Caminho Incerto
21 20 - A Vida Continua
Tudo está escuro. Deixei simplesmente de sentir, seja frio ou dor, não sei sequer o que sinto. Deixo-me ir, seja lá para onde for, é com certeza melhor que a realidade. Aos poucos a minha mente apaga e a paz chega. Estou livre. Finalmente estou livre da dor. Alguém está a chorar, sim é o choro de alguém. Porém, não consigo distinguir mais nada, apenas me deixo ir, para onde não tenho dor, para onde não sinto culpa.
Quando finalmente abro os olhos, o que vejo é um imenso jardim, parecido com aquele onde estive com a família do Diogo. Começo a andar...sinto-me finalmente em paz. Será que morri? Será que finalmente tudo acabou? Ao longe vejo alguém a caminhar para mim. Não consigo perceber quem é, apenas que é uma mulher. À medida que se vai aproximando, reconheço-a, é ela, a pessoa de quem mais precisava: a minha mãe.
— Vem.- não foi preciso dizer mais nada...e fui...fui esperando o seu abraço, o seu abrigo...- Nena, porque fizeste isto? Porque te culpas tanto?
— Eu...foi por minha culpa mãe. Eu não aguento mais, não aguento mais viver com a culpa dentro de mim. E saber que o...- paro, nem o nome dele consigo prenunciar...-...o que ele me fez mãe...eu sinto-me suja, tenho nojo de mim...
— Ei! Sei que o que passaste não é fácil. E acredita que gostava que nem te tivesses lembrado. Mas a culpa do acidente não foi tua...tu erraste sim, ao nos mentir. Mas Madalena, eu e o teu pai fizemos isso tantas vezes, querida são coisas de adolescente. A Luísinha vai fazê-lo também, a Sofia e até a Clarinha...todos nós passamos por isso...chama-se ADOLESCÊNCIA...
— Mãe!? Eu morri?- pergunto meio que sem a deixar de abraçar...embora eu saiba a resposta.
— Não, Madalena...- agora fiquei espantada, olho para a minha mãe sem perceber nada do que está a acontecer...- Tu estás em coma, assim como o teu pai esteve. Vocês são tão iguais e nem sabem...
— O pai não me vai perdoar. Ele vai me culpar da tua morte, tal como todos...a Ana tem razão eu é que devia ter morrido.
— Ei! Nada de ouvir o que a tua prima diz. A Ana sempre foi mimada de mais...- nessa altura a minha mãe revira os olhos...
— Eu tive medo até de dizer as minhas notas à avó...eu sabia que nos iriam comparar...e apesar de tudo o que ela me faz não acho justo...
— Sempre a pensar nos outros em vez de pensares em ti.- ela limpa-me as ultimas lágrimas que me escorrem...- Filha, não te vou dizer que vai ser fácil, porque não vai ser. Ainda vais passar por muita coisa, ainda vais muitos obstáculos para ultrapassar. Porém, tudo vai valer a pena no final.
— Mãe, eu não quero sair daqui. Deixa-me ficar...por favor...- e antes dela me dizer que eu não podia...- só mais um pouco, por favor...eu preciso de estar aqui nos teus braços.- E assim ficamos ali, sem palavras, sem nada. Apenas nos abraçando...
Dois Anos. Dois anos se passaram, e a vida flui sem nem eu me aperceber. Depois de sair do semi-coma falei com o meu pai. Não foi uma conversa simples, nem calma. Ele contou-me tudo o que se passou, sem esconder nada, mas mesmo nada...e eu falei como me sentia. Fomos apenas nós pai e filha, marido e filha...quando o assunto foi a minha mãe.
Continuamos a morar com os meus avós, pelo menos naquele momento. O meu pai ainda estava fraco, iria precisar de ajuda, inclusive de fisioterapia. Me concentrei nos estudos, e no meu namoro com Diogo. Sim continuámos a namorar às escondidas, e é como dizem os fruto proibido é o mais apetecido. No dia que o parvo do meu irmão descobriu, tudo porque eu fui burra o suficiente de ir ter com Diogo perto da faculdade. E calor que o Pedro teve que ir contar ao meu pai.
"Estou a chegar a casa depois de ter estado com o Diogo no nosso jardim. Claro que eu sabia que o Pedro iria contar que eu estava com o Diogo na Faculdade, mas tínhamos o plano perfeito para enganar durante mais um pouco o meu pai...ou pelo menos nós achávamos isso.
— Madalena.- ouço o meu pai chamar-me, e vou ter com ele ao seu escritório. Estávamos na "NOSSA" casa aqui em Coimbra hà cerca de seis meses, e estávamos felizes, apesar de faltar cá a Rainha.
— Sim Pai.- digo e entro no escritório e vejo Pedro de pé junto do meu pai...ah!!! Maninho, vais aprender a não te meteres comigo.
— Estive com a Rute, em casa dela. Porquê?
— Com a Rute ou com o irmão dela?
— Bem estive com os dois, eles moram juntos. Então tecnicamente estive com os dois...
— Madalena.
— O que foi pai. eu não estive a fazer nada de mal. Estivemos as duas a estudar, se quiseres liga à mãe dela...mas se o fizeres é sinal que afinal não confias em mim tanto como dizias...
— Explica-me o que é isto?- e atira o que parece serem fotos para a secretária...- So quero que me expliques o que é isto...- pego em duas ou três, e não posso crer no que estou a ver...são fotos minhas com o Diogo, o Pedro deve andar atrás de mim há muito mais tempo do que eu pensava...- Estou à espera Madalena.
— Eu...eu....- abaixo a cabeça, não vale a pena esconder mais...agora é enfrentar o furacão.- Eu amo-o, nós estamos a namorar.
— Eu não nem gritar contigo. A partir de hoje só sais da escola quando eu, o teu irmão ou o teu irmão de forem buscar. Vens para casa e não sais. A tua vida se resume a ir de casa para a escola, e da escola para casa.
— Não podes fazer isso. Não podes, por favor...- mas ele mantém-se a olhar para mim com um ar decidido...- Pai, por favor...- viro-me para o meu irmão que tem um sorriso da cara...- Eu odeio-te Pedro...odeio-te.
— Ah! E antes que eu me esqueça, o teu telemóvel...- olhei para o meu pai incrédula, ele iria mesmo tirar-me o telemóvel...dei-lho, ele tirou o meu cartão e colocou outro...- Este só pode fazer chamadas para o numero que eu der autorização.
Eu fiquei chocada, estava mais que controlada, estava limitada, presa..."
Depois desta conversa nunca mais consegui estar muito tempo com o Diogo, víamo-nos de longe, já que ele começou a ir buscar a Rute. E falávamos pelo telefone dela, mas era pouco, muito pouco. Um dia não aguentando mais, consegui enganar o meu pai e faltei a uma visita que a escola iria fazer. Para todos os efeitos para a professora eu estava doente, e como a Ana estava fora com os meus tios, também nunca iria saber.
Encontrámos-nos no nosso jardim, e fomos para um hotel...não pensem asneiras, nada aconteceu. Apenas namorámos um pouco, toques inocentes, beijos inocentes e sem malicia. Sempre que conseguíamos um tempo para nós, era ali que nos o nosso amor acontecia. Bem pelo menos durante um ano ficámos-nos por isso. No ano em que finalmente eu fiz os 18 anos, depois do tão aguardado baile, onde Rute foi com o Diogo e eu com o Tiago, que entretanto já tinha conseguido dobrar a Rute. Eles não estavam bem a namorar, mas tinham uma coisa meio namoro, meio um ficar.
Tinha pedido nesse dia ao meu pai para ficar com a Rute, era o nosso ultimo ano juntas...já que para o ano ambas íamos estar em faculdades diferentes. E depois de muito pedir, implorar...o meu pai deixou-me. Mas o que ele não sabia, e ninguém sabia é que eu já tinha tudo combinado com o Diogo e com o Tiago...esta noite iria ser a nossa noite...a nossa noite.
E foi, realmente foi a nossa noite. Foi a noite em que o Diogo me deu a coisa mais valiosa na minha vida: a Minha Luz.
Porque não estamos juntos? Porque estou em Espanha?
Porque nem tudo na vida é como nós imaginamos. Depois da nossa noite, e das aulas terminarem fomos de férias. Eu vim para Lisboa visitar os meus avós, os meus tios e os meus primos. Estivemos cerca de duas semanas em Lisboa, e é engraçado perceber como tudo mudou. Antes eu sentia-me como um peixe fora de água em Coimbra, sentia falta de "casa", de Lisboa. Hoje, sinto o oposto, Coimbra é neste momento a minha casa, o meu lar, o lugar onde vivo e sou feliz.
Quando regressámos, fomos passar uns dias no Luso. A minha avó adorava ira para as termas, e este ano decidimos ir todos. Uma semana na boa vida...bem mais ou menos. Eu andei uns dias meio indisposta, porém não liguei. Infelizmente tivemos que voltar, o meu pai tinha começado a trabalhar há pouco tempo no hospital em Coimbra, e o Pedro tinha que tratar da sua vida uma vez que iria começar a sua especialização em Cirurgia.
No entanto voltar foi tudo menos o que sonhei. Na manhã do que poderia ser uma segunda feira qualquer, aproveitei que as minhas irmãs estava em casa da minha tia, o meu pai e o Pedro no Hospital, fui ter com a Rute a casa dela. Estava com saudades daquela maluca, ela tinha decidido depois de muitas dúvidas ir para Psicologia, e sinceramente acho que tem tudo a ver com ela.
Quando lá cheguei quem me abriu a porta fui uma rapariga, que eu nunca tinha visto na vida. Perguntei por Rute, ao que ela me respondeu que não estava ninguém em casa senão ela e o namorado. Olhei para dentro e vi-o, deitado no sofá...saí de lá a correr. Não estava a acreditar no que tinha visto. Assim que cheguei a casa corria para o meu quarto, chorei tudo o que tinha que chorar...e nesse dia decidi muda a minha vida. Consegui convencer o meu pai que queria vir fazer o curso de medicina em Lisboa, expliquei-lhe que ali em Coimbra seria sempre a filha da Dra. Maria Sá Fernandes e do Dr. Sá Fernandes, que eu queria mais, queria ser elogiada por mim e não porque era filha de quem era.
Não sei como lá consegui convencê-lo. Como ainda estava na altura da candidatura para segunda fase, eu refiz a minha, apesar de ter já entrado na faculdade em Coimbra, iria arriscar e mudar a minha vida. O mal estar continuava, as tonturas, a falta de apetite, a vontade de comer coisa doidas...e quando parei para pensar assustei-me...eu podia não ser médica, ainda...mas eu não era burra. E mais uma vez mudei todos os meus planos, mas desta vez não contei a ninguém, não pedi autorização a ninguém.
Ao fim de duas semanas tive a confirmação, estava tudo preparado para o meu recomeço. Seria difícil, e eu tinha consciência disso...mas iria conseguir. Lembro-me do que a minha mãe me dissera naquele sonho há quase quatro anos atrás: "Filha, não te vou dizer que vai ser fácil, porque não vai ser. Ainda vais passar por muita coisa, ainda vais muitos obstáculos para ultrapassar. Porém, tudo vai valer a pena no final."
E assim me vi em Espanha, a estudar, a trabalhar, pois tinha que pagar todas as minhas despesas, e grávida. Sim grávida. Assim que cheguei a Barcelona, a primeira coisa que fiz depois de arranjar um trabalho, como auxiliar de educação foi arranjar uma médica. O que não foi complicado, como os horários em Espanha são feitos a pensar na família, enquanto de manhã eu ia à faculdade, à tarde eu trabalhava. A minha patroa era uma senhora acessível e logo de cara me perguntou o porquê de eu estar a trabalhar como auxiliar e a estudar medicina.
Expliquei-lhe a minha situação, sem me esquecer de nenhum pormenor...e para além de me encaminhar para a filha que era obstetra, eu-me um lugar para ficar sem ter que pagar nada. Dona Consuelo, foi aquela pessoa que me deu a mão, sem pedir nada em troca. Deu-me trabalho, deu-me uma casa, deu-me amor...foi um anjo enviado do céu.
Depois de Maria da Luz ter nascido, ela não quis que eu trabalhasse mais com ela, disse que eu tinha que me focar nos estudos, para ser uma médica tão boa como a minha mãe. Sim decidi tirar pediatria, o que sempre sonhei. E assim foi, ela ficava com Luz durante a manhã, e à tarde ela ia para a sua escola e eu ficava com Luz para mim. Quando Luz fez um ano, Dona Consuelo comunicou-me que a partir daquele momento, Luz iria para a escola com ela, a sua "neta" tinha que brincar com as crianças da idade dela. E apesar de eu querer pagar, ela não me deixou. Nesse ano, e mesmo com Luz, consegui ser aluna do quadro de honra, o que fez com que conseguisse ser assistente de um dos professores, assim fui ganhando algum dinheiro.
Agora com três anos, Luz requer um pouco mais de atenção, estou no ultimo ano do curso, e já estou a fazer a preparar o internato. Sinto-me mal, pois sei que Luz vai sentir um pouco com a minha ausência, mas Dona Consuelo e o seu marido D. Júlio César, amam a minha menina como neta e irão ficar com ela nessas noites.
Hoje foi um dos poucos dias que tive alguma folga da Universidade, estava a passar a assistência para um dos alunos do 2º ano, já que agora com o internato seria impossível continuar a assistência. Decidi passear com Luz...levanto-me para preparar o leite da minha pequena, e o meu café, e eis que ouço a minha pequenina...
— Mamã...- quando olho para a porta da cozinha onde bebia um café e relembrava a minha vida, antes deste pacotinho rosa aparecer na minha vida. Maria da Luz, a minha vida, e verdadeiramente a minha luz.- Coio...- abaixo-me um pouco e a pego ao colo. Luz tem quase tres anos, é um doce de menina, fala português e espanhol, e adora ir para a escolinha.
— Bom Dia Pipoquita...- dou-lhe um beijo na sua bochecha, e ela se aninha no meu ombro...- Queres o teu leitinho?- pergunto, enquanto lhe faço festas nas suas costas...
— Mi Botella mamã...- diz ela levantando um pouco a sua cabecinha do meu ombro.
— A mamã vai fazer, vamos sentar na tua cadeira...- ela assente e a sento...- a Mamã hoje não vai trabalhar então que tal irmos passear só as duas?
— Luz no va a escuela?
— Não, hoje a Luz não vai à escola.- minha pequena embora falasse bem o portugues, amava falar no seu espanhol meio encurtado...pelo menos de manhã, à tarde assim que chegava da escola ela só falava em Português.- Aqui tens minha pipoquita...enquanto a Luz bebe o leitinho a mamã vai tomar banho sim...não saias daí.
— Non mamã...
E assim passamos o dia, Luz saltou, correu, brincou...e ao vê-la feliz eu sei que fiz o certo. Foi duro, foi difícil...mas ver a felicidade da minha menina era o mais importante, como se costuma dizer a cereja no topo do bolo. Sei que um dia ela me vai perguntar pelo pai, será inevitável, e sinceramente não sei o que lhe vou dizer. Fui eu que a escondi do pai, ele nem sabe que ela existe...
Mas eu não podia continuar em Coimbra, tudo me sufocava, tudo me fazia mal...estar com o meu pai me fazia mal. Era como se todos os dias revivesse o mesmo pesadelo. Ir para Lisboa, seria o mesmo que estar em Coimbra, com a agravante de me poder encontrar com aquele que me fez quase desistir de viver. A solução que encontrei, foi candidatar-me para uma bolsa em Espanha. Claro que para a minha família eu iria estudar para Lisboa, e ficaria em casa da Tia Marta.
Separar-me do Diogo, foi talvez aquilo que mais me custou. Aquela noite, em que me entreguei a ele, de alma, corpo e coração...foi sem dúvida a mais feliz da minha vida. Ele foi super cuidadoso, carinhoso, sempre preocupado se realmente eu estaria preparada para o que iríamos fazer...e eu estava, quer dizer mais ou menos.
Estaria a mentir claramente se dissesse que tudo estava bem dentro de mim. Porque na verdade eu estava realmente apavorada, na minha mente sempre me vinha aquela noite em que...tudo aconteceu, porém o meu Príncipe percebeu o meu nervosismo e medo, e foi-me sempre acalmando, quer com carinhos quer com palavras doces: "Eu estou aqui, não vou deixar que nada te aconteça...eu amo-te, e sabes que se não quiseres, eu vou esperar. Basta uma palavra tua...", o resultado daquela noite está bem aqui ao meu colo: Maria da Luz.
— Mamã...fominha.- a minha princesa diz colocando-se de pé...- Luz qué batata fita e buguer.
— Ainda ontem comemos pizza Luz, hoje vamos para casa. A mamã fez lasanha...- Luz olha para mim...e com o seu bico mais lindo...
— Mamã...eu queo...po favo.- Nego com a cabeça...- Mamá ... quiero, po favo. Luz no estropeó, e una chica hermosa.
— Maria da Luz, chega. Podes parar com a birra...- ela olha para mim fingindo que não percebeu o que lhe disse, Luz é ardilosa, quando quer algo que eu não lhe dou, ela simplesmente coloca a sua faceta de espanholita...- Luz, mira a mamá. No más rabietas, hoy nos vamos a casa a comer la lasaña, que sé que te encanta.
— Podemos complal helado en el mercado?
— No sé si te lo mereces después del berrinche, pero está bien.- E uma Luz animada salta e grita à minha volta...- Vamos al mercado a comprar el helado...
E assim seguimos até ao mercado. Quando estávamos a sair, Luz fez outra birra, pois queria ser ela a levar o saco onde estava o gelado, mas como decidi fazer mais algumas compras, ela nunca conseguiria levá-lo, estava demasiado pesado. Então ela resolveu fazer das suas, sentou-se no chão e armou um berreiro, decidi pegar nela ao colo e seguir com ela para casa. Quando por fim consigo pegar em Luz e nos sacos, dou de caras com a pessoa de quem mais saudades eu tinha no mundo.
— Madalena, és mesmo tu?
— Eu...eu...- e agora o que faço...
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