Caixa Postal
16 Capítulo 16: Por que tinha que ser eu?
Notas iniciais
POV Juliana ON
A galera ficou conversando e eu fiquei num galho grosso e baixo, sentada com o Bruno. Ele era um doce. Realmente um pouco vaidoso, mas era um doce.
– O que o Davi fez¿ — Ele perguntou bem diretamente. Eu fiquei meio sem jeito. – Não precisa responder tá¿ — Falou se abaixando um pouco para ver meu rosto.
– Eu conheci ele ontem. Não foi nada demais. – Eu falei sorrindo um pouco para ele.
– É que não parece. – falou.
– Por que¿
– Ele fica o tempo todo olhando para você, e para mim. De um jeito meio estranho sabe¿ — Ele disse sempre muito gentil.
Eu olhei par ao Davi pelo canto do olho.
– É¿ — Perguntei me fazendo de besta, mas o Bruno percebeu.
– Então Juli, posso tirar uma foto com você¿ — Ele perguntou sorrindo. Ah, ele era um fofo. Eu sorri a fiz que sim com a cabeça, então ele pegou o celular e afastou ele de nós, para tirar uma foto. Eu me aproximei dele e dei-lhe um beijo na bochecha e depois apenas fiquei encarando a câmera. Ele tirou duas fotos, nestas duas posições.
– Obrigado. – Ele disse. Convenhamos, junto do Bruno, quem era o Davi.
Eu pensava assim até olhar para o grupinho e ver o Davi saindo do parque. Ele estava apertando forte os punhos e eu rezei para que fosse porque alguém falou alguma besteira, mas eu sabia que era por causa de mim e do Bruno.
– Tem certeza que está tudo bem¿ — Perguntou o Bruno. Eu olhei para ele e abaixei o olhar.
– Sinceramente... eu não sei o que esse menino tem. – Eu disse. E nem o que eu tenho. Eu pensei.
– Bem... será que eu posso te ver de novo¿ — Ele perguntou e eu o fitei. Ele tinha um sorriso parcial e meigo, não mostrava os dentes. E seus olhos eram calmos e finos, por causa da descendência asiática talvez.
– Ahm, claro. – Eu disse sorrindo.
Dei o meu número e o meu facebook para ele. Precipitada¿ Talvez... Mas eu não estava gostando dele. E nem do Davi. Portanto eu era só uma garota ficando com um garoto.
Ele me abraçou. Não foi do tipo “quero te beijar e ficar com você”, foi do tipo “pode contar comigo”. Eu o abracei de volta e fui ver a hora. Já eram quase sete da noite, e meu pai chega as sete e meia.
– Bruno... preciso ir, daqui a pouco meu pai chega e eu gosto de deixar o jantar pronto. – Eu disse sorrindo e ele sorriu de volta.
– Bom saber que você cozinha. – Ele disse rindo e desceu do galho, logo me dando as mãos para eu descer também. Eu o abracei e passei algum tempo naquele abraço.
– Bem, então tchau Juli. – Ele disse sorrindo enquanto íamos para perto da galera para eu me despedir. Dei tchau para todo mundo.
– Eu não posso... te deixar em casa¿ — Ele perguntou meio sem jeito e sem olhar no meu rosto. Eu olhei para o céu e para a rua. Talvez fosse bom alguém me acompanhar.
– Tudo bem. – Eu disse e ele sorriu um pouco. Quando fomos atravessar a rua, ele me deu a mão, como se eu fosse uma criança, e talvez eu parecesse junto dele, ele era bem alto. Fomos o resto do caminho de mãos dadas.
– Então, seu pai trabalha com o que¿ — Ele perguntou.
– Ah, ele é militar. Já faz bem uns trinta anos, mas eu nem sei o nome do que ele é. – Eu disse rindo de mim.
– Sabe sim. Ele é militar. – Ele disse e nós rimos. Quando chegou no meu portão, ele deu um beijo na minha testa bem devagar, e sorriu calmamente como sempre. Eu sorri de volta.
– Você é como um anjo sabia¿ — Ele disse. Tinha uma expressão meio triste, como se estivesse preocupado.
– O que houve¿ Sei que não temos intimidade, mas se precisar, pode falar. – Eu disse alisando o rosto dele e sorrindo um pouco. Ele sorriu melancolicamente.
– Depois a gente conversa, anjo. – Ele falou e eu ri um pouco. – Até mais. – Ele disse e me deu um selinho, em seguida dando as costas e indo embora. Não consegui conter um sorrisinho.
Entrei no prédio e dei graças a Deus por ser sexta-feira. Amanhã não tem escola. Subi, tomei uma ducha com um sorrisinho pequeno ao lembrar do rosto do Bruno pertinho do meu, e da meu dele sobre a minha. Depois eu lembrei da cena do Davi dando as costas, indo embora.
Fiquei triste, até lembrar-me dele beijando a loira, e beijando a Anouk. Fiquei com raiva.
Fiquei com raiva até lembrar-me dele dormindo no galho, com os olhos fechados, o cabelo sendo levado pela brisa, a boca entreaberta... a boca entreaberta...
Eu já não sabia o que era aquilo.
Quando percebi, estava enrolada na toalha, encolhida e encostada na parede, abaixada.
Sentei na frente do computador do meu quarto, coloquei uma música agitada e uma roupa curta. Um short azul, uma regata vinho e prendi o cabelo molhado num rabo-de-cavalo. Uma das minhas músicas favoritas. “I’m the best” do 2ne1, um grupo feminino coreano.
Parei na frente do espelho de corpo inteiro do meu quarto e comecei a dançar loucamente, me imaginando numa apresentação muito linda e foda.
Jogando o cabelo, colocando a mão na cintura, me fingindo de foda. Sabe, como se eu realmente pudesse ser uma moral, como se eu fosse a Dara.
Era bom ficar ali, e dançar, mesmo que muito mal, me fazia soltar tudo o que eu sentia, sem gritar nem chorar.
POV Davi ON
É, eu vi. Eu não queria, eu me controlei por algum tempo mas no fim não consegui, eu a vi chegando com aquele cara. Eu a vi abrançando ele, alisando seu rosto. Eu vi ele beijar sua testa, eu o vi dando um beijo nela.
Eu não sei o que estava acontecendo comigo. Eu a conheci ontem, eu sequer soube de nada demais sobre ela, não compartilhei nada para ela... Mas mesmo assim... Era como se tivéssemos algo.
Eu ficava lembrando-me do toque dela, com meu peito lhe servindo de travesseiro. O cheiro dela...
Suspirei e abri a janela do quarto para entrar um ar. Meu apartamento estava todo apagado, meus pais haviam saído. Quando eu abri a janela, vi o quarto dela com a luz acesa. Ela estava com uma camisa cor de vinho, um shortinho azul e com os cabelos presos. Estava dançando.
Não consegui me conter e soltei um risinho. Ela estava tão espontânea. Me ajoelhei diante da janela, e fiquei com a cabeça deitada ali, olhando para ela. Ela girava, jogava o cabelo e as vezes começava a gargalhar. Às vezes encostava na parede e abaixava a cabeça, quando eu podia jurar que estava chorando. As vezes vinha até a janela e colocava o corpo para fora da mesma, sentindo o vento, fechando os olhos. Ela saiu disparada, pegou o celular. Falou por pouco tempo e depois correu para outro cômodo.
Eu suspirei e depois me toquei do que eu estava fazendo. Ficar ali observando-a me fazia gostar ainda mais dela. Ficar mais... obcecado.
Ouvi o meu telefone tocar, era o Gustavo.
– Cara, o que foi aquilo¿ Por que saiu do nada¿ — Perguntou.
– Ah... – Eu falei sem vontade de explicar.
– É sério vey, do nada você foi embora, depois de um tempão que a gente não se via! – Ele falou.
– Eu não tava me sentindo muito bem, só isso. – Eu cortei o assunto enquanto olhava ela pela janela. Tinha voltado para o quarto e estava encostada na janela, de costas para mim. Parecia estar com alguém no telefone.
– Ah sei, e quando você começou a se sentir mal¿ Quando o Bruno tava com a Ruiva¿ — Ele perguntou meio exaltado.
– Juliana. – Eu disse.
– O que¿ — Ele perguntou se estressando.
– O Nome dela é Juliana. – Eu falei devagar.
– Não importa. O que você tem com ela¿ — Ele perguntou.
– Nada.
– Então porque ficou tão esquentadinho cara¿ Se vocês não são nada, o que que tem ela ficar com outro cara¿ — Ele perguntou.
– Gustavo, se você me ligou para me jogar na cara que ela tá ficando com alguém, já pode desligar. – Eu falei estressado.
– Ah não cara... – Ele falou. – Taz afim dela¿ — Ele perguntou. – Não, não, você está SIM afim dela. – Ele disse me impedindo de responder. – Ótimo, você e o Daniel afim da ruiv... da Juliana.
– E o Lucas... – Acrescentei.
– Não, endoidou¿ — Ele negou rapidamente. Eu permaneci em silencio, sem entender. – O Lucas é primo dela, são como carne e unha desde que estavam na barriga cara! – Ele disse.
– Então...
– E parece que o Bruno também gostou dela... – Ele me impediu. Não dava para competir com o Bruno.
– E outra, cuidado com a Anouk. – Ele disse.
– Hãn¿ Por que¿ — Perguntei.
– Você não faz ideia de quantos estão aos pés dela, fala sério, ela é incrível! – Ele disse. – Uma negona, gostosa de olhos claros e inteligente cara... Não é pra qualquer um. – Ele falou. Foi só naquele momento que pensei no corpo da Anouk, e em como ela tremia quando fui beijá-la.
– Não era pra eu ter beijado ela cara... – Eu falei.
– Não era pra você ter feito um monte de coisa ein¿ Enfim, como vão seus pais¿ — Ele perguntou brincando.
– Ah, vai te fuder, vey! – Eu falei brincando com ele também.
Ficamos brincando mais um pouco até que desligamos, e a Juliana ainda estava no tele fone, mas agora andando de um lado para o outro e rindo. Devia ser aquele Bruno.
Decidi entrar mais uma vez no facebook, e vi um comentário da tal da Rebecca numa foto. Era uma foto adicionada pelo Bruno. Tinham duas fotos numa só imagem, uma era Ele e a Juliana, com os rostos praticamente encostados, e a outra era de ele encarando a câmera enquanto ela dava um beijo em sua bochecha. Como se olhasse para mim e dissesse: perdeu playboy.
Esse japinha estava me dando nos nervos.
Decidi ficar acordado até ela desligar o telefone, enquanto isso eu ficaria lendo, numa cadeira de frente para a janela. Ela só desligou o telefone de uma e quinze da manhã, quando o pai dela foi no quarto pela terceira vez e a mandou desligar. Ela colocou o fone e começou a tirar roupas do armário, parecia estar escolhendo alguma. Pegou dois vestidos, um vermelho e um verde, ambos de festa. Pegou sapatos, parecia estar experimentando eles. Parecia estar animada.
Eu suspirei quando ela finalmente dormiu, sentada no parapeito da janela, com a cabeça encostada na mesma. Parecia até estar olhando para mim.
Finalmente fui dormir, lembrando dela dançando, dela andando de um lado para o outro, de ela deitada em meu peito, de ela molhada de chuva, de ela zarolha olhando para o próprio nariz, com uma gota de água. Lembrando daquele corpo pequeno, sentado na ultima mesa, esperando que alguém fosse lá. Porque tinha que ser eu¿
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