Call Girl in Busapeste
5 Nozes.
Notas iniciais
Quando as pessoas começaram a chegar, Angel foi se retraindo.
Eram pessoas divergentes em todos os sentidos. Havia uma garota loura, com corpo de modelo, uma coroa na cabeça e uma faixa – ela parecia ter voltado de um concurso de beleza. Havia uma mulher alta, magricela, de cabelos pretos lisos – ela parecia estar em um tipo de transe. Havia um adolescente de cabelos castanho-avermelhados, acompanhado de outros dois adolescentes -- os três não paravam de rir, se empurrar e enfiar cada vez mais biscoitos na boca. Havia uma garota morena bonita com um gorro de lã – ela não tirava os fones de ouvido; ao lado dela, havia uma loura oxigenada com óculos ridículos.
Todas aquelas pessoas acabaram por se misturar na pequena sala, conversando, trocando onomatopeias, engolindo biscoitos numa velocidade superior do que Fred podia cozinhar. Por falar em Fred, ele saía da sala a cada cinco minutos, sempre voltando meia hora depois com uma nova travessa de biscoitos. Ele sempre dava um sorriso simpático entre uma sobrancelha arqueada e uma pergunta desconexa.
Entre toda aquela gente, Ian parecia estar se divertindo muito. Ocasionalmente, catava um biscoito ou outro, sempre sorrindo e animando o clima com seus olhos azuis claros e sua voz gentil.
Era extrovertimento demais num cômodo só.
George ria e enfiava mais biscoitos na boca, contribuindo para os esforços de Fred para manter todos engordando loucamente com seus biscoitos – aliás, Angel também os devorava. Mesmo se divertindo, Angel notou que George teve o cuidado de não sair mais de um metro de perto dela.
Angel ficou grata por aquilo. Mesmo com todos sendo gentis, mesmo com os risos ecoando a cada dois segundos, um ambiente onde as pessoas tratavam Angel como algo além de um pedaço de carne era meio raro de se ver.
Ian ocasionalmente puxava Angel para uma conversa, e, como uma sombra, George ia atrás. Os diabéticos bebiam chá – havia bastante diabéticos por ali – e os saudáveis exageravam no refrigerante, tendo que se sentar calados e sossegar até seus estômagos desincharem.
Era um ambiente estranho e acolhedor. Especialmente para uma festa. Especialmente para Angel. Afinal, a maioria das festas nas quais Angel comparecia eram raves ou festas de programa. Nunca um ambiente com tanta gente sóbria, gentil e engraçada pôde ser chamada de “festa” no vocabulário de Angel.
Afinal, ela sempre esteve na classe principal.
Mais pessoas chegavam a cada meia hora, uma mais estranha que a outra. Só teve duas pessoas naquela festa que pareciam bem normais.
Os pais de George.
E ser normal parecia um crime.
Os dois foram passando pelos grupos de conversa, saltando entre eles, deixando hostilidade e um silêncio incômodo por onde passavam. Ian ia atrás, para garantir que o clima desumano não se prolongasse por muito tempo. Quando a mãe de George abria a boca, Ian revirava os olhos. Fred tratava se enfiar mais um biscoito na boca do pai de George caso ele resolvesse soltar a língua (novamente).
Quando isso aconteceu, George tratou de puxar Angel para outro grupo de conversa do outro lado da sala. Mas os pais seguiram George e Angel, levando a hostilidade, como um fardo, junto deles.
Então, George e Angel passaram a se refugiar na cozinha, ajudando Fred a fazer seus tão divinos biscoitos. Não deu muito certo, porque Fred parecia ter um ciúme mortal daquela receita. Ele interrompia enquanto George mexia a massa e intervia quando George tentava ajustar a temperatura do forno.
Mas, apesar de tudo, o sorriso de Fred continuava estampado no rosto. Angel pensou que ele sorria tanto que seu rosto podia começar a doer. E o sorriso era tão largo que podia-se ver todos os dentes brancos, alinhados e perfeitos dele.
–- Ele não para de sorrir nunca? – Angel perguntou para George, quando Fred foi levar mais biscoitos para a sala.
–- Ele já chorou bastante – George explicou. – Deixa ele ser feliz.
Angel assentiu com a cabeça. De pessoas tristes no mundo, já bastava ela. Era melhor que Fred sorrisse incessantemente do que chorasse.
–- E qual é a do Ian? – Angel indagou.
–- Ah, ele é velho, meio maluco, meu padrinho – George disse, enquanto tentava achar mais nozes no caos que era o armário de cozinha daquela casa.
–- Ah. Ele é bem legal, não é?
George riu, como se fosse uma piada particular.
–- Ele é como se fosse um grande pai... Não, não pai. Um grande avô. Isso, ele é como um grande avô pra todo mundo naquela sala.
–- Como assim?
–- Aqueles caras lá... – George começou, desistindo de achar nozes. – Eles eram como você era, sabe? Aquela garota loura, por exemplo: ela era prostituta. E aqueles três moleques? Viviam num abrigo pra sem-tetos. Aquela mulher de cabelo preto é alcoólatra em tratamento.
–- E o Ian ajudou todos eles? – Angel indagou, admirada.
–- De formas diferentes, sim. Acho que o jeito maluco dele meio que encanta as pessoas mais do que as assusta.
–- Me assustou.
–- Mas eu sei que você gostou dele.
–- Parece impossível não gostar.
–- Ah, essa é a ideia – George pareceu feliz. – Afinal, ele é um velhinho tão simpático!
Angel concordou com a cabeça. Um velho maluco, gentil, simpático, com uma leve tendência a Alzheimer, morando numa casa com seu filho ruivo, magrelo e baixinho, obcecado por bicoitos e com um sorriso permanente na cara: há lugar no mundo melhor para se fazer uma festa?
–- Angel? – George chamou.
–- Oi? – Angel grunhiu.
–- Pode, pelo amor de Deus, me ajudar a achar nozes?
Angel sorriu e largou a batedeira que estava mexendo tão desesperadamente. Ajoelhou-se ao lado de George e vasculhou no armário. Havia latas e latas de chocolate em pó, havia pêssegos em lata, havia maisena, farinha de trigo, farinha de mandioca (uma coisa que Angel nunca havia experimentado), entre mil e outras coisas. Aquilo parecia mais um armário de uma cozinha de padaria do que de uma casa onde só moravam duas pessoas. Podia-se preparar o maior e mais bipolar bolo do universo apenas usando o que tinha naquele armário. Havia de tudo, menos nozes.
–- Não tem aqui, George – Angel disse. George suspirou. – Tem outro armário?
–- Não – George disse. – O Fred prefere acumular coisas num único lugar a largar elas por aí.
–- É o oposto de você.
–- Exato – George concordou, dando um beijo na testa de Angel. Levantou-se e gritou, enfiando a cabeça pra dentro da sala: -- As nozes acabaram!
–- O quê? – Ian gritou de volta, da sala. – Vozes?
–- Nozes!
–- Nozes? As nozes acabaram?
Ian apareceu na porta. Pela primeira vez, Angel viu o desespero em seu rosto.
–- Como assim? – Ian perguntou. – Não, não, não, as nozes não podem ter acabado!
–- Mas acabaram – George argumentou.
–- Oh! – Ian levou uma mão à boca. – Você tem certeza?
–- De forma nenhuma – George disse.
–- Certo, certo... – Ian murmurou, esfregando as mãos – Sejamos racionais! O que as pessoas fazem quando alguma coisa acaba?
George não respondeu.
–- Elas compram mais? – Angel sugeriu, segurando o riso.
–- Ah! – a compreensão chegou ao rosto de Ian. – Eu tive uma ideia!
–- Qual?
–- Elas compram mais!
–- Foi o que ela disse – George comentou, arqueando as sobrancelhas.
–- Foi? – Ian franziu as sobrancelhas, depois abanou a mão. – Ah, não importa. Eu volto já!
Ele despareceu no meio das pessoas na sala. Angel ouviu a porta abrindo, depois fechando novamente. Olhou para George, e George olhou pra ela de volta. Uma frase filosófica parecia prestes a ser dita, mas, ao invés disso, Angel e George apenas riram.
Riram porque tudo aquilo era improvável demais. Riram porque não havia nozes. Riram porque Ian era engraçado. Riram porque Fred voltou para a cozinha. Riram por causa da risada um do outro. Riram porque os pais de George provavelmente estavam se matando de raiva no cômodo ao lado.
E, principalmente, riram porque gostavam muito daquela coisa toda.
Fale com o autor