Caminho Incerto

15 13 - A Convidada Inesperada


Cheguei a casa já era de madrugada, a noite tinha sido...vamos dizer de muitas memórias. O doido do André, conseguiu o que mais desejou durante esta semana e arrastou-me para sair, sei que foi para me fazer esquecer a "Minha Anja", mas nada me iria fazer esquecê-la, apesar de eu o negar sei perfeitamente que nunca a vou esquecer.

"Fomos até um bar onde o pessoal da faculdade costuma ir, como era sexta-feira acabei por ceder e ir com ele. Sei que ele tem segundas e maléficas intenções naquela cabeça, estava à mais de uma semana a tentar que eu convidasse uma miúda para sair, o que ele ainda não percebeu é que nunca mais vai haver alguém no meu coração, porque ele já lhe pertence, e por muito que ele tente mais ninguém o via ter. Enfim acabei por ir até porque sei que ele não ria deixar de me melgar e sinceramente achei que não seria assim uma ideia tão má divertir-me um pouco.

Quando chegamos ao Bar "Tunacadémia" já lá estavam colegas nossos e a Filipa, a tal miúda que o parvo do meu melhor amigo me andava a impingir. Ela era bonita, engraçada, simpática e até nem era má miúda, mas não era a minha Rainha. Ninguém a podia igualar: aquele sorriso que me prendia, os olhos verdes que me hipnotizavam e a forma como só ela me enfurecia com as suas respostas azedas e cheias de sarcasmo. OK! É oficial estou a ficar maluco, porque é que ela não me sai da cabeça, eu não posso ter nada com ela, é menor. Com a tal Filipa estava a Petra, namorada do André há anos e minha melhor amiga há ainda mais.

— Oi estranho. Há quanto tempo é que não te víamos por estas bandas?

— Olá Petra, bem tenho andado um pouco, bem vamos dizer com muita coisa na cabeça e sem vontade de sair.

— Sei? Eu chamo-lhe outra coisa mas estou feliz por te ver a reagir.- e abraça-me como sempre fez.

A Petra sabia de tudo o se que tinha passado em Lisboa, desde a primeira vê em que a vi, até ao ultimo beijo que lhe dei no hospital. Ela tal como o André não me condenam nem me acham doido por gostar de uma menina, mas eu sei que no fundo eles tentam que eu me esqueça dela (já vos disse que essa missão deles é impossível? Pois, mas parece que estes dois estão decididos a fazer do impossível...possível). Resumindo tenho os dois melhores, malucos e dedicados amigos do mundo, o que é que eu posso pedir mais da vida...a "Minha Rainha"?

— Já tinha saudades tuas minha doida...- e dou-lhe um abraço daqueles bem apertados de quem realmente sentia falta da amiga que sempre me defendeu de tudo.

— Ei! Larga lá que esta minha, arranja uma para ti...- o André chega e dá-me um leve empurrão na brincadeira.

— Deixa lá os ciúmes ó palhaço, até porque quem te apresentou a Pê fui eu, logo eu tenho direitos como o primeiro amigo dela.

— Tenho ciumes sim, mas sabias que isso é sinal de amor?

— E que tal baixarem esses níveis de testosterona...- diz a Petra rindo-se da nossa brincadeira de guerra de Galos no mesmo galinheiro...- Diogo esta é a Filipa...é minha colega de curso...- esqueci-me de dizer que eu e o André estamos a fazer o curso de Medicina e a Petra está a fazer Direito.

— Nós já nos cruzamos lá na faculdade e o ciumento do teu namorado aqui já nos apresentou. Como estás Filipa?

— Estou bem e ainda bem que vieste, pensei que ia segurar a vela entre estes dois.- e dá um sorriso tímido, mas bonito.

— Tenho a certeza que irias encontrar algum rapaz para te fazer companhia...- respondo-lhe da mesma forma, se bem que o meu sorriso é algo forçado.

— Pode ser que sim, mas agora já não preciso de procurar, certo?- Ui! Ela está a fazer-se a mim? Estes dois abusaram da sorte, não quero magoar ninguém.

— Talvez...- a miúda deve estar a fazer grandes filmes nesta sua cabeça sobre o que se poderá vir a passar entre nós. Viro-me para o André e para a Petra e dou-lhes um sorriso mortal, porque se eu pudesse acreditem que os fuzilava aqui mesmo.

Dirigimo-nos os quatro para uma mesa, onde já estavam o Mateus e o Marcos, dois colegas de curso, com as respectivas namoradas. Sentamos-nos e logo pedimos uma cerveja para cada um, entre conversas, bebidas e muitos amassos entre os três casais, eu e a Filipa acabamos por nos sentir um pouco a mais. Resolvi convida-la para ir até lá fora, eu tinha que falar com ela, não podia deixar que a sua cabeça desse assas à sua imaginação e ela sonhasse com algo que nunca iria acontecer. Tinha que aproveitar esta ocasião e ser sincero com ela, contar-lhe tudo o que se passava com o meu coração.

— Aquilo lá dentro estava a ficar quente...- a Filipa começou por dizer quebrando o silêncio.

—É, só não tenho a certeza qual o casal com mais calor...- sorri para ela e vejo-a a aproximar-se...- Filipa, ouve, eu não sei o que a Petra ou o André te disseram mas...

— Desculpa, eu achei que...sou mesmo parva...- e ia a sair dali mas eu sou mais rápido e pego na sua mão.

— Não espera. Eu é que...ouve tu és uma miúda linda, simpática, engraçada...

— Mas não "sirvo" para ti...

— Eu não disse isso. — comecei a sentir-me mal pelo que estou a fazer...- A verdade é que o meu coração, bem ele já tem dona.

— Tens namorada? Mas a Petra disse-me que tu não tinhas, desculpa a sério. Eu vou matar a minha melhor amiga...

— Não é para tanto, eles abusaram um pouco, no mínimo podiam ter-te contado que estou numa fase menos boa. Mas sei que no fundo tanto a Petra como o André estão a tentar ajudar-me. Sei que não o fizeram por mal mas...

— A ajudar-te? E onde é que eu entro nessa "ajuda"?

— Bem, é nesse ponto que eles passaram das marcas. Eles estão a querer que eu esqueça de um amor proibido. Desculpa mas eu não podia enganar-te, fazer-te acreditar que podia acontecer algumas coisa, quando...

— Amor proibido? É uma professora?!

— Não! É simplesmente alguém com quem eu não posso ter nada. E depois há a cena dela ter perdido parte da memória...eu nem sei se ela se lembra de mim.

— Eu não sei como alguém se pode esquecer de ti...

— Não é que ela tivesse feito de propósito para se esquecer. Ela perdeu a memória num acidente...- falei um pouco furioso, quem era ela para falar de quem não conhecia...

— Desculpa, eu não te queria... Então nunca teremos uma chance?

— Estás desculpada. Não te quero iludir, sabes quando a cabeça te diz uma coisa e o coração outra e tu não sabes a quem ouvir.

— Sim, é assim que te sentes? — eu assinto...- E qual deles está a ganhar?

— Acho que o coração, apesar de eu tentar fazer o que a cabeça me diz para fazer, que é seguir com a minha vida.

— Achas que um dia a cabeça irá ganhar?

— Não sei e esta é a mais pura das verdades. Eu queria muito dar-te uma hipótese, mas neste momento o meu coração é dela.

— Tudo bem,eu percebo-te. Podemos ser amigos?

— Claro que sim e obrigado por perceberes.

A noite foi avançando e a Filipa mostrou ser uma boa companhia, e apanhei-me a pensar que talvez...talvez não fosse uma má ideia. Não, não a posso usar assim. Apesar de ser algo proibido e provavelmente completamente impossível ELA é e acho que sempre será a dona do meu coração, mesmo que não possa estar com ela eu já sou totalmente dela...eu pertenço-lhe.

Finalmente o pessoal resolveu ir para casa, como seria de esperar o André bebeu demasiado o que fez com que tivesse que ser eu a levar as meninas e o próprio até casa. Felizmente a Filipa ficaria em casa da Petra, assim apenas fiz uma paragem e segui caminho até casa do meu amigo que por esta altura já estava a dormir ferrado. Estacionei o carro, tirei-lhe as chaves de casa do casaco e carreguei-o até à porta, posso dizer-vos que abrir uma porta com um matulão aos ombros não é tarefa fácil, mas lá consegui. Assim que entrei vi que os meus "tios" ainda estavam acordados (provavelmente à espera do irresponsável do filho mais velho...).

— Nem preciso que me digas nada, bebeu demais?- diz o meu "Tio" Alexandre.

— Ele até nem bebeu muito, o problema é que ele não aguenta bem a bebida...

— Não o estejas a defender Diogo.- a "Tia" Teresa logo diz...- Eu conheço bem o meu filho, e só te tenho a agradecer por estares com ele. Já é tarde queres ficar cá a dormir?

— Eu agradeço "Tia" mas não avisei lá em casa...

— Bom pelo menos vai de carro, leva o do André amanhã ele vai buscá-lo.

Apesar de eu dizer que não era preciso que iria de táxi eles insistiram tanto que eu acabei por concordar. Estava cansado quer física quer psicologicamente, estava a precisar do meu canto, de colocar as ideias em ordem por isso acabei por aceitar, quanto mais depressa chegasse a cada melhor. A noite tinha sido cheia de recordações, quer boas quer más, mas também tinha sido cheia de revelações inquietantes, a Filipa tinha mexido comigo, não da mesma forma como a Madalena, mas ela conseguiu nem que por breves minutos fazer-me esquecer de tudo.

Antes de entrar deixei-me estar no carro, apenas permitindo-me fechar os olhos e deixar que os meus pensamentos voassem para longe, para aquela noite em que trocamos o nosso primeiro beijo. Eu não podia negar mais o que sentia, mas ao mesmo tempo, não podia enganar-me a mim mesmo, este era um amor impossível. E hoje encontrei alguém que talvez me fizesse feliz, no entanto, seria isso possível?

Saí do carro e entrei em casa, a luz da cozinha estava aberta, ouvi barulho e a esta hora só podia ser a minha mãe ou a Mara: uma porque não conseguia dormir até todos chegarem e a outra provavelmente a arranjar-se para ir para o hospital.

— Bom noite mana...- disse abraçando-a por trás dando-lhe um pequeno susto.

— Diogo...queres-me matar do coração! E já é Bom Dia.

— Desculpa não fiz por mal...vais para o hospital?

— Vou...e isto é que são horas?

— Fui sair com o André. E tu sabes como é que é aquele rapaz, acabou por beber demais e ainda tive que o levar a casa. E antes tive que levar a Petra e a Filipa.

— A Filipa? Quem é essa?

— Uma amiga da Petra, que virou minha amiga...- Mara olha para mim com aquela cara de inquisidora que só ela tem...- Só uma amiga...só isso.

— Tens a certeza que é só uma amiga?

— Tenho, apesar de ser uma óptima miúda o meu coração infelizmente pertence a outra.

— Diogo, não gosto de te ver assim.

— Isto passa, espero eu. E a mãe?

— Subiu à pouco. Quando desci estava a dormir no sofá. Podias ter ligado sabes que a Dona Dulce não dorme sem ter os seus "pintos" todos em casa.

— Eu nunca pensei demorar tanto, a "Tia" Teresa ainda me disse para ficar lá, mas eu precisava do meu canto.

— Foi assim tão má a noite? Então e a tal Filipa...

— A Filipa é..e vai ser uma boa amiga, pelo menos eu acho. A noite digamos que foi de recordações amargas.

— Queres falar? Eu ainda tenho algum tempo antes de ter que sair.

— Eu não consigo...não a consigo esquecer. Eu juro que já tentei, mas não consigo. Até tentei hoje com a Filipa, mas sei lá não acho justo usá-la assim...

— Diogo, eu tenho que te dizer uma coisa e não vai ser fácil. Ela está cá em casa.

— Humm! Não percebi. Quem é que está cá em casa?

— Ela, a Madalena. A Rute e ela são amigas, e bem a Rute convidou-a para passar o fim de semana cá em casa.

— O quê? Estás a gozar comigo certo?

— Ouve, o pai é que a foi buscar e não a reconheceu. E a mãe só se apercebeu quem era quando a viu cá em casa...

— Eu não vos percebo. A sério obrigaram-me a afastar dela e agora colocam-na debaixo do mesmo tecto...

— Diogo não fizemos por mal, e que querias que os pais fizessem? É a primeira vez que a ratinha tem uma amiga, a primeira vez que ela traz alguém cá a casa...

— Eu sei, e fico feliz pela ratinha, mas tinha que ser logo ela? Eu vou-me embora, vou para o meu quarto e não pretendo sair de lá até...

— Não sejas dramático, porque é que não aproveitas e te aproximas dela como amigo.

Eu olhei para a cara da Mara surpreso com o que acabo de ouvir: primeiro recebo um sermão porque me viu no hospital com "ela" e agora está a dizer-me para me aproximar, não a consigo perceber. No entanto, e pensando bem não deixa de ser uma boa ideia, eu posso ser apenas amigo dela, será que posso? Ou será que quero? Será que consigo ser só amigo dela?

— Mara, não sei se é uma boa ideia e se ela souber quem eu sou? Eu deixei de lhe responder às mensagens sem nenhuma justificação, no mínimo levo uma boa bofetada.

— Nada que não mereças. Diogo eu sei que me passei um pouco contigo, mas também já percebi que tu gostas mesmo dela...

— Eu tenho medo Mara. Não sei se consigo ser só um amigo, pior não sei se quero ser só amigo...

— Podes tentar, e depois logo vêem o que acontece.

— Vou pensar, mas agora vou dormir.- chego-me perto dela e dou-lhe um abraço...- Obrigado mana, adoro-te.

— Vai descansar e manda mensagem à mãe só para ela saber que já cá estás. Também te adoro maninho.

Abraçamos-nos de novo e fui para o quarto. Eu e a Mara sempre fomos muito ligados e falamos um com o outro de tudo e quando digo de tudo é mesmo tudo. Depois daquela discussão que tivemos, sentámos-nos os dois para conversar e foi quando eu lhe contei tudo o que aconteceu em Lisboa, e assumi pela primeira vez em voz alta que eu estava terrível e perdidamente apaixonado pela "Minha Rainha".

Assim que me vi no meu canto, no meu quarto deixei-me cair na cama. Estes dois dias iam ser difíceis, muito difíceis; voltar a vê-la, tê-la tão perto sem poder fazer o que mais quero. Podes ir parando com essas ideias Diogo, não podes pensar nisso, simplesmente não podes. Levanto-me e antes de entrar no banho mando uma mensagem para a minha mãe.

"- Já estou em casa. O André bebeu demais e tive que o levar a casa. Desculpa pelas horas. Adoro-te."

Depois de enviar a mensagem fui até à casa de banho e tomei um banho, demorei um pouco mais do que o normal precisava de relaxar e de preferência deixar de pensar nela, mas é óbvio que ela era tudo o que vinha à cabeça e imaginar que a minha Rainha estava aqui tão perto, sim bem perto, estava exactamente no quarto aqui ao lado. Com ela cá em casa o meu plano de a esquecer era completamente impossível (como se eu a conseguisse esquecer de qualquer das maneiras...). No fim do banho deitei-me de novo e peguei no telemóvel e a minha mãe tinha-me respondido.

"- Tudo bem filho, dorme bem. Ah! E temos uma visita e não sei se vais gostar."

Resolvi responder avisando-a que já sabia, desta forma ela não se preocupava.

"- Eu já sei quem cá está. Encontrei a Mara na cozinha ela contou-me."

"- Desculpa filho eu sei que não vai ser fácil para ti. Amanhã falamos melhor. Também te adoro."

"- Falamos amanhã, não te preocupes. Beijos."

Coloquei o telemóvel na mesa de cabeceira e logo o meu pensamento me fugiu de novo para quem eu tanto procuro esquecer e não consigo, para aquela que ultimamente ocupa toda a minha vida — a minha Rainha da Noite. Amanhã vai ser o dia, amanhã vou vê-la e não sei como reagir, o que dizer. Será que ela se lembra de mim? Será que ela sente alguma coisa por mim? Devo lutar por ela ou simplesmente desistir? Devo apenas ser seu amigo? Será que consigo ser apenas seu amigo? Será que eu quero ser só seu amigo? E se acabarmos por sofrer mais?

Todas estas perguntas e muitas outras povoam a minha cabeça, mas as respostas essas continuam a não aparecer. E com estas dúvidas e com uma dor de cabeça enorme acabo por adormecer. E o sonho, sempre o mesmo sonho: eu e ela, numa discoteca (naquela onde a conheci, é sempre na mesma...).

"Estamos a dançar, trocamos alguns beijos, algumas carícias. De repente alguém nos separa e leva-a para longe, para bem longe. Eu corria atrás dela, mas não a consigo alcançar, eles estão sempre um passo à minha frente e quando parecia que a iria conseguir agarrar algo me impedia de a agarrar. Ela gritava por mim, e isso era o que mais fazia o meu coração doer, por muito que eu lutasse eu não conseguia...eu estava a perde-la.

Eu perdi-a, sempre a perco, sempre corro, sempre tento agarra-la, mas ela sempre me escapa..."