Caixas

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Eu gostei muito de escrever essa história, embora tenha sido bem trabalhoso. Não sei se gostei do resultado, mas espero que gostem.

Minha cabeça está doendo e meu quarto parece desfocado, é difícil enxergar as palavras enquanto as escrevo, mas eu ainda consigo me lembrar cada detalhe daquela manhã.

Liguei o chuveiro e deixei a água quente escorrer pelo meu corpo, levando minhas preocupações e incertezas. Cada gota de água escaldante tornava o peso em minhas costas mais leve, e o dia que eu tinha pela frente, mais fácil de encarar. Me arrumar para a escola foi torturante, simplesmente pela percepção de como o dia seria. Uma nova cidade, um novo inferno. Com a diferença que nesse fim de mundo eu não teria Leo para me distrair e consolar. Eu me lembro de tentar afastar qualquer pensamento sobre meu ex-namorado, pois isso faria o tempo se arrastar, aumentando minha agonia. Mas as lembranças de cada momento que passamos juntos me assombraram durante todo o trajeto até a escola, e durante a interminável espera na sala do diretor enquanto ele analisava documentos e regularizava minha transferência.

Eu ainda pensava em nele enquanto o diretor me levava até a sala que seria minha nova prisão. A aula era Biologia, e a professora foi legal o suficiente para não me obrigar a me apresentar para a turma. Ela mandou que eu me sentasse bem na frente, o que foi bom, já que eu não tinha que atravessar a sala pra chegar ao meu lugar. Acho que ainda estava distraído durante as primeiras aulas, porque nenhum rosto se destacou para mim. Eu notei, sim, uma garota bonita olhando para mim, mas a beleza dela era tão vazia quanto os outros rostos ao meu redor, então eu prestei bem pouca atenção.

Ao meu lado, percebi um grupo engajado numa conversa animada, o que me causou um pouco de dor, porque me lembrei o que Leo costumava dizer de pessoas assim. “Pessoa vazias de existências inúteis, atraem umas às outras como pombos. Falam o tempo todo para disfarçar o fato de não terem nada a dizer”. Tentei focar na aula e ignorar as vozes deles, vozes que me lembravam o garoto que eu tinha deixado para trás, e tentei ignorar minha própria voz, que soava no fundo da minha mente, dizendo que meu ex-namorado tinha razão. Eu não podia, eu não iria dar ouvidos aquela voz. Eu já desprezava meus novos colegas o bastante por não serem Leo, eu não precisava das palavras cruéis dele pra piorarem a situação.

Eu estava me saindo muito bem em fingir surdez, até que uma música começou a tocar. Parecia trilha sonora de um videogame.

-Mas que merda é essa? Perguntei, minha voz pouco mais que um sussurro.

Mas, para meu azar, a baixinha que liderava o grupinho de tagarelas me ouviu. Rindo baixinho, ela disse:

-Esse é o nosso sinal. É recreio agora.

Mas que tipo de pessoa fala recreio em pleno ensino médio? Será que a pouca altura dela estava relacionada à idade, e por algum motivo colocaram ela na sala errada? Não sei por que cargas d’água resolvi responder, enquanto a professora saía da sala, seguida por alguns alunos.

-Intervalo, você quer dizer.

-Meu querido, se eu quiser chamo até de hora do lanchinho. A propósito, meu nome é Ana.

Olhei para ela, me perguntando o que deveria fazer com aquela informação, mas aparentemente, não era tudo.

-Essas são Sara, Leila e Alice. Ah, e esse aqui é o Kevin.

Olhei para eles, tentando associar seus rostos e seus nomes, em vão. Assenti, para não parecer mal-educado de mais. Então o menino, Kevin, resolveu falar.

-Andrei, não é? Meu pai me contou que você acabou de se mudar pra cidade. Meu pai sabe sobre esse tipo de coisa, ele é jornalista.

Agora, essas podem não ter sido suas palavras exatas. A partir desse momento todas as lembranças que tenho, antes tão claras e vívidas, são confusas e vagas. Algo despertou em mim no momento em que ele falou, algo que estava adormecido, dentro de uma caixa bem, bem lá no fundo. A voz dele.... era a mesma voz, a mesma pela qual eu tenho ansiado nos últimos dias, a mesma que foi meu conforto e alegria no período passado na capital. Uma voz mansa, quase feminina, suave e misteriosa. Encarei o menino de olhos castanhos e sobrancelhas grossas a minha frente, o espanto certamente aparecendo no meu olhar.

-Certo.... Andrei, meu nome é Andrei.

Após encará-lo pelo que pareceram horas, me levantei bruscamente e saí da sala, lágrimas amargas clamando por liberdade. Perambulei pela escola por algum tempo, sem ver aonde ia. Pra ser sincero, não me lembro mais nada daquele dia, a não ser que pensei muito em Leo e no menino que tinha a mesma voz que ele. Acho que voltei para a sala e me comportei normalmente, porque nunca recebi uma advertência, e ninguém nunca mencionou nenhum comportamento estranho, nem na escola nem na casa que meus pais tinham alugado para a temporada. Eu acordei na minha cama no dia seguinte, e tudo parecia normal, ou tão normal quanto poderia ser.

Meu segundo dia de escola foi mais fácil de suportar, embora eu estivesse muito longe de sentir qualquer prazer em estar ali. A vaga familiaridade com tudo e todos me permitiu entrar em uma apatia momentânea, impedindo minhas lembranças de me assombrarem, como no dia anterior. Após me desculpar com Ana e outros pela saída brusca e dar alguma explicação sobre como eu ficava abalado logo após uma mudança, voltei completamente minha atenção para o conteúdo e não falei com mais ninguém. Guardei tudo numa caixa bem fundo dentro de mim e esqueci que tinha acontecido.

Assim passaram-se o terceiro, o quarto e todos os dias da primeira semana, do primeiro mês. Tem sido impossível para mim não me acostumar à minha prisão. Na semana passada, estávamos saindo da aula e algumas pessoas me chamaram para tomar café com elas em uma lanchonete da cidade. Eu não tinha percebido, mas foi a primeira vez que fui a algum lugar naquela cidade sem ser a escola. Foi quando eu percebi que estava me acostumando ao meu inferno. Mais uma vez.

Veja bem, embora eu nunca crie laços nas cidades onde moro, não realmente (e para essa regra Leo foi a mais brilhante e dolorosa exceção), sempre me torno estranhamente apegado aos lugares por onde passo. Sempre acho difícil deixar esses lugares. E essa tarde, na lanchonete, eu percebi que tinha me apegado aquele lugar também. Todos riam, e eu me senti incluído de uma forma boa, eu não precisava participar da conversa. Eu ria das piadas e comecei a entender um pouco da vida de cada um, como quando o garoto chamado Jeffer fazia piada da cara de Sara, a menina alta e morena que tinha uma paixão não tão secreta assim pelo garoto da sala ao lado, e uma menina da nossa sala flertava com um calouro. Uma hora, Sara me perguntou:

-Já se adaptou melhor à cidade, Andrei?

-Já, acho que já. Não me sinto tão perdido, pelo menos.

-Aqui é legal, quando se sabe aonde ir. Foi Kevin que falou dessa vez, contrariando seu jeito tímido de só falar quando falavam com ele ou para fazer alguma piada.

-Na verdade, eu não vi muito daqui não. É uma pena, ter que ir embora sem chegar a conhecer a cidade que vocês veem.

-Cara, a gente tem que mostrar um pouco a cidade pro Andrei. É tipo, nossa obrigação oficial como anfitriões e colegas de classe. Disse Alice.

-E aonde tá escrito isso? Alguém perguntou, mais para provocar a menina do que qualquer outra coisa.

-Na lei oficial de todas a coisas, que eu acabei de inventar.

E logo, estamos todos rindo novamente, porque, com essas pessoas, é fácil assim. É engraçado o modo como o lugar onde você está muda completamente quando você começa a entender a história das pessoas que vivem ali. Embora Kevin ainda me traga lembranças de Leo, eu venho aprendendo a conhece-lo além da voz. Percebo, agora, que pelo olhar de cada um vê-se claramente que as diferenças ultrapassam e muito a semelhança na voz. Enquanto Leo olhava a todos com superioridade, e eu amava a forma como ele parecia infinitamente superior a qualquer um, ainda amo, na verdade, Kevin é capaz de sorrir para qualquer pessoa e cativá-la com sua voz. Ele bagunçou tudo dentro de mim, deixando uma mistura de memórias e um amor que ainda não morreu, mas que agora disputa lugar com um carinho imenso pelo menino com senso de humor sutil, mas cruel que faz parte da minha vida agora.

Desde o dia que eu percebi como minha mente estava transtornada, venho buscando sinais de que a dele possa estar também, ou ainda, que ele sinta algo concreto por mim, embora eu não possa dizer que o sinto, preso como estou ao passado. E minha busca não tem sido em vão. Na escola, percebo olhares nada discretos e vejo que ele busca sempre estar perto de mim. Ele não me trata como trata suas amigas, comigo ele tem quase uma deferência, ele busca minha aprovação em todos os planos para sair ou para algum trabalho. Se algum professor pede duplas, ele se apressa em formar uma comigo. Eu posso estar vendo mais do que a realidade, e não posso dizer que sou imparcial nesse assunto, porque eu quero muito ver esses sinais, embora eu saiba que não tenhamos futuro algum. Mas me recuso a acreditar que eu esteja me iludindo tanto assim.

Alguns dias atrás, ele me acompanhou em boa parte do caminho para casa, o que é estranho, já que ele quase sempre vai pra casa de carro. E, antes de tomar o caminho par a casa dele, me convidou para uma festa. Uma festa na casa dele.

E eu fui. Eu fui nessa maldita festa e agora estou aqui, nesse maldito quarto que tem sido meu nos dois últimos meses, as três da manhã, após a festa em questão, faltando dois dias para eu ir embora. De novo. Cheguei em casa duas horas atrás, e comecei a guardar minhas coisas para a mudança. E, enquanto encaixotava meus livros e cds, meus quadros e tudo o que não fosse essencial para passar esses dois dias, senti uma necessidade enorme de encaixotar minhas memórias também. E agora aqui estou, entre pilhas de caixas semi-empacotadas, com uma caneta e um caderno. Não aguento mais todas as memórias confusas que enchem minha mente, as novas e as antigas, que Kevin mudou de lugar. Sinto que, se não encaixotar esses sentimentos, esquecerei uma parte deles aqui. Mas o problema é que caixas na memória são facilmente esquecidas, perdidas em meio a todas as outras. E é por isso que eu preciso escrever o que está em cada uma delas, como as etiquetas que ponho nas caixas da mudança.

Agora, me resta mais uma caixa para encher. A caixa de hoje à noite. Eu me preparei ansiosamente para essa festa. Foi uma das últimas oportunidades que eu tive de ver Kevin antes de ir embora, então meu corpo tremia em expectativa. É claro que fiquei deslocado no começo. A música era boa, e as pessoas interessantes, mas minha relutância em criar laços me deixou de fora de todas as rodinhas de conversa. Me sentei próximo à piscina, observando. Alice, uma integrante ocasional do grupo de Ana e Kevin, estava com as amigas perto de mim, rindo e falando sobre a namorada de um dos garotos d sala, que, ironia do destino, se chamava Leo. Daya, uma menina gordinha e extrovertida que sempre me passava cantadas em tom de brincadeira, dominava a pista de dança. Ana e Leila conversavam com um menino magrela e outro cujo sobrenome era nome de uma banda. João Raimundos? Não, acho que era Felipe Fresno. Só sei que Sara estava apaixonada por ele, e ele por ela. Acho que Leila notou que eu estava olhando, porque cochichou algo pra Ana e logo elas estavam me chamando.

-Andrei, vem cá! Disse Ana.

-A gente vai jogar um jogo, que participar? Completou Sara.

Eu provavelmente não teria aceitado se Kevin não tivesse brotado do nada e perguntado:

-Não sei em que jogo vocês estão pensando, mas estou dentro!

Ouvindo isso, acenei vagamente e me deixei levar até uma mesa redonda com cadeiras enquanto Alice e um garoto chamado Gustavo se aproximavam com uma garrafa de tequila. O jogo consistia em uma versão de verdade ou desafio na qual, se você aceitasse o desafio, a pessoa que tinha proposto tomava uma dose de tequila e, caso contrário, você tomava. A parte engraçada era que algumas pessoas que estavam jogando, como Ana e Sara, nunca bebiam.

Após algumas rodadas, a garrafa que estávamos girando finalmente parou em mim. Sara me pediu verdade, então eu pergunto se ela gosta de alguém da roda. Já um tanto bêbada, ela responde que sim. Pelo olhar que ela me lançou enquanto eu virava minha dose, acho que ela se arrependeu imediatamente.

Na próxima rodada, Alice foi desafiada por Gustavo a beijar uma menina. Gargalhando, ela levantou e foi até sua amiga Thaís, dando nela um beijo cinematograficamente exagerado. Voltou para a mesa, enquanto todos riam e Thaís corava furiosamente. Depois disso, Jeffer se juntou a nós, dizendo que tinha começado a ficar interessante. Ele propôs desafios absurdos, que iam de tirar a blusa a beijar as mais diversas partes do corpo de outros participantes, o que resultou numa Ana muito bêbada. Por fim, ele provocou uma ira vingativa em Sara, obrigando-a a se declarar para Sandro Skank, ou qualquer que fosse o nome dele, na frente de todos. E, é claro, na próxima rodada a garrafa parou entre ela e eu. Em vingança por ter feito ela admitir ter sentimentos por alguém em primeiro lugar, ela me mandou beijar quem eu mais tinha vontade. E, deixando o álcool falar por mim, me inclinei e beijei Kevin.

Não tenho palavras para descrever esse beijo, a não ser dizendo que ele encheu uma caixa inteira, sozinho. Procure bem, e tenho certeza de que vai achar uma caixa parecida na sua memória, com um beijo dentro. Mas depois que me afastei, vi um olhar de repulsa nos olhos gentis que doeu mais do que a saudade de Leo tinha me doído todo esse tempo. E sei que aquele olhar era falso, porque ele correspondeu ao beijo. Mas não importa, porque isso só faz doer mais ainda. A mesa inteira ficou em um silêncio sufocante, e eu não aguentei ficar ali mais um segundo sequer. Peguei o que tinha sobrado da tequila e saí depressa da mesa, da sala, da festa.

Não sei quanto tempo se passou até que Sara me encontrou, sentado contra uma árvore na frente da casa.

-Você vai beber isso puro?

-Eu tentei. Mas é horrível.

Ela riu, concordando.

-Imaginei. Olha, desculpa, eu não deveria ter pedido para você fazer aquilo.

-Tudo bem você não sabia.

-Na verdade, eu sabia. Vi o jeito que você olha pra ele. O mesmo jeito que ele olha pra você. O mesmo jeito que eu olho pro Felipe.

Isso me pegou de surpresa. Não imaginava estar sendo tão óbvio assim.

-Me desculpe, por aquilo.

-Não, tudo bem. Foi melhor assim. A gente vai se entender. Na verdade, eu não estou com tanta raiva. Fiz isso porque achei que seria bom pro Kevin mais do que qualquer ouro motivo. Você vão se entender também, eventualmente. E só dar um tempo pra ele.

Senti lágrimas escorrerem pelo meu rosto quando repliquei.

-Tempo é a única coisa que eu não posso dar a ele. Vou embora depois de amanhã.

Eu vi pena nos seus olhos quando ela respondeu:

-Eu sinto muito.

-Eu também. Respondi, antes de me levantar e ir embora.

Então agora que minhas caixas estão prontas para serem fechadas, acho que posso guardar minhas anotações para que alguém as encontre um dia. Eu vou embora, e Kevin vai ficar aqui, como Leo antes dele, e vai me esquecer. Sara não vai contar que estou indo embora, e as memórias vão comigo, em caixas bem fechadas através das quais o vidro quebrado das minhas decepções não pode me cortar. A não ser que alguém venha bagunçar tudo de novo.

Notas finais
Bom, é isso, pessoal. Qualquer erro, por favor, me avisem. Obrigada pelo seu tempo e, se quiser deixe um comentário. :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!