Call of Cthulhu
2 Cap. 1 - A cantora e Revolucionária.

Joana estava inquieta, seu coração tremia por dentro, olhava para os lados para ter certeza que de não estava sendo seguida, precisava embarcar no dirigível. Haviam policiais em todos os lados, verificando as pessoas e os ticket de embarque. Ela conseguira o seu ticket de Javier, um trambiqueiro que vendia cigarros e bebidas nas escondidas à frente do restaurante em que ela trabalhava. Ele lhe havia dito que tinha conseguido em um jogo de Poker, mas na verdade o ticket era falso e ela descobriu quando já estava em Arkham, quando recebeu uma ligação de Carlos, um dos garçons do restaurante. O que a preocupava era não poder voltar atrás, tinha que continuar; “nunca pare de lutar” a voz de sua mão sussurrava em seu ouvido. Estava estava cerca de alguns centímetros da escada, por sorte a chuva deixou os oficiais muito ocupados em manter a contenção do que revistar os passageiros.
—Com licença, posso ver seu ticket de embarque? — O policial a fez parar, sem muito interesse no que ela estava mostrando para ele, pois atrás dela vinda Anne Sorie, a maior atriz de Hollywood. -Fique o ticket o tempo todo, nós ainda….ainda iremos fazer uma verificação mais segura.
—Sim, senhor. –Joana suspira a cada degraus vencido, na passagem de boas-vindas haviam dois homens que a levariam até seu quarto designado. Porém seu ticket era falso, provavelmente o quarto já estaria ocupado. Precisaria despistar aqueles rapazes de forma rápida. Eles pegaram as poucas malas que ela levava consigo; duas malas, sendo uma pequena.
—Sígame, por favor.[1] –O rapaz tinha um sotaque hispânico pesado, talvez pudesse confiar nele.
—¿Como se llama?[2] – Joana pergunta enquanto caminham a passos largos até o quarto indicado, ambos os jovens queriam retornar para carregar as malas e ter contato com Anne Sorie. Ao ouvir a pergunta em espanhol os dois se entre olharam.
—Meu nome é Juan Miguel. -Juan responde em inglês, aquilo fez seu colega parar de encará-lo.
—Trabaja aquí por mucho tiempo...[3] -Ela continua tentando puxar assunto afinal de saber se poderia confiar nele, porém Juan não parecia demonstrar muito interesse em desenvolver uma conversa, ao contrário parecia aumentar o ritmo de seus passos.
—Sinto muito senhorita, mas é nossa politica falar somente em inglês dentro do H.P.. -O outro responde Joana olhando para Juan Miguel, o que ela não sabia era que Juan estava com a corda no pescoço e que Peter, o americano que carregava sua mala era o supervisor de Juan, e estava verificando o desempenho dele.
—Desculpe, deve ser difícil. -A distancia diminui entre Juan e Joana. Aquele cenário parecia ser uma extensão de seu trabalho como garçonete, era proibida de falar em espanhol na maioria das vezes e também falar sobre vodu.
—Sim, muito. -Juan concorda de cabeça baixa, mas logo dá um sorriso para ela. — Ainda mais com uma mulher como a senhorita aqui. -Joana nota a piscada do moço que deveria ter por volta dos 21 anos, não era uma piscada, nem um sorriso amigável era algo quase que censurável.
—Juan Miguel... -Peter fala ríspido com o colega de trabalho, era esse o motivo de estar quase perdendo o emprego, flertar com as passageiras e até ser pego na cama com uma delas. A situação fez Joana corar, não sabia ao certo o que fazer.
—Onde fica o banheiro? -Os dois rapazes pararam de andar ao ouvirem a pergunta dela, mas quando estava prestes a responder, ela já tinha desaparecido...
....
Joana andou discretamente entre os corredores do dirigível, mas precisava se esconder, então forçou a entrada em um dos quartos. Mal havia feito força quando a porta se abriu por dentro e ela passou pela pessoa que a havia aberto.
—Quem é você? -Lyza olha para Joana enquanto a outra se dirige para perto de suas malas. -E mais importante, o que faz na minha cabine? -Lyza nunca foi muito de dar voltas ia sempre direto ao assunto.
—Meu nome é... -Joana precisava pensar rápido em um forma de enganar a russa, ou ela a entregaria para os seguranças do dirigível. — Meu nome é Aphrodite, sou sua camareira. -Joana falou aquilo carregando um sotaque maior do que o da russa, era claro que os serventes falariam daquela forma.
—Eu não me lembro de ter pedido camareira... -Lyza responde caminhando até onde seu pistola estava escondida, se a mulher não falasse a verdade acabaria com aquilo ali mesmo, afinal podia ser uma espiã americana que havia descoberto seu disfarce.
—Madame, eu já disse. -Joana insiste na mentira.
—Se não me disser, vou ter que resolver o problema, -Lyza para por um breve momento e se lembra de sua missão. -quer dizer, alertar a segurança.
—Eu... -Joana sente as paredes prestes a sufocarem ela, e a mulher a estava rodeando como um lobo a uma ovelha. -eu descobri que meu ticket é falso e não tenho onde ficar, serei jogada para fora se me encontrarem. -Joana cai de joelhos e deixa algumas lagrimas caírem, não de tristeza, mas de raiva, estava quase conseguindo e iria perder tudo.
—Devia ter pensado nisso antes de entrar. -Lyza não se deixa cativar pelas lagrimas que poderiam ser falsas. Em vez disso se senta na cama, mas acaba deixando sua mala cair revelando seu rifle.
—Espere, isso é um rifle. -Joana vê a arma pular de dentro da mala, era trabalhada na madeira e tinha detalhes brancas de uma bailarina.
—Parece que agora eu vou ter que resolver o problema. -Lyza estala os nós das mãos e caminha até Joana que recua assustada com a atitude da outra.
—Espera... o que vai fazer? O que é você? -Joana questiona gritando, aquilo certamente alertaria os seguranças.
—Merda. “Nunca deixe o laço de sua sapatilha solto, Lyza, nunca deixe ele solto”. -Lyza dá uns tapas na própria testa, como se isso colocasse seus pensamentos em ordem.
—O que!?
—Eu me chamo Yelyzaveta Nikolaev Pereverzeva. -Enfim, derrotada Lyza desiste dos pesamentos mortais e que provavelmente acabariam com seu disfarce.
—Me chamo Joana. -Joana se apresenta sendo guiada até a cadeira por Lyza.
—Eu quero seu nome inteiro... -Lyza se sentou na cama de forma a poder encarar Joana nos olhos.
—Pra que? — "nome inteiro", a pergunta pareceu ridícula, por ela precisava saber seu nome completo.
—Eu prefiro assim. -Lyza por mais que tentasse não conseguia se livras das lições da Academia militar Bolshoi; segundo os ensinamentos russos, ela deve saber o nome e o sobrenome de todos com que ela se relaciona, e devia usa-los ao se referir a esta pessoa; o sobrenome era o único e verdadeiro documento de identificação, construído ao longo de muitas gerações, sendo a única forma de conhecer realmente a si mesma e ao próprio alvo.
—Joana Aphrodite Ramirez. -Joana responde ainda confusa.
—Presumo que seja Latina. -Lyza constata apos uma longo analise na forma de Joana se mexer e nos traços físicos dela.
—Brasileira, para ser sincera.
Brasileira!? -Por mais que quisesse parecer fria, a confissão lhe pegou de surpresa, pois assim como a Rússia, era uma gigante com pés de barro, com a diferença de que a Rússia havia encontrado como se libertar enquanto o Brasil se afogava na lama dos capitalistas. -Sinto muito.
—Como assim!? -Joana se levanta um pouco irritada pelo comentário.
—Não gosto de países muito quentes. -Lyza tenta desviar o assunto, já que suas ideias não eram muito aceitas desse lado do globo. -Por que você resolveu entrar clandestinamente aqui?
—Aqui estão os mais famosos dentre os famosos, se algum deles me ouvir cantando, pode querer me patrocinar. -Joana se senta novamente, enquanto falava Lyza pode se lembrar de uma menina que queria ser bailarina, mas o mundo estava em guerra e não havia espaço para bailarina...
—Então você canta? -Lyza pergunta com interesse.
—Sim. E você? -Joana questiona olhando para o rifle de Yelyzaveta.
—Sou bailarina. -Lyza responde rapidamente. -Não se preocupe, não irei usar isso...
—Com licença. -Uma voz masculina cresce do outro lado da porta.
—Não se preocupe. -Antes de abrir a porta Lyza guarda a arma na mala e a coloca debaixo da cama. –O que deseja? -Ao abrir a porta dá de cara com Peter e Juan acompanhados de um outro homem mais velho.
—Desculpe o transtorno, estamos procurando uma mulher... -O homem se desculpa, mas é interrompido por Peter
—É ela...
—Essa é a mulher que você procura!? -Lyza se coloca na frente deles. — Ela é minha parceira, uma cantora latina, eu devia tê-la encontrado no aeroporto para virmos juntas, mas o voo dela atrasou. -Lyza fala tão segura e certa que se Joana não soubesse da verdade acabaria acreditando na mentira.
—Onde está o ticket dela? — O segurança mais velho e experiente questiona.
—O governo russo acabou se esquecendo de enviar o ticket dela, será que podem resolver isso para nós, afinal ela é parte importante do presente da Rússia para esse glorioso Zepelim. Ou eu vou ter que ir até Moscow e dizer para Stalin que vocês, não só, se recusaram a permitir a estadia da convidada dele, mas também se recusaram a aceitar o presente da União Soviética. -Lyza encara os três, não havia mais nada a ser dito, eles olhavam para Joana e Para Lyza.
—Desculpe Senhorita. Iremos cuidar disso. -Os três somem pelos corredores.
—Agora, onde estávamos? -Yelyzaveta retorna sua atenção a Joana, que permanecia de boca aberta.
—Obrigada... -Ela agradeceu, mas foi interrompida.
—Acho que ainda não percebeu. Eu resolvi seu problema com a segurança desse dirigível, mas agora, você parece estar presa a mim. E eu não sou muito fã de propriedades privadas. -O sorriso de Lyza era simpático, mas irritado.
—Entendo, quer dizer que só posso andar com você. -Joana se levanta e caminha pelo quarto.
— Точно.[4] -A russa olha pela janela e vê o capitão dando as ordens finais, em breve estriam no ar. — E eu não gosto da ideia de ter uma sombra.
—Então façamos assim. -Joana formula um plano. -Você me apresenta como cantora, eu canto e...
—Ai você se torna famosa e o mundo fica a seus pés... -Lyza imita uma voz que para ela seria de princesa. -O sonho americano é só um sonho, sugiro tentar outra coisa. -Ela se joga na cadeira olhando a reação de Joana.
—Você vai me ajudar, senão… -Nos ouvidos de Joana aquilo soou uma ofensa as crenças de sua mãe.
—Senão? -Para Lyza aquilo foi um desafio, as duas se viam de pés, prontas para começar uma briga, Lyza sentia o perfume de rosas de Joana, que por sua vez sentia o perfume de mel de Lyza.
—Vou contar pra eles desse seu rifle, estão ter que revistar seu quarto e...
—Não preciso disso. — Lyza sorri erguendo os braços em sinal de rendição. -Eu te ajudo, mas só por que eu gostei desse seu jeito.
—Que jeito!?
—Esse jeito Russo de resolver as coisas. -As duas sentem um movimento externo, o quarto balança e dá uma sacudida.
O dirigível se erguia do chão.
Fale com o autor