Cama de Gato
24 Faça algo por mim
Estamos em uma espécie de recesso no trabalho, terminamos um editorial de moda e ainda não começamos outro, sendo assim, tudo está mais tranquilo, era a oportunidade que esperava para conversar com Ícaro, assim, na sala dele, enquanto revemos o material que iriamos precisar, começo perguntando sobre o seu novo crush. Ele está animado, parece que estão se dando bem, que podia dar certo, fico feliz por ele, de verdade. Então, entro no tema que tanto anseio.
— O que você sabe sobre a família Rotten? — Tento parece o mais casual possível, mas sei que com Ícaro isso não ia colar.
— Você deve saber melhor do que eu. Afinal, é a família do seu namorado, não é?
— Não sei nada sobre eles, Elias não gosta de tocar nesse assunto.
— Eu, também, não sei muita coisa. Sei que é uma família endinheirada e muito tradicional, mas todo mundo sabe disso. Também, não gostam de publicidade, são bem discretos, com exceção de Elias, é claro. Que se tornou uma espécie de rei da noite.
— Rei da noite! — Riu daquela observação.
— Uma antiga cliente, amiga da família, me confidenciou que o velho é muito rigoroso e autoritário, ninguém podia se rebelar ou contradizer suas opiniões.
— Até Elias fazer isso.
— Elias foi muito corajoso. Ninguém esperava um Rotten, abrindo uma boate de sucesso como ele fez.
— Sim, ele é muito audaz.
— Você gosta dele?
— Se eu gosto de Elias? Claro, ele é meu namorado – respondo, sem tanta firmeza. Ícaro me encara um tanto cético. — Às vezes, gosto mais dele do que em outra — confesso.
Sentia-me empolgada para a minha primeira visita ao apartamento de Elias. Fiquei imaginando um monte de possibilidade de como seria o lugar, se descolado, sofisticado ou despojado, enquanto chegava ao edifício em uma rua tranquila de um bairro tradicional.
Elias abriu a porta para eu entrar no seu refúgio, bastante à vontade com a minha presença ali. Sem disfarçar, olhei em volta, reparando em todos os detalhes. O lugar era bem desprovido, quase monástico, poucos móveis e nenhuma decoração, com alguns objetos completamente fora do lugar, mas, de certo modo, combinava com ele.
— Não passo muito tempo aqui, só venho aqui para trocar de roupa e, poucas vezes, para dormir — explicou, ao perceber a minha expressão.
— Eu não conseguia imaginar como seria a sua casa, estava muito curiosa.
— Sobre isso?
— Sobre tudo. Já estamos há algum tempo juntos, então, é natural que queira saber mais sobre você.
— Não perca o seu tempo com isso, não há nada para saber sobre mim. Agora, você já conhece onde eu vivo. E eu fiz o jantar — brincou, mostrando a comida japonesa, ainda na embalagem do restaurante, sobre a mesinha de centro.
— Estou admirada com suas habilidades culinárias! — Mantive o tom.
— Sim, eu fiz um curso de especialista, só para aprender a corta o peixe.
Sentamos no chão de pernas cruzadas para comer, em um copo quadrado de madeira, ele me serviu uma boa dose de saquê, depois, outra.
— Você quer me embebedar? — falei, sorrindo.
— Essa é a ideia — ele disse, completando o copo.
— Você não vai a boate hoje?
— Não, eles podem sobreviver sem mim, por uma noite. Principalmente, quando estou com uma garota bonita no meu apartamento — Elias se aproxima, fica alguns poucos centímetros de mim.
Ele se me beija, um daqueles beijos de língua de tirar o folego, acho que não vamos terminar o jantar, pelo menos, não agora, quando a mão dele vai para baixo do meu vestido.
Deitada o chão da sala dele, acompanho com o olhar as pequenas falhas na pintura do teto, não quero pensar, estou tonta por causa do sexo e do saquê. Elias está deitado ao meu lado, em silêncio.
— Eu tenho que confessar uma coisa — digo, em voz baixa, Elias permanece imóvel e de olhos fechados, parece dormir, mas não me importo e continuou: — Eu andei pesquisando sobre você e a sua família.
Espero por alguma reação mais brusca, contudo, ele só abre os olhos e vira o rosto para mim.
— Por que fez isso?
— Queria saber mais sobre o homem, com quem divido a minha cama.
— Justo! E o que descobriu?
— Como você foi corajoso, enfrentando o seu pai e construindo seu próprio negócio.
— Eu não tive escolha, era isso ou ter minha alma destruída.
— Não seja tão dramático.
— Você não conhece meu pai. Ele é um devorador de alma, as suga até o fim até não sobrar um pingo de vontade própria.
— Você está exagerando!
— Não estou, vi o que ele fez com a minha mãe.
Ele se dobra e apoia a cabeça na minha barriga e a beija.
— Seu umbigo é engraçado — troça, passando o dedo nele, faz cocega e eu me contorço.
— Não, é não — falo com veemência, apesar de achar isso também.
— Mas, eu gosto dele assim. Gosto de mais outra coisa em você — E o beija a minha barriga, seguindo um caminho para baixo, para entre as minhas pernas.
Não sei quando tempo depois, eu sou trazida do sono por uma suave carícia sobre o meu dorso. Aos poucos, vou tomando consciência que estou na cama, no quarto de Elias, há uma suave luz de vela acesa que me permite vê-lo, ajoelhado junta a mim, nas mãos um objeto do tamanho de uma régua longa e escuro, que não consigo identificar, é com ele que me toca e sorri.
— Quero que faça algo por mim — Fala ao meu ouvido, sua voz é suave, quase um sussurro
— Sim, claro — respondo, sem pensar.
Eu me sento e ele me entrega o objeto na sua mão, aí, percebo é um pequeno chicote que termina em várias tiras de couro finas e macias, olho para aquilo sem entender.
— Quero que me bata.
— Não! Está maluco? Eu não vou fazer isso!
— Por favor — Ele suplica com as mãos postas diante de mim.
— Eu não posso bater em você. Por que eu faria isso?
— Preciso que faça isso, porque eu mereço, se você não fizer isso, não terei paz.
Olho para os olhos dele suplicantes, depois, para o objeto em minhas mãos e, de novo, para ele. Sua expressão é atormentada. Eu sei que tem algumas pessoas que conseguem o prazer assim, porém, sempre achei essa ideia bizarra, e agora, diante de Elias não sei o que fazer e pensar.
— Se é isso que você quer — concordo, um tanto receosa. Ele sorri, aliviado. — Como faremos isso?
Ele ajoelha no colchão de frente a cabeceira, nu, abre os braços em cruz e abaixa a cabeça, encostando o queixo no peito. Hesitante, eu me ergo, ficando em pé ao lado da cama, fico alguns passos atrás, seguro, com força, o chicote com as duas mãos.
— Está pronta?
Não!
— Sim — murmuro.
— Então, comece!
Trêmula, levanto o braço e desfecho a primeira lambada, o corpo dele se retraí um pouco, recuo.
— Mais forte! — ele pede e eu faço.
O corpo dele fica rígido com o golpe.
— Mais forte, Sabrina! Você pode! Por favor!
Assim, meu braço desce e sobe, o corpo dele se contraí e ele geme a cada golpe.
— Não pare! — Mas, Elias exige.
Mesmo com pouca luz, percebo que as suas costas estão com vários lanhos avermelhados, meu braço doe de tanto bater.
— Agora, chega! — determino, jogando o chicote sobre a cama.
Ele relaxa, apoiando-se as mãos na cama e respirando fundo, eu me aproximo para ver seu rosto.
— Você está bem?
— Sim, estou em paz, agora — diz, voltando-se para mim, sorrindo, com uma expressão beatificada.
Examino as costas marcada dele.
— Não é melhor, colocar remédio aqui?
— Não, assim perderia o sentindo, ainda preciso sofrer com as feridas. Não se preocupe não ficarão marcas, você não bate tão forte assim.
Fiquei imaginando se outras teriam feito o mesmo com ele, se haveria marcas escondias sob as muitas tatuagens, provavelmente, sim.
— Venha aqui! — Ele me puxou para baixo dele e transamos, de um modo apaixonadamente tão intenso, como nunca havíamos feito antes.
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