Camila com X - Gênesis
1 Prólogo
- Não! — é um grito longo, agudo e desesperado.
Acordo no meio da noite por causa desses gritos. Saio do quarto e sigo os gritos até a cozinha do nosso pequeno apartamento no subúrbio da cidade. Encontro minha mãe sentada no chão, aos prantos. Já tenho 12 anos e não me lembro de ter visto minha mãe chorando com tanta dor, tanta agonia. Suas mãos estão sobre o rosto e tentam abafar o som dos gemidos que sua garganta produz enquanto engole uma mistura de lágrimas e catarro.
- Meu Deus, por quê? – ela olha para cima e num movimento natural eu também. Não estou entendendo muito bem o que acontece. Não vejo nada a não ser o teto duro e branco.
Ela ainda não percebeu que eu estou ali. É como se ela tivesse sido atraída para dentro de si, com olhar agora fixo para apenas um canto da cozinha. Não sei o que ela pode estar vendo ali. A luz está fraca e tremulante, quase que como um pisca-pisca de natal. Fico intrigada e também olho. Não vejo nada, a não ser a mesa virada e algumas porcelanas quebradas no chão que, pela lógica, estariam sobre a mesa no momento em que ela virou.
Continuo a olhar para minha mãe que agora parece estar com alguma coisa por dentro do peito, como se estivesse queimando ou se um monstro estivesse se movendo por dentro dela. Sei disso porque ela põe as pontas dos dedos na parte logo à cima dos seios e grita como se estivesse tentando arrancar algo de dentro. Sinto um medo me invadindo, tanto por ver minha mãe assim quanto por não saber o que a deixou nesse estado. Engulo minha saliva, fazendo grande esforço para conseguir fazer isso e finalmente falo:
- Mamãe?! – soa mais como uma pergunta que um chamado.
De alguma forma, falar essa palavra me fez desmoronar em lágrimas. Sinto rapidamente minha boca ficar salgada; e cada vez mais salgada. Minha mãe para um pouco e me olha com um olhar de pavor, como se eu fosse um fantasma. Parece que ela não queria me ver ali ou não esperava que eu aparecesse; ou as duas coisas.
Minha mãe é uma mulher linda. Sempre foi vaidosa e sempre adorei o jeito que ela se veste. Seus cabelos longos, artificialmente aloirados, deixava-a ainda mais bela e com tom jovial. Só que agora ela não é nada disso. A expressão que ela faz enquanto me olha faz com que ela pareça, pelo menos, 10 anos mais velha. Nesse momento a incompreensão que havia simplesmente se transforma numa espécie de insegurança. Não gosto disso.
- Mamãe!? – dessa vez soo mais como um chamado que uma pergunta.
Dessa vez eu falo como se a dor estivesse em mim e minha boca continua salgada pelas lágrimas.
- Mila, meu amor.
São as palavras que ela fala a me ver. Embora ela tenha as pronunciado de maneira tranquila sei que não está nada tranquilo com ela. Não sei mais o que falar ou dizer e simplesmente caminho em sua direção. Ela levanta as duas mãos como se fosse me empurrar. Eu paro sem entender, como se seus braços fossem invisivelmente elásticos e tivessem o pode de me parar há alguns metros de distância. Minha mãe nunca tinha me negado um abraço antes, não que eu me lembre. Percebo que ela olha para trás da mesa. Ainda não tinha percebido o quanto era grande aquela mesa até vê-la como se fosse um muro, apoiada por apenas duas das suas pernas. Ela olha para trás da mesa mais uma vez e de novo percebo a angústia no olhar dela.
- Mamãe, o que está acontecendo?
Finalmente tenho coragem de perguntar.
- Filha, fique calma. Está tudo be...
Não espero ela terminar a frase por que não quero me acalmar e porque sei também que não está tudo bem. Corro para onde ela está e abraço-a como se nunca mais fosse vê-la. Enquanto sinto as lágrimas dela caírem sobre meus cabelos negros, tento secar as lágrimas que ainda escorrem pela minha bochecha. Minha pele branca agora está rubra, assim como meu nariz. Nesse momento olho para meu lado direito, para trás da mesa grande caída aqui no meio da cozinha. A penumbra e a luz piscando como se já fosse natal não me impedem de ver o que deixara minha mãe naquele estado, o que tinha causado tanto terror a ela: meu pai. Ele estava deitado na cozinha provavelmente morto.
Nesse momento, eu paro de abraça-la e ela também corresponde. Caminho lentamente na direção que ele está. Olho fixamente para o rosto dele e percebo que ele está com os olhos abertos, mas sei que ele não vê. Agora eu não sinto mais nada. Não sinto dor, medo, pavor... Sinto-me estranhamente tranquila. Nunca tinha visto ninguém morto ainda. Lembro que quando Quinta-Feira (meu gatinho preto) morreu, eles não me deixaram vê-lo. E só.
- Camila?
Ouço uma voz ao longe, como se minha mãe tivesse falando comigo, mas como não tenho certeza continua olhando. Pensando apenas em como é estar morto, em como é estar assim sem respirar. Não vi nada sobrenatural, diferente, miraculoso. Vi o corpo de meu pai como se fosse qualquer corpo.
- Camila, meu anjo. Ele está indo para o céu nesse momento. Ele está bem. — minha mãe me abraça enquanto continua falando — ...Não precisa mais chorar. Ele vai cuidar de você do céu agora, tá?
Sei que ela estava fingindo calma. Ainda se podiam ver lágrimas escorrendo pelas suas bochechas. Quanto a mim, eu apenas penso em meu pai. Não em como é triste vê-lo morto, mas em o que faz uma pessoa morrer. Enquanto minha mãe me leva para longe do corpo dele eu continuo encarando o corpo plácido que ali estava enquanto várias outras perguntas surgem na minha cabeça: como fica o corpo “a pessoa” depois que morre? Para onde vai? O que sente? O que vê? Mas será que vê ou sente?
Ele estava ali, plácido. E eu não consegui sofrer; e não me culpo por isso. Pelo contrário, eu senti algo bom. Eu gostei. Eu me interessei...
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