Caminho luminoso
1 Oneshot
Xie Lian acordou com o sol no rosto. Estava sob uma árvore, mas mesmo assim o astro luminoso encontrou uma forma de arrasta-lo para o mundo real.
— Tá bom, você venceu. Hora de acordar.
Levantou-se e descobriu com desgosto que suas roupas estavam cheias de formigas. Infelizmente era consequência do dia anterior, quando caiu com a tigela de sopa do restaurante onde trabalhava, e por isso fora demitido. Sua roupa ficou suja de comida, e ele nem percebeu, dado que estava mais preocupado em fugir do estabelecimento, porque os fregueses famintos ficaram irritados e queriam espanca-lo.
— Não se pode ganhar todas, não é? Mas não posso sair por aí imundo e coberto de formigas.
Procurou um riacho ali perto e retirou sua veste externa e sua blusa interna. Lavou-as com água simplesmente, depois estendeu sobre umas rochas aparentemente limpas. Só então lavou as calças, as meias e as botas. O chapéu de palha também foi lavado. Como já estava nu em pelo, aproveitou para banhar-se. Ficou encolhido na água esperando a roupa secar, mas foi sobressaltado com o barulho de vozes. Tentou permanecer tranquilo, mas sabia que era uma situação ruim.
— Ora, o que temos aqui. Um formoso espírito das águas. — risos.
— O que acham, meninas? Ele não é lindinho? — risos
— Perrdeu-se na floresta, queridinho? — risos.
Xie Lian tinha o rosto e o peito vermelhos de vergonha. Pensou em conversar para que o deixassem em paz, mas sua intuição lhe dizia que era inútil. Havia seis mulheres, e embora não pudesse dizer que eram más, o fato de o encontrarem nu e sozinho despertava o lado zombeteiro e perverso delas. Suas roupas estavam à direita, as botas e as meias à esquerda. Talvez pudesse pegá-las e sair correndo. Levaria o que? 10 segundos? Elas com certeza não o caçariam, certo? Xie Lian mordeu os lábios. Elas o caçariam, nem que fosse somente para escarnecer de sua pessoa. Elas não ousariam tocá-lo, certo?
Nisso, uma das mulheres galhofeiras levantou a saia e tirou as sapatilhas e meias e entrou no riacho. Isso ativou todos os alarmes dele e o modo fuga desesperada foi ativado. Ele rapidamente agarrou suas roupas e pulou nas pedras para chegar ao outro lado. Como previsto, as mulheres entraram na água para apanha-lo, mas ele foi mais rápido, correndo pra longe, nu em pelo, com as roupas na mão. Ao perceberem o quão rápido ele corria, elas desistiram e caíram no chão, rindo de si mesmas.
— Devia ser mesmo um espírito. Corre como o vento. — risos.
Quando o cansaço o atingiu ele parou para vestir-se. A roupa ainda estava úmida, mas não podia continuar nu. Ao menos não havia mais formigas. Passou a andar por uma estrada de barro e procurou arbustos com frutinhas. Às vezes encontrava o que comer, mas hoje não teve sorte. Procurou por pássaros nas árvores e levou a mão aos cabelos para puxar a fita que o prendia e usá-la como funda. Procurou pedras no chão e mirou nos pássaros do local. Após 10 tentativas conseguiu derrubar um. Apanhou-o e fez uma fogueira para assar e come-lo. Não ficou bom, mas ao menos não passaria fome. Logo escureceu e ele ficou por ali mesmo. Limpou um local sob uma árvore e se aconchegou. O fogo afastou outros animais, mas não, humanos.
Xie Lian acordou com chutes em sua pessoa. Homens, ou melhor, bandidos rescendendo a álcool cercavam-no e se alternavam em chutá-lo. O instinto falou mais forte e Xie Lian gritou.
— Ruoye!
Então sua braçadeira de seda ganhou vida, como uma serpente, fina e ondulante, envolveu aqueles homens e enrolou-se fortemente, apertando-os juntos como feno. Eles caíram no chão, gritando e xingando.
Xie Lian levantou e lamentou-se.
— Tinha acabado de lavar essa roupa e olhe em que estado está. Vocês até mesmo a rasgaram. E esse chapéu de palha já conheceu dias melhores. Tsc, tsc.
Ele olhou em volta como se procurasse por mais ameaças. Tranquilizou-se quando não viu mais ninguém. Então voltou a dormir.
O sol quente novamente o acordou pela manhã. A fogueira já havia se apagado e os homens amarrados ainda xingavam e gritavam, embora fracamente pois estavam sem fôlego pela força com que Ruoye os apertava. Xie Lian procurou frutinhas e guardou-as na manga kiankun. Colocou o lascado chapéu de palha nas costas e só então chamou sua braçadeira de volta. Foi embora ligeiro, pois mesmo exaustos, os bandidos poderiam querer persegui-lo para se desforrarem.
Depois de andar o dia inteiro chegou em uma cidadezinha. Alimentou-se das frutinhas restantes e dormiu sob uma árvore. No dia seguinte iria catar sucata no lixo, e se o povo dessa cidade fosse próspero, poderia se apresentar como artista, quebrando pedras no peito ou dando saltos mortais. O futuro parecia sorrir para ele e seu caminho era luminoso. Xie Lian dormiu com um sorriso nos lábios.
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