Californication

2 Sr. Poseidon Jr.


Notas iniciais
Chegou mais um *---*

31 de Dezembro


Fogos eclodem em todas as direções. É pertubador e nostálgico, essa sensação de recomeço, ano novo. Como se, no passar de apenas poucas horas, toda a sua realidade fosse mudar. Seus sonhos se realizassem. Tudo que se foi voltasse.


Como se o calendário tratasse de virar o Mágico de Oz.

Eu não acredito nisso. Tenho certeza que meu amor por Luke não vai desabrochar novamente, como no começo, quando o relógio bater meia-noite. Sei que minha mãe não vai aparecer com uma explicação que eu compreenda e um amor infinito depois de toda uma vida de ausência, que Thalia, minha melhor amiga, não vai ser encontrada depois de três anos de desaparecimento. E é exatamente por isso que estou debruçada sobre meu mais novo projeto — o Sr. Poseidon. Ele me confiou, de uma forma ou de outra, toda a sua vida: preciso criar uma casa, um escritório e uma loja matriz.

Aconteceu dois dias antes do "episódio" com Luke. Poseidon tratou de ir pessoalmente até Nova Iorque me contar de sua proposta, que eu gentilmente recusei. Ele apenas assentiu mas deixou seu cartão.

O velho sabia que eu iria precisar dele.

Ouço batidas na minha porta. Cheguei ontem mesmo em Palm Springs e não tinha lugar para ficar, então Sally Jackson, a Sra. Poseidon, por assim dizer, me hospedou em sua própria casa.

Observação: todos eles viajaram e eu sou dona da casa por alguns dias.

Minha mente anda assim ultimamanete, funcional. Os traços de meus desenhos que antigamente eram considerados como folhas de uma coroa de louro sobre papel, agora são meros garranchos desleixados. Tudo o que vem á minha cabeça é incompleto, incompreensível e instável.

Estou enlouquecendo.

Tenho certeza disso quando percebo que desenhei o mesmo telhado trinta e quatro vezes.

Jogo o lápis pela janela e respiro profundamente. Minhas mãos estão sujas de grafite por completo e meu cabelo poderia ser confundido com um poodle, mesmo assim saio do meu mais novo quarto/escritório/casa e abro a porta.

— Jade, você viu... Epa. Você não é a Jade. — é tudo o que o estranho diz.

Eu o encaro com as sobrancelhas levemente erguidas. Devo estar em um misto de irritação e curiosidade. Sally e Poseidon viajaram e seu filho, o provável pequeno Sr. Poseidon estava em um acampamento. O garoto provavelmente deve ter sete ou dez anos, tanto faz.

Então quem era este estranho?

Pela sua expressão vejo que a mesma coisa passa pela sua cabeça.

— Quem é você e o que faz na minha casa? — ele pergunta confuso.

Epa.

Parece que o pequeno Sr. Poseidon não é tão pequeno assim.

— Céus, me desculpe — abro a porta para que ele entre e endireito meu cabelo. Espero com todas as minhas forças não estar corada de vergonha.

Se meu chefe descobrir que eu não fui simpática com seu filho eu não sei o que será de mim.

Ele entra, um tanto desconfiado, e coloca a mochila em cima do sofá. Quando ele me encara percebo que ele tem aqueles olhos verdes. Olhos verdes que me lembram a água de algum mar, oceano, lagoa, copo de d'agua ou aquário maravilhoso. Ele percebe que eu o estou encarando e nossos olhares se encontram.

Preciso acabar logo com isso.

— Annabeth Chase. Sou a nova arquiteta do seu pai — digo profissionalmente.

Ele levanta uma sobrancelha.

— Poseidon e Sally estão no Caribe. Então...

Assinto rapidamente.

— O que eu estou fazendo aqui, claro. Eu não tinha lugar para ficar e a sua mãe gentilmente me ofereceu um quarto.

Ele deveria dizer alguma coisa, mas seus olhos estão fixos nos meus. Ele parece não perceber que eu estou percebendo.

— E a Jade? A nossa governanta. Ela não está? — é o que pergunta depois daquele olhar penetrante.

Dou de ombros.

— É ano novo. Eu posso me virar sozinha aqui, então a dispensei.

Seus olhos rolam por toda a sala.

— Espera. É ano novo, então o que você está fazendo aqui? — suas sobrancelhas se arqueiam.

— Não comemoro o ano novo. Pelo menos não esse ano. Mas você não deveria estar em um acampamento ou coisa assim? — pergunto.

Ele morde o lábio.

— É um acampamento que frequento desde criança. As pessoas normalmente deixariam de ir depois de entrarem no ensino médio ou saírem da escola, mas lá não. Continuamos mesmo na faculdade.

O Sr. Poseidon Júnior definitivamente não era tão pequeno.

Então sua expressão se altera para urgência.

— Estou atrasado. Olha, eu sempre volto para casa no dia de ano novo por causa da festa. Meus amigos sempre fazem uma festa na praia. E você vai comigo, Annabeth. — fala com certeza.

Levanto uma sobrancelha.

— Não me lembro de ter concordado. E talez o seu pai...

— Ah, por favor. A única coisa que meu pai reprovaria com certeza seria se eu deixasse uma garota tão bonita sozinha em pleno ano novo. Vamos se arrumar, rápido. Antes que acabe. — ele está corado e sorrindo.

Eu não quero ir.

Eu não quero festejar um ano novo sem Luke, embora a idéia de festejar com ele fosse igualmente rejeitada. Eu não quero me afastar da tristeza, porque sempre que o faço sinto como se estivesse traindo alguém. Porque eu não deveria estar feliz.


Há três anos, exatamente, uma garota chamada Thalia Grace desapareceu.


Ela era minha melhor amiga.

De Luke também.

Eu sempre achei que eventualmente eles dois ficariam juntos.

Eu sempre fui a mais nova,

A mais criança,

E ela sempre foi mais madura.

Ela sempre foi mais corajosa,

Enquanto eu era uma garota birrenta e insegura.

E então, quando estávamos indo para a faculdade,

Ela saiu da festa por um segundo, para pegar ponche

Ela nunca mais voltou.


Não posso evitar, eu me sinto culpada. Sinto como se tivesse tirado Luke de Thalia. Sinto como se toda a felicidade que estivesse dentro de mim fosse na verdade dela.


Sinto como se fosse uma usurpadora.

Por isso não quero Luke, nem festas, nem fogos. Quero estar aprisionada em uma casa que não é minha, criando um lugar onde uma família que não é minha será feliz. Eu quero fazer outras pessoas felizes porque eu não posso ser.

E se eu estiver feliz, é errado.

— Annabeth, é melhor se apressar. — ele me tira de meus devaneios.

E, embora minha mente grite que não posso fazer isso, é o que faço.


Corro até o chuveiro do quarto de hóspedes que me hospeda e deixo a água fluir enquanto uso a esponja de banho para me livrar de todo o grafite e tristeza e saudade e medo do futuro que está grudado em minha pele e minha alma. Em alguns minutos, estou vestida e meu cabelo está preso em um rabo de cavalo alto. Sr. Poseidon Jr. está batendo em minha porta e a abro, aflita, percebendo que ainda não sei sei nome.


— Qual seu nome? — pergunto de supetão.

Ele parece levemente encantado quando me vê. Ou eu estou encantada e penso que as pessoas pensam o mesmo.

— Seu vestido é bonito. — ele está corando.

— Ainda não disse seu nome.

Ele desvia o olhar do chão e se foca em meus olhos.

— Perseu Jackson, mas todo mundo me chama de Percy. E isso não importa, por que estamos atrasados! — ele me puxa de forma suave pelo cotovelo e estamos correndo pelas escadas até que ele me guia até seu quarto e me joga uma prancha. Quase a deixo esborrachar no chão.

— Não sei surfar! — exclamo.

Ele me olha de soslaio e sorri.

— Eu ensino. E, quando estivermos na praia, você vai ver que surfar por aqui significa muito mais do que ficar em uma prancha com destreza — ele pega dois macacões estranhos e me entrega um.

— Não vai nem precisar de luz quando vestir esse macacão — sorri.

Não sei se são seus olhos ou seu sorriso ou seu jeito encantador, mas eu não posso fazer nada além de o seguir para fora com a prancha e o macacão em mãos. Não demora muito até que cheguemos á festa.

Devo admitir que nunca fui em muitas festas. Não por falta de convites, mas por falta de animação. Sempre preferi ficar em casa, embrulhada em lençóis, movida por goles de café forte e entretida por um livro. Então, mesmo agora, só posso me definir como desenturmada.

Por que não é uma festa.

É A Festa.



Notas finais
reviews, meus lindos?