Caminhos
1 O Passado lhe perseguirá...
Eu corria o mais rápido possível. Hoje era o último dia de aula, o dia decisivo. Não que eu me preocupasse tanto mais com o meu futuro, eu tenho ele bem planejado e tenho mais planos do que o alfabeto poderia aguentar, então eu não estava preocupado com o fato de ser o último dia, nem com o fato d'eu ter que fazer quase dez provas no mesmo dia — quem dera fosse.
Ao chegar perto do portão da escola, eu via Quézia me esperando. — Por que você sempre consegue se atrasar no último dia de aula? São mais de 5 anos estudando com você e eu nunca vi você chegar na hora logo no último dia. Você tem um histórico de presenças quase perfeito, exceto pelos seus atrasos no último dia do ano. O que eu faço contigo? — N-Não é como se eu quisesse, Quézia! Eu sempre fico nervoso no último dia, então eu acabo dormindo até tarde. Ah, de qualquer forma... Vamos entrar? O último dia de aula não era como qualquer dia do ano. Nesse dia, todos estavam felizes, alegres e as amizades pareciam melhores do que nunca. Ainda mais para mim, que estou no último ano da escola. Eu e Quézia nos conhecemos há mais de 7 anos e estudamos juntos — literalmente juntos: trabalhos, exercícios, tarefas, todas feitas com ela -, há 5 anos. — E então, como vai o David? Tudo bem com ele? — Olha, não tudo, exatamente, mas... Não posso reclamar. Ele é um bom namorado e as coisas fluem bem com ele, então não é como se a briga que nós tivemos ontem fosse abalar tudo a ponto de querermos terminar. Só digamos que uma mulher demora mais pra esquecer isso do que os homens, então mesmo dizendo que está tudo bem, não está, então... — Argh, você sempre consegue complicar as coisas, né? — Como assim? — Você começa falando que tá tudo bem, depois não tá tudo bem, e quando você termina tá tudo bem denovo. O relacionamento de vocês é baseado numa síndrome bipolar estranha? — Hahaha. Muito engraçado você, só que não. Como eu dizia... Quézia foi interrompida por minha mão em sua boca. — Ssssh. Olha quem tá passando. Eu não pude me conter. André é totalmente meu tipo de homem perfeito. Ele é mais alto que eu, um corpo definido (tá, nem tanto, mas não sou flor que se cheire, então...) e um senso de humor estranhamente sedutor. Mesmo ele sendo hétero, não posso evitar me imaginar fazendo coisas que a desafiam a anatomia humana. Nesse momento, Quézia tirou minha mão de sua boca. — Se controla, menino! Toda vez que você vê ele, simplesmente para tudo que tá fazendo pra ficar secando ele. Já falei pra você, de André querendo você lá no meu bairro tá cheio. — Seu bairro é cheio de pão com ovo, Quézia. Me poupe. O sinal soou e Quézia e eu fomos direto para a sala. Por pouco não chegamos depois do professor. Logo o professor de literatura que não deixa ninguém entrar depois dele na sala. Isso não vem ao caso, já que o dia só foi de provas, não deu para conversar com Quézia, tampouco ficar secando André, que senta ao fundo da sala. Ao sair da escola, coloquei meu fones e comecei meu caminho até minha casa. São, andando na minha mais lenta velocidade, 30 minutos a pé até chegar na entrada do condomínio. No caminho, eu passo por um parque que nunca está cheio na hora em que eu passo, então as vezes eu paro nele e fico sentado num banco pensando sobre minha vida. Lá é calmo e consigo me distrair facilmente do mundo, então é um lugar ótimo para mim refletir. Na volta para casa — no mesmo dia, ainda -, me sentei como sempre num banco qualquer. Após quase 5 minutos, um garoto sentou do meu lado. Eu estranhei muito, muito mesmo, afinal, existiam mais de dez bancos no parque, todos vazios, e ele senta logo ao meu lado. Ignorei e continuei pensando sobre minha vida. — A-Ahn... Com licença... — O garoto que sentou do meu lado falou comigo. Eu estava cada vez com mais medo. Ele queria me roubar, depois me matar ou só me matar ou roubar? — Posso ajudar? — Ahn... Er... Você talvez não me conheça, quase com certeza, mas... Erm... — Hm? Você está bem? Tá todo vermelho e gaguejando... — S-Sim...! Estou sim... Erm... É que eu... Do nada, o garoto desmaia em meu colo. Eu demorei alguns segundos pra perceber o que havia acontecido de acontecer. Eu rapidamente peguei o garoto no colo e levei o garoto para um hospital que ficava ali perto. Deram um quarto pra ele e pediram se eu poderia ficar ali como acompanhante. Eu aceitei, sem pestanejar. Um garoto tinha desmaiado em cima de mim, provavelmente por minha causa, e eu não iria simplesmente ignorar aquilo. O fato dele ter desmaiado em minha frente só me deixou mais curioso das intenções com ele ao falar comigo. Liguei para minha mãe, avisando o ocorrido e que eu chegaria provavelmente só de madrugada em casa. Após algumas horas no hospital, vendo o garoto dormir, ele acordou. — Ahn... Onde estou...? — Hm? Ah, você finalmente acordou! — A-Ah! V-Você...! O que você está fazendo a-aqui? A-Aliás, o que EU estou fazendo aqui? Isso é um h-hospital?
— Sim. Você desmaiou enquanto tentava falar algo pra mim no parque e eu te trouxe para o hospital. — V-Você... Sério!? O-Obrigado por se preocupar comigo... — De nada. Afinal de contas, o que você queria me contar tanto que estava todo nervoso queren- Pera, você tá todo vermelho denovo, você tem CERTEZA de que está bem? — M-Me desculpe... É o nervosismo... — Nervosismo por quê? — Ahn... Acho que eu deveria m-me... apresentar... primeiro. — Ok. Como quiser. — M-me chamo Athos e... sou seu anjo da guarda.
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