Califórnia

1 Luiza & Henrique


Notas iniciais
Espero que gostem, e comentem!

— Luiza — minha mãe gritou da porta — Escola! Agora!

— Tô indo, tô indo — rebati colocando o trabalho na pasta e descendo as escadas.

Meu nome é Luiza, Luiza Macedo Medolo, ou apenas Lu, ou Isa, estudante modelo da Sacramento Chart High School, e brasileira, na maior parte do tempo, com crises de identidade ocasionais, mas eu tinha 16, então era normal ter neuras.

Estou chegando, guarda o meu lugar no francês – L

Flw – M

— Mãe — chamei sua atenção com as mãos — mais rápido, não posso me atrasar de novo!

— Vou lhe apresentar dois conceitos que você precisa levar pra vida — ela me respondeu sem tirar os olhos da rua — o primeiro é respeito aos mais velhos, sou sua mãe, não suas parcerias. E segundo, a culpa é sua, você acordou tarde.

— Desculpa mãezinha — eu respondi, minha mãe não era do tipo matinal, e eu não ajudei muito sendo mal educada.

— Tudo bem, mas não se repita — ela revidou séria.

Minha mãe era uma mulher solteira que trabalhava como administradora em uma multinacional com sede na Califórnia, morávamos em Sacramento faziam três meses, e eu estava no segundo ano do ensino médio, ser uma sophomore era tão frustrante, sempre parecia que faltava eternamente para o Senior Year, o que era verdade, ainda faltavam dois anos, dois longos e infinitos anos andando com a galera brasileira, só porque ela eram brasileiras. Eu sabia falar inglês, era fluente, mas tinha mais afinidade com os brasileiros, por alguma razão que de alguma forma eu associo à geografia.

— Tenho teste de francês — comentei só pra ela ficar sabendo, minha mãe era ocupada, mas gostava de saber da minha vida, e esses momentos no carro eram a única razão para eu não te meu próprio meio de transporte, mesmo que as vezes isso significasse ficar na escola até terminar uma reunião, ou ela voltar de um almoço com investidores.

— Estudou? — ela perguntou, sempre preocupada.

— Sim, não está muito difícil, eu e Marina estudamos a matéria juntas — respondi, minha mãe nunca havia conhecido minhas amigas, mas eu falava tanto delas que nem fazia muita diferença.

— Que bom, estou ansiosa para ver suas notas — ela me respondeu animada, eu via que ela adorava essa coisa de estudar nos Estados Unidos mais do que eu até.

— E hoje eu vou passar na Jade depois da aula — informei, embora quando ela chegasse do trabalho eu já estaria e casa.

— O que vão fazer? — ela perguntou interessada.

— Só passar um tempo mesmo — respondi entediada, ficar na casa da Jade significava ficar babando pelo time de basquete, esse era o passatempo dela.

— Tudo bem, não chegue tarde em casa — ela me aconselhou.

— Não vou — prometi enquanto ela entrava no estacionamento — Tchau mãe, te amo.

— Tchau bebê — ela me respondeu e saiu com o carro.

— Amiga, você não acredita no que eu acabei de ver — Giovanna me saudou da porta de entrada — Spencer Jones está ficando com a Caroline Stuart, tipo, no corredor. Um inspetor pegou os dois e levou para a direção. Há boatos de que a diretora Kelly está organizando um mural de displicentes para sua matéria semanal, eu vou adorar se isso acontecer — ela me informou balançando seu cabelo longo, a mecha azul elétrico se destacando no preto.

— Nossa, boletim do tempo — rebati sarcástica — que massa.

— Jade — ela gritou ao distinguir o cabelo ruivo na multidão — você não acredita...

— Jones e Stuart? — Jade perguntou aérea — Marina me mandou um Snap — ela explicou.

— Consegue acreditar? — Gio perguntou sem perder a animação.

— Eles tavam dando bandeira faz um tempo hein? — Jade retorquiu.

— Se eles são felizes... — eu me enfiei na conversa.

— Você só liga pras coisas se isso envolver Brandon Davies — Giovanna me acusou.

— Que nada a ver — respondi ofendida, mas ela pescaram essa.

— Ain Brandon — Jade fez uma imitação ruim da minha voz — como seu vaso é legal, queria eu ter tanto talento! — ela parafraseou.

— Eu realmente acho que se o time de lacrosse tivesse mais jogadores como você, nós estaríamos indo para as estaduais — Giovanna acompanhou.

— Ele é um bom jogador de lacrosse — rebati em uma voz ínfima.

— Ele é uma merda — Giovanna me respondeu, cética.

— Vocês podem me culpar? — perguntei exasperada — ele é lindo.

— É — elas concordaram meio que a contra gosto, para Jade e Giovanna, uma cara lindo usava o uniforme do time de basquete, e só. Elas não podiam entender a profundidade que existia em Brandon.

— Oi meninas — Fabrício, Lucas e Henrique entraram no meu campo de visão, eles eram o resto dos brasileiros, eles e a Marina.

— E ai? — respondi cumprimentando os três, nós não éramos exatamente amigos, mas a gente se falava sempre, e sentava na mesma mesa de quando em quando.

— Vão pra festa da Marianne no sábado? — Lucas, o baladeiro, perguntou.

— Ainda é segunda-feira — Jade rebateu.

— O tempo não para, não para... — ele começou a cantar.

— Tá, tá, eu vou — Giovanna cedeu.

— Falou, venham me buscar as seis — ele ordenou.

— Palhaço — Giovanna acusou — cadê o teu carro?

— Estou com um problema no motor, até eu juntar a grana... — ele deixou a frase no ar enquanto o primeiro sinal batia.

— Tô indo pra classe — informei e todos se despediram de mim, Fabrício me acompanhou já que teríamos aula no mesmo prédio.

Era só mais um dia normal no universo.

...

— Henrique menino — minha irmã gritou comigo da sala — acorda vagabundo, preguiçoso.

— Lorena — ouvi minha mãe repreender — o que eu já falei sobre xingar? E mais, quem te ensinou isso?

— Foi o Henrique — ela respondeu com seu português perfeito.

— Henrique — minha mãe gritou — acorda! Agora! E pare de ensinar sua irmã a xingar, eu te pedi pra ensinar palavras úteis, não marginalização.

Minha mãe havia se casado há alguns anos com um americano, ele não viu muito problema em ela ter um filho já, e era só isso que ela queria. Um estrangeiro que só ligava pra aparência. Então eu morava aqui já faziam três anos, tentei viver com a minha avó, mas vamos encarar os fatos, só minha, mãe me entendia. Só que quando eu cheguei aqui, já existia a Lorena, uma garotinha de dois anos que de verdade, eu nem sabia que existia até então.

Tomei um banho rápido, coloquei uma bermuda e uma camiseta e fui tomar café. Sentei na mesa enquanto Robert lia os jornais, esse era o passatempo dele pela manhã, pelo iPad ele lia todos os principais jornais do país. Minha mãe colocou uma caneca de café preto transbordando pra mim e eu agradeci, sou um viciado em café assumido,

— Quais as principais notícias? — perguntei por gentileza.

— Um incêndio no Iowa — ele me respondeu sem tirar os olhos da tela — nenhum ferido, para nossa sorte — eu gostava de Robert, ele era silencioso e velho, era uma boa companhia para minha mãe.

— Hum — murmurei só pra ter assunto mesmo.

— Mais café? — minha mãe perguntou para ele que só assentiu.

Hi :)

Hey Han, whats up?

I’m Ok, but can U meet me @ the library in the 3rd period?

Sure. See ya.***

Hanna Carl era louca por mim desde o freshman year, mas ela não havia se tornado pegável até esse ano. Só que eu não iria ficar com ela, iria jogar a desculpa de que algum amigo era afim e ia ficar por isso mesmo, mas eu gosto de manter as garotas certas ao meu redor, pra algum dia quando eu quiser alguma coisa, eu ter opções.

— Quem era? — Lorena perguntou em inglês.

— Fabrício, FIFA hoje na casa dele — menti, mas sempre tinha FIFA depois da aula na casa dele, era nosso ritual de segunda-feira.

— Fabrício é meu namorado — ela gritou em português fazendo Robert e minha mãe se virarem bruscamente.

— Henrique! — minha mãe ralhou comigo — não ensina isso pra sua irmã!

— Foi mal — pedi sem nenhum remorso — eu tava sem ideias.

— Ensine o Hino Nacional então — ela me orientou.

— Pó deixar — respondi sorrindo, sem chance de eu fazer isso.

Peguei o carro e saí, liguei a rádio e estava tocando Panic in the 9th floor do Shoot Boot Boot Shoot, aumentei o volume e fechei as janelas. Shoot Boot Boot Shoot era uma banda punk, composta por garotas, para garotas. Sério, você não podia nem usar a desculpa de que elas eram gatas pra olhar, elas não eram, mas cara, elas eram incrivelmente talentosas, só que ninguém no mundo poderia saber que eu gostava delas. Seria a morte social.

— Fala aí — cumprimentei os caras ao chegar no colégio.

— Henrique — Fabricio me cumprimentou com a cabeça, encarando a porta de entrada principal silenciosamente.

— O que foi? — perguntei murmurando.

— As meninas estão tendo reunião — ele respondeu murmurando — não quero me envolver, mas tenho que passar por lá pra aula de francês.

— A Giovanna e a Jade estão tendo reunião — corrigi — Não sei como a Luiza consegue fazer uma cara de tédio tão genuína, e mesmo assim ninguém nota.

— Tadinha — ele retrucou — mas não posso fazer nada. O soldado em questão já está nas trincheiras, a única maneira de ajudar é orar por sua família a noite — ele continuou, solene.

— Elas não tem muito assunto — Lucas se aproximou de nós em silêncio — a única coisa que pode ser comentada hoje, é sobre alguém se pegando num corredor ou sei lá o que.

— Eu nunca me interesso por gente no corredor — Fabrício comentou cético — Porque gente no corredor não é interessante, como elas tem tanto assunto?

— Vamos contar até três e andar — ordenei meio temeroso — 1... 2... 2½... 2¾... 3 — Nós meio que andamos, meio que corremos até lá. Só que Lucas finalmente lembrou que ele precisava de carona pra festa no sábado e foi puxar assunto. Poderia ter sido pior, nós poderíamos ter chegado na parte do falastrão real, isso sim seria um saco.

Mas minha única preocupação quando a campa bateu, era minha nota na prova de Biologia.

***Oi :)

Oi Han, tudo bem?

Eu tô bem, mas você pode me encontrar na biclioteca no terceiro período?

Claro, te vejo lá.

Notas finais
Tudo que eu colocar em inglês vai ter legenda o final :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.