Calling Down.
6 Walk along.
Notas iniciais
Boa leitura!
– Achei você!
Takanori já não sabia como era respirar, e depois de muito tempo conseguiu ter alguma reação, passando uma das mãos nos cabelos deixando os mesmos desarrumados. Respirou fundo tentando não parecer uma criança amedrontada. Sabia que um dia aquilo iria acontecer, afinal.
– Me desculpe, assustei você? – Um sorriso preocupado se instalou na face curiosa, onde parte dela estava escondida sob uma faixa que lhe cobria o nariz. Takanori sabia o provável motivo d’outro usar aquele acessório.
– Ah, não. Quer dizer, sim. – Sorriu sem jeito, sem saber o que fazer. Não sabia se teria tanto autocontrole como Kouyou tinha ao lado de Yuu, mas iria tentar. – Você estava me procurando?
Viu como Akira ficou sem graça, e ficou um tempo em silêncio. As mãos dentro dos bolsos da calça negra, os olhos fitado o chão como se procurasse palavras certas para usar. Takanori ficou quieto esperando resposta, atento ao que o outro fazia. Seu coração batia tão forte que temia que o outro ouvisse. Estava feliz, de todo modo, por poder ser visto pelo homem que amou por toda sua vida, e por que não dizer por toda eternidade?
– Bem, eu estava de alguma forma. – A resposta veio simples, e o silêncio se tornou constrangedor.
Parecia que a cada frase, cada um precisasse de um tempo para pensar.
– Então... Por que estava me procurando?
A voz do menor soava insegura, como se a resposta viesse mais vazia que o vento. Temia, na verdade, que tudo aquilo fosse apenas mais um devaneio, como tantos outros que tivera durante todo aquele longo tempo.
Akira não sabia o que responder. Não sabia o motivo que o levara a procurar o menor, mas seu coração havia disparado no primeiro instante em que havia posto os olhos naquele ser baixinho e magro, que mais parecia um anjo em meio às sombras de uma cidade acinzentada. Depois daquele dia, em que o menor havia praticamente corrido em outra direção, simplesmente não tirara aquele rosto de sua memória e na noite anterior havia sonhado com ele.
Não sabia explicar, mas algo dentro de si dizia que sonhos tinham algo a dizer, algum significado que, se bem interpretado, pudesse mudar a vida das pessoas. Aoi lhe achava um tanto quando alucinado por pensar daquela maneira, por acreditar em coisas que não beiravam a realidade palpável. De toda forma, seria melhor se Yuu estivesse certo daquela vez, pois os sonhos que andava tendo beiravam o desespero.
– Para ser sincero, eu não sei. – O loiro passou a mão na nuca, constrangido. Deveria estar parecendo patético, pensou consigo. – Eu vi você um dia desses, logo que cheguei a cidade com um amigo, e você me lembra alguém, eu não sei, sinto que te conheço. Estou parecendo idiota e você deve estar achando que sou maluco, ‘né?
Riu sem graça, vendo o menor manear a cabeça negativamente com um sorriso ladino. Não podia deixar de notar o quão lindo aquele rapaz que aparentava ser tão novo era, apesar de toda aparência jovial e um tanto quanto delicada, seu olhar parecia milenar. Parecia que carregava consigo uma grande bagagem.
Um vento frio soprou por entre a janela mal acabada da antiga construção, fazendo com que as penas negras que estavam no chão se espalhassem, algumas se amontoando aos pés de Takanori. Ambos sentiram um arrepio passar pela espinha, fazendo com que os pelos do corpo de ouriçassem. Aquilo não era um bom sinal.
– Não acho que você seja maluco. Quem sabe já não nos encontramos em outro lugar algum tempo atrás? – As palavras saíram simples, e o loiro não notou a intensão por trás delas. Era óbvio que ele não se lembraria de uma vida passada, mas o pequeno insistia em manter uma pequena fagulha de esperança acesa. Ela não se apagaria tão cedo.
– É, pode ser isso mesmo. Mas eu não sei, há algo em você que me parece familiar. – Deu alguns passos a frente, até ficar mais próximo de Takanori. Curvou-se levemente, fechando os olhos por um instante. – Sou Suzuki Akira, e você como se chama? – Apresentou-se depois de muito tempo, esperando o outro fazer o mesmo.
– Matsumoto Takanori, é um prazer Suzuki-san.
Sentia o peito rasgar. No mais íntimo de seu ser, queria que o outro lhe reconhecesse, que ainda sentisse aquele amor que por anos ele carregou sozinho. Doía ter que se apresentar novamente, mesmo que depois de muitos anos, para a pessoa que mais amava e que mais lhe amou durante sua vida. Porém estava orgulhoso de si mesmo por saber se controlar tão bem. Kouyou iria se orgulhar também, pensou sozinho, deixando um sorriso ameno pairar em seu rosto alvo.
– Por favor, pode me chamar apenas de Akira, ou Reita como meus amigos me chamam. – O loiro sorria enquanto arrumava a faixa que usava sobre o nariz. Estranhara o fato de Takanori não ter perguntado nada, ou nem ao menos ter ficado reparando no pedaço de pano que cobria parte de seu rosto, porém estava aliviado.
– Neste caso, pode me chamar apenas de Takanori, ou Ruki.
Aquela faixa, a maneira como ele a ajeitava com esmero no rosto definido não lhe espantava. Sabia que por trás dela havia uma cicatriz que o outro não sabia, mas carregava com ele por todas as suas vidas, e cada vez que nascia novamente, ela estava mais fraca, porém ainda visível. Fora Ruki mesmo quem cuidou do ferimento.
– Ruki... – O loiro repetiu como se guardasse aquele apelido na memória, mas na verdade tentava buscar dela algo que o fizesse lembrar-se o porquê aquele apelido lhe soar ainda mais familiar. – Desculpe-me a curiosidade, mas o que você veio fazer nessa construção abandonada? Você é o dono?
Takanori balançou a cabeça negando. Se fosse dono daquele local, com certeza ele estaria terminado e com outra decoração. Aquela parecia um tanto quanto velha demais.
– Não, não. Na verdade eu acabei aqui por acaso. Não estava prestando atenção no caminho. – Foi a vez de Ruki coçar a nuca sem jeito. Realmente não havia se dado conta de como tinha ido parar ali.
– Bem que eu vi que andava distraído. – Gracejou, notando o outro ficar um tanto sem graça. Adorável.
– Eu sou uma pessoa bastante distraída, é verdade.
O clima entre eles estava leve, porém dentro de Takanori havia um turbilhão de sentimentos querendo saltar para fora. Não sabia como estava conseguindo manter-se em pé, pois apenas de olhar naqueles olhos escuros suas pernas fraquejavam. Tinha que organizar os pensamentos, se preparar psicologicamente para todas as tormentas que estava enfrentando e todas as outras que estavam para chegar.
– Foi um prazer conhecer você, Akira. Mas eu tenho que ir, tenho um compromisso marcado com um amigo meu e já estou atrasado.
Viu quando os olhos do mais alto tomaram um brilho diferente, talvez entristecido. Interiormente ficou feliz por saber que, de certa forma, o outro havia gostado de si.
– Ah, uma pena que não possamos conversar mais, Ruki. Mas espero ver você em breve. – E novamente aquele sorriso simples brincava nos lábios desenhados do loiro, deixando uma sensação confortável descansar no peito de Takanori, como as folhas na beira de um rio cujas águas correm mansas.
– Eu também espero.
Takanori juntou toda calma que tinha, para não sair apressado, e com ela caminhou até a saída da construção, sentindo o outro lhe seguir até lá. Virou para trás uma ultima vez, e então acenou em despedida, pronto para sair dali. Foi então que, após o primeiro passo em direção ao seu caminho, a voz lhe chamara mais uma vez sua atenção.
– Ruki? – Virou-se, esperando que o outro continuasse. – Apareça na minha biblioteca. Eu e meu amigo vamos inaugurá-la essa semana. Fica ao lado daquela cafeteria grande no centro da cidade.
– Pode deixar, eu aparecerei lá sim. – E com um último sorriso deixou finalmente o lugar.
Os passos apressados deixavam o vento ainda mais cortante contra seu rosto, porém não se importava. Parou no meio do caminho, notando que lágrimas escorriam por seu rosto. Não queria chorar, não queria desabar. Tinha todos os motivos do mundo para se debulhar em lágrimas, mas já bastava o que havia chorado por todo aquele tempo, ainda mais depois da crise que Kouyou teve. Não queria mais sentir aquela dor lhe cortando o peito.
Estufou o peito, olhando para cima onde podia ver a copa das enormes árvores que estavam em volta de si. Gostava daquele caminho justamente por ser tranquilo, por transmitir uma paz que não tinha, era superficial, mas o fazia sentir-se bem. Era um caminho sombrio muitas vezes, mas ele dava na grande mansão onde morava com Kouyou, e era isso que importava.
Mordendo o lábio inferior, continuou a olhar para cima, até que em um fôlego gritou. Gritou tão alto que os pássaros que estavam nas árvores voaram assustados, batendo as asas fortemente enquanto piavam amedrontados.
Um grito alto o bastante para espantar os fantasmas que habitavam seu coração, fazendo com que se sentisse até mesmo mais leve. A respiração por um tempo ficou descompassada, o peito subindo e descendo desregulamente. Com a manga da camisa branca que usava, enxugou as lágrimas que haviam ficado em seu rosto, e então sorriu. Não apenas sorriu como gargalhou, como se alguém estivesse lhe fazendo cócegas até que ficasse sem ar.
Precisava daquilo, colocar tudo pra fora de uma vez só, para então recuperar suas forças e poder seguir em frente sem medo de tropeçar nas próprias pedras. Foi quando olhou em direção a uma árvore de tronco mais grosso, e atrás dela avistou uma garotinha. A mesma que havia aparecido misteriosamente para ele e Kouyou alguns dias atrás. E seu peito simplesmente ficou em paz quando viu que ela sorria para si, um sorriso tão puro que o fez ter vontade de sorrir também, e assim o fez. A menina segurava uma flor dente-de-leão, e então a assoprou, fazendo com que as pétalas se soltassem facilmente e chegasse até Takanori, que fechou os olhos aproveitando aquela sensação tão única.
Quando abriu os olhos novamente ela já não estava mais lá, porém estava cercado de pétalas de dente-de-leão, e estava se sentindo estranhamente leve.
Sorrindo voltou para casa.
~xXx~
Havia simplesmente deixado as roupas sociais de lado, colocando roupas confortáveis que ainda assim ficavam bem em si. O corpo esguio estava coberto com uma calça de moletom cinza, com uma listra branca na lateral. Ao contrário de Takanori, vestia uma blusa de lá preta, e por baixo dela usava uma segunda pele para aquecer-se mais.
Ruki havia saído cedo e ainda não tinha voltado. Esperava que estivesse tudo bem. Preocupava-se tanto com o menor que se sentia como um irmão mais velho. Tinha um carinho tão grande por Takanori que não admitia que o menor sofresse tanto como ele próprio sofria. Sabia que ainda havia muitas coisas para descobrir sobre o pequeno, e quem sabe sobre sua própria vida, mas confiava nele cegamente. Seu coração raramente se enganava.
Em todos aqueles anos havia conhecido com todos os tipos de pessoas possíveis, desde pessoas bondosas com a alma tão límpida como a água até mercenários que sobreviviam à custa de mortes alheias. Aprendera a se defender física e psicologicamente, de todos os tipos de pessoas que julgava ser possível. Sentia-se orgulhoso por, apesar de tudo, ter aprendido tantas lições. Analisando sua vida de cima, era um homem de fibra que se não estava em crise, sabia pesar bem os dois lados da moeda. Só esperava que no final saísse no lucro.
Ouviu o barulho da enorme porta e logo depois ouviu passos indo até a sala onde estava. Estava com as pernas em cima do sofá antigo de cor carmesim com detalhes em preto, segurando uma caneca grande de café, quando viu o corpo menor adentrar o cômodo. Os pés revestidos apenas com meias bordô caminharam até onde estava, logo se sentado ao lugar que estava vago ao lado do seu.
Ouviu um suspiro baixo, e então prontamente passou os braços ao redor dos ombros magros, puxando-o para mais perto de si. Esperou o tempo dele para que, caso quisesse, desabafasse.
Não demorou muito, e mais um suspirou foi ouvido, e logo a voz suave se pronunciou.
– Me encontrei com Akira.
Kouyou quase deu um salto do sofá, fazendo com que Ruki soltasse um riso baixo. Estranhou aquela reação, esperava algo como lágrimas e palavras desconexas, não aquela reação pacífica que o menor estava tendo. Como se lesse em seus olhos o que estava pensando, Ruki sorriu ameno para o maior, colocando a franja para trás da orelha antes de falar.
– Eu não vou chorar Kou. Tanto eu quanto você já choramos demais, acho que está na hora de eu enfrentar tudo isso de frente. Se eu continuar a colocar o dedo na ferida desse jeito, quando a tormenta vier ela vai bater no meio peito e eu vou cair sem ter forças pra lugar, e isso é tudo que eu não quero.
Não sabia o que dizer. Um sentimento de orgulho se instalou em seu peito, e então notou que estava sorrindo também. Um sorriso aberto, onde os dentes infantis apareciam e o deixavam ainda mais belo, um sorriso que há tempos não conseguia dar de forma tão espontânea.
Abraçou o menor com toda força que pode, com todo carinho que tinha. Os braços de Takanori estavam em volta de si, aproveitando aquele momento tão fraternal.
– Ah Taka! Estou tão orgulhoso de você! – Exclamou, beijando o topo da cabeça de Ruki, que riu baixinho do carinho que havia recebido. Estava feliz naquela situação. – Nós vamos lutar com toda força que temos, e como aquela garotinha disse, é só sabermos controlar o leme que iremos conseguir. – Fez uma pausa, olhando fundo nos olhos de Ruki, para então continuar. – Nós vamos conseguir, isso é uma promessa.
E o menor acreditou naquilo com todo coração. E com todo o coração lutaria para a promessa se cumprir.
Dois corações lutando por quatro almas.
Notas finais
Enfim, espero que estejam gostando e que ainda acompanhem a fic.
Quanto ao Nyah que vai acabar com a categoria de bandas aqui, eu estou providenciando um blog, e em breve postarei ele aqui, sim?
Mereço reviews? Por favor, não me deixem desanimar. ♥
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