Caleidoscópio de Retalhos
1 Prólogo
Prólogo
"A ti, Escorpião, peço que não te afastes de mim quando doer em teu coração as maldades que presenciares. Terás a capacidade de penetrar na mente dos homens e, conhecendo-a, perceberás que não sou Eu, mas a perversão da Minha Idéia que está causando tua dor. Chegarás a conhecer o homem em seu instinto animal e lutarás contra o próprio dentro de ti. Para que faças um bom trabalho, dou-te a provação do extremismo para dominares e, como bênção, concedo-te o dom do renascimento. Faça bom uso."
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Eu sempre fui um daqueles garotos copo meio vazio. Pessimista; Inconsequente; Irresponsável; e de negativa em negativa fui me tornando o que sou agora.
Eu suava como um porco enquanto aguardava meu nome ser chamado para julgamento. Minhas mãos estavam amarradas para trás, enlaçando uma das pilastras da sala escura. Minhas asas, espremidas contra ela, não poderiam estar mais desconfortáveis. Fazia dias que eu não via água ou comida sendo usadas para fins que não a tortura, e minhas costas ardiam com os cortes dos chicotes que estalavam quase todos os dias sobre elas.
Mas a dor física era o que menos importava. Dia após dia, interrogatório após interrogatório, a minha luta era para manter a sanidade. Se eu a perdesse, eu perderia tudo. Então eu me prendia a raiva. Era tudo o que eu tinha. Eu sabia que, enquanto eu a sentisse, eu poderia me levantar ainda mais forte.
“Scorpio Cambridgei”, ouvi uma voz grave chamar.
Estava na hora.
Alguns segundos depois, a porta pesada da sala se abriu, e dois homens entraram, com vestes que cobriam dos pés a cabeça. Um deles desatava minhas mãos enquanto o outro apoiava um punhal na minha jugular.
“Não banque o engraçadinho”, falou, rispidamente.
Assim que o outro terminou de me soltar, posicionaram-se um de cada lado do meu corpo, o punhal ainda apontando para mim. Com alguma dificuldade, consegui me levantar, e os dois me guiaram para fora da sala.
Gritos abafados eram ouvidos enquanto se passava pelos corredores, e conforme eles ficavam mais abertos, mais barulho. Entretanto, havia algo diferente. Era uma multidão.
Minhas asas ainda estavam dormentes quando cheguei ao local de julgamento. O lugar se assemelhava em muito ao Coliseu da antiga Roma. Tanto na arquitetura, quanto na selvageria dos berros do público, composto por anjos das mais diversas patentes.
Na primeira fileira, os três grupos do Zodíaco, liderados por Virgo, Libra e Capricórnio. Libra, meu mentor, trajava elegantes vestes brancas, e ao seu lado, Sagitário e Peixes, meus companheiros de equipe. Este tamborilava com os dedos no colo, de vez em quando colocando os cabelos azulados atrás da orelha e apertando os lábios. Os olhos, que pareciam mudar de cor com a luz, carregavam bolsas cinzentas que denunciavam noites mal dormidas. Libra tinha um semblante irredutível. Pelo seu rosto, era impossível dizer o que sentia.
Touro mostrava a habitual expressão entediada, e sentava ao lado de Áries, Aquário, Gêmeos e Leão, estes com um brilho ansioso nos olhos. Câncer portava-se ao lado de Capricórnio, que agitava sua pena no papel, registrando tudo o que acontecia.
Com alguma dificuldade, reconheci o serafim responsável pelo julgamento. Metatron. Ele caminhou até até um grande pedestal dourado, onde se apoiava uma compilação de todos os livros sagrados.
Assim que ele tocou o livro, o burbúrio do público cessou. Ele olhava diretamente pra mim.
“Diga seu nome, sua posição na hierarquia e o juramento”
Minha garganta estava seca. Meus lábios rachados desejavam água mais do que qualquer coisa. Foi com alguma dificuldade que consegui responder.
“Eu, Scorpio Cambridgei, dos Zodíaco, juro dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade, aqui, perante homens e anjos, criaturas do criador, Senhor dos três reinos e de seus círculos, e me submeto a quaisquer providências cabíveis ao meu crime”, disse, quase num suspiro. Virgo notou minha dificuldade ao falar e se levantou para me buscar um copo de água. Bebi com toda voracidade que me era possível. Metatron esperava pacientemente.
“Você está sendo acusado de tentativa de roubo do Livro de Enoque, uma das escrituras sagradas não compiladas. Você nega essa acusação?”
“Não.”
“Você nega ter agredido um dos guardiões do livro até o ponto da inconsciência para atingir seu objetivo?”
“Não.”
“Você tinha ciência de que suas ações podiam leva-lo a danação eterna e ao nono círculo do Inferno?”
“Sim.”
Mais murmúrios. A banca julgadora trocava olhares entre si e fazia anotações. A pena de Capricórnio movia-se de um lado para o outro no papel, furiosa. Um sorriso presunçoso dançava nos lábios do serafim, os cabelos pretos caindo-lhe sobre os ombros.
“Entendo. Sendo assim, não me resta outra escolha se não conden...”
“Um momento, por favor, meritíssimo”, Libra interrompeu. “Se estou certo, o senhor Cambridgei tem direito à defesa”. O sorriso do serafim lentamente se desfez enquanto ele prosseguia. “Gostaria de fazer algumas perguntas ao réu”.
Os cabelos de Libra estavam penteados para trás. Metatron assentiu e Libra se levantou. As asas, grandes e extravagantes chamavam a atenção de todos.
“Senhor Cambridgei, qual seria o seu objetivo uma vez que estivesse com o Livro de Enoque em mãos?” perguntou. Seu tom me deixava desconfortável. Era como se ele não se importasse com o resultado do julgamento.
“Libertar um dos prisioneiros do Sétimo Circulo.” Eu disse, sem vontade.
Libra apertou os olhos azuis e me encarou por um momento.
“Posso perguntar por quê?”
“A sentença foi injusta.”, respondi. Os cochichos do público foram ficando mais altos. O serafim, impaciente, batia o pequeno martelo no pedestal.
“Ordem, ordem, por favor!”
Lentamente, o decoro foi reestabelecido. O serafim virou-se para mim.
“Esse prisioneiro cometeu violência contra seu próximo?”
“Sim, mas...”
“Ora”, sorriu ele, “sendo assim não vejo como a sentença pode ter sido injus...”
“Foi legítima defesa!”, disse, quase aos berros. Todos os olhos se voltaram para mim. “Foi legítima defesa e vocês sabem disso! Só queriam uma oportunidade para livrarem-se del...”
“Fale somente quando autorizado, senhor Cambridgei.”, disse ele, rispidamente.
Eu era só fúria. Minhas asas em riste não me permitiam esconder minha indignação. Libra me olhava de canto de olho, como quem pedisse prudência.
“Esse... prisioneiro tem algum valor sentimental para você?”, Metatron perguntou. Ele arqueou as sobrancelhas negras, esperando uma resposta.
Pensei com cuidado na resposta. Os anjos não podem se dar a luxo de amar algo que não o criador, como os homens. Somos criados com o único propósito de servi-lo. O descumprimento dessa regra tem graves consequências.
“Ela era como uma família”, respondi, escolhendo com cautelosamente as palavras. O serafim de cabelos negros franziu o cenho.
“Se fosse outra pessoa, você faria o mesmo?”
O público estava em silêncio absoluto. Virgo prendia a respiração. Todos tinham olhares ansiosos no rosto.
“Não”, respondi. O rosto do anjo de cabelos negros se iluminou com minha resposta.
“Então você atesta que tentou roubar um dos livros sagrados não compilados para libertar um prisioneiro que, segundo suas palavras, era como uma família, porque considerou injusta a sentença, apesar do julgamento ser cabível ao crime, mas essa indignação é tão seletiva que se restringe a esse caso?"
“Não distorça minhas pal...”
“Ora, senhores, temos aqui um caso clássico de traição ao criador motivado pela criação de vínculos sentimentais”, ele riu. Meus punhos estavam cerrados. Tentei refutá-lo, mas ele pareceu não escutar. A bancada de árbitros agitava as cabeças em concordância. Quando Capricórnio abaixou a cabeça eu soube imediatamente o que me esperava.
“Eu, Metatron, difusor do princípio da vida universal e da misericórdia do criador, príncipe dos serafins, arcanjos, querubins e zodíacos, condeno, você, Scorpio Cambridgei, dos Zodíaco, ao Nono Círculo do Inferno, Esfera da Judeca, onde passará o resto de sua existência, ao lado de outros traidores de sua espécie”
“Espere!”, gritou Libra. Os olhos azuis arregalados e os lábios apertados. Ao notar os olhares sobre ele, recuperou a compostura e tornou a falar “É sabido que o prisioneiro a quem o senhor Cambridgei se refere é Agnes Araqiel, e que ela realmente, digamos, interferiu em sua educação. É completamente normal o sentimento de gratidão e de familiaridade a que ele se refere. Peço revisão da sentença.”
Libra foi firme e direto, como sempre. Quando ele fez o pedido, soube que ele estava ali mais do que como meu mentor, mas como meu amigo. A bancada recomeçou os cochichos. Sagitário não podia esconder a animação provocada pela reviravolta, com dedos cruzados. Peixes, ao seu lado, apertava os lábios e cerrava os punhos. É, eu sentiria falta deles quando estivesse no nono círculo. Mas era tarde demais para admitir.
“Ordem, ordem”, pediu Metatron. O rosto exibia uma expressão arrogante. “O pedido de revisão da sentença foi aceito. Scorpio Cambridgei poderá pagar pelo seu crime de forma alternativa...". Um sorriso foi lentamente se desenhando no rosto do serafim. "...com uma de usas asas".
Meu rosto ficou branco. Minha garganta secou imediatamente. Minhas asas.
“Isso é medieval! Tenho certeza que há outros meios de...” começou Virgo.
“A decisão já foi tomada. Senhor Cambridgei, apresente-se, por favor.”
Eu quis correr. Ainda tinha ambas as asas. Poderia voar pra longe. Para o mundo humano, talvez. Mas meu corpo simplesmente não respondia. De repente, tudo era uma confusão de cores, borrões e barulhos. Vi o público urrar. Alguns em apoio a Metatron, outros que se opunham. Vi Aquário ser segurado por Capricórnio, que tentava impedi-lo de agredir Metatron. Vi Leão gritar palavrões para a banca julgadora, apoiado por Áries e Gêmeos. Meu coração palpitava enquanto minha última refeição subia pela garganta.
Os carcereiros que tinham me trazido aproximaram-se com uma espada maior que a envergadura de meus braços.
“Qual você prefere manter?”, perguntaram. Não consegui responder. O ar não entrava em meus pulmões. E eu era a ira.
Agradeci mentalmente ao Sagitário por esconder o rosto de Peixes no próprio peito. Ele não tinha que ver aquilo. A visão o perturbaria para todo o sempre. O pequeno se debatia, gritava e esperneava, mas Sagitário era mais forte.
Metatron sorria presunçoso enquanto o carcereiro erguia a espada. E ali, eu jurei vingança. Pela minha asa, pela minha mãe, e por aquele senso distorcido de justiça. Ele não perderia por esperar.
Eu soube que tinha terminado quando ouvi a espada cantar. Primeiro, vi no chão minhas penas negras manchadas de sangue. Depois, veio a dor. E, pela primeira vez em dias seguidos de tortura e violação do meu corpo, desejei estar morto.
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