Caius
3 III. Música para os meus ouvidos
Notas iniciais
III. Música para os meus ouvidos
Segurança era a palavra para descrever quem se aproximava, apenas o simples mover das pernas já denotava que não tinha medo de ninguém, para não falar no bambolear do corpo que era simplesmente perfeito.
Caius foi levantando ligeiramente a parte de cima do tronco para observar e tentar perceber quem era o seu anjo da guarda, ele já a conhecia. Era aquela rapariga que o olhava fixamente sempre que o avistava. Caius não sabia porquê mas tinha a impressão que ela também não era normal, ou pelo menos que tinha algo especial, como se fossem dois ímanes que se atraíam automaticamente pois ambos sabiam que tinham algo em comum, faltava apenas descobrir o quê.
Usava o uniforme da escola tal como eles, a única diferença era que o dela lhe caia como uma luva. A saia ficava modestamente mais curta do que a das outras raparigas, devido à sua altura, a camisa branca definia-lhe o que restava do corpo como se tivesse sido feita à sua medida, sem que chegasse ao ponto de ser reles, apenas um leve trago de sensualidade, o resto apenas completava a moldura perfeitamente.
Quando chegou perto o suficiente:
– Devolvam! – Ordenou num tom de voz que denunciava desprezo.
– E quem é que nos vai obrigar? Tu, gatinha? – Disse um… – Eu bem que não me importava! – Completou outro, enquanto os restantes a olhavam, rindo e rodeando-a subtilmente como faziam os leões quando aparecia uma fêmea.
Caius tentou:
–Sai daqui! Corre! – Já adivinhava como ia acabar a situação, ela com as roupas rasgadas e ele espancado, a caminho do hospital…
– Era o que mais faltava, fugir? Eu? – E como se nada a assustasse sorriu-se, como se estivesse prestes a atacar… Dera a Caius naquele momento a sensação de observar um leopardo.
Alguém tentou tocar-lhe os longos cabelos castanhos e quando todos percebemos ele já tinha sido cuspido contra a parede com o pulso partido, gritando com as dores. Outro inconscientemente, arriscou manietá-la, levando com uma joelhada direita no queixo, seguida dum pontapé no peito que o projetou uns metros para trás. Os restantes ensaiaram inúmeros movimentos que resultavam instintivamente em movimentos consertados por parte dela, como uma dança que ela sabia de cor de tanto os repetir.
Depois de três ou quatro fora de jogo, já nenhum ousava tentar nada.
– Vamos embora! Já não estamos aqui a fazer nada! – Concluiu um que parecia ser o mais sensato – Peguem nos outros! Rápido! – Os outros ainda com nítido receio aproximaram-se dos corajosos que haviam tentado a sorte, ajudaram-nos a levantarem-se devagar e afastaram-se. Alguns metros à frente, o que tinha dado a ordem de partida, virou-se ligeiramente para trás enquanto carregava um dos colegas:
– Vemo-nos um dia destes!
– Fico à espera! – Replicou ela, dizendo-lhe adeus num leve acenar, virando-se no mesmo momento para Caius,
– Caius, não é? Aqui estão os teus auscultadores… — E entregou-os gentilmente, deixando Caius a pensar que a voz dela naquele momento:
“- É música para os meus ouvidos…“
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