Seu corpo pesava e doía, não havia uma única molécula de seu corpo que não doía, a dor era intensa e incessante, chorar era improvável, pois mais dores viriam junto das lagrimas. Sentia-se fraca, letárgica e ficar consciente era quase impossível.

Sua consciência ia e voltava de acordo com o sacolejar do navio, seu corpo parecia feito de vidro, sua pele estava ultrassensível, até a coberta lhe causava dor ao arranhar sua pele, mas não se livraria dela por causa do frio terrível que sentia, calafrios tomavam seu corpo e a temperatura parecia ser de zero grau.

Salácia ouvira a porta do quarto ser aberta, mas estava tão exausta e com tanta dor que nem os olhos abrira.

Kallel ao ver a sua ruiva tao cheia de vida, naquele estado lastimável sentiu um enorme aperto no peito, as olheiras dela estavam piores, sua pele pálida e doente, parecia que a dor dela havia se tornado sua.

— Estamos quase lá, aguente mais um pouco!

A ruiva apenas gemeu em resposta, Kallel sentia que não havia muito tempo, deveria descobrir o que havia de errado com Salácia, antes que ela sucumbisse.

Kallel saiu do quarto e viu novamente sua águia empoleirada em Gregory.

—Capitão!

— Alguma resposta?

— Veja o senhor!

Com cuidado o homem pegara um pedaço minúsculo de papel com um curta sentença.

“Tire-a de perto da agua imediatamente!”

—Quanto tempo até atracarmos Gregory?

—Mais algumas horas senhor!

— Quero todas as velas abertas, toda a velocidade, diminua essas horas o máximo possível!

— O que esta acontecendo senhor?

— Temos que tira-la de perto da agua o mais rápido possível!

— A coisa está tão feia assim?

— Aparentemente mais do que possamos imaginar!

Aos berros os homens do navio se puseram a trabalhar, Kallel só faltava roer as unhas ou criar um buraco no navio de tanta preocupação, a terra estava longe e Salácia não estava nada bem.

Os minutos pareciam andas como uma lesma, se arrastando o mais lento possível. Kallel parecia a ponto de explodir, e não esperou nenhum segundo a mais ao ver que se aproximava do cais, com uma velocidade quase inumana ele correu para sua cabine, pegou sua ruiva no colo, e correu para sair daquele navio, como se o mesmo estivesse a ponto de explodir.

Naquele lugar não havia conhecidos, não havia favores a serem cobrados, então sem opção foi para a primeira estalagem que encontrara. Era uma casa aparentemente simples, moveis de madeira desgastados, um pequeno balcão com uma prateleira de chaves pendurado atrás e uma senhora de meia idade, mas muito bem apessoada entre os dois, ao ver a ruiva em seus braços seus delicados olhos castanhos se arregalaram.

— Ela esta bem senhor?

— Não, por isso preciso de um quarto urgente!

— O que ela possui não é contagioso, não é? Por se for não poderei instalar o senhor e sua esposa em minha pousada!

— Não, o que ela tem só afeta a ela, ou então minha tripulação inteira estaria morta nesse momento!

— Entendo, irei instalá-los no térreo mesmo, creio que não seja bom movimentá-la muito!

Sem nem olhar para o painel a suas costas ela pegou uma chave e o guiou o mais rápido possível para o ultimo quarto daquele mesmo andar.

O quarto era pequeno e modesto, uma única cama de casal com lençóis brancos e travesseiros de fronha vinho, um guarda roupa modesto, uma janela que dava para a floresta e um pequeno criado mudo com um abajur em cima.

—Se precisar estarei no balcão, o café da manha é das seis as nove, o almoço servido ao meio dia em ponto e vai ate as duas e o jantar é servido às sete!

Kallel se virou para falar algo, mas a mulher já havia saído, o moreno deitou a frágil garota na cama e saiu do quarto, indo para a sala da casa, que ficava do outro lado do balcão, seu olhar estava perdido no fundo da lareira e ficava murmurando as mesmas palavras sem perceber, como se aquilo fosse um mantra, ou como se aquelas palavras poderiam criar vida e lhe dar a resposta.

— Oceano branco... Oceano branco... Oceano...

O homem nem notara quando uma criança de oito anos sentara-se ao seu lado e observava em pleno silencio. Era um garotinho de olhos verdes, pele sardenta e cabelos castanhos, olhar levado e joelhos ralados, uma janela em seus dentes era visto por meio de seu sorriso. Fazia um tempo que ele observava aquele homem, o achava engraçado, apesar da cicatriz no olho, ficar repetindo sempre a mesma coisa ao seu ver infantil era coisa de louco.

— O senhor busca o oceano branco?

Kallel se assustou com a voz infantil e demorou um pouco para perceber do que se tratava.

— O que disse?

— Perguntei se esta procurando o oceano branco!

— Como sabe?

O menino sorriu e pulou da cadeira.

— Porque é só o que o senhor esta resmungando a horas!

— Você sabe algo a respeito?

— Talvez sim, talvez não!

— Sabe ou não garoto?

— Como o senhor ganhou essa cicatriz no olho?

— Não é da sua conta!

— Também não é da sua conta saber a localização do oceano branco, mas ca estou eu, tentando negociar!

— Ganhei em uma luta com um pirata perigoso!

Os olhos do garoto brilharam, mas logo o brilho se apagou.

— Você não parece ser um soldado da marinha!

Kallel levantou um sobrancelha, meio incomodado com as palavras do garoto.

— Realmente não sou um dos cães da marinha, sou um de seus inimigos!

O menino soltou um folego e deu um pulinho.

— Você é um pirata?

— Sou um capitão pirata!

Com um floreio Kallel fez uma leve reverencia ao menino que caiu na risada.

— Pensei que os piratas fossem...

— Mais feio, com tapa olhos, pernas de pau e muito, mas muito malvados?

— Sim!

— E a maioria o é, eu sou uma exceção a regra, gosto de ser charmoso, assim agrado mais as mulheres, sem contar que não roubo de qualquer um por qualquer motivo!

O menino ria de rolar no chão, e Kallel parecia se divertir com aquilo.

— E a cicatriz?

— Um charme a mais, mulheres ficam loucas com isso, mas eu realmente ganhei ela lutando contra um pirata, el invadiu meu navio, eu ainda era novo como capitão, seu ultimo golpe deixou essa cicatriz em meu olho, pois logo depois eu lhe decapitei e joguei o corpo para os tubarões!

— Uou!

— Vida de pirata é cheias de perigos, você não gostaria de ser um só por causa das aventuras!

— Serio?

— Sim, afinal você tem de se manter afastado de todos os que ama, não ter medo de morrer na próxima tempestade ou quando esta em luta, medo é a ultima coisa que se deve ter, assim como preocupações por aqueles que você ama!

— Mas eu lhe vi entrando desesperado com uma garota!

Kallel sorriu mais ainda e se aproximou do menino.

— Aquela garota pode me matar sem nem ao menos suar, ela me apavora, e se ela me apavora eu imagino quanto aos homens que ela enfrenta!

— Ela é perigosa?

— Só para aqueles que a tem como inimiga!

— Certo!

— Sua vez, oceano branco!

— Certo, existe um local em terra que há muito tempo o povo desta ilha visitava, no inverno nós o chamávamos de oceano branco, porem a muito tempo ninguém se atreve a ir lá, pelo menos não depois da guerra!

— Guerra?

— Sim, um humano se apaixonou e se envolveu com a rainha, eles tiveram uma criança as escondidas, porem ao ser descoberto esse amor o povo da ilha e o povo da floresta se voltaram um contra o outro, não deveríamos nos misturar, essa era a lei!

— E?

— Durante a guerra houve muitas perdas para os dois lados, a criança, fruto do amor dos dois mundos, se perdera, a rainha furiosa mandou matar qualquer um que puser seus pés em suas terras!

— Então...

— O oceano branco é uma floresta branca!

— Floresta branca?

— Sim, as arvores tem folhagens brancas como a neve, seu chão é quase todo forrada de lírios brancos e flores da neve, dizer que existe uma velha arvore no meio da floresta que em seu tronco existe um portal que leva para o reino das nuvens, onde a rainha repousa em seu castelo em tristeza profunda por não mais poder ver sua adorada filha!

— Entendo!

A mesma mulher que o atendera nessa manha entrara toda descabelada.

— Então fora aqui que você se escondera Anton!

O menino sorrira sem graça.

— Ops, a senhora me encontrou!

— Ops nada mocinho, seu pai está louco da vida atrás de você e você está aqui incomodando um cliente!

O menino sorriu e correu para os braços da mulher.

— Mãe ele disse que é um pirata, você acredita, um pirata de verdade!

A mulher olhou assustada para o Kallel, no entanto o homem apenas sorrira e se aproximará dos dois e acariciou os cabelos do menino.

— Crianças acreditam em tudo o que contamos, sou apenas um marujo que trabalho em um navio mercante, essa cicatriz nada mais foi um anzol que fez, não foi tratado na hora e com cuidado e acabou assim, não se preocupe, não sou um pirata!

Kallel piscou para o menino que riu e olhou sorrindo para a mulher.

— Desculpe meu filho lhe perturbar e acabar manchando sua imagem de homem trabalhador!

— Que isso, ele é uma graça, agora eu preciso ir ver minha mulher, espero que ela já tenha acordado, ela não esta acostumada a viagens longas, então não sei por que ela decidira vir justo nessa!

— Mulheres são teimosas, senhor!

— E a minha parece ser mais do que a maioria, onde fui amarrar meu barco quando casei com essa mulher?!

Kalle fez uma falsa cara de inconformado e sairá de perto da mulher e seu filho.

O homem observava que finalmente as olheiras de Salácia iam desaparecendo assim como sua respiração se regularizava. O alivio finalmente substituíra sua preocupação.

Salácia respirava sem dor, seu corpo já não parecia feito de vidro e nem a roupa de cama parecia feita de pedras, seu corpo ainda apresentava lugares doloridos, mas finalmente ela podia dormir tranquila, sem sentir-se despedação, sem se enjoar e sem a sensação de pavor que lhe tomava. Finalmente sentia-se segura, sentia seu corpo quente, sentia a presença dele, sentia-se feliz, e qual fora a ultima vez em que se sentira assim? Já nem se lembrava mais, dias de dor fazem isso com um pessoa, lhe apaga as memorias felizes e lhe deixa apenas as lembranças dolorosas, lhe deixa sem esperança, sem um porto seguro, lhe faz desejar a morte.

Seus olhos lentamente se abriram e ela pode ver um guarda roupa modesto, sentia abaixo de si um peito subir e descer, ao levantar pode ver que esse peito pertencia a Kallel, algo nela lhe dizia que ele havia lhe salvado, que agora suas vidas estavam mais que entrelaçadas, sentia que nada importava se ele se separasse dela, se ele lhe tivesse deixado de lado naquele momento sua recuperação seria impossível. Involuntariamente ela levantou sua mão até o rosto dele e uma lembrança viera a sua mente.

“Ela era apenas uma criança e ainda não era uma boa lutadora e mesmo assim invadira um dos navios da marinha de seu pai, para não ser reconhecida fizera um coque com seu cabelo e sempre usava um capuz, não fava com ninguém, sempre ficava a um canto. Não sabia o que o navio levava e sentia-se entediada, fora quando o navio fora atacado e piratas tomaram o navio, os soldados logo se posicionaram e começaram o combate. A adrenalina lhe tomou e ela tomou o lugar de um soldado morto, o homem com quem lutava era lindo, cabelos negros, olhos verdes, um pouco de barba e um corpo forte. Ele era um exímio lutados, e ela quase não podia se defender, com o canto dos olhos vira os homens de seu pai abandonando o navio, ela não queria deixar tudo aquilo para traz, porem sabia que se ficasse e lutasse não sobreviveria, juntando todas as suas forças ela dera um ultimo golpe, que pegara o homem de surpresa, acertara seu rosto, cortando a parte superior e inferior de seu olho, não o cegando porque não fora tão profundo, mas ela sabia e sentia que aquilo ficaria uma marca, a sua marca em um pirata. Por fim, durante a distração do homem com o sangue ela correra e se jogara para fora do navio e nadou para a costa que não estava muito longe dali.”

— Oh céus!

Kallel abriu os olhos e sorriu, mas o sorriso morreu ao ver as lagrimas da garota.

-O que foi? Ainda esta doendo? Você ainda não esta boa? O que dói? Fale comigo!

Lagrimas se juntaram nos olhos claros da garota, mas não escorreram.

— Eu sinto muito, eu juro, eu sinto muito!

— Sente muito pelo o que?

Kallel se sentara e segurara os ombros da garota.

— A culpa é minha, a sua cicatriz é culpa minha, eu poderia ter te deixado cego!

— Culpa sua? Foi um descuido meu, deixei um maldito filhote de cão da marinha fazer isso ao me distrair!

— Não, não foi um cão da marinha, foi uma princesinha inexperiente no campo da luta que era muito rebelde e que queria navegar, quando meu pai descobriu que eu estava naquele navio quase me matou!

Kallel a encarou por alguns segundos congelado e de olhos arregalados, até que uma luz se fez presente.

— Você era a encomenda, deveríamos ter lhe levado e no entanto você fugiu!

— Espera, o que?

— Alguém nos contratou para pegar a garota que estava no navio da marinha, como eu poderia imaginar que a garota estava fantasiada de homem?

— Entao sua cicatriz foi muito bem feita, você mereceu!

Kallel por fim caiu na risada.

— E como foi merecida, céus se eu tivesse lhe raptado e descoberto depois de te entregar que você era você, eu iria me arrepender tanto, mas sério já naquela idade você conseguir me machucar, que tipo de criatura rebelde era você!

Salácia sorriu, uma que se arrepende muito desta cicatriz!

— Não deveria, eu a adoro, assim como todas as mulheres que já conheci!

O sorriso da garota lentamente foi morrendo e Kallel percebeu a burrada que dera.

— Mas agora adoro em pensar que a pessoa que me causou essa cicatriz foi você, posso considerá-la uma marca de amor!

Kallel pode ver um brilho voltar aos olhos da garota, mas não pode ver mais nada porque ela desmaiara, ainda estava cansada e seu corpo não se recuperara completamente.

— Essa foi por pouco!

Com um suspiro Kallel voltou a se deitar com a garota e deixou-se embalar pelo corpo quente da garota e adormeceu com um sorriso nos lábios.