Californication

4 Rachel Dare — a namorada ciumenta


Notas iniciais
história ressurgindo das cinzas ~

2ª semana de Janeiro

— Está mais do que provado que eu não tenho nenhuma chance de aprender a surfar — eu arfo, me jogando na areia depois de tantas horas de treino.

Perseu não está cansado. Na verdade, ele parece mais ativo do que nunca, fazendo flexões e abdominais na minha frente como se quisesse dizer "aproveite a sua exaustão enquanto eu esbanjo energia".

— Você parece uma velha de oitenta anos! — eu sabia que era exatamente o que ele iria dizer — Aposto que nunca faz nada além de ficar trancafiada em um escritório desenhando.

Meus batimentos cardíacos se recusam a voltar ao ritmo normal e eu não consigo mais sentir minhas pernas e braços direitos. Eu vou morrer. Sim, tenho absoluta certeza que vou morrer agora mesmo.

— Cansada. Eu só quero... dormir — eu gemo e ele arremessa um punhado de areia em meu rosto. Eu apenas tento tirar a areia do meu cabelo e prometo retribuir o gesto depois.

— Ah, vamos lá. — ele pega as nossas pranchas e dá pequenos chutes no meu tornozelo —Tire esse seu corpo pequeno e frágil da areia e vamos para casa. Ainda precisamos ver aquele filme, Sabidinha.

Só consigo me virar um pouquinho e balbuciar que estou exausta. Desde a primeira semana que cheguei na Califórnia ele tem me arrastado com ele para todos os lugares — ás vezes até quando vai sair com a namorada, Rachel. Há três dias ela teve um ataque de ciúmes tão violento que ele precisou prometer que não iria mais me levar para nenhum lugar, mas aqui estamos nós. Eu tento desencorajar Percy o quanto posso, mas ele se recusa a parar de passear comigo só para satisfazer aos "ciúmes exagerados" da namorada. Tentei explicar que ela tinha toda a razão e que saíamos todos os dias, mais do que uma vez por dia e que estávamos morando na mesma casa. Isso com certeza deixaria qualquer garota desequilibrada e que agora que eu conhecia a cidade, poderia me hospedar em um hotel, mas ele ficou tão bravo que preferi abandonar ideia. Aparentemente, a minha companhia era muito valiosa ou Perseu Jackson era simplesmente um cara solitário. Relutantemente, observo que a primeira opção é a que mais tende para a verdade uma vez que ele é provavelmente o cara mais popular de Palm Springs. E o mais rico, também.

Essa é a última semana de Percy na cidade antes que as férias de inverno acabem e suas aulas na UCLA recomessem, então ele voltará para Los Angeles e Sally e Poseidon finalmente voltarão de sua viajem pelo Caribe. Eu voltarei a ser a mesma Annabeth de sempre. A arquiteta, não a garota que surfa.

No começo duvidei, mas agora tenho certeza absoluta de que vou sentir uma imensa falta do filho do patrão.

Eu reúno todas as forças que tenho para me levantar e me arrastar pela praia até chegar na casa de Perseu. Não vou mentir: adoro aquela casa. Ela não é absurdamente grande, mas sim discreta e confortável. Sua fachada é toda em um tom calmo de azul claro e as persianas são brancas, além da sacada circular com redes armadas. O Sr. Poseidon ainda não me falou exatamente se pretende mudar a casa ou construir outra, mas sinto muito pena de modificar algo tão lindo.

— Jade, chegamos! — Percy grita quando estamos subindo os degraus até a porta e logo Jade, o que podemos chamar de governanta e que na verdade se tratava da antiga babá de Perseu abre a porta e nos ajuda a entrar. Ela é uma senhora de aproximadamente sessenta e poucos anos com vigor e feições gentis, sendo impossível não amá-la como se ama uma avó, além de ser muito falante. Me sinto muito lisonjeada por ela parecer realmente gostar de mim.

— Bom dia, meninos! Annabeth, você parece exausta e faminta! Charlotte já preparou o almoço: massa com molho branco, do jeito que você gosta. Percy, tire já essas pranchas da sala! Toalhas, vocês precisam de toalhas, garotos! Estão encharcados! Annabeth, chegaram mais malas de Nova Iorque e eu já coloquei as roupas no seu guarda-roupa. Eu sei que você não se importa, minha linda. Ah, Percy, Rachel telefonou. Eu sei que ela é uma moça educada e agradável, mas não entendo por que precisa ligar tanto para você! Eu apenas disse que você estava na praia com Annabeth e ela ficou muito, muito desagradável. Que moça ciumenta! — ela diz tudo isso sem necessidade de quase nenhuma pausa e me surpreendo com o seu fôlego e com o que fala sobre Rachel.

Eu olho para Percy em busca de alguma coisa, mas ele apenas revira os olhos e vai se trocar em seu quarto. Eu agradeço Jade por toda a sua gentileza e sigo para o quarto de hóspedes.

Depois de tomar banho, tentar arrumar a bagunça habitual que era meu cabelo e vestir calças confortáveis e uma bata qualquer, sigo para a cozinha onde a melhor massa da minha vida me aguarda.

Não há nenhum sinal de percy aqui. Decido almoçar sozinha e depois de algum tempo escuto a sua voz ao telefone. Ele está gritando alguma coisa, o que me assusta porque ele definitivamente não é do tipo que grita. Aliás, fora a sua agitação habitual, acho que deve ser a pessoa mais calma que conheço.

Não quero bisbilhotar, mas ele está gritando tão alto que não posso evitar de ouvir alguns trechos do que imagino ser uma conversa ao telefone.

"Mas, droga! Eu não estou deixando você, Rachel Elizabeth Dare! Você é o amor da minha vida, eu realmente preciso repetir? ... Rachel? Rachel!"

Ele parece realmente furioso e acho que ela desligou. Depois de alguns minutos desisto de esperar que ele apareça e termino de comer meu macarrão. Vou até a cozinha e agradeço Charlotte pelo almoço e insisto para ajudá-la com a louça até que ela desiste e me deixa ajudar. Ter alguma coisa para fazer me ajuda a clarear os pensamentos e me sinto mais tranquila quando enxugo os pratos, copos e talheres e então vejo uma figura na porta. É Percy. Ele estava ali o tempo todo e não disse nada.

Seco minhas mãos em uma toalha e pergunto o que aconteceu.

Ele suspira e dá de ombros.

— É a Rachel. Ela... — outro longo suspiro — Ela é meio complicada.

Seus olhos estão fixos em um prato na pia e há um vinco na sua testa. Não quero vê-lo assim e me amaldiçoo por saber que o motivo da briga entre eles dois só pode ser eu.

Seis dias, repeti em minha mente. Só mais seis dias e tudo vai voltar ao normal.

Ele percebe que estou presa em pensamentos e me liberta.

— Você tem talento com a louça. Já pensou em largar a arquitetura? — ele sorri.

Eu rio e lhe dou um empurrão de brincadeira. Ele agilmente me joga sobre o seu ombro e saímos correndo pela casa. Eu grito rindo histericamente para ele me soltar, mas subimos a escadas e ele me joga em sua cama e liga a televisão e o aparelho de dvd player enquanto eu tento acertá-lo com diversas caixas de dvds. Ele escolhe um aleatoriamente e se joga ao meu lado enquanto os créditos iniciais de "A Pantera cor de rosa" rolam na tela.

Depois de alguns minutos de filme, Percy já está aconchegado ao meu lado e Jade já mandou trazer pipoca, refrigerante e chocolate. Lá para o meio do filme, já rimos tanto que nossa barriga não para de doer e nossas bochechas parecem querer explodir.

— Eu adoro os franceses! — urra Perseu.

— Eu quero que me traga um hambúrguer! — murmuro entre risos tentando imitar o sotaque do personagem.

Não sei se alguém pode morrer de tanto rir. Não parece uma morte tão desagradável aos meus olhos, principalmente se eu morrer em companhia de alguém como ele.

O filme acaba e continuamos em nossa histeria. É preciso mais de dez minutos para pararmos de rir, e ainda assim estamos sujeitos a algumas gargalhadas ocasionais. Me sinto transbordar de uma frágil alegria que não venho sentindo desde... desde muito tempo.

Eu me sinto muito egoísta em admitir que não queria que essa alegria acabasse nunca.

Continuamos o resto do dia com a programação de ver filmes, ler e jogar. Quando o sol se põe, o quarto inteiro parece brilhar em tons de laranja, violeta e azul celeste até que finalmente escurece. Observo encantada a lua nos banhar com sua luz pálida e Percy não acende as luzes e eu prefiro assim.

Acho que adormeci.

Quando acordo, ainda está de madrugada e estou no meu quarto — se é que posso chamar o quarto de hóspedes de meu — e meu telefone está tocando. Estou meio grogue e atendo imediatamente, sem nem olhar o visor e me perguntar quem me ligaria as três da manhã.

— Quem é? — com minha voz rouca, soa mais como uém ué?

— Annie? — a voz que me responde é aveludada e cheia de ternura.

Luke.



Notas finais
espero que gostem :c
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.