Capítulo VII — Sofisma

"A fortuna obtida com língua mentirosa é ilusão fugidia e armadilha mortal."

Provérbios 21:6

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Peixes acordou assim que os primeiros raios de sol tocaram-lhe a face. Abriu os olhos devagar, intimidado pela luz brilhante. Fechou a cortina e pôs-se de pé depois de alguns momentos.

Sagitário já estava vestido, e testava a firmeza da corda de seu arco. Sorriu quando viu o pisciano desperto.

“Ah, você acordou. Vista-se, sairemos em alguns minutos”, ele disse, saindo do quarto para dar privacidade ao amigo.

Peixes esfregou os olhos, tentando expulsar a sonolência que ainda o dominava. Escolheu uma combinação discreta das pesadas roupas de frio, deixando de lado o cachecol – odiava a sensação da lã tocando seu pescoço- e optando por uma touca cinzenta que lhe cobria o topo da cabeça. Checou novamente a pequena mochila e deixou o quarto, encontrando Sagitário parado do lado de fora.

Este não esperou o menor falar para lhe entregar uma caneca com um líquido amarelado.

“O que é isso?”, perguntou o mais jovem, tomando a caneca em suas mãos.

“Lassi, acho que é assim que pronunciam. Experimente.”, respondeu o moreno, dando um gole de sua própria bebida.

Peixes analisou a caneca por um momento, distraindo-se com o próprio reflexo na superfície. Tomou um gole da bebida.

Doce.

Sentiu a explosão do sabor em sua boca. Um leve toque de manga e mel. Sorriu internamente enquanto terminava a bebida, apreciando cada gole.

Sagitário ria, observando a reação do mais novo.

“Pronto?”, perguntou ele, estendendo a mão para recolher a caneca vazia e entrega-la para o homem que limpava as mesas.

Peixes fez que sim com a cabeça, enquanto ajustava as alças de sua mochila. Caminharam pelo corredor até o hall de entrada, onde estava a recepcionista, atendendo os homens da noite anterior. Acenaram para ela, em despedida, e deixaram o albergue.

Peixes perdera o fôlego assim que pusera os pés para fora da hospedaria.

O Sol despontava por entre as fendas da cordilheira, que parecia roçar o céu. Alguns feixes de luz saiam em tiras e iluminavam o chão, coberto de neve, formando pequenas poças e permitindo que alguns arbustos pudessem crescer, embora muito espaçados. A neve caia em flocos e cristais, e uma brisa gelada soprava fraca, tornando seu rosto em rosa.

Certamente aquela fora a aurora mais bonita que já presenciara.

Por causa da tempestade da noite anterior, não tivera tempo de simplesmente parar e olhar onde estava, e se arrependia amargamente disso. Sentia como se pudesse sentar na grama molhada e contemplar a neve caindo por horas e horas, sem nunca se cansar.

"Isso é... Incrível", disse, num suspiro, ao mais velho.

Ele sorriu em resposta.

"Você não viu nada."

Os dois desceram a pequena elevação onde se encontrava o albergue, evitando as poças e os pontos onde o terreno parecia ceder mais.

Sagitário ia na frente, e Peixes o seguia.

"O que faremos?", perguntou ele.

"Vamos reconhecer o ambiente. Ver por onde entram, por onde saem, contar quantos funcionários, esse tipo de tarefa. É bem simples, você vai ver".

Peixes assentiu com a cabeça.

"O que percebeu até agora?", perguntou o mais velho, olhando pra frente. Os cabelos escuros estavam presos para trás, as pontas escondidas pelo cachecol de lã que lhe tornava o pescoço.

"Bom, o albergue onde nos hospedamos tem muitos bêbados. A mulher que nos recepcionou provavelmente é esposa ou filha de um deles"

"Bom, muito bom. Como percebeu?", ele quis saber

"Ela fica retesada perto deles. Não só por vergonha pelas obscenidades de que falam, mas porque ela parece forçada a estar lá”. Ele continuou, “O sorriso que ela dá não parece sincero”.

Sagitário balançou em confirmação, soturno.

"Vem, temos que reconhecer o lado oeste agora", ele disse, cobrindo a aljava com um manto cinzento. Enrolou mais fortemente o cachecol em torno do pescoço e fez menção para que o menor o seguisse.

Puseram-se a caminhar a oeste, de vez em quando encontrando turistas e tirando fotos, para misturarem-se. Peixes sorriu ao ver uma mãe e seus filhos construírem figuras com a neve que caia no chão. As duas crianças corriam para pegar neve e trazer de volta à obra, como se competissem entre si. A mulher ajeitava os materiais trazidos, levantando a cabeça de vez em quando para observar os dois.

"Lembranças da infância?", perguntou Sagitário.

Peixes fez que sim com a cabeça, sorrindo internamente. Apesar do vento frio que chicoteava seu rosto, sentia-se aquecido.

"Dahla foi uma ótima mãe pra mim. Ela me ensinou tudo o que sei, desde a como falar e andar até sobre bondade e justiça", disse, baixinho. A fronte pálida mostrava serenidade, e as maçãs do rosto tornaram-se levemente rubras enquanto apertava os olhos observando a família ao longe. Eu roubaria qualquer livro sagrado por ela.

"Komugi também não foi ruim. Quer dizer, ela era um pouco brava e exigia muito de mim, mas sei que ela só cobrava porque sabia que eu conseguiria. Ela sabia que eu podia ser melhor", ele disse, rindo e agitando a cabeça. Fechou os olhos por um momento, como quem tentasse manter vivas suas memórias. "Uma vez ela me levou para ajudar na organização da festa do Tishrei. Chegando lá, nos escondemos na despensa e comemos quase todos os doces”

Peixes riu.

"Eu lembro daquele Tishrei! Dahla não me deixou comer doces, ou não haveria o suficiente para todos. Então foi culpa sua?"

Sagitário assentiu, rindo alto e bagunçando os cabelos do menor.

Os Zodíaco foram criados por doze mulheres. Após apoiarem os revoltosos na guerra da era das trevas, foram capturadas e levadas ao Primeiro Reino como espólios. Contudo, humanas, caídas e pagãs estavam entre elas, tornando impossível a uniformidade nas sentenças.

Num ato de condescendência, receberam misericórdia em seus julgamentos, e foram perdoadas, contanto que cuidassem da educação dos Doze e os orientassem.

Os dois pararam para observar a mãe e seus filhos por mais alguns momentos, antes que retomassem a marcha.

Peixes caminhava com dificuldade, afundando na neve apesar de ser leve. Concentrava-se quase inteiramente em manter-se acima do chão e seguir Sagitário, que pisava com leveza e serenidade no mundo já tão explorado por ele.

“Hey, Peixes! Olha só!”, sussurrou Sagitário, apontando ao longe.

Peixes o seguiu com os olhos, encontrando o alvo apontado.

Alguns metros à frente, um enorme galpão. As paredes eram cobertas por tijolos avermelhados, que contrastavam intensamente com a neve branca. Não parecia ter nenhum sistema de aquecimento, apesar do calor parecer dissipar-se facilmente no amplo espaço.

Um olhar bastou para saberem que pensavam a mesma coisa.

Com um aceno rápido com a cabeça, colocaram-se lado a lado e aproximaram-se do galpão, cuidadosamente, parando atrás de um pequeno monte de neve.

“Não parece ter ninguém montando guarda. Deve ter algo muito importante aí.”, disse o moreno, baixinho.

“Por que diz isso?”, quis saber o mais novo

Ele deu de ombros.

“Se tivesse alguém, chamaria atenção das pessoas ou atrairiam ladrões. Além disso, o guarda deveria estar bem ali”, respondeu, apontando para o portão leste.

Peixes assentiu.

“Ou talvez o que está dentro do galpão dê conta de se defender sozinho de invasores.”, disse, soturno.

“Faz sentido. Quer dar uma olhada?”, ele disse, se levantando sem esperar a resposta do mais novo.

Peixes o seguiu, e o observou colar os ouvidos à parede do galpão. Sagitário pareceu concentrado no que ouvia.

“Parecem... grunhidos.”, ele disse, depois de alguns momentos.

Peixes franziu a testa, imitando o outro e colando ele próprio os ouvidos na parede.

Em primeira instância não conseguia ouvir bem. Os sons misturavam-se em sua cabeça. Então, começou a ouvir mais claramente.

Um barulho abafado, lento, ritmado, como uma respiração, mas alta demais para qualquer criatura que já tenha visto. Sons guturais pareciam atravessar a parede e faziam-lhe vibrar os tímpanos.

Mas havia algo mais.

Batidas compassadas no solo, ficando mais altas, numa variação de efeito Doopler.

Passos.

Imediatamente, desgrudou-se da parede e empurrou Sagitário na neve, que parecia pronto a socar o menor pelo susto.

“O que está fazendo?!”, perguntou o moreno, se levantando.

Peixes abriu a boca para explicar, mas foi interrompido pela voz grave do homem que irrompera de trás do galpão.

“Hey! O que estão fazendo aqui?”, ele perguntou. Os cabelos castanhos e curtos esvoaçavam levemente, por causa do vento contra sua face pálida. O corpo bem delineado combinava perfeitamente com a voz grossa, dando uma aura ainda mais perigosa aos olhos pretos apertados.

“Nos perdemos da trilha para a cordilheira. Paramos para perguntar o caminho. Pode nos ajudar?”, disse Peixes, inocentemente.

Sagitário ficou ao seu lado, numa postura protetora. Sorriu, colocando os braços atrás das costas. Tentava discretamente alcançar a aljava, mas foi impedido pelo mais novo, que segurou seu braço como quem pedisse prudência.

O homem franziu a testa. Usava uma blusa de malha, fina demais para o clima ártico. Só alguém com corpo resistente poderia suportar a temperaturas baixas como aquela sem grande ajuda de adereços para conservar o calor do corpo.

Ele é um caído.

“Estão meio longe da trilha. E seguindo nessa direção estão se afastando ainda mais.”, disse, franzindo a testa.

Peixes virou-se para Sagitário, com olhos acusadores.

“Eu disse que era para o outro lado! Por que nunca me escuta?”

“Você mal sabe ler um mapa. Tenho meus motivos”, respondeu o maior, devolvendo um sorriso amarelo.

“Hey! Só me confundi uma vez. Não é como se nos perdêssemos por minha causa o tempo todo.”

O pequeno voltou-se novamente para o homem.

“Obrigado. Você ajudou muito”, disse, sorrindo de canto de boca.

O homem nada disse. Cruzou os braços e observou os dois descerem o pequeno monte de neve, com certa dificuldade.

Peixes estava assustado. O coração não parecia mais querer ficar em seu peito, batendo violentamente. Suava frio, e sentia o gelo lhe percorrer a espinha.

Sabia que muito provavelmente devia sua vida às feições inocentes que tinha, que sempre corroboravam com suas mentiras.

Já longe do galpão e do estranho homem, olhou para Sagitário de canto de olho.

Os cabelos mal presos esvoaçavam no rosto, e os olhos negros estavam apertados junto as sobrancelhas retorcidas, concentrados no horizonte a sua frente. A expressão era um tanto estranha ao menor. Sagitário esbanjava sua natureza livre, e, como o pisciano, sempre buscava um ponto novo a que fixar os olhos.

“Me desculpe.”, disse o moreno, baixinho.

Peixes o encarou, confuso.

“Pelo quê?”, perguntou.

Sagitário demorou um pouco antes de finalmente responder.

“Eu fui imprudente. Eu tinha que tomar conta de você, e quase botei tudo a perder.”

Peixes franziu a testa, sorrindo levemente.

“Você não tem que tomar conta de mim, Sagi. Somos uma equipe. Tomamos conta um do outro, foi isso que Libra disse.”

“Libra não está aqui. Esqueça o que ele disse. E se o Caído não tivesse acreditado? E se ele tivesse te forçado a lutar? E se aquela coisa dentro do galpão tivesse te atacado? As regras são diferentes no mundo real.”

“Então nós lutaríamos”

“E como você se defenderia? Com sua adaga? Mal conseguiria se aproximar do caído.”

O rosto de Peixes escureceu, soturno.

“De todas as pessoas do mundo, achei que você seria o último a duvidar de mim.”

O rosto do maior suavizou.

“Peixes... eu... eu não...”

O menor nada falou para interrompê-lo, mas o moreno não continuou a frase. Os olhos do mais novo estavam cobertos pela franja azulada. Os lábios torciam-se numa linha fina, indecifrável.

Caminharam por mais algumas centenas de metros, quando avistaram o albergue e o mais velho quebrou o silêncio.

“Eu não duvido de você, Peixes. Nem um pouco. O que você fez lá atrás foi incrível. Você é tão pequeno que às vezes esqueço que sabe se defender sozinho.”, ele disse, olhando para frente. “Por isso me sinto responsável por você. Tenho que te levar de volta pro Libra inteiro. Tenho que provar que posso olhar por nós dois ao mesmo tempo.”. Ele parou, olhando para o menor com firmeza, apesar do sorriso no rosto. “Eu não escolheria mais ninguém pra me acompanhar até aqui.”

Peixes o encarou, sorrindo de canto de boca e abanando a cabeça.

“Eu também não escolheria mais ninguém.”

O moreno sorriu, corando levemente. Abaixou a cabeça e a manteve assim enquanto caminhavam de volta para o albergue.

Abriram a porta emperrada com alguma dificuldade, fazendo barulho e riscando o chão de madeira. O ar quente de dentro da hospedaria lhes acariciaram as bochechas, e apesar dos hóspedes carrancudos que sentavam-se esparramados pelas poltronas acolchoadas, era difícil não se sentir a vontade com a lareira acesa que queimava no hall de entrada.

Sagitário acenou com a cabeça, cumprimentando a recepcionista sorridente.

“Com fome?”, perguntou o moreno

Peixes fez que sim com a cabeça, enquanto tirava a mochila das costas para carrega-la nas mãos. Arrancou a touca de frio da cabeça e a pendurou no guarda-casacos próximo à entrada. Seguiram por entre os corredores até avistarem o salão de jantar.

Contava com algumas mesas redondas, espaçadas, cercadas por cadeiras acolchoadas multicores. Sobre cada uma, recipientes com sal, pimenta e uma variedade de temperos que o mais novo desconhecia.

Sentaram-se próximos à janela, a fim de observarem tanto o movimento de fora quanto o de dentro.

Não demorou até que uma mulher trouxesse comida a eles. Ela vinha apressada, com um lenço verde cobrindo os cabelos. Sorriu gentilmente enquanto servia os pratos e os dispunha organizadamente na mesa, até sair com a mesma pressa com que tinha entrado.

“O que é isso?”, perguntou Peixes, apontando para o prato. Continha uma porção de pequenas massas triangulares.

“Samosas”, respondeu o moreno. “São um tipo de pastel de vegetais. Experimenta!”, disse, pegando um pedaço e estendendo a ele. Peixes pegou o que era oferecido, encarando por um momento, até que finalmente o levou a boca.

O sabor explodiu em sua boca, num misto de prazer e incômodo pelo excesso de condimentos. Não pensou muito antes de comer outra. Sagitário ria com as reações do mais novo.

“O que está achando?”, perguntou

Os olhos de Peixes se iluminaram.

“É incrível, Sagi! A comida é maravilhosa, as pessoas são calorosas, e a vista é esplêndida. Eu poderia morar aqui”, disse, sorrindo de orelha a orelha.

“Bom, fico feliz que tenha gostado da Terra”, Sagitário começou. “Mas me referia à missão”, disse, rindo baixinho.

“Oh”. Peixes baixou os olhos, enquanto se concentrava nos sons ao seu redor. Na sala de jantar, apenas três homens além deles, provavelmente humanos. Discutiam banalidades, exaltando-se de quando em quando. Tamborilou os dedos na ponta da mesa, antes de leva-los ao rosto para colocar atrás das orelhas as mechas soltas do cabelo azulado. “Aquele galpão certamente abriga as bestas que você mencionou quando veio com Libra pra cá. Escutei uma respiração pesada antes que o caído se aproximasse”

“Ele deve ser o treinador delas ou algo assim. Deve ser o único permitido a criar laços com elas, pra poder mantê-las frias e alheias a qualquer sentimento.”. Ele afrouxou o cachecol enrolado em seu pescoço e continuou, “Precisamos nos misturar aos turistas. Já levantamos suspeitas demais hoje. Talvez demore mais que o esperado para voltarmos ao Primeiro Reino.”

Peixes assentiu com a cabeça.

Pegou um guardanapo e limpou os cantos da boca, imitado por Sagitário. Deixaram o pagamento pela refeição e a gorjeta em cima da mesa, antes de se virarem para irem em direção ao quarto.

Seguiram pelos corredores e dobraram a quina que os levava ao quarto que lhes fora designado.

Assim que a porta foi aberta, Peixes tirou seus sapatos e atirou-se na cama com os braços estirados. Respirava profunda e lentamente, encarando as traças no teto.

Sagitário colocara suas armas no canto do quarto e tentava, sem sucesso, acender o fogo com a lenha úmida.

“Isso não vai dar certo”, Peixes disse a ele, um sorriso se formando em seu rosto.

Sagitário o encarou de volta. Sorriu apertando os olhos.

“Quer apostar?”, perguntou. Ele colocou atrás das orelhas os fios escuros que caiam sobre seu rosto, para enxergar o outro com mais clareza.

O sorriso de Peixes se abriu ainda mais. As mechas soltas do cabelo azulado davam um ar rebelde ao rosto juvenil.

“Aposto que não consegue acender isso em meia hora”, disse, estreitando os olhos.

“Aposto que consigo em quinze minutos”, o moreno respondeu. Peixes tornou o pescoço para trás, rindo.

“Faça-me o favor. Você não fará em quinze minutos o que não fez desde que entramos aqui.”

“Mas agora eu tenho uma vantagem”

“Qual?”

Sagitário sorriu, sombrio.

“A dúvida”, disse, encarando o outro. “Prepare os bolsos. Teremos um banquete amanhã — por sua conta”

“É o que vamos ver”, ele disse, verificando as horas e calculando mentalmente o tempo limite.

“Preparado?”, o moreno perguntou, os olhos negros brilhando de ansiedade, ao que o mais novo assentiu, sorrindo. “Um...”, ele começou a contagem, pegando um pedaço de lenha em cada mão. “Dois... Três... E...”

“Hey, tem alguém aí?”, chamou uma voz masculina do lado de fora, seguida de batidas ritmadas na porta de madeira.

“Está esperando alguém?”, Sagitário perguntou, baixinho, ao que Peixes apenas negou com a cabeça. “Estranho.”

Peixes levantou-se para atender o visitante.

“Depois terminamos isso”, disse a Sagitário, que assentiu, rindo. Puxou o trinco metálico que mantinha a entrada fechada, abrindo-a devagar.

“Pois não?”, Peixes inquiriu, educadamente. Não tinha aberto completamente a porta, para não deixar à mostra o arco de Sagitário do outro lado da sala.

“Teremos uma confraternização em alguns minutos. Querem saber se vocês não se juntariam a nós”, convidou a figura. Peixes o encarou por alguns momentos. O homem era alto. Aparentava ter não mais que quarenta anos terrestres. A cabeça calva contrastava com a barba cheia e rubra. A voz grossa harmonizava-se inteiramente com o corpo robusto, que se fazia presente, ocupando quase duas vezes mais espaço que o pequeno.

Sagitário levantou-se assim que o viu, e ficou ao lado de Peixes.

“Oh, sim, claro, estaremos lá.”, ele respondeu, timidamente.

O homem assentiu com a cabeça e deu meia volta, desaparecendo no corredor escuro, deixando os dois novamente sozinhos, a porta entreaberta.

“Bom, acho que nossa aposta terá que ser adiada”, concluiu o moreno.

“Sua derrota, você quer dizer”, Peixes o corrigiu, rindo e encostando a porta

Sagitário riu fraquinho, baixando a cabeça. Os cabelos escuros cobriam parte do rosto, e as íris pretas estavam voltadas para o chão. Peixes franziu a testa, entornando levemente o pescoço, encarando-o.

“Sagi?”, ele chamou, ao que o mais velho não respondeu. Mordeu a parte interna da boca enquanto se aproximava sutilmente. “Sagi, relaxe. É só uma confraternização. Você mesmo disse eu precisamos nos misturar, não é?”, disse, em tentativa de anima-lo. “Vai dar tudo certo.”

O moreno levantou os olhos depois de alguns segundos. Encarou o mais novo por um tempo que pareceu interminável, fixando as orbes no rosto corado e nos olhos brilhantes do outro, a baixa estatura acordando perfeitamente com a expressão pueril. Suspirou.

“Tem razão. Não tem como dar errado”, disse, finalmente. Levantou-se e ajeitou suas roupas, tirando o cabelo do rosto em seguida e pegando uma das bebidas do frigobar. “Nossa contribuição”, disse, sorrindo, apontando para a garrafa que retirara e pousando-a no criado mudo.

Peixes riu baixinho, assentindo com a cabeça.

Sagitário embrulhou seu arco com o manto cinzento e o escondeu embaixo de sua cama, enquanto o mais novo pegava seu casaco e arrumava seus lençóis na cama.

Passados alguns minutos já estavam prontos para sair, e deixaram o quarto, trancando a porta.

Peixes caminhava apreensivo pelo corredores. Trazia nas mãos a garrafa de gim retirada do frigobar, ainda gelada. Enquanto caminhava, espiava de canto de olho os animais empalados na parede. Arqueou levemente as costas; os olhos sem vida expostos na parede o enojavam.

Conforme se aproximavam do salão principal, ouviam-se risadas, cada vez mais altas.

“... E então ele disse: ‘É que isso é um micro-ondas!”

O ambiente explodiu em gargalhadas. Todos os homens tinham lágrimas nos olhos, movidas pelo riso. O homem de cabelos avermelhados batia em sua própria coxa, extravasando a energia extra.

Sagitário pigarreou.

“Oh, vocês vieram! Sentem-se, sentem-se!”, convidou o homem, abrindo um espaço no sofá.

Os dois deixaram a garrafa de gim na mesa de centro e obedeceram ao comando.

Peixes encolheu-se em seu lugar.

O clima não poderia ser mais leve; bebidas das mais variadas, risadas, e o modo expansivo como Sagitário se acomodara não o deixava mentir. Por que então não conseguia relaxar?

Colocou as mãos entre as pernas fechadas, levantando levemente os ombros. Fingia concentração enquanto encarava os próprios joelhos, não se importando com as mechas de cabelo azul que atrapalhavam sua visão.

“Eu sou Rashad”, o homem ruivo começou a falar. “Esses são Asad, Fakhir, Halim, Irfan, Eisa, Wahid e Baha” ele continuou, introduzindo cada pessoa presente na sala e apontando a cada nome citado. Peixes acenava levemente com a cabeça à cada menção, tentando guardar os nomes e associá-los aos rostos correspondentes.

“Rashad estava nos contando algumas de suas histórias”, disse o homem apresentado como Halim. Ele tinha cabelos castanhos curtos e barba bem aparada. A pele escura estava coberta por um thobe, peça típica do vestuário em países do Oriente Médio.

“Adoraríamos ouví-las”, sorriu Sagitário.

“E eu adoraria contá-las para vocês”, Rashad respondeu. “Mas me deixa muito mais curioso a sua história. Perdoe a indiscrição...”, ele disse, notando o sorriso no rosto do moreno se desmanchar, “...mas é importante para nós o intercâmbio cultural. Que histórias maravilhosas podem contar dois viajantes vindo de tão longe?”

Sagitário abriu a boca para responder, mas foi interrompido pelo barulho da porta se abrindo.

“Desculpem o atraso, pessoal. Mas é como dizem: antes tarde do que mais tarde.”, dizia o homem entrando pela porta. Ele pendurou seu casaco em dos ganchos da parede, derrubando a neve acumulada nas ombreiras sobre o chão de madeira. Passou as mãos sobre os cabelos pretos, bagunçando-os, e abriu caminho pelo salão. Parou na mesa de centro, serviu-se de gim e tornou-se a sentar.

O Caído.

******

Peixes e Sagitário sempre tiveram uma ligação muito forte.

Falavam abobrinhas, sempre temperadas com o riso, que tanto lhes fazia bem. Riam de tombos levados na rua e na vida. Riam de encrencas e aventuras em que entraram juntos. Riam ao lembrarem-se de suas reações ao descobrirem de onde vem a chuva, o vento, o tempo ou os bebês.

Não tinham roteiro, enredo, pauta ou programação. A conversa fluía como um riacho guiado pelas matas. Ouviam um ao outro, bebiam suas idéias. Falavam da vida, do micro, do macro. De tudo que há para se falar, sem vaidade ou soberba.

Ouviam-se também com os olhos. Ouviam um ao outro mesmo quando não diziam nada.

Por isso, nenhum deles estranhou quando tiveram uma longa conversa numa troca de olhares.

*******

Devemos correr?

Não. Acabamos de encontrá-lo no galpão, sair daqui assim que ele entrasse nos denunciaria.

Acho que ele já está bem desconfiado a essa altura.

Por isso precisamos ficar. Ganhar território.

Entendo. De qualquer forma, esteja preparado para correr, okay?

Eu sempre estou.

********

Eisa afastou-se para o lado, dando espaço para que o recém chegado se sentasse. A atmosfera logo ficou mais pesada. A risadaria não chegou a cessar, mas todos tornaram suas cabeças para ver o homem entrar.

Peixes tentava a todo custo esconder o nervosismo. Sentou-se mais curvado no sofá, imitando Sagitário, sempre expansivo. Correu os dedos pelos cabelos, bagunçando-os levemente.

O caído tomou mais um gole de gim antes de os notarem no salão.

“Eu conheço vocês”, ele disse, levantando o copo em direção aos dois. “Tiveram dificuldades para achar a trilha?”, perguntou, franzindo a testa.

Os olhos pretos estavam apertados, como tentassem enxergar cada átomo do corpo deles, a procura de falhas.

“Não muita, graças a você”, Sagitário respondeu. “Não pudemos agradecer adequadamente. Deixe-nos pagar uma bebida algum dia”, ele ofereceu, com um sorriso pronto nos lábios. Gesticulava levemente, mantendo a casualidade.

“Oh, não é necessário. É um prazer ajudar”, ele respondeu. “A propósito, eu sou Ahmed”

Alguns momentos se passaram antes que alguém tornasse a falar.

“Eles iam contar a história deles”, Rashid retomou.

“Vejo que cheguei na hora certa então”, Ahmed começou, inclinando-se para frente. Peixes mexeu-se em seu lugar, desconfortável. Sentia os olhos negros do caído o despirem. Sentia que ele olhava em sua alma, em seu âmago.

Sagitário limpou a garganta, olhando para Peixes de canto de olho. Colocou para trás das orelhas os cabelos escuros, e ajeitou o penteado, prendendo-o com mais força. Os lábios eram uma linha fina, contorcida num sorriso sem-graça. Respirou fundo antes de começar a falar.

E falou.

Falou de tudo; da sua infância, da vida adulta e dos relacionamentos em seu núcleo familiar, sempre omitindo detalhes que os denunciariam e adaptando tudo à realidade humana.

Falou que eram do mesmo orfanato, e que dividiam quarto com outras dez crianças. Falou que em seu grupo havia, além deles, haviam mais dois, e que eles não se davam muito bem. Falou que o mais velho deles sentia-se responsável por todos, e que era superprotetor em relação aos outros. Falou das viagens que fizera ao redor do mundo, e contou suas impressões de cada lugar, incluindo Peixes na narrativa.

Todos ouviam com atenção, dando goles da bebida de vez em quando. Peixes serviu-se de um pouco de cerveja preta.

“Uau! Incrível”, comentou Irfan ao fim da anedota.

“Realmente... Vocês parecem tão jovens, e já passaram por tanta coisa.”, Ahmed dizia, pensativo, mais para si mesmo. Moveu os dedos esguios pelo próprio queixo, passando os polegares sob os lábios para limpá-los.

Rashid e Eisa assentiram com a cabeça, depois retomando e contando piadas. As anedotas seguiam mais enredadas que antes, o clima arrefecido pela chegada do caído. Sagitário ria alto, fazendo perguntas e interagindo com todos. Peixes mantinha as mãos entre as pernas, de vez em quando tamborilando os dedos nas coxas.

Passadas algumas horas, a maioria dos homens estava tombada pelos cantos do salão, embriagados demais para fazer qualquer movimento.

“Bom, estava ótimo”, começou Peixes. “Mas receio que tenhamos que nos retirar agora. Foi um dia muito cansativo”

Sagitário concordou com cabeça.

Os dois despediram-se de todos e seguiram para os corredores que os levavam ao quarto em que estavam hospedados.

Sagitário passava as mãos pela nuca, num gesto autorrelaxante. Caminhava em silêncio, absorto demais em seus próprios pensamentos para falar qualquer coisa. Vislumbrou de relance os olhos azuis-esverdeados do amigo, em parte soturnos, parte risonhos.

Peixes tinha o péssimo hábito de rir quando ficava nervoso.

Entraram em seus aposentos e fecharam a porta atrás deles, rindo ao notarem que deram juntos um longo suspiro. Estavam exaustos.

Sagitário olhou para a lenha que antes friccionava freneticamente. Voltou-se na direção de Peixes, para que pudessem terminar sua aposta, mas este já estava esticado em sua cama, adormecido como o anjo que era.

Notas finais
Vocês não sabem o prazer que é estar de volta. Uau. Na época do último capítulo dessa história, ainda passava aquela novela do comendador, A Regra do Jogo; a chikungunya tava comendo solta; a barragem de Mariana tinha acabado de estourar e Dilma ainda era presidente do país. Faz um tempo já. E depois de um longo, muito longo hiato, estamos de volta. Obrigada por ter lido até aqui, se você assim o fez. Obrigada por todos os comentários maravilhosos, Obrigada pra quem mandou mensagem me incentivando a escrever, Obrigada, Obrigada, Obrigada. Foi um período muito conturbado e de muitas mudanças. Mas estamos aí o/