: Está me dizendo que já leu quase todos?

Antonio: Eu tenho idade pra isso! — gargalhando.

Maria: Não exagere, senhor Antonio!

Antonio: Escolha um!

Maria: O que?

Antonio: Escolha um livro para ler!

Maria: Prefiro que o senhor escolha para mim!

Antonio: Confiaria em minha escolha?

Maria: Existe pessoa melhor pra essa tarefa? — rindo.

Senhor Antonio pega um livro e entrega a Maria.

Antonio: Depois diga-me o que achou deste!

Maria sorri olhando para a rebuscada capa do livro — A volta ao mundo, por Romero Vergara... — olha para ele.

Antonio: Meu pai...

Maria: Estou achando que isso é protencionismo! — rindo.

Antonio: Totalmente!

Maria: Está certo, eu vou ler com muito gosto! Obrigada, senhor!

Nesse exato momento, dona Carmella aparece na biblioteca.

Carmella: Interrompo? — olhando os 2.

Antonio: Venha mamãe, quero que conheça a Maria!

Maria: Como vai, senhora? — estende a mão. Carmella a comprimenta e vê Maria abraçando ao corpo o velho livro escrito por seu marido.

Carmella: Boa leitura!

Maria: É, o senhor Antonio disse pra eu ler...

Carmella: Vai adorar, com certeza! Você é amiga do Fernando?

Maria olha para o senhor Antonio sem entender.

Antonio: Mamãe ela é filha do dom Pepe, meu motorista!

Carmella: Ah, sim! Adoramos o Pepe!

Dona Carmella pede para Josué colocar a mesa do chá da tarde em um dos jardins da casa e convida Maria para tomá-lo com eles. Ela exita um pouco, mas acaba aceitando.

Conversam durante um bom tempo, conhece melhor dona Carmella e descobrem muitos gostos em comum.

Senhor Antonio, dona Carmella e Maria conversam por toda a tarde. Eles ficam cada vez mais encantados com o jeito da moça e pedem para ela voltar mais vezes.

...

Os dias passam normalmente, Maria vai visitar os Vergara com mais frequencia, indo a exposições de arte com dona Carmella, conversando sobre literatura com senhor Antonio e etc.

Ela falava pouco sobre si mesma, porém já havia demonstrado aos dois que era uma moça gentil, inteligente, responsável e muito boa.

Nando por sua vez continuava frequentando festas, viajando para lugares exoticos atrás de portifólio fotográfico e a procura de contatos com empresas nas quais poderiam se interessar por suas fotos. Porém, estava dificil e só conseguia trabalhos pequenos.

O dinheiro ficava cada vez mais curto e não demoraria muito para começar a passar por dificuldades.

Numa noite, resolve ligar para o amigo.

Eduardo: Alô?

Nando: E ai, vamos sair? Conheço um lugar bom no centro da cidade!

Eduardo: Tem certeza, Nando? Você acabou de voltar de uma viagem, não tá meio quebrado pra sair?

Nando: Eduardo, se eu não sair essa noite, minha cabeça vai explodir de preocupações...

Eduardo: Tudo bem, deixa que eu dirijo porque provavelmente hoje você precisará de uns drinks. Eu passo aí pra te buscar as 21hs.

Nando fala pro amigo do bar que fora uma vez. Conta que brigou com um bêbado para defender uma moça. Eles resolvem ir para lá.

...

Era mais uma noite de apresentação. Leon e Maria se preparavam ante ao palco. A casa estava lotada e as pessoas bem animadas pela chegada do fim de semana.

Como era de costume, as amigas ajudavam Maria a se produzir.

Prenderam-lhe uma trança que vinha para seu ombro direito, deixando alguns cachos cairem pelo rosto e colo. Usava uma blusa branca de um com pontos brilhosos e de um ombro "caído", uma calça jeans escura e justa e uma bota de bico fino. No rosto apenas colocaram-lhe rímel nos cílios e depois de muita insistência, um batom vermelho ecuro, que iluminava ainda mais seus traços.

Nando e Eduardo entram no bar e como era de costume vão até o balcão pedir algumas bebidas. No exato momento a dupla sobe ao palco. Os clientes do bar aplaudem, sabendo que logo viriam boas músicas. Os amigos se viram para assistir dalí mesmo.

Nando observa Maria. "Ela é bem bonita", pensava ele analisando-a melhor do que da primeira vez que a vira. É um pouco mais cheinha do que a maioria das garotas com quem convivia ou costumava sair, constatava ele. Mas não que isso fosse um problema.

Maria não era alta, o salto ajudava-lhe a ganhar altura no palco, mesmo assim tinha presença e boa figura. Tinha a pele clara, um físico que não era nem gordo nem magro. Era bem distribuída, tinha um busto médio, quadris largos, pernas grossas, braços fortes do trabalho, sem ser musculosos. Cabelos castanhos escuros um pouco abaixo dos ombros, cacheados e rebeldes, com uma ou outra ponta um pouco mais clara.

Seu rosto tinha traços harmoniosos. Olhos grandes e expressivos, que apesar de escuros você conseguia enxergar a pupíla ao olhar de perto. Tinha um nariz arrebitado que lhe dava um ar travesso e lábios bem formados, nem muio grossos, nem muito finos, mas quase que em formato de coração.

Aquela boca vermelha realmente chamava os olhos de Nando, que sorria discretamente ao vê-la cantar.

Eduardo: Ela canta bem, é uma boa dupla!

Nando: Eu disse! — segurando a bebida frente ao corpo, sem tirar os olhos do palco.

Eduardo: Foi ela que você defendeu? — o amigo afirma com um gesto e ele continua — E vai falar com ela?

Nando: Isso você pode ter certeza! — sorrindo com o canto do lábio.

O show termina.

Como de costume, Maria sai correndo do palco e vai até a sala pegar sua mochila para ir embora. Vai até o balcão pedir uma garrafa d'água.

Nando que já estava no seu terceiro ou quarto drink para ao seu lado.

Nando: Parabéns pelo show! — curvando-se um pouco para chegar a boca ao ouvido dela.

Maria: Obrigada! — virando e reconhecendo Nando, olhando-o um pouco surpresa.

Nando: Espero que hoje não precise ser salva de nenhum inconveniente!

Maria: Isso vai depender do andamento desta conversa! -sentindo o cheiro de álcool no rapaz.

Nando: Gentil como sempre! — sorri perante a resposta agressiva da moça.

Maria pega um guardanapo e começa a tirar o batom dos labios. Ele a observa.

Nando: Não deveria tirar, fica lindo em você! — sorrindo.

Maria: Você está alcoolizado, não está?- desviando o assunto.

Nando: Claro que não! Estou acostumado a beber...

Maria: Todos dizem isso. — batendo as mãos no balcão, impaciente.

Nando: Todos dizem isso, assim como todos dizem o quanto canta bem... E você não dá a mínima pra isso! Então como fazer a diferença e chamar a sua atenção?

Maria: Mantendo-se sóbrio! Vivendo além de lugares como esse... — pega sua água e olhando pra ele, vai embora, mais uma vez desaparecendo no meio da multidão.

Eduardo que viu tudo como espectador, bate nas costas do amigo — Foi um bom começo, não?

Nando apenas olhava por onde ela foi embora, pensando naquele desajeitado encontro e no quanto aquela "baixinha" era difícil de manter uma simples aproximação.

Mas afinal de contas, pra quê queria uma aproximação com ela?Nem mesmo sabia o seu nome e definitivamente não era nada simpática, melhor nem saber.

Decidiu aproveitar a companhia do amigo o resto da noite, conversar e desabafar sobre a vida para ver se assim, o peso de algumas coisas diminuia pelo menos por algumas horas.

...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.