Caminhada
3 Sunset Beach
Viagens de última hora sempre são mais emocionantes do que viagens planejadas. Era sábado quando eu convidei Josh para irmos para Sunset Beach, na segunda-feira, às 4h estávamos colocando nossas bagagens no carro.
– Caleb, quantos meses você pretende ficar na praia? — Josh observou minha mala no porta-malas do carro enquanto colocava sua mala de mão ao lado. — Vai se mudar pra lá e não me avisou?
– Uma semana é tempo o suficiente. Nunca se sabe o que pode acontecer. — Pisquei para ele.
– Não mesmo, mas não acho que teremos algum desfile de moda por lá. — Ele pensou por um instante. — Pelo menos eu espero que não, porque não trouxe roupas para isso.
– E você ainda diz que eu sou mocinha. — Liguei o carro. — Já prestou atenção nas coisas que você fala?
– Bom, não sou em quem está levando uma mala tamanho família para passar uma semana na praia.
Ergui o volume do rádio num gesto silencioso para que ele se calasse.
Sunset Beach ficava a cerca de cinco horas de Saint Valley, era uma cidade porto. Com todo o seu comércio voltado para artigos relacionados ao mar. Tinha um público alvo de turistas, não muitos para que ficasse lotada, nem poucos para que ficasse desértica, mas sempre as mesmas pessoas, todos os anos. Durante a minha infância dificilmente minha família passava as férias sem dar um pulo em Sunset Beach, eu poderia andar por aquela cidade de olhos fechados sem me perder. Com quatorze anos eu encontrara uma área da praia que era deserta, dificilmente alguém aparecia por lá. Foi o local que eu encontrei para fugir quando precisava de um tempo para mim, ao lado de uma formação rochosa que quando escalada no horário certo, propiciava uma vista linda do pôr do sol, algo incomparável e que eu nunca compartilhara com ninguém.
A área mais movimentada da cidade com certeza era o calçadão que beirava alguns quilômetros de praia e com algumas lanchonetes na areia. Do outro lado da rua ficavam os melhores restaurantes e lojas, responsáveis pela economia do lugar. Era uma cidade familiar e que me agradava, tranquila e sem muita bagunça, um bom lugar para se desligar dos problemas e relaxar a cabeça.
– EU ADORO ESSA MÚSICA! — Josh gritou ao meu lado, aumentando mais ainda o som do rádio. — Você pode não saber escolher quanto de roupa levar para uma viagem, mas definitivamente sabe escolher as músicas!
Olhei de canto de olho enquanto ele cantava, competindo com o volume do rádio, ele estava com roupas de viagem e extremamente feliz. Feliz até demais, como se estivesse fazendo esforço para manter a alegria.
– O que está havendo? — Perguntei, abaixando o volume da música.
– Como assim? Você não pode simplesmente abaixar a música no meio do meu show. Se eu não estiver cantando bem você poderia simplesmente avisar, quem sabe me dar até algumas aulas de canto e coisa e tal, já que você é tão bom. — Ele revirou os olhos.
– Não estou falando sobre a música Josh, você sabe disso. Aconteceu algo que você não tenha me contado?
– Eu… não. Quero dizer… talvez. Eu não sei.
– Comece pelo começo, eu estou te ouvindo.
Josh e eu nos conhecemos no réveillon de 2013, numa festa de família em que ele fora convidado de um primo meu. Minha família era conhecida pelas festas, que duravam a noite toda e de vez em quando os convidados ainda ficavam para o almoço. Talvez esse seja um dos motivos que justificam o fato de eu não lidar muito bem com festas.
Já era 2013, já havíamos comido lentilha suficiente para não termos problemas financeiros por pelo menos 50 anos, e então começara aquela parte da festa em que os convidados começam a beber, dançar e falar alto. Meu pai, quando bêbado, costumava falar demais e se gabar de seus grandes feitos, o que me irritava sempre que acontecia. Então eu me retirei para a sala de estar, que estava vazia, e fiquei usufruindo do bom e velho wifi. Eu era uma pessoa simpática, mas não conseguia ser social durante muito tempo.
– Tem alguém sentado aqui? — Uma voz estranha me perguntou. Era o amigo do meu primo, estava com uma calça branca e uma camisa com estampas de âncora.
– Não, pode ficar à vontade. — Respondi, voltando os olhos para o meu celular.
O garoto se sentou na outra ponta do sofá e também começou a mexer no telefone.
– Cansou da festa? — Perguntou.
– Muito barulho. Meu pai já começou a falar asneira também. E você?
– Seu pai parece ser uma pessoa muito boa. Achei ele muito simpático. Vim aqui para relaxar um pouco a cabeça também, não consigo pensar direito perto de música muito alta. Qual é a senha do seu wifi?
– saiadainternet. Tudo junto e com as letras minúsculas.
– Nossa. — Ele riu. — Isso é para espantar os ladrões de wifi ou para te motivar a usar menos a internet?
– Acho que um pouco dos dois. — Eu ri de volta.
– Você é Caleb certo? Caleb Petralia?
– Exatamente, e você é…?
– Joshua Devenau. — Ele sorriu. — Mas você pode me chamar de Josh.
Depois daquela noite nós começamos a conversar cada vez com mais frequência. Naquele ano eu começara a cursar Jornalismo e o destino tratou de me levar para a mesma cidade em que Josh trabalhava e estava prestes a iniciar o terceiro ano do curso de administração no período noturno. A partir daí tudo se desenrolou naturalmente, ele me mostrou a cidade e me fez sentir acolhido num lugar totalmente novo.
– Acho que estou passando por algum tipo de crise existencial. — Josh começou. — Sabe quando você sente como se sua vida estivesse indo para lugar nenhum?
– Ah, por favor, Josh.
– É sério. — Ele me interrompeu. — Veja, eu tenho 21 anos e não tenho nem mesmo uma namorada!
– Você vai ficar se magoando por não ter uma namorada? Josh, sim, você tem 21 anos e já é subgerente na empresa em que trabalha, mesmo tendo entrado como estagiário! Você terminou sua faculdade esse ano com as notas ótimas mesmo trabalhando durante o dia todo e estudando a noite. Não me surpreenderia se você ganhasse alguma promoção nesse ano que vai começar. Você só não encontrou uma namorada ainda porque realmente não tinha tempo nem para respirar. Agora pare de drama, por favor.
– Nossa, cale a boca. — Ele pareceu irritado.
– Você sabe que é verdade.
– Sei.
– Então cale a boca.
– Tudo bem. — Ele virou o rosto para a janela, emburrado.
– Ei, Josh. — Eu chamei, após alguns instantes em silêncio.
– Que foi?
– Você sabe que eu te amo, não é?
– Claro que sei, que tipo de pessoa no mundo não me amaria? — O clima amenizou um pouco.
– Se você arranjar alguma namoradinha por aí e me deixar de lado, eu juro que te mato.
– Eu nunca vou te deixar de lado, pare de drama, por favor. — Ele olhou para mim. — Também amo você.
– Chega, ficou estranho. — Eu ergui o som do rádio.
– Ficou muito estranho.
~~~
Era quase 7h quando chegamos ao posto de gasolina que mais servia como lanchonete para os aventureiros da estrada. Enquanto eu abastecia o carro Josh levou Apolo para esticar as pernas e fazer suas necessidades. Encontramo-nos dentro do restaurante para tomarmos café da manhã. O local era grande e bem iluminado, embora o Sol ainda não tivesse nascido por completo. Várias famílias sentavam-se às mesas e comiam, conversando e rindo. Um grupo de jovens chegou num ônibus e entraram falando alto e cheios de energia no local, aquilo me deixou mais feliz. Um casal jovem estava sentado numa mesa em frente a nossa, pelas alianças e o olhar apaixonado em seus olhos, eles eram recém casados.
Apolo estava preso por sua coleira do lado de fora do restaurante, abanando o rabo para todas as pessoas que entravam, como o porteiro mais bem humorado do mundo. Depois de um tempo ele simplesmente se cansou de ser simpático e deitou para tirar um cochilo. As vezes eu desejava ter tanta facilidade para dormir.
Uma senhora muito educada vestindo um avental xadrez veio até nossa mesa anotar nossos pedidos, sues cabelos grisalhos estavam presos num coque atrás da cabeça e ela sorria com os olhos, o tipo de sorriso mais aconchegante que poderia existir. Com uma dor profunda no coração eu percebi como ela me lembrava de minha avó. O pequeno crachá em seu peito dizia: Olá! Meu nome é Eleonora.
Eleonora sorriu para mim enquanto eu dizia o que eu desejava comer. Se retirou e voltou após alguns minutos com uma bandeja carregada com os pedidos.
– Muito obrigado. — Josh agradeceu quando ela colocou o prato em sua frente. — Caraca, estou faminto.
– Nem me fale, acho que estou criando um dinossauro na minha barriga. — Minha barriga roncou. — Mande um alô para o Rex.
– Como vão as coisas aí dentro, Rex? — Josh murmurou, encarando minha barriga.
Passamos alguns momentos em silêncio enquanto eu bebia um café de meio litro e comia um pão de queijo e Josh se divertia com um achocolatado e um misto quente.
– Você é tão velho Caleb, que tipo de pessoa de 19 anos bebe café?
– Do tipo que dirigiu a noite toda enquanto você roncava no banco do passageiro. — Mordi um pedaço de pão de queijo. — Aliás, você conhece a minha história de amor com o café.
– Lembra quando você tentou convencer todos as suas amigas a fazerem um chá de cozinha para você, quando se mudou para o apartamento? — Ele riu. — Só para ganhar uma cafeteira.
– Mas mesmo assim não ganhei.
– Claro, chá de cozinha é coisa de mulher. O que você esperava?
– Pelo menos que acatassem a minha ideia, não custava nada. Tive que comprar uma cafeteira com meu próprio dinheiro.
– Além das panelas.
– E copos. Jesus, morar sozinho sai caro.
– Eu já te convidei para morar comigo e você não aceitou.
– Não dá, a Naomi é…
– Apaixonada por você, eu sei.
– Cale a boca. — Já fazia alguns meses desde que Josh começara com a ideia de que Naomi era apaixonada por mim porque um dia eu fora jantar lá e ela ficara trancada no quarto. Passando sempre longe de mim, aquilo para mim não era amor. — É coisa da sua cabeça.
– Claro que é. — Ele piscou para mim.
– Você já terminou de comer? Ainda temos um pouco de estrada pela frente
– Certo, mas eu quero comprar alguns doces antes, tudo bem?
Depois do café da manhã Josh se ofereceu para levar o carro até a praia, aceitei de bom grado, meus braços já estavam doendo.
– Eu preciso parar de tomar tanto café. — Comentei enquanto batucava nas laterais do carro, com o vidro aberto e o vento soprando o cabelo. — Você sabe que eu tenho um histórico de hiperatividade.
– Você? Hiperativo? Nunca tinha reparado. — Ele revirou os olhos.
– Não revire os olhos para mim, ordinário.
– Você alugou alguma casa ou apartamento para nós ficarmos enquanto estivermos na praia?
– Meus pais tem aquele apartamento lá, você não lembra? Onde nós ficamos com eles no ano passado.
– Na beira do mar? — Seus olhar se iluminou.
– Aquele mesmo. — Sorri de volta.
– Cara, eu amo os seus pais.
– Veja! Já dá pra ver o mar daqui. — Eu gritei, quase pulando em cima dele quando apontei pela janela do motorista. — Você não ama o mar?
– Não como você, acho que isso é impossível.
– Não me julgue, o mar é o que me traz mais paz. Pense, estar no meio do nada, apenas você e seus pensamentos com a imensidão azul ao seu redor.
– Tipo uma baleia?
– Tipo uma baleia.
– Deve ser ótimo mesmo. — Ele revirou os olhos novamente.
– Você fez de novo.
– O quê?
– Revirou os olhos para mim.
– Ah, cale a boca.
– Já reparou que nas nossas conversas, 80% do que dizemos é mandando o outro se calar?
– Já, e mesmo assim você não se toca.
– Grosso.
– Mocinha.
– Cale a boca.
Naquele momento nós estávamos parados na fila do pedágio, que estava maior do que eu imaginava. Passamos um tempo conversando sobre os carros que paravam ao nosso redor, tentando enxergar a placa deles e descobrir de onde vieram. Comemos os doces que Josh havia comprado até enjoarmos, já fazia cerca de meia hora que estávamos parados quando o assunto acabou e nós dois começamos a ficar entediados.
– Vou acabar dormindo aqui nessa fila. — Josh murmurou, irritado.
– Vamos brincar?
– Na verdade acho que você é quem deveria dormir um pouco, já está falando asneira.
– Eu estou vendo algo grande, branco mas com algumas partes azuis e outras pretas.- Ignorei-o e continuei falando.
– Quê?
– Essa é a parte em que você descobre do que eu estou falando.
– Ah. — Ele pensou por alguns instantes. — Aquele outdoor à nossa esquerda.
– Boa! Agora é a sua vez.
– Preciso mesmo fazer isso?
– Desde quando você é tão chato? Claro que precisa.
– Estou vendo algo branco, com partes pretas e outras azuis.
– Você não pode descrever a mesma coisa que eu, é contra as regras.
– Não estou descrevendo.
– Não?
– Não.
– Então me dê mais alguma dica.
– É branco, com algumas partes pretas e outras azuis. É extremamente irritante.
– Você está falando de mim, não está?
– Exatamente.
~~~
Chegamos ao apartamento por volta das 10h. Colocamos nossas malas em nossos respectivos quartos e Josh foi tomar banho enquanto eu observava pela janela. O apartamento era um loft com uma cama de casal e sofás-cama suficientes para acomodar pelo menos quatro pessoas. O local era grande e bem arejado, com uma janela que ocupava praticamente uma parede toda, dando uma linda vista para o mar no décimo andar do prédio em que ficava.
Meu pai conseguira o apartamento através de uma loucura, ao participar de um consórcio quando era solteiro. Quando sua pedra foi sorteada ele recebeu dinheiro suficiente para comprar o apartamento, que naquela época não era tão valorizado. As reformas internas e a mobília vieram com os anos de casado, meu pai e minha mãe ainda tinham planos de se mudarem para a praia quando se aposentassem, mas por enquanto o apartamento permanecia vazio durante o ano todo.
– Cara, eu amo o dinheiro do seu pai. O chuveiro daqui é melhor do que eu tive na minha casa durante a minha vida toda. — Josh se aproximou, vestindo um shorts e secando o cabelo com uma toalha.
– Quem não ama o dinheiro do meu pai? — Murmurei, sem tirar os olhos da janela.
– Aparentemente, você. Se você se desse melhor com ele, poderia receber quase tudo de herança, já que é o primeiro filho.
– Sei disso. Mas a culpa não é minha se nós não podemos ficar num mesmo local por muito tempo sem começarmos a discutir.
– Mas é culpa sua não tentar fazer a sua parte, você sabe disso.
– Vou tomar um banho. — Falei e fui para o banheiro, que ainda estava quente por terem acabado de usá-lo.
Deixei a água correr pelas minhas costas por um tempo. Minha relação com meu pai era um dos poucos assuntos que eu não gostava de discutir, mesmo com o Josh.
Ele estava parado olhando pela janela, ainda usando apenas shorts quando eu me aproximei, escovando os dentes.
– Ei, cara, foi mal. Eu sei que você não gosta de tocar no assunto sobre seu pai.
– Está tudo bem, fica tranquilo. — Dei um tapa em suas costas, tentando não babar ao falar escovando os dentes. — Vamos descer para a praia?
O movimento estava tranquilo, se comparado à fila do pedágio de algumas horas antes, havia algumas poucas pessoas tomando banho de sol na areia e alguns turistas passeando pelo calçadão.
– Caleb, lembra aquela feira ao ar livre que nós fomos no ano passado? Onde sua mãe comprou um monte de coisas para fazer o almoço?
– Lembro, não é longe. Por quê?
– Você está afim de cozinhar hoje? — Seu sorriso brilhava enquanto nós caminhávamos até a feira sobre a qual ele falara.
– O que você tem em mente? — Perguntei, gostando da ideia. Cozinhar junto com Josh sempre era uma experiência divertida. Ele se atrapalhava todo e a cozinha terminava de cabeça para baixo. Mas a comida sempre era boa.
– Sabe aquelas batatas que sua mãe costumava fazer no almoço quando eu ia na sua casa?
– Aquelas com queijo?
– Exato! Você acha que consegue fazê-las?
– Acho que sim. Teve uma vez que ela tentou me ensinar, mas não deu muito certo. Acho que consigo me lembrar mais ou menos de como…
– Já é o suficiente! — Ele parecia animado. Agarrou meu braço e me forçou a andar mais rápido. — Faça o básico que o resto eu dou um jeito.
– O que você vai fazer? — Perguntei, suspeito.
– Você confia em mim? — Ele piscou.
– Nem um pouco.
– Sorte a sua.
A feirinha ao ar livre de Sunset Beach era um dos locais que eu mais gostava de ir quando ia à praia. Minha mãe e eu sempre acordávamos cedo para pegarmos os produtos mais frescos, embora houvesse tanta coisa que até quem chegasse mais atrasado não sairia de mãos vazias. Comprávamos frutas, verduras, cereais, leite, queijos, mel e não gastávamos quase nada. Isso sem falar dos artesanatos que também eram vendidos lá. No último aniversário de Josh eu dera para ele um filtro dos sonhos da feirinha, que ele pendurou na janela de seu quarto em Saint Valley.
Ela ficava numa rua que terminava em uma das praças da cidade, perto da área urbana. Turistas e moradores locais carregavam sacolas de um lado para o outro. O público alvo era os idosos, que carregavam seus carrinhos de feira lotados de compras até suas casas. Crianças brincavam pela rua, correndo em volta das pessoas paradas nas barraquinhas dos vendedores. Havia tantas barracas que eu perdia a conta. Havia frutas de todos os tipos, produtos naturais e até mesmo comidas feitas na hora. Já era de praxe minha mãe e eu passarmos horas passeando por lá enquanto o resto da família ainda dormia no loft.
A primeira vez que eu fora até a feira com o Josh ele ficara louco, querendo comprar algo em cada barraca em que parava. Um comprador nato, tentando negociar valores e quantidades com os feirantes.
– O que nós precisamos comprar para fazer o almoço de hoje?
– Josh, você precisa entender que ninguém vai à feira e escolhe o que vai comprar. São as coisas que escolhem você.
No momento em que eu disse isso percebi que tinha feito uma bobagem, pois Josh começou a passear pela feira tentando comprar coisas aleatórias. Decidimos nos separar enquanto ele fazia sua festa e eu comprava o essencial para fazer as tais batatas que ele pedira. Apolo cheirava o chão e latia aleatoriamente para as pessoas. Naquela viagem ele provavelmente era o mais simpático dos três.
Nos encontramos trinta minutos depois na fonte da praça no final da feira. Josh parecia uma criança carregando várias sacolas numa mão e balançando um buqué de pimentas vermelhas na outra, peguei meu celular e tirei uma foto da cena.
– Vou fazer você comer todas essas pimentas se você fizer algo com essa foto, seu idiota. — Ele se sentou ao meu lado, na fonte. — Veja, acho que comprei tudo o que vamos precisar.
Voltamos ao apartamento caminhando pela praia, soltei Apolo da coleira e deixei-o correr enquanto eu pegava conchas na areia.
– Caleb, pegar conchas na praia é tão 1980.
– Fazer a festa numa feirinha ao ar livre é algo muito moderno mesmo, certo? Você viu, o lugar estava cheio de jovens.
– Claro que estava.
– Jovens e sua bengalas… a que ponto chegamos?
– Nossa, cale a boca! — Ele largou as sacolas no chão e pulou em cima de mim passando seu braço em torno do meu pescoço, derrubando os dois na areia. — Sempre quis bater em você na areia.
– Você não bate nem em uma barata. — Agarrei-o pela cintura e derrubei-o por baixo de mim. Segurando seu pescoço da mesma maneira como ele havia feito, mas agora esfregando minha mão fechada em seu cabelo, até queimar.
– Ei, isso não é justo! — Ele agarrou minha mão e começou e me dar socos no estômago.
Apolo latia e pulava em nós dois, entrando na brincadeira. No começo ele tentava me defender, mas finalmente se acostumara que minha relação com Josh era na base da pancada.
– Josh, acho que tem gente olhando. — Murmurei, quando ele finalmente me largou. De fato, alguns banhistas estavam rindo para nós debaixo de um guarda-sol, alguns metros adiante.
– Vamos voltar para o loft. — Ele respondeu, envergonhado. Rindo tanto para mim quanto para os banhistas.
Chegamos no loft e logo começamos a preparar as coisas para o almoço. Cortei as batatas e coloquei para cozinharem junto com o tempero. Josh fez o possível para cortar o queijo e algumas verduras sem se matar. Liguei o home theater e coloquei meu pendrive para tocar. Terminamos de preparar as coisas praticamente dançando, música deixava tudo mais fácil de fazer. Josh balançava seguindo o ritmo enquanto tentava fazer malabarismo com alguns limões sicilianos que ele comprara para fazer limonada.
– Quer ir fazendo o suco enquanto eu termino as batatas? — Ele perguntou após terminar seu show.
– Tem certeza que quer fazer isso? — Ergui uma sobrancelha para ele.
– Você não confia em mim, Caleb?
– Na cozinha, nem morto.
– Fique tranquilo, meu jovem. — Ele colocou as duas mãos em meus ombros. — Você não vai se arrepender.
Após colocar as batatas no forno, enquanto o arroz cozinhava, ele se aproximou de mim com as pimentas na mão.
– Quer ver quem aguenta comer mais dessas belezinhas aqui? — Ele balançou uma grande pimenta vermelha na frente do meu nariz, que ardeu só de sentir o cheiro.
– Você não aguenta nem 5 minutos comigo. Sabe como eu adoro pimenta.
– Então não tem motivos para você recusar. Vamos lá?
– 1. — Peguei uma pimenta de sua mão.
– 2. — Ele se preparou com a sua própria.
– 3! — Começamos a engolir pimentas uma atrás da outra.
Após alguns segundos já estávamos chorando e rindo ao mesmo tempo. Cuspi as minhas no lixo quando comecei a sentir o estômago ferver. Logo peguei um copo de água que não ajudou em muita coisa.
– JOSHUA DEVENAU É O MAIS NOVO VENCEDOR DO CAMPEONATO DE PIMENTAS DE SUNSET BEACH! — Josh erguei os braços e deu uma espécie de corrida da vitória em torno do loft.
– Ei, campeão. — Chamei.
– Diga. — Ele riu, ainda com os olhos cheios de lágrimas por causa das pimentas.
– Acho que suas batatas estão queimando.
~~~
Eu já estava parecendo um camarão à milanesa quando Josh finalmente desistiu de tentar surfar. Ele passara as últimas duas horas tentando parar em pé numa prancha branca. Passei todo esse tempo caminhando pelo calçadão, visitando as lojas e conversando com antigos conhecidos que iam todo ano à Sunset Beach.
Quando Josh voltou do mar, com a prancha debaixo do braço e conversando com um garoto de sua idade, que estava surfando ali por perto, eu estava sentado de um guarda-sol alugado, ouvindo música em meu IPod observando Apolo tentar comer algumas borboletas que voavam próximas ao calçadão.
– Ei, Caleb. Quero que você conheça o Travis, ele estava tentando me ensinar a surfar. Acho que não deu muito certo. — Josh riu para o garoto, que retribuiu. — Esse é Caleb, meu melhor amigo. Nós viemos juntos à praia.
Travis era o típico garoto propaganda do verão. Alto, loiro e bronzeado. Olhos da cor do mar e dentes da cor das nuvens. O garoto perfeito.
– Prazer. — Estendi a mão.
– Então você é o tal Caleb? — Ele a apertou com força e me olhou no fundo dos olhos, como se tentasse ler a minha mente. — Você estava em praticamente todas as histórias que Joshua me contou enquanto eu tentava ensiná-lo a surfar. O prazer é todo meu.
O rapaz era tão simpático que quase me deu ânsia.
– Caleb, lembra o filme que nós íriamos assistir hoje à noite? — Josh se voltou para mim.
– Claro.
– Será que poderíamos deixar para amanhã? Travis me convidou para ir num barzinho aqui da cidade com ele. Acho que seria divertido, ele até mesmo disse que há muitas garotas bonitas que vão lá com frequência.
– Relaxa cara, aproveita lá. — Pisquei para ele, que sorriu de volta para mim.
– Você é demais. — Ele passou a minha cabeça e saiu andando com Travis pela praia, acho que não voltaria tão cedo.
– É rapaz… acho que hoje seremos só nós dois. — Afaguei a cabeça de Apolo, que deitara em meu colo.
Saí da praia e dei mais uma volta na feira ao ar livre, que ao invés de encerrar o expediente, se preparava para iniciar uma nova vida na parte da noite. Com músicos se preparando para fazerem seus shows, barracas de comida esquentando suas chapas e artistas de rua mostrando seus trabalhos para turistas curiosos. A vida noturna começava cedo em Sunset Beach, embora ainda faltassem muitos minutos para o Sol se por.
No momento em que pensei em pôr do sol, lembrei de algo que sempre me fazia sentir bem.
– Ei, Josh, você precisa ver… — Falei, esquecendo completamente que Josh não estava mais comigo. — Venha Apolo, você vai gostar disso.
A caminhada não era tão longa, mas apresentava certas dificuldades. Atravessamos a praia num ritmo acelerado para não perdermos o sol se pondo. A energia de Apolo serviu de incentivo para mim. Chegamos aos rochedos que limitavam a praia em apenas alguns minutos, mas a parte mais difícil seria escalar todas aquelas pedras, principalmente com um cachorro de quase 15kg precisando de ajuda em alguns trechos.
Mas era algo que, sem dúvidas, valia a pena. Cheguei ao alto das rochas a tempo de ver o sol sumir e a noite chegar. Não estava tão alto quanto pretendia, por causa de Apolo, mas era uma visão privilegiada do oceano.
Lembrei-me do dia em que encontrara aquele lugar. Eu tinha de onze para doze anos, e mamãe acabara de me contar que estava grávida dos gêmeos. Eu ficara com tanta raiva por não ser mais o filho único que saíra correndo pela praia, deixando as emoções me guiarem. Quando cheguei aos rochedos ainda não estava satisfeito, eu queria ficar sozinho, o mais longe de todos possível, então comecei a escalar. Subi até a mais alta das pedras e passei horas chorando, por motivos que depois pareceriam tão tolos.
Uma saudade tão grande dos gêmeos apareceu em meu peito que eu quase não pude controlar, eles completaram 7 anos naquele ano. Nick e Collie eram provavelmente as pessoas mais arteiras que eu conheceria. Apolo era uma versão demo e canina daqueles dois. Eu ficara tão confuso quando minha mãe dissera que seus nomes seriam Nickolas e Nicolle. Para mim todos os bebês do mundo já eram parecidos, bebês gêmeos de nomes parecidos sempre fora demais para minha cabeça. Com o tempo eu aprendera a amar aqueles dois. Nicolle era apenas cinco minutos mais velha, mas era tempo o suficiente para que ela se sentisse responsável e autoritária sobre Nick. Eles herdaram os cabelos loiros de meu pai e os olhos da minha mãe. Lembrar disso me levou a fazer uma péssima comparação de Nick e Travis, me odiei por isso. Collie tinha o gênio forte, assim como meu pai. Era sempre ela quem coordenava os planos maléficos dos dois. Nick já era mais relaxado, como minha mãe e eu. Ouvia quando era necessário mas também sabia expor a sua opinião na hora certa.
Certa vez os dois fizeram uma guerra de balões de água no meio da sala de estar enquanto eu estava responsável por eles e nossos pais iam a um jantar. Mas eu acabara dormindo lendo um livro e os dois aprontaram sem mim. Acordei com o grito de mamãe ao pisar no seu tapete persa encharcado, Collie logo jogou a culpa no irmão, que defendera o seu lado da história de maneira surpreendente. Mas mesmo assim os dois pegaram castigo e eu tive que limpar a bagunça.
O céu já estava escuro quando finalmente descemos das rochas, o caminho de volta fora mais agradável, caminhando descalço na areia gelada enquanto a brisa soprava forte meus cabelos. A lua cheia brilhava como nunca acima de mim, as nuvens do céu desapareceram dando lugar às estrelas que enfeitavam a noite. Passei numa pizzaria no caminho de volta para o loft e peguei uma pizza de queijo para o jantar, como Josh não estava junto, apenas uma pizza seria o suficiente para mim.
Comi assistindo à TV aberta, que passava um filme antigo sobre vampiros se apaixonando por adolescentes, adormeci no sofá cama logo após os primeiros minutos.
Já era muito tarde quando despertei com o barulho da porta sendo aberta, mas permaneci de olhos fechados e deitado, não estava afim de ouvir Josh contar sobre sua grande aventura noturna com Travis. Após alguns minutos senti alguém colocando uma coberta sobre mim.
– Travis pode até ser legal. — Josh murmurou perto de meu ouvido, enquanto pegava um pedaço de pizza que estava no criado mudo, posicionado estrategicamente entre a televisão e mim. — Mas não sabe se divertir como nós dois juntos.
~~~
– Verdade ou desafio? — Josh perguntou. Ele estava sentado de pernas cruzadas na minha frente, tinha sido a vez dele de girar a garrafa.
– Desafio. — Naquela altura do campeonato eu não me importava mais com os desafios de Josh, ele estava perdendo a criatividade conforme o sono chegava.
– Eu te desafio… — Ele pensou por um instante. — A entrar pelado no mar e nadar por cinco minutos.
– Você é louco? — Ri na cara dele, surpreendido mais uma vez.
– Fala sério, Caleb. São cinco horas da manhã, não tem ninguém na praia. Somos os únicos idiotas.
Nós havíamos passado a noite na praia, sentados ao lado de uma fogueira improvisada com palitos de churrasco e folhas de coqueiro. Passamos um bom tempo comendo coisas que havíamos comprado na feira noturna e observando as estrelas, tentando descobrir quem conhecia menos sobre as constelações.
Meu IPod tocava música enquanto a fogueira ainda estava com fogo alto, durante a noite nós descobríramos que restos de coco deixados pela praia garantiam um bom fogo com cheiro muito bom. Josh também aproveitara para me contar sobre a noite em que ele saíra com Travis, aparentemente ele o levara para um barzinho da cidade, passaram um tempo conversando até que ele o deixou sozinho na mesa e saiu com uma garota, dizendo que voltaria mais tarde. Depois de algumas horas Josh simplesmente voltara caminhando para o apartamento, onde me encontrara dormindo.
– Então, você vai ou não vai nadar? — Ele me cutucou. — Sério Caleb, você precisa parar de ter esses apagões.
– Lógico que eu vou. — Levantei, tirando a camiseta. — Não vou perder um desafio, muito menos para você.
– Então ande logo, antes que as pessoas comecem a chegar.
– Temos tempo antes do sol começar a nascer. — Joguei minha camiseta nele e tirei os shorts, ficando de cueca. — Se eu pegar alguma doença por causa disso, farei questão que você também pegue.
– Não esqueça da cueca. — Josh estava se matando de rir enquanto eu caminhava até o mar, ainda com a roupa de baixo. — Pelado é pelado.
Mostrei o dedo para ele quando cheguei na água e terminei de tirar a roupa. Às vezes um dedo valia mais que muitas palavras. A água estava mais gelada do que eu imaginava e eu agradeci mentalmente por ter escolhido colocar uma cueca preta. Quando saí da água e fui até Josh, ele estava se esforçando muito para não ter um ataque de risos.
– Onde está minha roupa? — Perguntei, tremendo.
Ele caiu de costas quando não aguentou mais segurar a risada, comecei a procurar meus shorts mas eles não estavam em lugar nenhum.
– Belas cuecas, garanhão. — Ele gargalhou, tentando enxugar as lágrimas. — Combinam com seus olhos.
– Cale a boca! — Chutei areia em seu rosto enquanto me enrolava numa toalha. — Onde estão minhas roupas?
Ele apontou para a árvore na calçada atrás de nós, consegui enxergar algumas coisas penduradas em um de seus galhos.
– Você não fez isso, Josh.
– Fiz.
– Eu te odeio.
– Eu sei.
Um jovem de 19 anos só de cuecas tentando subir numa árvore às 5h não era uma visão que se presenciava todos os dias. Felizmente não havia ninguém na rua.
– Você ainda vai me pagar por isso, você sabe né?
– Sei. Mas valeu a pena. — Ele piscou, enquanto caminhávamos pela areia, após juntarmos nossas coisas, mais alguns minutos e o nascer do sol começaria.
– Quer ver uma coisa legal? — Perguntei, sem tirar os olhos do céu.
– Desculpa, mas já te vi sem roupas o suficiente para uma vida toda.
– Cale a boca. — Dei um soco em seu ombro. — Venha comigo.
Uma qualidade dos rochedos era que se você subisse alto o suficiente, conseguiria assistir o nascer do sol do outro lado da cidade.
Como eu havia deixado Apolo dormindo no apartamento, nós conseguimos subir na mais alta das rochas, mais alto do que eu já ira sozinho.
– Se você pretende me levar no alto das pedras só para me jogar lá de cima, saiba que foi só uma brincadeira, não precisa tomar uma atitude tão drástica assim.
– Cale a boca.
– Posso ao menos fazer uma última ligação? Ou uma última refeição? Estou morto de fome. — Ele parou por um momento. — Droga, eu não deveria ter falado a palavra “morto” num momento como esse.
– Josh.
– Oi?
– Fique quieto.
Chegamos no alto a tempo de estendermos as toalhas e deitarmos num local que garantia uma visão privilegiada da cidade e do céu.
– Cara, isso é perfeito. Como você descobriu esse lugar? — Josh perguntou, virando de barriga para cima.
Contei para ele a história dos gêmeos.
– Às vezes eu chamo esse lugar de fortaleza de solidão, venho aqui quando preciso pensar.
– Cara, isso foi muito depressivo. Largue de ser estranho.
– Você precisa aprender a ser mais sensível, Josh.
– Não preciso, não.
Eu não percebera que estava com tanto sono até o momento em que eu percebi que Josh apagara, foram necessários apenas alguns segundos para que eu adormecesse também.
Acordei com o sol brilhando forte sobre meu rosto, eu estava deitado de costas e minha barriga ardia por causa da intensidade da luz. Peguei meu celular e vi que já era quase meio dia.
– Josh, acorda. Nós passamos a manhã toda aqui.
Foi necessário um pouco mais do que apenas palavras para despertár Josh, que babava usando uma pedra como travesseiro.
Voltamos para o loft e almoçamos, fiz um macarrão com queijo rápido e logo voltamos a dormir. Já era fim da tarde quando levantamos e começamos a arrumar nossas coisas, já era dia de voltar para casa. Fizemos as malas e carregamos o carro.
– Tem mais algum lugar que você gostaria de ir antes de ir embora? — Perguntei quando entramos no carro. A lua já estava alta no céu.
– Por que nõs não vamos mais uma vez à feirinha? — Seu sorriso se iluminou como se nós tivéssemos acabado de chegar. — Sabe-se lá quando nós vamos voltar para cá.
Uma das coisas que mais me agradavana praia era o clima, as noites eram sempre frescas, com uma brisa agradável. Era impossível não se sentir disposto.
Sentamos em uma das mesas de plástico que o pessoal das barracas colocava nas ruas. Pedimos algumas tapiocas e ficamos assistindo um grupo se apresentar. Eles cantavam e tocavam, havia violão, viola, e até mesmo um banjo e um contrabaixo acústico. Pessoas dançavam alegremente ao redor deles e colocavam moedas num chapéu posicionado à frente dos músicos.
Ir à feira durante a noite era uma experiência agradável. A iluminação era feita com várias lâmpadas incandescentes penduradas pela rua, como se fosse natal todos os dias.
– Tapiocas sem dúvida deveriam entrar na lista das maravilhas do mundo moderno. — Josh disse com a boca cheia. — Que tipo de pessoa não gosta?
– Pois é. — Concordei. — Agora termine de comer logo porque nós temos um bom caminho de volta para casa.
Fale com o autor