Cama de Gato

17 Indo e vindo


A noite já deu o que tinha que dá, meus pés doíam muito, castigados dentro daquelas sandálias altas e bonitas. Mal vejo Elias que aparece por alguns instantes para, logo depois, desaparecer por um tempão. Percebo que George está agitado, olhando para os lados, sei que ele deseja ir embora, mas não quer me deixar sozinha.

— Você quer ir? Pois, eu vou com você.

Percebo a sua dúvida, por fim, ele concorda com a cabeça. Levamos um bom tempo procurando por Elias, encontramos no meio de um grupo e comunicamos nossa decisão, ele não se abala.

— Leve a minha garota direitinho para casa, George — brinca, enquanto me beija a boca.

Deixamos ele para trás, de esgueira, vejo a loura de vestido curto, ela também me vê e dá um sorrisinho malicioso, não gosto nadinha disso. Quem sabe, ela acha que terá sua chance agora.

A madrugada já vai longe, contrastado com a calma do resto do mundo, ainda há um tremendo movimento na frente da boate, a maioria das pessoas saindo, enquanto esperávamos pelo nosso carro chegar.

— Elias ainda tem muito trabalho, antes da noite terminar — George comenta, como para me consolar.

— Pelo menos, você está aqui comigo.

— Sim, eu estou.

O carro chega, embarcamos na nossa viagem de volta para casa, o balanço suave e o sono fazem minhas pálpebras pesarem...

— Sabrina, acorde. Chegamos — A voz tranquila de George me despertar, estou com a cabeça apoiada no braço dele.

— Chegamos aonde?

— No nosso prédio.

Eu me arrasto pela porta da frente, o hall de entrada, o elevador.

— Onde você acha que Sabbath esteja dormindo? — ele pergunta.

— Claro que na minha cama! — digo, convencida.

— Duvido.

— Vamos fazer uma aposta — ele me dá um sorriso torto, de um jeito moleque. — Ele decidirá que fará o próximo jantar, será onde ele não estiver.

— Feito. Está apostado. Eu fiquei curiosa — Ele me interrogou com o olhar. —, com as suas tatuagens.

— Ah, isso!

— Talvez, algum dia, podemos brincar de você mostra a sua que eu mostro a minha – digo, em tom de brincadeira.

— Talvez — ele sussurra.

Então, nossos olhos se encontram, nós nos encaramos por mais tempo do que deveríamos. Naquele instante, senti um friozinho na barriga, uma vontade de beijá-lo. Como seria?

Eu não podia mais, abaixei os olhos e encarei meus dedos dos pés, sabia se fizemos isso, perderíamos tudo o que tínhamos e sequer conseguia pensar nisso, não suportaria ficar sem a amizade de George. Felizmente, o elevador parou no meu andar.

— Obrigada pela companhia. Bom dia, George — falei, antes de sair.

— Bom dia, Sabrina — ele respondeu e a porta se fechou.

Entro no meu apartamento, atordoada, sem entender que está acontecendo comigo. Eu estou com Elias. George está com Letícia, que por sua vez, já foi namorada de Elias e está longe, muito longe. George e Elias são bons amigos. Eu e George somos...amigos. Isso está muito confuso. Eu estou muito confusa. Deve ser o sono. Isso! Foi só aquela sensação de fim de noite, misturado com a bebida e o sono, amanhã, quer dizer, hoje, vai ficar tudo bem, vou esquecer aquela queimação no peito, aquela vontade de beijar George, no elevador. De tão distraída, mal percebo que cheguei ao meu quarto, fico feliz ao encontrar Sabbath dormindo sobre a minha cama. Ganhei a aposta. No entanto, sinto um aperto do peito, quando penso que assim com George, o gato, também, pertence a Letícia, que um dia eu o perderei.

Não encontrei com Elias nem com George o resto da semana até quarta-feira, quando, como de costume, meu amável vizinho me convidou para jantar no seu apartamento. Por um breve instante, pensei em recusar, mas, por fim aceitei, achando que estava exagerando, afinal, nada aconteceu.

Felizmente, estávamos finalizando mais um trabalho e tudo corria muito bem, sendo assim, poderia chegar cedo em casa e me aprontar para o jantar, quem sabe, até comprar uma sobremesa. George havia comentado que gostava de torta de limão e eu conheci um lugar que vendia uma ótima, podia dar uma passadinha lá. E foi no exato momento em que eu comprava a torta, que recebi uma mensagem de Elias, perguntando onde eu estava e me convidando para sair. Era sempre assim, ele ficava um tempão sem dar notícias, depois vinha com o convite repentino. Mas, não tinha porque menti, mandei uma resposta verdadeira, que havia combinado de jantar na casa de George, mais tarde. Daí só silêncio. Ele deve ter ficado zangado, então, dei de ombros, afinal, o que eu poderia fazer.

Naquela noite, ao chegar à casa de George, estava toda orgulhosa com a embalagem de torta de limão na mão. Ele abriu a porta, me convidou para entrar, voltou para a cozinha. Eu o seguir, oferecendo ajuda, que ele recusou, dizendo que já estava tudo resolvido, perguntando se eu gostava de salmão. Respondi que sim, daí, seguiu-se uma das nossas conversas, quando falávamos de nossos trabalhos e assuntos em gerais. Nesse momento, o interfone tocou, ao atender, George fez uma cara de surpresa e respondeu que sim.

— É Elias — ele me avisou para evitar surpresas, indo em direção a porta.

Elias entrou, com seu jeito descontraído de sempre, apertou a mão de George e me deu um beijo, sem dar mais explicações por sua presença ali, mesmo que nós três soubéssemos o motivo.

— Você não deu mais notícias — em voz baixa, afirmo, quando George desaparece pela porta da cozinha, Elias dá um sorriso cínico.

— Andei ocupado, assim como você.

— Elias, se quisermos que isso dê certo, precisaremos conversar, se abri um com outro.

— Por quê? Já está dando certo, estamos bem, juntos.

— Mas, eu queria saber mais de você. Fazer parte da sua vida e que você fizesse parte da minha, não só em festas e no sexo.

— Sabrina, essa é minha vida.

Parei de falar, porque George voltou, com a travessa de peixe nas mãos, eu corro para ajudá-lo, enquanto, Elias se senta relaxado no sofá, bem ao lado de onde Sabbath, que cochilava.

Resto da noite foi bizarra, com palavras cuidadosamente escolhidas, não conseguia relaxar, pois, por estranho que pareça, eu sentia como estivesse fazendo algo errado. E podia ser impressão, mas achava que George estava agindo da mesma maneira, só Elias agia como se nada estivesse acontecendo, com a maior naturalidade, será que ele era tão distraído assim?

Dei graças, quando, finalmente, nos despedimos e descemos as escadas. Mais uma vez, Elias tenta me encurralar contra a parede, me beijando, tento desvencilhar primeiro com delicadeza, porém, ele não desiste e eu o empurro com força, tanto que quase nos desequilibramos e caímos escada abaixo.

— Não!

—Ei! O que foi?

— O que foi? E já disse para você.

Desço as escadas depressa, ele me segue até dentro do meu apartamento.

Tranco a porta e volto para ele, que parece confuso com a minha atitude, seu olhar me interroga.

— Você não entende, não é, Elias? Não dá para ser assim, você entrando e saindo da minha vida desse modo. Em uma noite está tudo bem, depois, você some sem dar notícias e reaparece, como nada tivesse acontecido, e quer me agarrar nas escadas.

— É por isso que está tão braba?

— Não é por menos. Você não percebe como eu me sinto?

Pela sua expressão, ele não percebeu ou fingia muito bem.

— Desculpe, mas eu não sabia que você se sentia assim. Essa coisa de ficar sério com alguém é difícil para mim. Afinal, o que você quer de mim?

— Quero saber que você se importa.

— Como? Enviando algumas mensagens.

— Também.

— Eu não sou bom nisso. Essa coisa de demonstrar afeto. Mas, posso tentar, o que você deseja?

— Passe a noite aqui comigo, já será um bom começo.

Ele deu um sorriso travesso.

— Acho que isso eu posso fazer.