Inicio meu relato com pesar na consciência, mas certas coisas devem ser ditas. Quem tem conhecimento, tem também a obrigação de passá-lo adiante

Era como o corpo alongado dos cavalos, do tamanho de três deles, de pelo espesso, patas e focinho de lobo, orelhas rasgadas e olhos cinzas. Estacas escuras se projetavam de suas costas formando um cume entre os ombros e cada vez mais apontando para o horizonte conforme aproximavam-se da lombar. A cauda comprida, o único membro sem pelos, de aparência escamosa, ficava rente ao chão mas sem tocá-lo. Nas costas a pelagem era preta esverdeada, no peito, preto roxeado, a barriga de um cinza típico de neblina de inverno. Cada uma das três garras de cada pata como uma lua minguante que afunda na terra com os passos lentos e pesados. Os Sawrul Ksais eram uma lenda para mim, até o dia que me deparei com um.

Saí em expedição com poucos homens e mulheres atrás do ouro dos Filhos de Taarin, um grupo de guerrilheiros que se consideram os herdeiros por direito da família real de Arich. Se apoiam na lenda de que o primogênito do décimo sétimo rei nascera com o braço direito deformado e por isso foi levado as escondidas para uma viúva nos campos. A velha senhora teria contado toda história a ele que, por sua vez, contou à sua prole. O homem e a velha eram loucos ou mentirosos. Quando eram apenas doze garotos com ideais revolucionários e sinceridade nas alegações de sua ancestralidade, mesmo que errados, tinham o coração nessa crença, havia nobreza, mas nos últimos vinte anos, os Filhos Taarin não são mais que a simplória oposição de um governo que visa apenas obter poder para desfrutar do luxo. Não que o rei atual seja digno dos benefícios da corte, mas está no direito de Dario.

Um dos garotos foi capturado e levado a interrogatório, após algumas sessões de tortura envolvendo afogamentos e ferro quente, ele revelou a localização de vários esconderijos, bases de treinamento, armazéns de armas e espólios e as prisões dos soldados do reino. Entre essas informações, estava a de onde foi parar o ouro do navio que, assim que atracou no porto depois de uma viagem de vendas, fora saqueado. Pouco depois fui acionado, minhas ordens eram de ir a esse local, dito vazio, e trazer de volta o que encontrasse.

Parti na certeza de um dia monótono. Depois do almoço me encontrei com os companheiros para essa missão, dois guardas armados com espadas, arcos e flechas, uma médica, cocheiros para as três carroças e alguns carregadores. Estava em meu próprio cavalo, na dianteira, olhando o mapa e guiando o grupo. Chegamos na marcação, um acampamento de barracas quebradas e rasgadas, caixas e restos de comida espalhados pelo chão e o que um dia foi uma grande fogueira no meio disso tudo. O acampamento foi montado bem à frente da entrada de uma estranha caverna que adentrava um morro isolado entre as árvores. A abertura era diagonal com a parte de cima inclinada para dentro, no fim, subindo para a formação rochosa, as paredes tinham formas irregulares apontando para todos os lados e pedaços de pedra caídos no sopé. Em meio a escuridão da caverna, uma luz solitária chamou-me a atenção, piscando como um olho com areia.

Começamos a revistar os restos de barracas e caixas sob o sol. A maioria guardava apenas alguns medalhões esculpidos em pedra ou madeira, em formatos normalmente circulares com a forma circunscrita de uma reta saída de um ponto, ligando-o a outro a exatamente noventa graus e outra cruzando à outra extremidade, desta, uma curva para o ponto oposto ao primeiro. Juntávamos esses itens quando à esquerda da caverna vi um vulto correndo desesperadamente, as cores de suas roupas, brancas e vermelhas, indicavam que se tratava de um inimigo. Para não perdê-lo de vista, logo montei no cavalo e fui atrás dele, o homem foi pulando entre as árvores e sobre as pedras que um cavalo não poderia transpor. Mesmo sendo obrigado a dar a volta em alguns pontos, consegui alcançá-lo às margens de um riacho, notei que a água calma tingia-se de vermelha no ritmo da corrida de minha caça, só então percebi que lhe faltava um braço.

O homem não gritou nenhuma vez nesse tempo todo de perseguição.

Emparelhei com ele, saquei minha adaga e pulei sobre o homem de um braço só, agarrando-o, e nós dois caímos na água rasa. Ameacei-o com a adaga no pescoço e o inquiri aos berros sobre quem ele era, de onde estava vindo e qualquer outra coisa que se pode querer saber sobre alguém tão ferido que corra tão obstinada e compenetradamente. Jamais esquecerei os sons que saíram de sua boca, ele deveria estar por volta dos trinta anos, a barba comprida e emaranhada e os vincos em seu rosto indicavam várias noites sem dormir. Ele me olhou nos olhos, viu minha alma, e riu como se fosse a última vez. Segurou minha mão com a adaga com sua única e disse exatamente essas palavras, sussurrando, como se fosse a promessa de um amante: “Nós dois morremos no horror”. Então empurrou minha adaga contra seu pescoço com força suficiente para fazê-la atravessá-lo. A correnteza lavou o sangue do corpo com a lentidão de um domingo.

Meu cavalo se perdeu na floresta durante esse embate, então voltei andando para o local de minha missão. A caminhada levou mais tempo do que esperava, minhas pernas já não eram as mesmas de quando comecei a servir o rei.

Deparei-me com o inimaginável, uma chacina sem igual nível de violência. Meus subordinados e os cavalos, todos eles, retalhados, esmagados, embebidos em sangue e alguns cobertos por seus intestinos. Desesperei-me, corri para Tanmala, a médica, peguei-a nos braços, seu corpo ainda estava quente, ainda que retalhado. Três furos onde caberiam ambas as minhas mãos no meio de seu tórax esmagado. Fechei os olhos dela e lamentei.

O som de um galho se quebrando desviou minha atenção para a parte mais densa da mata. Meu primeiro contato com um sawrul. Fiquei vidrado naqueles olhos horripilantes e hipnotizantes, cinzas claros, redondos e arregalados, profundos como o desespero e a agonia, invadiram minha mente, contorceram meu espírito, congelaram meu sangue e arrancaram meu coração. Ele estava deitado com a barriga no chão e cabeça ereta, me observando e balançando sua longa cauda, começou a levantar-se com as patas da frente e rosnou com ferocidade. Pus-me a correr para a caverna, se me perguntassem porque fiz isso, não saberia responder. Nesse instante a besta saltou dentre as árvores para a clareira e investiu contra mim, estava certo de que minha vida acabaria ali. É estranha essa sensação, sabemos que não servirá para nada, mas continuamos lutando. Em meu desespero, tropecei numa das pedras desprendidas da parede da entrada da caverna e caí no chão, ralando meu rosto. Uma surpresa: ainda estava vivo.

O sawrul rondava a entrada da caverna caminhando da esquerda para a direita ininterruptamente e sem tirar os olhos de mim. A cada bufada eu suava frio, minhas pernas e mãos tremiam, minha garganta tentava emitir algum som que nunca foi pronunciado e eu tentava entender por que o monstro não me atacava, então rastejei para dentro da caverna.

Ele se manteve à minha espera naquela clareira.

Me levantei e comecei a andar pelo escuro, sendo guiado por uma luz fraca que tremeluzia em algum ponto mais no interior do morro e alguma força que senti me influenciar. Tropecei em coisas mortas que faziam sons abafados com o impacto e em coisas tilintantes que nunca viveram. A fonte da luz parecia maior, cheguei perto o suficiente para alcançá-la, esbarrei em um pequeno muro, tateei sua extensão, era circular, e acumulava água no outro lado, como uma fonte. Estiquei o braço e peguei o objeto que reluzia, senti as pontas arredondadas nos dedos e cilindros encurvados, tentei arrancar o objeto dali, mas, felizmente, por acidente fi-lo tombar exatos noventa graus para a esquerda, agora estava todo sob a fraca luz que entrava por um buraco no teto, o objeto era de cristal e refletia a luminosidade ampliando-a por toda caverna, onde encontrava outros objetos semelhantes e alguns espelhos. Era como um emaranhado das formas dos amuletos que encontramos nas caixas do acampamento, mas agora com formas tentaculares nas bordas, era uma esfera de círculos e tentáculos, os outros objetos que sua luz refletida tocava eram mais simples, alguns apenas círculos, outros apenas amuletos, o importante é que davam visibilidade àquele ambiente inóspito. Havia tropeçado antes em corpos secos, mortos havia muito tempo, corpos que usavam as cores dos Filhos de Taarin, e em montes de moedas de ouro. Ao lado de um dos corpos havia um pedaço de madeira e uma jarra, nas mãos do corpo jaziam pedras, derramei o liquido viscoso da jarra na madeira e bati as duas pedras sobre ela, consegui acender uma tocha. Na parede às costas desse corpo, haviam cravado na rocha “ASCENSÃO DO CINZA”, e nas outras paredes, mensagens como “O DEMÔNIO TE CONHECE”, “ABANDONE A ESPERANÇA” e a mais intrigante “BUKO DÁ MALDIÇÃO”. Aquela estranha sensação aumentou consideravelmente.

Continuei a explorar o lugar, ossos de animais e garrafas de vinho vazias amontoados em alguns cantos e lingotes e moedas de ouro serviam de cama para os cadáveres. Deparei-me com uma passagem estreita na extremidade oposta à entrada, passei por ela e encontrei uma rampa larga que descia em espiral. Aquela sensação agora era um formigamento na barriga e um pouco de ansiedade. Ao final da terceira volta, onde o ar era mais abafado, havia uma sala ampla, repleta de armamentos e armaduras, no mesmo instante me livrei das roupas leves que usava, exceto as calças, e passei a me preparar como se fosse à uma guerra, com cota de malha, elmo, peitoral de couro, braçadeiras e botas de metal, eram as únicas peças que serviam para mim, mas embainhei uma espada, pus uma aljava, um arco e carreguei uma lança. No fundo da sala vi uma garrafa simples que brilhava em tons de laranja, por impulso apanhei-a, o simples toque com o vidro fazia minhas mãos formigarem e de repente senti-me satisfeito, nada de ansiedade. Amarrei-a com um cordão da alça de uma das peças que estavam ali e a pendurei no pescoço. Não morreria no interior de uma caverna ao lado dos traidores do reino, e com certeza não morreria sem luta.

Encarei a fera com sangue nos olhos, ela me encarou de volta e recomeçou seu ciclo de andar de um lado a outro fitando-me sem hesitação. Preparei-me para usar a lança, ia com cuidado na direção dela, sem pressa, prestando atenção a cada movimento, por mais sutil que fosse. Outra surpresa: a cada passo que eu andava, o sawrul andava um para trás, assim nossa distância se manteve. Atirei a lança, o monstro a estraçalhou entre os dentes. Preparei uma flecha, puxei a corda ao máximo, mirei com precisão total no meio da cabeça dele, a flecha bateu em sua testa e caiu. Continuei andando, quando saí totalmente da caverna, o sawrul teve espaço suficiente para andar em círculos em volta de mim. Caminhei de volta para minha cidade com o monstro ao meu redor. Quando já podia ve-la ao longe, separando-me dela apenas uma longa estrada, minha consciência retomou o juizo. Eu levava o lobo às ovelhas. Sentei no chão, apoiei os braços nos joelhos e a cabeça nos braços, dei de cara com a luminosa garrafa que trazia. Não haveria outro motivo para o distanciamento da fera, não é? Peguei a garrafa, olhei com preciosismo para seu interior, vi nuvens e vulcões misturarem-se em rodamoinhos durante o por do sol. Não havia motivo para procrastinar o que logo faria, então, sem pensar por mais de trinta segundos, abri a garrafa.

O céu saiu dela com ventos, nuvens e raios solares. Ainda sentia o chão, mas não o via. Da garrafa ainda na minha mão, jorrou o fogo que girava no ar e adquiriu forma semi humana. O tronco e os braços eram extremamente fortes e cor de cascalho e terra, nus, a não ser pelos braceletes dourados. O rosto era quadrado, os olhos pequenos, apenas da cor amarela, sobrancelhas pretas e grossas, assim como sua barba, que cobria a maior parte do pescoço, orelhas pontudas, boca com presas na arcada inferior, cabelo comprido apenas atrás da cabeça, a parte de cima era um pouco calva e a testa muito enrugada. Do umbigo para baixo não era possível ver nada, já que estavam tomadas por fumaça toda área de baixo dele e de trás, elevando-se a neblina alaranjada e densa também pelo rosto.

Os dois metros que mediam da cintura até sua cabeça pairavam no ar a pelo menos três. Cruzou os braços e pousou vagarosamente as garras curtas, seu olhar era gelado e distante. Me contorci para não gritar e engoli seco. O gigante parecia impaciente, então falou com a voz de trovão que ecoou no abismo de minha mente, “Buko aguarda seu pedido”. Meu coração lutava contra meu peito pela liberdade de correr e os pulmões falhavam a ordem natural da respiração.

“Explique-me, Buko”. Ele explicou da forma mais simples e direta. Sem alterar seu tom de voz, contou-me as regras:

“Regra número um: O pedido durará trinta anos.

Regra número dois: O preço do pedido é o de uma alma.

Regra número três: Após os trinta anos, ninguém além de quem porta a garrafa se lembrará.

Regra número quatro: Nenhum pedido pode ser feito duas vezes pela mesma pessoa.

Regra número cinco: Apenas um pedido a cada trinta anos.

Regra número seis: Desde que não contrarie nenhuma regra anterior, qualquer coisa pode ser pedida.”

Já havia matado antes, a serviço do rei, poderia pagar esse débito com facilidade e agora precisava me livrar do sawrul ksai. Enquanto estivesse com a garrafa de Buko ele não me atacaria, mas entrar na cidade com essa fera me rondando com certeza levaria à muitas mortes e destruição.

“Meu pedido é que o sawrul ksai que encontrei hoje seja morto para que eu e meu reino fiquemos em segurança”. Pedi, e ele respondeu “Que seja feito”

A fumaça desvaneceu, as luzes sumiram e a escuridão da noite retornou. O monstro estava caído de lado logo à minha frente, abaixo de Buko. “Sua dívida está paga” e sumiu. Gritei para que me esperasse assim que disse aquilo. Quem teria morrido?

Quando cheguei em casa meu filho chorava a morte da mãe, minha esposa. Peguei ele nos braços e senti a culpa. Eu deveria ter morrido, nunca esquecerei essa dor, nunca esquecerei o que mereço.

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Já faz quatro anos desde aquele dia memorável e terrível e um pouco menos tempo do dia em que escrevi a descrição anterior. Agora continuo meu relato.

Passei os últimos quatro anos revesando entre tentar esquecer o que ocorrera e estudar tudo que encontrava que pudesse ter relação com Buko. Tal leitura era proibida. A maioria dos livros trazia fábulas de crianças pedindo cestas de frutas e mel para deuses dentro de garrafas, outras de loucos que diziam ter sido grandes guerreiros ou o mais poético dos bardos, até que um dia, quando estava no templo da deusa Jilief, um sacerdote que frequentava a casa de minha vizinha viúva veio falar. Disse que reparou em mim, sempre trazendo vários livros nos braços, e que toda vez que me via eram livros diferentes, alertou que esse tipo de literatura não era bem vista aos olhos dos homens do templo. Então perguntei se sabia algo sobre Buko. Ele começou a contar a história.

“O terceiro filho mais novo dos senhores celestiais recebeu uma punição para suas vaidades e irreverências.

‘Para cada ninfa violada, dez violações de tua autoridade. Das 300 cabeças inocentes baixadas para teu prazer, 3000 vezes abaixarás tua cabeça.”

Um deus estuprador aprisionado numa garrafa. Imagino que não signifique muito para eles. Se as ninfas não fossem criações das próprias divindades, nada teria sido feito.

De tais uniões surgiram criaturas feitas de ódio, dentre elas, os sawrul ksais.

O sacerdote me contou apenas isso e, como se se lembrasse de um segredo terrível enquanto falava, gotejou suor de sua testa, quando sua voz começou a falhar, ele cessou a história, me amaldiçoou por desejar conhecimento disto. O velho foi beber vinho, lançava-me um olhar oblíquo e acusador enquanto saía de minha presença.

Seis meses depois, no dia da comemoração do fim de mais um ciclo solar sob a bondade de Dario, veio o ataque

O banquete foi servido em duas mesas de largura normal e sua extensão ia de ponta a ponta do parque, cobertas de frutas, carnes de frango, bois e porcos, alguns tipos de vegetais, cozidos, pães e temperos. Entre essas mesas haviam cinco quiosques com barris de vinho, cerveja e mel, cada um com duas pessoas para servir os cidadãos. Numa extremidade do parque os soldados estavam de guarda, na outra, a que ficava mais próxima do castelo, uma orquestra composta por trinta e cinco músicos tocava o hino e poesia em caráter melodioso, engrandecendo os feitos do rei que sentava em seu trono em cima de uma armação de madeira atrás da banda, ao lado de sua esposa, rainha Malili. Os herdeiros, sete, ao todo, três garotos e quatro garotas, sentavam-se ao redor. À frente da banda espalhavam-se homens e mulheres equilibristas, cuspidores de fogo, malabaristas, bobos, dançarinos e bardos onde o som da orquestra não chegava.

As famílias todas reunidas iam para a festa se empanturrar e se divertir. Levei o meu filho, ele se encantava com as bailarinas e eu bebia vinho quando eles chegaram.

Primeiro o barulho de um vento forte, mas apenas uma brisa era sentida, depois o crocitar agudo ao longe, duas dúzias de grifos montados por Filhos de Taarin aproximavam-se da celebração, os soldados atiraram com suas bestas, apenas um deles caiu.

Voos rasantes, golpes de espada e garras retalhando carne. Esse era o cenário em que a festa tinha se transformado. No meio da multidão ensandecida, eu corria segurando a mão de meu filho, até que encontramos uma pequena abertura entre uma loja de tecidos e uma taverna, joguei meu filho na abertura e empilhei caixas onde transportavam frutas para nos esconder, ficamos agachados e em silencio esperando a confusão acabar.

Um grifo morto caiu na taverna, espirrando um jato de sangue no meu rosto com o impacto. Nós corremos para casa. Aparentemente o ataque aéreo foi só a primeira onda, seguida de homens armados por terra, generalizando o combate e o medo tomando as ruas. Mandei meu filho olhar apenas para o chão e correr o mais rápido que pudesse. Não sei se era realmente vantajoso, mas fiquei um pouco aliviado por nossa casa não ficar muito longe dali.

Abria a porta quando um dos inimigos correu na nossa direção, consegui abri-la a tempo, botei meu filho para dentro e entrei logo em seguida, antes que a fechasse, o homem atravessou o braço que empunhava uma espada, por reflexo saquei a adaga, a qual nunca tirava da cintura, e finquei em seu punho, a espada caiu no chão, abri a porta e enterrei a arma no ombro oposto ao braço que já havia atacado. Mandei o pequeno para o porão, onde era mais seguro e puxei o homem para dentro, ele tinha as respostas que eu precisava.

Com movimentos rápidos perfurei seus joelhos, agora o filho de Taarin não controlava braços nem pernas. Joguei o homem contra a parede para que ficasse sentado, pus a adaga no lado esquerdo de seu pescoço. Antes que eu pudesse fazer qualquer pergunta, ele olhou para a garrafa de Buko, que eu deixava em cima da lareira, ao lado de estatuas em miniatura de animais e outras lembranças de viagens. A expressão em seu rosto oscilou entre espanto com olhos arregalados, sorriso de satisfação e franzimento de sobrancelhas.

“Você? Como? Miserável! Não sabe que Buko dá maldição? Você trouxe a casa da besta para debaixo de seu teto. Já viu ascender o cinza? O demônio te conhece? Não é um mago, não, realmente não o é!”

“Um mago pode controlá-lo? Pode obrigá-lo a desfazer um pedido?”

O homem enlouqueceu, começou a gritar, virar a cabeça de um lado para o outro enquanto mexia o tronco para batê-la contra a parede.

“Buko tem suas regras e o mago brinca com elas! Um deus te amaldiçoa e um mago também! Nós achamos o mago! Onde estava o deus?”

O lugar da parede onde o homem batia sua cabeça ficou vermelho, a nuca encharcada e o sangue espirrava para todos os lados. Tentei pará-lo, mas foi inútil. Deu uma cabeçada em minha testa, jogando-me para trás, e bateu mais quatro vezes na parede com força total, gritando “Iali Mute escorre sangue”

Meu filho tinha 16 anos, já sabia cuidar de si mesmo, então aprontei minhas malas e parti para Iali Mute assim que o próximo navio para A’mahnan zarpou. Meu plano era descer em um bote e remar até a ilha amaldiçoada, mas ao passar perto dela fomos surpreendidos por uma tempestade violenta que jogou a nau contra as pedras.

Acordei amarrado a uma tábua larga e fina em cima do meu vomito, minha cabeça latejava como as badaladas do sino de um templo e não lembrava com precisão da última noite, apenas acontecimentos isolados de poucos minutos. Avistei pássaros voando no horizonte e remei com os braços na direção deles. Minha visão embaçada demorou a ver a ilha, não era uma paisagem agradável, a areia ocre desbotada, pedras cinzas e pontiagudas formavam paredões ao longo da costa e atrás deles árvores se confundiam umas com as outras, baixas de tronco e galhos finos marrons escuros com folhas largas, algumas avermelhadas, como se fosse outono, mas a maioria era verde e roxa, cada vez mais altas até onde a visão alcança.

Cheguei à praia, me deitei de lado e desmaiei.

Senti algo duro e pontudo cutucar o centro da minha testa, o ponto que era tocado ardia e dele escorria uma fina linha de sangue. Abri meus olhos doloridos para me deparar com uma criatura horripilante, seus olhos eram grandes, verdes como riachos rasos e fendidos, o focinho achatado e com camadas de rugas, as orelhas com três pontas cada, a boca era larga, a arcada de baixo projetava-se a frente da superior, com o queixo alongado, os dentes amarelados, finos e compridos pareciam entrelaçar-se a esmo da forma mais desconfortável possível, no topo da cabeça havia um tufo de pelos crespos laranjas.

Pelo susto que tomei, gritei e dei um pulo, a reação da criatura foi a mesma, um grito agudo e chiado, cai para trás depois de três passos desajeitados. Era de noite, mas a lua iluminava quase tão bem quanto o sol, deixando a paisagem azulada. O mar de estrelas enfeitava o céu e o vento gelado soprava por todo o lugar, levantando areia, soando entre as pedras e mexendo meu cabelo e os galhos das árvores. A criatura acocorou-se sobre uma pedra de secção quase arredondada e de la ficou me encarando, só aí pude vê-la de corpo inteiro, seu corpo esguio não era mais alto que minha cintura, a pele cor de cascas de frutas podres, suas mãos e pés alargavam-se até chegar nos dedos, os quatro membros eram do mesmo formato.

A criatura me encarou, compenetrada que estava, indagando-se pelas minhas formas, minha aparência. Murmurava vagarosamente, mal abrindo os dentes para pronunciar as loucuras que queria.

“Homem estranho de testa lisa. Testas lisas não ficam aqui por muito tempo. Sempre vão embora antes da lua mudar, mesmo quando ficam aqui”

“O que quer dizer com isso?”

“Nunca ficam. Não ficam, não. Algo sempre vai embora, alguns veem partir na água e vão atras daquela coisa que parece coisa preciosa, ou a coisa voa no céu e ele confunde com brilho. Mas muda, muda muito, muda tanto que já não é o mesmo testa lisa, o testa lisa que veio não esta mais aqui, o testa lisa é outro por que a coisa foi embora, ou a coisa mudou.”

“Que coisa seria essa, criatura?”

“Não sabe? Não, ninguém sabe, nem saberá que perdeu”

“Quem é você?”

“Sou eu mesmo. Ele disse que meu nome não é para mais ninguém saber, mas eu sou eu e mais ninguém é tão eu quanto eu sou. Eu sou muito bom em ser eu.”

“Quem disse? O mago? É dele que vim à busca. Você pode me levar até ele?”

“Mago? Ah… Sim, sim, outros testas lisas já chamaram o testa enrugada assim. O testa enrugada gosta. Mas o testa enrugada não gosta de coisa estranha na casa dele, o testa lisa não pode ser estranho na casa dele”

“Diga-lhe então que farei o que ele quiser, nas condições que preferir”

“Não, testa lisa não entendeu, testa lisa está na casa dele, é coisa estranha na casa dele. Quando não for mais estranho, poderá tentar”

“Não tenho tempo para jogos e enigmas, criatura. Tenho que encontrar esse mago”

“Mas testa lisa é coisa estranha”

Me enfureci, cansado de todos os acontecimentos que me trouxeram até este lugar, desisti de conversar, saquei minha adaga e o ameacei.

“Me leve até ele agora!”

“Testa lisa não é muito inteligente. Não é, não”

Atirei minha adaga afim de acertá-lo no braço, para que não morresse e nem fosse incapacitado de andar. O atingi onde queria com sucesso, mas o que se seguiu foi de extrema surpresa, um ato tão perturbador que fascinava meus olhos vidrados e incrédulos.

O pequeno ser de péssima dicção olhou para a faca cravada em seu ombro com total indiferença, segurou o cabo com a mão do lado oposto e terminou de cortar-lhe o braço fora, a areia da praia revirou como água fervente, cobriu o braço decepado e elevou-se ao ar formando uma junção do corpo ao braço no chão, formando assim um novo braço, muito mais longo e de maior diâmetro e massa que o anterior. mantendo a inexpressividade e a calma, trocou a adaga de mão, de súbito esfaqueou-se dos pés à cabeça tão rápido quanto um cão em fúria caça galinhas. A areia age sozinha, desejando ardentemente fugir do chão e dançar um pouco mais perto do sol, aos poucos e bem rápido, forma o corpo de dois metros de altura do que veio a ser a nova criatura, de feição menos amigável agora.

Me pergunto todos os dias por que não fugi, não gritei ou simplesmente desmaiei. Não apenas naquele momento, mas quando falei com Buko, quando fui atacado pelo sawrul ksai… Olhando em retrospecto, em minha vida de servo real, presenciei tantas coisas, experienciei na carne várias delas, que fariam qualquer homem são no mínimo se sentir enojado e convencido a abandonar tal vida depravada, mesquinha e vulgar. Acho que, pouco a pouco, dia a dia, os calos das mãos crescem, os dos olhos crescem, os do coração crescem e não se percebe a comodidade cínica e apática em que nos encontramos.

“Você é um golem, não é?”

Quando era garoto, meus avós contavam histórias sobre golens para fazer eu, meus irmãos e primos trabalharmos. Diziam para retirarmos a neve do caminho até a entrada de casa, senão um golem de neve viria bater na porta com intenção de levar as crianças para sua caverna. A mesma história foi contada diversas vezes, mas em versões sazonais, com golens feitos de folhas caídas no outono, fuligem da queima das plantações no final da colheita e de qualquer sujeira que os velhos gostariam que fosse limpa de graça.

Ele se aproxima, me agarra pelo tórax, me levanta acima de sua cabeça, arranca meu braço esquerdo, começa a esfregá-lo em seu rosto e corpo, tingindo-os de vermelho, e lambuza-se com o que escorre do meu corpo, por fim, passa a deglutir meu membro e me atira a sete passos de distância de onde estávamos. A areia queima minha ferida, cicatrizando-a em instantes.

Minha visão escurecia enquanto observava o golem caminhando a passos largos na direção da floresta.

Acordei já com uma dor de cabeça martelando meu cérebro em sua totalidade, os olhos murchando com o reflexo do sol na areia, esfreguei-os a fim de melhor me despertar, demorei a perceber que tinha os dois braços a minha disposição, o que antes fora arrancado, mastigado e engolido, agora era meu braço bom, sem fadiga nem calor, destoava de minha costumeira pele, tinha a cor da areia ocre sobre a qual eu deitava, a mesma que formou o corpo do golem e cobria toda a baía.

Não confio em minha memória no que se deu a seguir, minhas últimas lembranças lúcidas desse dia são as de mim cambaleando entre as pedras da encosta e entre as árvores da mata fechada, encontrei um riacho, do qual bebi a água da nascente, posso ter comido uma fruta ao acaso, não saberia dizer que aspecto teria, mas posso reviver em detalhes a sensação do doce em minha boca, do aconchego no estomago, das imagens laranjas e roxas com pingos brancos dançando em meus pensamentos, vibrando com minha pulsação, mergulhando com os movimentos de minha língua, do zumbido em meus ouvidos, quase insuportável quando me deitei, senti cada vértebra massageada pela grama e cada pedaço mínimo do meu corpo abraçado pelo vento.

Quando meus sentidos minimamente voltaram a ter qualquer senso de percepção para com o ambiente, me vi deitado, olhando para o céu em uma tonalidade nova, tendendo ao verde, com o canto dos olhos vi um círculo borrado que não posso dizer se era sol, lua ou uma terceira coisa de natureza desconhecida. Via correntes de ar prateadas se estenderem por quilômetros rentes à minha pele, ouvia o batucar dos grãos de terra se chocando uns contra os outros, empurrados pelo crescimento da grama, cheirava o aroma de natureza recém nascida e toda sua variação até o pós morte. Os insetos que andavam sobre minha pele massageavam meus músculos até os ossos e o bater de suas asas pulsava em expansão gradual circular. Desmaiei e retomei a consciência vezes demais para contar, entre um sono e outro, o céu mudava de cor, os sons mudavam de tom, meus músculos doíam menos e o cheiro de mar se fazia mais presente.

Mais uma vez o golem cutucava meu rosto.

“Você de novo?”

“Tenho certeza que sim”

“Quanto tempo se passou desde meu naufrágio?”

“Quatro ciclos lunares e meio”

Toquei meu rosto para sentir a barba que estava enorme e desgrenhada

“Por que não morri de fome?”

“Por que o que testa lisa caçou e pescou, testa lisa comeu e viu que era bom”

“Como? Passei todo o tempo deitado aqui. É impossível eu ter feito qualquer coisa que exigisse o mínimo de esforço físico”

“Então arrume explicação melhor. Fruta brinca muito com o mundo de dentro, mundo de dentro é descoberto e explorado”

“Não posso acreditar”

“É conhecido na casa, mas é teimoso”

“Que casa?”

“Testa enrugada deixa ver agora”

Caminhei atrás da criatura direto para o coração da floresta, onde era escuro e fazia frio. Uma árvore larga e retorcida servia de ponte entre as ilhas de terra e musgo na região pantanosa. Na maior de todas havia uma torre circular cujo topo se encontrava acima das copas.

Não havia porta alguma, nem janelas, como era natural ao golem, não o incomodei com perguntas cujas respostas viriam inadvertidamente. Assim foi, bastava encostar nos tijolos que eles se locomoviam para trás.

Adentrando o recinto, fui maravilhado pelo que estava ali. O teto era uma abóboda, havia uma fonte de luz aconchegante um pouco ao lado do cume, como o sol da manhãzinha. Uma nascente d’água brotava da parede, irrigando flores das mais inacreditáveis configurações de pétalas, cores e folhas. Todos os móveis eram feitos de madeira, mas nada de carpintaria, nenhuma planta fora arrancada do chão, apenas cresceram para tal formato. Pássaros e insetos brilhantes empoleiravam-se nas trepadeiras e pequenos animais peludos de pescoço longo saltitavam em bando por todos os lados. Quase deitado no chão, com as costas apoiadas na barriga de um animal quadrúpede, maior que um cavalo, que dormia, estava um velho lendo um livro. Não demorou a notar minha presença.

“Oh! Sim, você está aqui. Espero que não se ressinta pela estadia desconfortável e solitária com nada além de si mesmo para interagir à maneira humana”

“Na verdade não me lembro quase nada desde o naufrágio”

“Lembra. Pode ter certeza. Apenas não consegue entender. É impossível que entenda.

Mas é um processo necessário, você pode imaginar quantos já me procuraram, motivados que estavam por mesquinharias, rancor, orgulho e tantas mediocridades mais?”

“Você tentou me enlouquecer?”

“Tentei?”

“Que motivos então julga válidos para quem dividiria seus poderes?”

“Isso cabe a mim. Não se explica a uma porta emperrada o benefício que faria ao abrir, o mal que faz ao recusar-se a tal, contudo, a porta não possui o benefício e a maldição da deliberação, você, por outro lado, escolhe a cada instante entre uma infinidade de vidas que poderia viver. O que faz dessas escolhas é o que me diz se o que tenho a oferecer servirá a bom uso. E se engana, homem, poderes não fazem parte da barganha, o que me disponho a compartilhar é conhecimento.”

“Esse conhecimento pode vencer a maldição de Buko, o deus estuprador?”

“Não sem um preço.”

“Débitos me trouxeram até aqui, tiraram a vida de minha esposa e condenaram meu reino.”

“E existe mais esse a pagar. Não a mim, nem para ninguém além de você. Dir-lhe-ei tudo que precisará para derrotar Buko e as consequências disso, se em seu íntimo você aceitá-las, saberei que valeu a pena, caso contrário, nada terá servido a coisa alguma. Então já adianto, o que me pede requer sua redenção máxima.”

Pedi um tempo para refletir, o mago deixou-me a vontade para tal. Usei o tempo para registrar minhas experiências e, depois de muito pensar, decidi que sim, quero saber o que está a meu alcance de ser feito, não importa o fardo que se jogue sobre meus ombros.

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Meu pai retornou de sua viagem após passar mais de quinze anos desaparecido, pegou uma garrafa brilhante que eu nem sabia estar escondida de baixo de uma tábua de madeira no chão da cozinha, me entregou o livro no qual escrevo agora e disse com olhos vidrados para que eu registrasse com precisão e riqueza de detalhes tudo que ocorreria no dia seguinte, na área de eventos da cidade, e só então lesse o resto, para depois decidir o que fazer. Assim que concordei com seus termos, ele foi embora para não sei onde.

No dia seguinte fui até o local, mantive certa distância dele, como prometera, e passei a escrever.

Meu pai estava de joelhos, sentado em suas pernas no centro de um hexágono desenhado com pó branco e ossos de diversos animais, a figura foi preenchida com os símbolos encontrados nos medalhões dos Filhos de Taarin e outros que nunca vi, ao seu redor estavam copos de madeira e em sua frente um facão de lâmina iridescente azulada. Ele curvou-se para o chão, pressionou com força as mãos contra as têmporas e começou a falar em uma língua exótica, impossível de ser identificada, mas capitei alguns fonemas como “Odareshothu lhaco merade isipã bex” que eram repetidos com mais frequência.

Passou-se mais de uma hora até que ele rasgasse sua túnica, revelando cicatrizes de queimaduras feitas por ferro incandescente, as marcas pareciam ser escrituras de alguma terra distante, não pude reconhecê-las, logo em seguida passou a derramar o conteúdo dos copos, pareciam ser água ou óleos, sobre sua cabeça e voltou a falar na língua comum.

“Renego a Sahinco, deus da vida” e entornou um copo, com lentidão e determinação.

“Renego a Jilief, deusa da caça”, “Renego a Belenari, deus da colheita”, “Renego a Nosulii, deus-deusa da fertilidade”, “Renego a Greklh, deus do sol e da lua”.

Levantou o último copo muito a cima da cabeça e bradou a todo pulmões: “E me entrego a Dahdira, deusa da morte, minha deusa, dona de minha eternidade e de minha maldição. Aceite minha oferenda, pois é tudo de mim, mas peço algo, e uma coisa apenas, um meio de fazer o que deuses não se autorizaram, quero um meio de matar Buko, o profanador, aquele que matara Narote, seu filho. Que venha a mim tal poder e que minha dívida seja paga.”

Assim, empunhou a lâmina e fincou-a em sua barriga, lutou para recuperar o folego entre ganidos graves e tosses carregadas. Uma luz branca emanava da ferida, com um ultimo pulso de esforço, atravessou a coluna com a ponta afiada. A luz brilhou como um raio solar, meu pai foi levantado do chão por uma força além de minha pobre compreensão, a mesma luz que atravessara seu corpo fazia-se presente também nos olhos e na boca, cresceu e cresceu até se tornar como uma estrela cegante. De repente o tom baixou, e lá estava ele, estimo que quarenta metros acima do chão, envolto por uma besta translucida tremeluzente, de aspecto humanoide, quase draconiano, quase todo coberto por uma armadura óssea, antebraços, canelas, patas e garras maiores que as partes posteriores dos membros, tronco e cintura seguiam proporções normais, sua cabeça angulosa, de focinho alongado, era protegida por um elmo que também envolvia dois chifres arredondados de bode, de sua nuca começava uma sequência de placas curvas e pontiagudas que terminava apenas na ponta da cauda. Assim que a fera obteve forma e consistência, tomou coloração azul e preta, firmou os pés no chão, destruindo quarteirões inteiros e causando tremores que demoliram tantas casas mais. Saí correndo, deixando a curiosidade sobrepor-se ao bom senso, olhava para trás.

Nunca corri tanto em minha vida, corri mais do que minhas pernas aguentavam, eu e toda cidade, o caos foi generalizado pelas ruas.

Tomei a distância que pude e voltei a escrever o que via, era uma segunda aparição, entre uma fumaça laranja crescente para todos os lados, tratava-se de um homem extremamente musculoso de olhos amarelos, boca dentuça, barba comprida e de sua cintura para baixo havia apenas fumaça. Era pequeno se comparado ao monstro que meu pai se tornou, então exclamou como se tivesse uma tempestade na garganta

“Narote! O filho da vadia deseja vingança? Não teme, mais uma vez, a força de seu algoz? Pois bem, que a história se repita!”

Suponho que se trate de Buko, a quem meu pai se referira momentos antes, seu tamanho aumentou até ficar maior que o monstro Narote, crescia enquanto surgiam mais dois pares de braços próximos aos originais, seu pescoço se alongou e curvou-se para baixo, a mandibula se projetou para frente e seus dentes me pareceram mais numerosos e maiores que antes. Em cada mão surgiu uma cimitarra de ouro, proporcionais às mãos que as empunhavam com firmeza.

Buko avança, aos berros que rachavam o chão, voando numa velocidade inimaginável para algo tão grande, golpeando com ferocidade a criatura que se protegia cruzando os braços sobre a cabeça. Narote aproveitou uma brecha para agarrar Buko pelo pescoço, jogá-lo no chão, fazendo a trajetória arqueada por cima de si mesmo. Pressionava-o contra o chão com a mão esquerda, esmagando seu pescoço, e pela boca expeliu uma rajada contínua de fogo preto diretamente no rosto do inimigo, rapidamente interrompido por golpes de espada, repelidos por uma das mãos que segurou um braço, um forte pisão que reprimiu outro e um terceiro que sua mandibula agarrou com tal força que um rápido movimento de pescoço foi o suficiente para decepar o membro.

Jamais pensei ver o sangue de divindade alguma.

Ao conseguir desvencilhar-se em meio a surtos de incredulidade, Buko ordenou com gestos que rochas se desprendessem de terrenos, morros e montanhas e se atirassem contra Narote. Assim fizeram, impelindo meu pai para longe. A torrente de toneladas de pedras esmagava-o, num fluxo cíclico vicioso, cessando quando o monstro caído jorrou pela boca, como um vulcão, um fogo tão escuro que por instantes o céu queimava eclipsado. Todas as pedras foram desintegradas.

Narote permaneceu imóvel com a bocarra aberta, um silêncio fúnebre tomou o mundo para si, engaiolando a vibração do fôlego da menor das criaturas. Buko aproximou-se lentamente, desmaterializou as espadas e no lugar delas conjurou uma lança rubra mais extensa que ele mesmo. Segurou-a com todas as mãos que lhe restavam, ergueu-a até seus dedos se alinharem com o sol e então enterrou-a no peito do monstro caído.

Três segundos depois, Narote agarra uma das mãos de Buko que ainda seguravam a lança, puxa-a para si a fim de levantar-se do chão, gira o tronco, quebrando a lança ao meio. Finca a mão direita no ombro do homem bestial, puxa a cabeça dele para junto de si e come-lhe parte do cranio, arranca-lhe com a boca também a mandibula inferior e a mastiga, o braço que ferira com as garras é rasgado, a mão que segurava a cabeça de Buko abre-lhe a barriga. Narote bate com Buko no chão, se ajoelha sobre ele golpeia-o com socos conjuntos no rosto até não sobrar nada além de uma pasta ensanguentada, então devora suas entranhas, espirrando sangue a cada abocanhada.

Deixando menos que uma carcaça amorfa se desfazendo em fumaça laranja no chão, o monstro que já foi meu pai se vira para mim, a distância era tanta que ele não poderia me ver, eu era uma formiga entre as árvores, mas tive certeza de que olhava exatamente na minha direção, ele pegou a metade da lança ainda atravessada em seu peito, tirou-a e passou a se auto empalar repetidas vezes, sem mudar a expressão de seu rosto, nem a de seu corpo, apenas no último golpe, quando virou sua cabeça para o céu e rugiu como um animal desesperado.

Posso estar enganado, mas digo que foi imediatamente que uma mulher inacreditavelmente maior que duas vezes o tamanho dos monstros surgiu, pegou Narote nos braços, como se fosse uma criança, e deu um beijo em sua testa

Ela está olhando na minha direção, exatamente como fizera meu pai…

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Registro total espanto ao ler tal antologia de absurdos.

Primeiramente, nunca houve um rei chamado Dario, Taarin sim foi um bom rei, apesar de sua deformação, e todos seus súditos, homens, mulheres e crianças do reino, são chamados de Filhos de Taarin.

Também nunca houveram criaturas descritas como as chamadas Sawrul Ksais. Nem imagino cena mais controversa do que nosso próprio povo, chamado de inimigo, atacando o local que corresponde ao nosso próprio reino, montados em grifos.

Todo o resto se trata de um absurdo fantasioso da mente de algum desocupado degenerado, porém a maior parte do relato foi escrita com a caligrafia idêntica à do meu pai, a descrição dos lugares e profissão do eu lírico batem com a vida dele, a parte final é exatamente como a minha, e com certeza não me lembro de absolutamente nada que ocorreu nos últimos três dias, ao tentar lembrar dos hábitos de meu pai nos últimos vinte anos sou afligido por intensa dor de cabeça, e o que é pior, não faço a menor ideia de como se deu seu falecimento.

Perguntarei a minha mãe mais tarde, por hora já me poluí com histórias desgraçadas demais.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!