Cama de Gato
9 Só mais um pouquinho
Na quarta, no começo da noite, entrei apressada pela porta do meu apartamento, com o telefone na mão, tentando, pela milésima vez, falar com Elias, já havia deixado um monte de recado, sem retorno. Não tinha ideia se nosso encontro de hoje à noite ainda estava de pé, se deveria me aprontar ou não. Por via das dúvidas, tomei um banho, escolhi uma roupa bonita e fiquei à espera, mesmo, sem muitas esperanças. Sentei no sofá ao lado de Sabbath, que estava em um sono profundo.
— Eu acho que ele não vem — digo, desanimada, para o gato adormecido, acariciando seu pelo macio.
Lá pelas tantas, eu já estava quase desistindo e indo para cama, quando o interfone tocou. O porteiro anunciou que Elias estava subindo. Fiquei um pouco aflita, pois nunca havíamos ficando assim, sozinhos, ainda mais no meu apartamento. Quando a campainha tocou, abri a porta com um ar de brava.
— Tentei falar com você o dia inteiro! — falei de modo duro, logo de cara.
Ele não se abalou, deu um passo à frente e entrou, mesmo sem ser convidado.
— Desculpe, andei ocupado hoje — respondeu, sem demonstrar nenhum pingo de culpa.
— Então, vamos? — Eu me apressei, querendo sair logo dali.
Mas, ele andou, calmamente, em direção ao gato adormecido.
— Olá, Sabbath — diz, acariciando a cabeça do felino, depois, olhou para mim. — Ele está morando na sua casa, agora?
— Não, ele só gosta de ficar por aqui.
— Pensei que podíamos fazer o mesmo e ficar por aqui, também.
Ele veio até mim e me encurralou contra a parede, tinha um olhar lascivo, um sorrisinho torto, entendia muito bem o que ele queria, se aproximando e me beijando. Um beijo quente, cheio de desejo e promessas. Vacilei por um segundo. Por pouco... Não! Agora, não. Ainda é cedo. Então, eu escorrego para baixo e escapo dos braços dele. Ele faz uma cara de triste. Preciso ser determinada.
— Eu estou muito estressada, preciso me distrair um pouco — dei uma desculpa, pegando a minha bolsa e segurando a mão dele, para levá-lo para fora.
— Eu sei uma boa maneira de desestressar você — ele rebate, a minhas costas, e eu finjo que não ouvi.
Lá embaixo, Elias me conduz até um carro, que não é o dele, é mais sério e de aspecto bem caro, que não combina com ele.
— É do meu pai, o meu está na oficina — responde à pergunta não feita, dou de ombros.
Dentro do carro, ele liga o som.
— Aonde vamos? — pergunto, pois sei que ele adora lugares da moda.
— À festa de um amigo.
— Uma festa? Hoje?
— É, e o que que tem?
— Preciso acordar cedo, amanhã.
— Não se preocupe, eu a trarei de volta, pouco depois de meia-noite, Cinderela. — E possa a mão sobre a minha coxa.
— O que aconteceu com o seu carro? — Só quero puxar conversa.
— Um cretino bateu em mim. Mas, não foi nada demais, o carro só ficou um pouquinho amassado.
— Quando foi isso?
— No domingo à noite.
— Ah! É de quem é essa festa que vamos hoje?
— Eu já disse. De um amigo. Você vai gostar, promete ser bem divertida. — Ele me deu uma apertadinha na minha coxa.
A festa era em uma casa em um condomínio meio distante, era fácil achar o lugar por causa da música alta e os muitos carros parados na frente da porta. Elias me puxava pela mão, quando entravamos, ele cumprimentou um monte de gente com tapinhas nas costas e beijinhos no rosto, sem se preocupar em me apresentar.
— Quer beber alguma coisa? — perguntou, por cima do som alto, sacudi a cabeça afirmativamente, assim, ele soltou a minha mão e desapareceu entre os outros convidados. Fiquei ali parada, no meio de um monte de estranhos por infinitos minutos até ele reaparecer, com dois copos na mão e entregou um a mim. Estava quente e a cerveja gelada caiu muito bem, apesar do meu estômago vazio reclamar. — Quer dançar?
— Sim.
Ele me puxou para a pista de dança improvisada, onde a penumbra era quebrada pelos movimentos das luzes coloridas, começamos a dançar uma música bem rápida, um sucesso da época. Elias dançava bem, tinha ritmo e coordenação, movimentava seu corpo sensualmente, era gostoso de ver, percebendo meu interesse, ele me segurou pelos quadris e começamos a dançar na mesma sintonia.
— Se dançando nós nos damos tão bem, imagine no resto — sussurrou no meu ouvido, um arrepio subiu pela minha espinha, dei um risinho nervoso. Ele podia estar certo, poderia ser muito bom.
A festa foi ficando cada vez mais animada, mais gente chegando, volta e meia, ele colocava um copo cheio na minha mão, já estava ficando um tantinho zonza, quando me dei conta do mundo real lá fora.
— Preciso ir, eu trabalho amanhã cedo, quer dizer, hoje.
— Mas, logo agora, que a festa estava ficando boa?
— Você prometeu.
— Tudo bem. Então, vamos — Percebi que ele ficou meio contrariado, até chegarmos no carro.
Elias ligou o som alto, mesmo que eu preferisse um pouco de silêncio, mas não digo nada, assim, quando a mão dele começa a subir e descer acariciando a minha coxa. Mas, estou com sono e o calor da mão dele é tão confortável e gostoso, quase cochilei.
— Eu não entendo com você e George possam ser amigos. Vocês são tão diferentes — Não sei, porque falei o que vem na minha cabeça.
Por um segundo, ele desvia os olhos da rua e me olha, como se não compreendesse o que acabei de falar.
— Nós não somos tão diferentes assim, só parecemos diferentes agora, mas gostamos de coisas bem parecidas — Ele dá um sorrisinho sacana.
Será que está falando sobre Letícia? O fato dos dois terem ficado com a mesma garota? É algo que acho bem estranho entre amigos, no entanto, seria melhor não perguntar nada, por enquanto.
Sei que terei só poucas horas de sono, antes de levantar para o trabalho, não posso vacilar. Ao estacionarmos na frente do prédio onde moro, Elias me envolve nos seus braços e beija ardentemente, cheio de tesão. Nossa! Como ele beija bem! Perco as forças nos seus braços, sinto-me um tanto entorpecida pelo desejo, o sono e a bebida e, por pouco, eu não o convido para subir, mas, já é tarde, estou bem cansada, precisarei estar de pé em poucas horas, para mais um longo dia de trabalho árduo. Então, nós teremos que esperar só mais um pouquinho. Assim, eu o dispenso mais uma vez, para a sua desilusão.
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