Caliel.
3 Whatever
Notas iniciais
Alice ficou parada com as mãos para cima, as palmas viradas para frente, como quando um bandido se entrega e levantando-as para mostrar que não está armado.
—O quanto você está irritada? — disse-me , controlando um sorriso vitorioso.
Eu fechei os olhos e respirei fundo.
—Muito irritada. — respondi.
—Mas agora você já está aqui. Não há porque você não ficar, não é? — Alice deixou transparecer uma pontada de dúvida.
—Não, não há. — me rendi, dando outro longo suspiro.
Virei-me e meu olhar percorreu toda a sala. Havia uma longa faixa perto da escada escrito "Bem vindo Lucas!" e logo a baixo uma mesa com doces e salgados. Sentados nos sofás, havia alguns adolescentes, que não reconheci, certamente amigos que Lucas fez quando vinha para cá nos verões. Eles conversavam animadamente. Pude ver Vincent juntar-se a eles e começar a tagarelar sobre o que quer que seja que eles estavam conversando. Eu podia ouvir as vozes de algumas tias velhas de Alice na cozinha competindo sobre quem tinha a doença mais grave e quem tinha menos tempo de vida, ou algo do tipo; duas crianças estavam sentadas, próximas à escada, brincando com algum brinquedo imaginário, eu acho.
Eu fiz uma careta. Será que era, realmente , necessário tudo aquilo só para receber alguém? Ideia de Alice, claro.
Fui andando a passos largos em direção escada, deixando Alice para trás.
Minha melhor amiga (ou imimiga, a partir de agora) estava certa sobre não haver porque ir embora, a menos que eu quisesse passar a imagem de que Lucas me incomodava mais que o normal. O que não deixa de ser verdade, tenho que admitir. Nunca houve alguém com tamanha capacidade de dissipar minha paciência em tão pouco tempo, mas isso não significava que eu iria admitir porque conhecendo Lucas, logo que ele soubesse que me recusarei a ir a uma festa feita para ele, começaria a encher minha paciência mais que o normal. Portanto, eu ficaria na festa, sentada em qualquer lugar longe o bastante do idiota, até que passasse o tempo necessário para que eu escorregasse dali, inventando alguma desculpa.
Sentei-me no terceiro degrau da escada, encostando a cabeça na parede e colocando as mãos sobre os joelhos.
—Você está bem? — Alice falou sentando-se ao meu lado. Ela provavelmente estava esperando que eu esperneasse ou coisa do tipo.
—Estou. — falei olhando para frente e revirando os olhos. A garota lançou-me um olhar duvidoso e colocou a mão na minha cabeça.
Nada de gritos?
—Nada de gritos. — falei friamente.
—Nada de tapas?
—Nada de tapas. — afirmei.
Pelo canto dos olhos pude vê-la fazer uma careta e deixar a mão cair dos meus cabelos. Eu poderia apostar que naquele momento Alice se sentia tão culpada quanto se tivesse matado alguém.
Um longo silêncio prosseguisse a partir daí. Eu observando duas crianças de uns de quatro anos de idade brincarem e Alice me encarando com olhos atentos, esperando eu pirar.
—Sério, eu prefiro que você me bata a ter que ficar nesse silêncio! Dê a louca. Puxe meus cabelos, grite comigo, diga que vai embora já e xingue eu e meu irmão de todas as palavras profanas que você conhece, mas não fique em silêncio, por favor. — Alice quebrou o silêncio, falando rápido e tropeçando em algumas palavras.
Eu sorri maliciosamente e virei-me para olha-la. Enrolei uma parte dos cabelos dela em minha mão e dei um puxão com toda a minha força, trazendo a cabeça dela para bem perto, de modo que seu ouvido ficasse bem perto de minha boca.
—De onde você tirou que eu iria querer participar de uma droga de festa para a droga do seu irmão gêmeo, Alice? — sussurrei de forma mais maligna que consegui.
—E-eu achei que você iria querer largar essas briguinhas de criança, voc-você sabe... Tentar resolveu as coisas com Lucas.
Eu sorri por ter conseguido deixa-la com medo.
—Nunca. — eu falei lentamente imitando meu tom maligno e soltei seus cabelos.
—Oh, certo! Você vai ficar ?
—Tanto faz. — dei de ombros.
O rosto dela se iluminou e eu ela animou-se de novo.
—Você conhece aquele... Huh aquele Vincent, de onde? — questionou animada, sem resquisios de nossa briga.
—Ele quase me atropelou. — respondi curtamente.
—Como assim "ele quase me atropelou"? — ela disse tentando imitar minha voz, mas saiu fina demais.
Suspirei e decidi que não seria legal ficar com raiva de Alice, não agora. Contei-lhe a história e ela escutou atentamente, hora ou outra fazendo comentários engraçados e despudorados sobre Vincent. Era apenas Alice, sendo Alice.
—Então, como você não conhecia o Vincent? Ele não é amigo do seu irmão? Pensei que você conhecesse todos os amigos do seu irmão. — acusei baixinho. Ambas olhamos para o sofá, onde Vincent estava sentado.
—De todo aquele grupo ali — apontou para o sofá. eu só conheço aquela ali, a Lise. — mostrou para uma garota de loira, de pele rosada e cabelo repicado. —Eu falei pra ela o que pretendia fazer e ela se encarregou de trazer os amigos dele para a festa. — ela olhou para o relógio em uma parede. Ele já deve estar chegando.
Eu fiz uma careta involuntária e ela riu. Alguma das tias de meia idade da Alice gritou algo sobre o idiota estar chegando e todos trataram de calarem a boca; o silêncio tomou conta da sala e todos, inclusive as crianças que brincavam com o brinquedo imaginário, olharam para a porta cheios de expectativa.
Houve o barulho de uma fechadura se abrindo e depois de alguém rodando a maçaneta, a porta rangeu e por fim revelou duas pessoas: Lucas e sua mãe.
Lucas havia mudado durante esses quatro anos, é claro. Ele tinha olhos da mesma cor de avelã de Alice, mas com seus traços próprios. Estava magro, mas com os braços meio fortes e seuu cabelo não estava mais castanho claro, como os de Alice, agora eles estavam pretos, bagunçados do mesmo jeito de sempre. Seus lábios estavam bem vermelhos, contrastando com sua pela pálida. Ele vestia calça jeans e uma camisa branca estampada com um desenho confuso e colorido, um óculos escuro pendurado na gola da camisa.
Um "Bem Vindo Lucas " soou pela sala. Todos começaram a bater palmas como se ele fosse algum famoso ou coisa do tipo e eu revirei os olhos. O vi fazer uma careta rápida quando seus olhos encontraram o grande cartaz, mas ele rapidamente mudou sua expressão para um sorriso de gratidão enquanto abraçava a mãe.
—Eu vou lá, tudo bem? Não demoro. — Alice falou e se levantou.
—Tanto faz. — Eu falei e ela saiu dançando pela sala atrás do irmão idiota, que estava cercado por todos os parentes e amigos.
Eu não me movi um centímetro que seja, fiquei lá, sentada com o queixo apoiado na palma de uma das mãos, enquanto analisava a sala.
Vincent se aproximou de Lucas e vi eles se cumprimentarem com um daqueles abraços que começa com um toque de mão e depois se torna um abraço de uma mão só, cheio de masculinidade. De longe, eles me pareceram melhores amigos, desde sempre.
Eu não sei se o idiota me viu aqui e resolveu que era hora de me deixar em paz, ou se não me viu mesmo, mas o fato é que ele começou a conversar com os amigos e Alice no meio da sala e eu fiquei lá, relaxada e feliz. Já estava quase na hora de eu dar uma desculpa e ir embora e eu ainda não havia nem precisado falar com ele!
—Eer... Oi, de novo. — Vincent falou e eu me assustei. Como não havia o visto chegar e sentar do eu lado?
—É uma lei ou coisa do tipo? — eu o encarei.
—Dizer Oi? Eu acho que é uma regra de... — ele falou confuso, mas eu o interrompi quando percebi que ele não havia entendido a pergunta.
—Não, me assustar! É algum tipo de lei que você tem que me assustar?
—Ah, isso! — deu-me um sorriso torto e eu tive que conter um sorriso. Deus, que cara perfeito! Eu te assustei? Desculpe-me por isso, de novo. — ele falou rindo.
—Certo.
—Eu nunca te vi junto com o Lucas... — falou.me. Eu parei de sorrir e fiquei o encarando. Digo, eu não sabia que você era amiga dele sabe?
—E eu não sou. — falei olhando para frente em direção a Alice. Eu sou melhor amiga da irmã dele. — ele seguiu meu olhar.
—Ah, a maluquinha? — ele disse brincalhão.
—Sim, a maluquinha.
—Então você não é amiga do Lucas? — ele continuou dizendo.
—Definitivamente não. — eu falei absoluta.
Quando Vincent não estava tentando me atropelar com uma moto ele até que era legal e bem humorado, fácil de conversar. Nós ficamos conversando um bom tempo, sem que ninguém interrompesse. Ele me contou que tinha 18 anos e que estava no ultimo ano do colégio, fora suas muitas histórias cômicas. Eu já havia quase me esquecido de onde estava, minha tarde não estava sendo insuportável como eu imaginava, afinal.
O seu não amigo e a sua melhor amiga estão vindo para cá agora. — Ele disse de repente, com seu tom relax de sempre. Eu olhei para a sala e vi que os adolescentes já não estavam mais lá, que as tias caquéticas de Alice já haviam ido embora, assim como todo o resto, e que Alice e Lucas, estavam abraçados e realmente vindo em nossa direção.
—Vincent! Caliel! — Alice nos saudou casualmente.
—Olá Caliel. — Lucas falou com um sorriso zombeteiro nos lábios. Que bom que você veio me receber. — ele disse falsamente.
—Vai sonhando. — rolei os olhos. Vincent deu uma risada, sei lá por quê.
—Eu não sabia que vocês se conheciam. — Lucas falou levantando uma sobrancelha.
—E não nos conhecíamos. — Vincent deu um sorrisinho torto.
—Experiência de quase morte. — sorri relembrando.
—Você é tão exagerada. — ele disse e começou a rir e eu ri junto, simplesmente porque ele tinha uma risada muito mais engraçada que qualquer outra que eu já havia escutado, não tinha como não rir quando ele começava.
Alice e Lucas levantaram juntos uma sobrancelha, o que o fez parecer bem gêmeos; Questionei-me se aquelas histórias todas de gêmeos serem interligados seriam verdadeiras.
—Que bom que você arrumou alguém para conversar, Foguinho. Eu estava me sentindo culpada.
—Foguinho? — Vince perguntou confuso. Eu levantei uma mecha do meu cabelo ruivo e coloquei em frente aos olhos dele. Ah sim. Você gosta de ser chamada assim?
—Tanto faz. — falei.
—Ela gosta de ser chamada de nanica. — Lucas se intrometeu.
—E você vai gostar do meu punho na sua cara. — rebati nervosa.
—E lá vamos nós. — Alice rolou os olhos e se sentou na escada.
—HÁ-HÁ-HÁ nanica, você está uma graça hoje. — Lucas continuou tentando me tirar do sério.
Eu me levantei e fui andando em sua direção. Ria agora, idiota. — falei e dei um soco com toda a força que eu tinha na boca dele. Ele gemeu e Vince começou a rir.
—Cara, você levou um soco de uma garota... — ele falou entre risadas. Lucas o fuzilou com os olhos. Preciso dizer que estava gostando muito de Vince?
—Eu já vou embora. — falei e dei um beijo na cabeça de Alice que estava sentada desinteressada na escada e dei um beijo na bochecha de Vince. Quando já estava seguindo para a porta virei-me e olhei para a cara do idiota do Lucas de novo. Nunca se esqueça de que eu sou seu inferno na terra. falei com um sorriso zombeteiro e segui para a porta.Ah, como é doce vencer a primeira batalha!
Eu já estava com a mão na maçaneta quando Vincent gritou meu nome. Como um reflexo eu olhei para trás.
—Você quer uma carona? — ele falou alto o bastante para que eu ouvisse.
—Sem experiências de quase morte? — brinquei.
—Sem experiência de quase morte. -afirmou.
—Então vamos. — eu falei rindo e abri a porta, me permitindo dar uma espiada por cima do ombro.
Alice ainda estava sentada na escada, relaxada como sempre; Vincent estava andando em minha direção e Lucas estava escorado na parede me fitando com um olhar cortante.
—Pronta para um passeio que vai mudar sua concepção sobre velocidade? -Vince falou quando me alcançou.
—Na verdade, eu prefiro a carona tradicional saber? Algo como 50 km/h no máximo sabe? — falei brincalhona e ele fez uma careta.
—Certo.
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