A água quente ao cair na pele, o vapor subindo preguiçoso, o ruído típico de chuveiro elétrico embaralhado com o som da água batendo no piso, tudo isso facilitava perder-se nos próprios pensamentos. Como de fato perdeu-se, várias vezes, analisando aquela situação toda.

A lama e os devaneios custaram-lhe longos trinta minutos, e só então saiu do banheiro. Vestia uma bermuda folgada, de um verde-musgo bem escuro, e uma blusa preta, sem estampas.

Saiu terminando de pentear os cabelos, mas logo que entrou a primeira lufada de ar, sentiu o choque térmico, e recuou...

– Shigeru! Não precisava ter ligado o ar-condicionado no máximo!

Não houve resposta. Só o som da tv, o zumbido do ar-condicionado...

" Tão cedo...?"

Shigeru dormia, todo esparramado.

Felizmente a reclamação não o tinha acordado. Satoshi aproximou-se com cautela...

" Devia estar mesmo cansado"

O quarto estava escuro. A única luminosidade era a da tv.

Olhou-a... nada interessante. Desligou e acendeu a luz do quarto, girando o botão até deixá-la bem fraquinha.

Ocorreu-lhe então de ficar observando Shigeru dormir... não havia mal algum nisso.

Deitou-se na outra cama e assim ficou, olhando seu exausto companheiro de quarto, à meia-luz. Dormindo ele parecia ainda mais adorável, naquela roupinha azul... talvez porque dormindo não houvesse o risco de soltar alguma de suas ofensas. Ficava indefeso.

Mexia o rosto às vezes... devia estar sonhando. Ficou pensando com o que ele poderia estar sonhando...

" Quanta bobeira..."

Achou-se um tanto bobo por ver graça em olhá-lo dormir, ou ficar tentando advinhar seus sonhos. E enquanto continuava a fazer as duas coisas, refletiu sobre a vida...

" Gostar de um garoto é algo estranho... "

Shigeru mexeu-se, agarrando-se ao travesseiro e fazendo cara de nervoso. Podia estar sonhando com uma briga ou algo assim.

" ...e tinha de ser justo desse? "

Será que depois desse tempo todo, Shigeru queria ser seu amigo de novo? Nunca entendeu porque havia deixado de ser, ainda mais da forma que isso se deu. Quando começaram suas jornadas, Shigeru simplesmente se afastou. Quando voltou a dar notícias, vieram as provocações, o tom agressivo. Não via motivos pra nada disso. Nunca entendeu. E a única vez que arriscou perguntar, não obteve qualquer resposta útil.

Lembrou-se na mesma hora de alguns desses desencontros, lembrou-se de como sofreu com eles. Sim, pois sofria, mais do que Shigeru supunha.

Foi batendo uma raiva...

Como pôde aceitá-lo no mesmo quarto, depois disso tudo? Sem nem questionar? Falta de vergonha na cara?

Ficou com mais e mais raiva... Raiva de Shigeru e de si mesmo, por seu pouco orgulho.

Todavia passou aos poucos, enquanto o olhava dormir. Não por completo, mas quase.

O relógio de parede marcava 18:30. Já havia escurecido, e começava a chover outra vez.

Junto com a chuva vieram as trovoadas, e numa dessas, Shigeru foi acordando, ainda sob o olhar de Satoshi. Pôs-se sentado à beira da cama.

" Pelo menos agora estamos seguros... ele não vai ficar com medo "

Esfregou os olhos, soltou um bocejo, e só depois viu Satoshi na outra cama. Este último, muito cinicamente, fingia folhear uma revista, quando na verdade estivera olhando Shigeru até um minuto atrás. No mesmo espírito fingido, olhou para ele como se apenas agora tivesse percebido que despertava.

– Tá cansado hein, cara...

– É... sono atrasado ...

Deixou-se cair na cama de novo.

– Ficou me devendo uma resposta...

Disse aquilo como quem não quer nada. Claro que era exatamente o contrário.

– Que resposta...?

Muito sem jeito, Satoshi respondeu, enquanto sentava-se na outra cama...

– Não lembra...?

– Não lembro.

Certamente estava mentindo.

– Como não lembra ?!? Mas eu lembro!

– Tá... então me diz o que era...

– Bom... eu queria saber porque você está aqui.

– Ah...

– Depois de tanto tempo... — Satoshi ficou sério — ...só me chamando de perdedor, brigando comigo, fazendo graça com a minha cara... — Shigeru prestava atenção — ... você estragou muitas das minhas vitórias, porque aparecia pra me pôr pra baixo...

– Não exagera...

– Não é exagero! – cortou-o – Éramos amigos até isso tudo começar, depois você se tornou uma pessoa irritante. Mas agora aqui estamos nós, no mesmo quarto. Eu quero saber qual é a sua, afinal... quero saber como... – a voz falhou nesse ponto — ...como devo tratar você... e como você pretende me tratar.

– Tá... tá... era assim, mas eu também cansei... por que tanta explicação?

– Não quero correr o risco...

Shigeru deixou-se cair no colchão e ficou olhando para o teto...

– Do jeito que você fala, parece que tudo que eu digo e faço tem uma importância enorme...

Silêncio. Novamente só se ouvia a chuva. E foi assim por um arrastado minuto. Shigeru parecia distraído, olhando para o teto, enquanto Satoshi encarou o chão, apenas o chão, até conseguir responder...

– E tem...

Agora estava dito.

Shigeru parou de mexer-se.

– Tem...?

– Tem... pra mim tem..... – repetir já não era tão difícil quanto fora dizer – Você devia saber disso, antes de me dizer as suas gracinhas.

Shigeru colocou-se sentado, o rosto apoiado nas mãos, o olhar apontado para Satoshi...

– Isso não é muito dramático...?

Munindo-se de coragem, Satoshi também olhou-o de frente. Só de fazer isso já perdeu um pouco da concentração, porém conseguiu dizer o que queria.

– Não, Shigeru... não é dramático... – não havia raiva na voz, apenas uma certa tristeza misturada ao receio de que estivesse enveredando por um caminho sem volta...- ... já fomos amigos... e você era o mais importante... – fez uma pausa – Não sei o que te deu, queria que voltasse a ser como antes... – não era a verdade toda, mas era o que estava disposto a dizer, por ora. Outra pausa. Como não houve qualquer resposta, concluiu – Por isso preciso saber porque você está aqui...

– Entendo...

– Não vá me dar a mesma resposta que deu lá fora...

– Qual...?

– Disse "por enquanto só tem você, então me viro com o que tenho".

– Hehe... você gravou as palavras exatas?

– Gravei — Satoshi não riu.

– Eu não tava falando sério.

Nesse ponto Shigeru hesitou. Esfregou os joelhos com as mãos, vagarosamente. Satoshi apenas aguardou, na expectativa de finalmente ouvir algo bom. Ainda sem olhá-lo nos olhos, enfim o outro respondeu:

– O caso é que... acho que seria bom ter sua amizade de volta. Como era antes...

Satoshi olhou-o. Realmente, estava sendo sincero. Shigeru enfim teve coragem de devolver-lhe o olhar.

– Esse foi o motivo de eu querer ficar aqui, com você. Realmente tô cansado de algumas coisas e precisando de um amigo. Não fiz muitos por aí. E nenhum como você era...

Não conseguindo mais sustentar aquele olhar, Satoshi baixou a cabeça, pensativo. Era bom ter ouvido aquilo. Enfim Shigeru voltava a demonstrar algum afeto. Era bom. Não era?

Era isso que tinha acabado de dizer que queria de volta, não?

Era, mas isso não evitou que fosse invadido por uma sensação ruim de impotência e seus olhos se enchessem d’água. Tentou disfarçar porém não conseguiu, tanto mais porque Shigeru continuava a observá-lo.

Era bom tê-lo de volta como amigo. Mas também era ruim e sabia exatamente o porquê.

Teria se iludido por causa daquela estranha proposta de se hospedarem juntos?

Esperava que pudesse ser outra coisa?

Esperava ao menos poder dizer pra ele a verdade?

Esperava um outro final...?

Ainda era tempo! Não precisava esconder o que sentia só porque não seria retribuído.

Ou precisava?

Agora Shigeru queria a amizade de volta... se dissesse a verdade, talvez arruinasse tudo. Esse risco não queria, então guardaria pra si... não guardaria? A revelação de Shigeru o livrara de um peso, para substituí-lo por outro...

Seria bom serem amigos de novo... e também seria sufocante. Estaria sempre aquém do desejado...sempre aquém da verdade.

Enquanto oscilou entre essas duas opções, só se ouviu naquele quarto o barulho da chuva lá fora e do ar condicionado, no seu zunido manso e constante.

– Se quiser que eu vá embora, tudo bem...

– ... legal sermos amigos de novo...

– ....

– .....

– É...?

– É...

– ....

Respirou fundo...

– ... mas acho que não vai dar certo...

O arrependimento quase selou-lhe a boca, mas ainda tentou completar...

– ...ter você como amigo seria... muito difícil pra mim... Shigeru...

A fala morreu aí. Não conseguiu dizer mais nada e, antes mesmo de ouvir qualquer resposta, já sentia ter jogado fora a única boa chance que tivera. Fechou os olhos, deixando as lágrimas escorrerem em silêncio. Shigeru sentou-se ao seu lado e nada disse, sem dúvida aguardando que Satoshi explicasse porque seria difícil tê-lo como amigo.

Ou ao menos foi isso que Satoshi presumiu.

– Você gosta de mim, não é...?

Abriu os olhos. Poderia especular em qual sentido o verbo “gostar” estava sendo empregado. Pelo tom empregado na pergunta, não parecia ser o “gostar” de amigos, simplesmente. Mas como arriscar com algo tão importante? De todo modo, respondeu, pois a resposta que deu estaria correta nos dois casos:

– Gosto... – silenciou dois segundos, depois não conseguiu evitar -... gostar em que sentido...?

– Mais que como amigo – Shigeru respondeu sem hesitação.

Agora estava esclarecido. Sabia que, feita a explicação, devia reafirmar ou corrigir a resposta. Ao invés disso, ficou quieto.

– É assim que você gosta?

Era mais incisivo, pressionava. Satoshi pensou no pior. Além de não correspondê-lo, iria achar aquilo tudo bizarro. A proposta de renovação de amizade iria pelo ralo. Mesmo assim, não queria dar mais voltas. Meio que mordendo os lábios, respondeu...

– É. É assim.

Esperou uns segundos nos quais nada aconteceu. Medrosamente deu uma espiada ao lado. Mesmo estando escuro, tinha certeza que Shigeru o observava. Só não conseguiu distinguir sua expressão.

Foram momentos intermináveis.

Até que um braço enlaçou-lhe e uma cabeça veio repousar em seus ombros. Não houve palavras. Sentiu que algo estava se concretizando... só não tinha certeza.

Ouviu uma risadinha nervosa... Uma mão encontrou a sua e segurou-a com firmeza. Um calor bom invadiu seu corpo...

– Engraçado...

Ria baixinho, de forma estranha, como se no fundo lamentasse algo. Dissera uma palavra só, mas sua voz não estava normal, como se tomada por alguma emoção forte. Satoshi achou melhor apenas escutar.

– Também gosto de você... Satoshi...

Jamais sentiu-se tão bem quanto ao ouvir aquela simples frase. Era a confirmação que desejava. Quis abraçá-lo mas conteve-se. Shigeru não tinha terminado...

– ...há tanto tempo...

– ...quanto tempo...? – não pôde evitar a pergunta. Os olhares se cruzaram naquele semi-breu...

– Muito... Talvez...

– ....?

– ... talvez por isso eu tenha tentado manter você longe...eu não queria sentir... isso...

...

– Então... você gosta de mim desde que éramos amigos...? – arriscou.

– Acho que sim, mas é uma coisa que só ficou clara com o tempo...

Ficou realmente surpreso.

– Com o tempo eu vi que... mais cedo ou mais tarde, eu ia ter que voltar... mas não pensei que você também.... – a voz vacilou – Tanto tempo desperdiçado... – soltou a mão de Satoshi e ficou em silêncio.

Este tomou a frente e abraçou-o, sem medo. Agora podia demonstrar tudo que sentia.

– Ainda temos muito tempo....deixa isso pra lá...

– Você vai esquecer todas as bobagens que eu disse...? – perguntou sem desgarrar-se.

– Já esqueci.

– Ah... então tá bom... – disse isso e pouco depois olhou pra Satoshi com uma pontinha de um sorriso maroto, de quem guarda alguma surpresa.

– Que foi...? – Satoshi não sabia, mas também riu.

– Ahn... – Shigeru soltou-se e ficou olhando para Satoshi, de forma enigmática — ... eu não sei.... não sabia que isso podia terminar assim tão....

– ....?

– ...assim tão...

– ...tão bem...?

– É ... – sorriu – Pode ser! – mexeu-se um pouco, inquieto – Sabe beijar, né?

– ....?!?

– Ah, não faz cara de espanto... sabe ou não?

– Sei sim... um pouco...

Os dois sabiam. Apesar de seus sentimentos, os hormônios já haviam levado ambos a algumas meninas. Sexo nunca. Mas o básico, já.

– ...por quê?

Shigeru apenas riu, depois acariciou os cabelos negros de um cada vez mais assustado Satoshi...

...e só acariciou... devagar... devagar... olhando-o nos olhos...

... e chegando perto... perto...

Satoshi pensou se já era hora...

“ Passou da hora ...”

Tocou de leve os lábios de Shigeru com os seus. Olharam-se... só por dois segundos... o tempo de um arrepio inicial cruzar seus corpos. Dois segundos... tão diferente dos beijos anteriores, com meninas que quase nada significavam... agora era tão cheio de um magnetismo... quase transcedental, se não fosse carnal demais para a transcendência. Dois segundos, e depois deixaram que as línguas se conhecessem, enquanto os corpos iam se apertando... devagar... tudo devagar. Não havia pressa... até a chuva havia amansado, tamborilando despretensiosa contra o vidro. Naquele quase-escuro, no qual só os contornos eram vistos com clareza, tudo parecia fluir languidamente.

E ajuntando um pouco mais de segurança, as línguas se arriscaram em saudáveis ousadias...

As mãos foram delineando os corpos...

E foram deitando-se.... lado a lado... alinhados, agarrados....

Em algum momento ali, Satoshi deu-se conta de que tudo seria diferente, e seria feliz enfim. Todo o surreal daquela situação o havia mantido aéreo, como se tudo fosse um sonho bom. Não era, e sim, seria feliz, pelo menos por enquanto. Muitas coisas vieram ao mesmo tempo, emoções de matizes distintos, de toda parte, apertando-lhe o peito... quis chorar de alegria. Controlou-se para não estragar o momento. Parou os beijos e abraçou Shigeru com força, apenas. Tanto tempo... tanta coisa ruim que passou, que pensou e até que fez, por não ver uma saída, por pensar que teria de resignar-se e nunca conseguir resignar-se. Agora podia sentir alívio. Já tinha chorado muitas vezes, mas dessa vez era diferente.

– Satoshi.... calma...

– Eu te amo, Shigeru... eu te amo.... – e o abraçava com mais força, quase como se tivesse medo de que, de repente, por nada, ele desaparecesse... Shigeru quis acalmá-lo, porém não pôde evitar de sentir aquelas mesmas coisas que afligiam o garoto em seus braços, se é que aflição é a palavra certa. Também tinha esperado muito. Maltratar Satoshi mostrou-se uma fórmula falha para afastá-lo, fazia um mal dobrado a ambos. Conseguiu aceitar-se com o tempo, aceitar o que sentia... mas quanto a ser correspondido, era um presente pelo qual não esperava.

– Também te amo, Satoshi...

Ficaram quietos e abraçados, se olhando, com carinhos pequenos, miúdos como pingos de chuva.

– Satoshi...

Shigeru deitou-se sobre ele, pedindo para ser abraçado. Uma vez atendido, continuou...

– ... e os outros?

– Que tem...?

– Isso vai ficar só entre nós, né?

– Ah... façamos assim... – meditou um instante — ...dane-se os outros, por enquanto hehe...

– Ahn... – apoiou-se nos cotovelos e olhou para Satoshi — ... o menino medroso de Pallet tá tomando coragem, é?

– Não sou medroso! – protestou.

– Não mesmo...? – olhou-o mais de perto...

A pergunta carregava uma malícia inconfundível. Uma mão foi percorrendo seu corpo, devagar... descendo, descendo...

– Shi...Shigeru....vamos mais devagar...

Shigeru dirigiu-lhe um olhar felino... depois desfez a cara de sedutor barato e deu uma risada...

– Eu não disse que você era medroso?

– Tsc...

Puxou-o para um beijo longo, não tanto para fazê-lo calar a boca, e sim porque achou sua risada encantadora. Não era mais aquele riso de escárnio, mas sim um riso de moleque bobo, como aqueles dos tempos antigos. Também soava sexy, mas aí já era o tesão atuando.

– Não tenho pressa em ser corajoso... – disse-lhe ao ouvido.

– Temos muito tempo... não é, Satoshi?

– É... O mais difícil já foi feito.

Sorriu, antes de beijar-lhe de novo.

Tornaram a seus beijos e amassos, várias vezes, sobre aquele colchão macio, envolvidos pela penumbra, pelo ruído manso do ar-condicionado e pelo barulhinho da chuva. Cochilaram juntos, aninhados, na calma do amor correspondido e do friozinho gostoso, moderado por um lençol sobre os corpos. Eventualmente lembraram-se de comer e assistir tv. Nem tudo muda, afinal.

Teriam de pensar no que fazer depois. Que caminho seguiriam? Passariam a viajar juntos? Parecia o mais provável, já que nenhum dos dois iria querer se afastar tão cedo. Como explicar aos demais a súbita amizade entre dois conhecidos rivais?

Questões... questões.... Pra depois, por favor. Agora queriam simplesmente aproveitar o momento. Cruzavam-se enfim, depois de passar um longo tempo percorrendo caminhos que só levaram à distância. Não precisavam responder tudo agora. Os caminhos eram outros, a distância era passado. Seus carinhos estavam tímidos ainda. Havia muito o que ousar.

Quem sabe não estendessem sua estadia ali por mais um ou dois dias.... treinadores merecem um descanso às vezes, não?

Qualquer que fosse a escolha, já estavam como queriam.

Um com o outro... e mais ninguém.

– Pikapi...?

– Vai dormir, Pikachu.

Notas finais
A parte lemon vem a seguir. Você foi avisado ; )