Caius
1 I.Caçada
Notas iniciais
I. Caçada
Ele não sabia porquê ele, entre tantos milhões de pessoas porquê ele. Tantas pessoas normais e só ele é que tinha de ser diferente. O que para esses tantos milhões é a mais comum das qualidades para ele era o mais forte dos desejos: a normalidade.
Embora ninguém nota-se o que o tornava tão especial, ou melhor, os colegas notavam mas achavam que era apenas mania, a mania de andar com auscultadores nos ouvidos, todos os dias, todas as horas, todos os minutos, até já os professores tinham desistido. Os auscultadores eram a salvação para o sacrifício que Caius vivia constantemente, e ninguém desconfiava ou pelo menos ele achava que não.
Num dos muitos dias em que voltava para casa, ao passar por um dos muitos becos, só percebeu o perigo quando já era tarde de mais. Rodeado de rapazes, a maioria desconhecidos, os restantes só os havia avistado uma, duas vezes na escola.
–Deixem-me passar. – Pede Caius, gentilmente, com a cabeça ligeiramente descaída para que não reparassem na raiva que lhe trespassava o olhar. Apetecia-lhe bater-lhes, bater-lhes tanto que implorassem misericórdia. Mas vamos ser realistas: 7 contra 1? As hipóteses não são lá muito animadoras.
–Oh, ele quer passar! — Diz um deles, enquanto os restantes riem descaradamente, como se assistissem a um espetáculo circense, em que atiram um animal aos leões, e esperam insaciáveis pelo primeiro ataque.
Neste caso já sabemos quem é o animal.
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