Darcy nunca se acostumaria à ficar longe de Theo. Mesmo seis meses depois, ainda acordava no meio da madrugada tendo a impressão de ouvir o choro do filho. Era a única parte que fazia com que se arrependesse da separação. Não Ema, não a realização de que seu casamento havia falido muito antes do nascimento do filho. Theo era o motivo de, às vezes, Darcy perguntar-se se não deveria ter insistido naquela relação. Especialmente em momentos como aquele.

Dois dias antes Ema havia ligado às três horas da manhã. Theo estava com febre, chorando, e só chamava por Darcy. Em menos de meia hora ele estava dentro do carro, à caminho da nova casa de seu filho. E lá passara as últimas duas noites, trocando compressas, tentando fazer Theo comer, dormindo no pequeno sofá que Ema possuía no minúsculo apartamento que chamavam de lar.

Estava de volta ao Vale do Café, mas sentia-se completamente exausto. Seu filho estava plenamente recuperado, mas ainda assim perguntara, aos prantos, o porque de Darcy precisar ir embora. E era tão difícil explicar para uma criança de três anos toda a complexidade de uma separação. Como diria ao filho que, na realidade, ele e Ema apenas se viram acomodados em uma relação? Que não havia amor, paixão, e que era o filho a única ligação real entre eles?

Não que não gostasse de Ema. Era uma excelente mãe, uma mulher honrada, cuidava de Theo como uma leoa. Eram grandes amigos, também. Mesmo agora não havia desconforto. Não houve brigas na separação. Apenas não eram um casal de verdade, não havia fogo, não havia neles vontade de permanecerem juntos. Theo, porém, era pequeno demais para entender tudo isso. Compreendia apenas que Darcy não estava mais todos os dias, não o buscava na escola, não cozinhava para ele.

Era uma adaptação difícil, especialmente com tantas mudanças – de cidade, de casa, de escola. Ema e Darcy organizavam os horários para que Theo frequentasse a escola em apenas um turno, e nos outros sempre havia um deles em casa. Agora ele precisava de uma babá. Ema tinha um novo emprego – uma oportunidade imperdível, mas isso significava que Darcy não estava por perto para auxiliar. E por mais que entendesse tudo isso, doía ficar longe de seu pequeno.

Estava exausto. Depois da viagem, de duas noites mal dormidas, de toda a culpa que sentia por deixar Theo. Mas precisava trabalhar. Ernesto não poderia cobrir o turno da noite, como havia feito nos dias anteriores. A opção seria fechar mais cedo, mas Darcy o final da tarde era um dos horários de maior lucro do Café. Por isso, nem bem chegou a cidade e Darcy já estava no Café.

Muitos dos clientes eram frequentadores assíduos. Café e Livros era um estabelecimento de bairro, e embora sempre recebesse novos clientes, eram os antigos que traziam maior satisfação à Darcy. Gostava de debater os últimos livros com seus clientes, de saber como estavam, conversar sobre política, futebol, ou qualquer assunto que alguém quisesse discutir.

Seu movimento geralmente era intenso até o início da noite, e então diminuía um pouco até o fechamento. Com exceção de Elisabeta, que aparecia com o entardecer e ia embora minutos antes de fechar. Ela estava ali, é claro. Sempre estava. Vestia roupas menos formais naquele dia. Um casaco vermelho, jeans de lavagem escura. Tinha seus fones de ouvido, fazia suas anotações. Era uma rotina.

Elisabeta estava entediada. Passava mais tempo no celular do que assistindo o que deveria. Havia um convite para sair com Lucas, seu colega de trabalho, no dia seguinte, e ela suspirou. Talvez devesse aceitar. Ele era um homem bonito, inteligente, a tratava bem. Porém, só de pensar em vê-lo, sentia-se desanimada. Não havia nada de errado. Era apenas... chato. Morno.

Ela suspirou novamente, seu olhar fugindo para Darcy. Talvez precisasse de mais um café, e então conseguiria pensar no que deveria estudar, e não sobre sua vida amorosa. Foi surpreendida, porém, ao avistá-lo. Darcy estava ocupando a mesa em frente à porta. Mas, ao invés dos costumeiros fones e olhar atento à tela e à porta, os olhos dele estavam fechados.

Darcy tinha os braços cruzados e uma postura relaxada. Seu peito subia e descia em uma respiração tranquila. Ele usava uma camiseta preta naquele dia, e ela havia notado o olhar cansado quando chegou. A barba talvez estivesse um pouco maior, também. E é claro, não havia passado despercebido o fato dele não estar no Café nos últimos dias. Era muito diferente ser atendida pelo antipático Eduardo, ou Ernesto.

Já eram mais de oito horas da noite, e Elisabeta sentiu seu coração amolecer. Levantou-se, arrumando suas coisas com o máximo de silêncio possível. Ainda assim, precisaria acordá-lo. Mesmo que pudesse deixar a conta para o dia seguinte, não havia como deixar Darcy dormindo sozinho, com a porta aberta. O Valé do Café não era uma cidade perigosa, mas não se podia dar tanta sorte ao azar.

Ela aproximou-se com cuidado, um sorriso brotando em seu rosto ao vê-lo mais de perto. Cecília tinha seus motivos para suspirar por Darcy. Ele era realmente muito bonito, e a visão de Darcy adormecido fez pipocar em Elisabeta o desejo de acordá-lo com um beijo. Balançou a cabeça, afastando o pensamento. Seria completamente inadequado.

— Darcy? – ela o chamou, em voz baixa.

Darcy sequer se moveu.

— Darcy, acorda. – Elisabeta repetiu, um pouco mais alto.

Nada. Aproximou-se, então, tocando o ombro dele. Seus músculos ali eram firmes, especialmente pelos braços cruzados. Elisabeta chamou novamente, o cutucando de leve. Os olhos claros e sonolentos dele se abriram, e Elisabeta sentiu-se estranha. Nunca havia ficado tão perto dele. Seus olhos eram verdes? Ou azuis?

— O que? – ele perguntou, olhando para os lados.

A realidade o atingiu ao perceber que ainda estava no Café. A mão delicada de Elisabeta estava em seu ombro, e ela o encarava com uma expressão curiosa. Havia adormecido ali. Será que não cansava de se mostrar um idiota perto dela?

— Me desculpe, Elisabeta. – ele passou a mão pelos cabelos, enquanto ela se afastava. – Eu acabei adormecendo. Você precisa de alguma coisa?

— Não. – um grande sorriso surgiu nos lábios dela. – Eu estou de saída.

Darcy olhou para o relógio.

— Mas não são nem oito e meia. – Darcy disse, e então coçou a cabeça.

— Bom, parece que você precisa de algum descanso. – ela deu de ombros. – E eu posso terminar tudo em casa.

— Não, por favor. – ele levantou-se. – Eu só estou um pouco cansado. De qualquer forma, isso não é jeito de tratar uma cliente.

— Ora, eu não vou deixar de voltar por causa disso. – Elisabeta fez graça. – E por mais que os sofás daqui sejam confortáveis, eu não sei se são o melhor lugar para dormir.

— Me desculpa, de verdade.

— Você não precisa se preocupar com isso, Darcy. Eu mesma já perdi as contas de quantas vezes quis me jogar nesses sofás.

— Bem, eles estão a disposição. – Darcy coçou a cabeça. – Mas dá próxima vez podemos combinar de fazer isso juntos.

Elisabeta ergueu a sobrancelha.

— Digo, ao mesmo tempo. – ele tentou corrigir, constrangido.

Ela sorriu com a confusão dele. Darcy era um daqueles homens que não fazia ideia do efeito que tinha nas mulheres.

— Geralmente eu prefiro que os homens me paguem um jantar antes de um convite desses. – ela disse, inocente. – Mas talvez eu possa abrir uma exceção para você.

Darcy abriu a boca para responder, mas não encontrou palavras.

— De qualquer forma, parece que você realmente precisa descansar. – Elisabeta desviou o assunto.

— Eu preciso. – Darcy passou a mão pelo rosto. – Mas você não precisa ir embora. Eu vou para casa em seguida.

Darcy sentou-se novamente, desanimado. Voltaria sim para casa, mas ainda muito longe do filho. Suspirou, passando as mãos pelos cabelos. Elisabeta o observou. Ele parecia cansado, preocupado. E mesmo que não fossem amigos, mesmo que nunca realmente conversasse com Darcy, sentiu-se impelida a perguntar.

— Está tudo bem? – ela disse.

— Sim. – Darcy ergueu os olhos para ela. – Meu filho estava doente, eu passei os últimos dias cuidando dele.

— Ele está melhor? – perguntou, preocupada.

— Theo está melhor, obrigado por perguntar. – Darcy suspirou pesadamente. – Ao menos fisicamente.

Elisabeta ergueu a sobrancelha, e Darcy novamente passou a mão pelos fios curtos.

— Eu me separei recentemente. – Darcy explicou, e Elisabeta fingiu que nunca havia debatido o assunto com as irmãs. – E meu filho está com alguns problemas de adaptação. Nós todos estamos.

— Eu sinto muito. – Elisabeta respondeu, sem saber o que mais dizer.

— Crianças não deveriam ser tão afetadas pelas decisões dos adultos. – Darcy disse, mais para si mesmo do que para ela. – Mas eu acho que precisaria de uma cerveja, ou vinte, para debater o assunto.

Ele deu um sorriso estranho, e Elisabeta sabia que era a hora certa de se despedir. Ainda assim, não conseguiu. Não o conhecia direito, mas era óbvio que ele estava angustiado. Jane e Cecília certamente teriam conselhos ótimos mesmo para um quase desconhecido.

— Eu acho que já vi algumas no cardápio. – ela ouviu a própria voz.

Darcy a encarou.

— Se você quiser conversar, eu não tenho outro lugar melhor para estar. – Elisabeta deu de ombros. – E você parece estar precisando conversar.

Darcy pensou por alguns segundos. Ela parecia realmente sincera. E bem, seria bom conversar com alguém. Especialmente alguém que não conhecia Ema, Theo, ou toda a história. Não conhecia Elisabeta direito, mas conhecia suas irmãs. Eram boas pessoas, boas conselheiras. Ele deu de ombros também, levantando-se.

— Você tem alguma preferência por marca? – perguntou, caminhando até as grandes geladeiras.

— A que você preferir. – Elisabeta sorriu.

Darcy pegou duas garrafas e as abriu, deixando as tampas no balcão. Passou pela porta e girou a chave, virando também a placa que indicava estabelecimento fechado. Apontou o sofá para Elisabeta, e entregou a ela uma das garrafas.

— Acho que você vai se arrepender da solidariedade. – ele deu um sorriso pequeno, sentando-se em uma das cadeiras do outro lado da mesa.

— Bem, não somos completos desconhecidos. – Elisabeta sorriu, bebendo um gole da cerveja. – O seu café mantém a minha sanidade, eu acho que é o mínimo que posso fazer.

— Mas você paga pelo meu café. – Darcy riu.

Elisabeta ergueu a garrafa, apontando um dedo para ela.

— Eu estou entendendo isso como cortesia. – ela piscou para ele.

— Justo. – ele respondeu, e então estendeu a mão para ela. – Meu nome é Darcy Williamson, eu tenho trinta e um anos, e estou separado há seis meses e tenho um filho de três anos.

Elisabeta apertou a mão dele.

— Elisabeta Benedito, tenho vinte e cinco anos, não tenho um status de relacionamento agora. – disse, graciosa. – E no máximo posso ser considerada responsável parcialmente pelo cachorro da minha irmã.

Darcy deixou escapar uma risada.

— E então, em qual categoria você se encaixa? Apaixonado pela ex ou odiando a ex? – ela brincou.

— Nenhum dos dois. – Darcy sorriu. – Ema e eu somos aquele tipo raro de separação amigável.

Elisabeta ergueu a sobrancelha.

— O problema não é com Ema, é com Theo. – Darcy suspirou. – Ema precisou mudar de cidade com ele, e eu estou aqui.

— Foi por isso que vocês se separaram? – Elisabeta perguntou. – Por ela precisar mudar de cidade?

— Não, isso foi depois da separação. Mas Theo não consegue entender porque o pai não pode estar por perto. – ele disse, triste. – E eu não sei o que dizer ao meu filho.

— Mas é normal, não é? Ele é pequeno, ainda não compreende algumas coisas.

— Não é fácil, entende? Olhar para o meu filho e dizer que preciso ir embora. – Darcy a encarou, bebendo mais um gole. – Mas eu não posso deixar o Café para trás. O que eu ganho aqui é o que sustenta o Theo.

— Eu não tenho experiência com crianças. – ela sorriu, desculpando-se. – Mas, na minha opinião, o seu filho vai compreender tudo isso um dia.

Darcy deu de ombros.

— Ele vai. – Elisabeta reafirmou. – Vai entender que tem um pai que está fazendo tudo o que pode por ele.

— Será que eu estou? – Darcy questionou. – Será que eu não deveria largar tudo e ficar com meu filho?

Elisabeta sorriu.

— Você conhece o meu pai... O Seu Felisberto é um homem de negócios. Passou a maior parte da nossa infância longe de casa, viajando à negócios. – Elisabeta disse. – E mais cedo ou mais tarde todas nós entendemos que ele pensava no nosso futuro.

— Eu espero que Theo consiga pensar nisso um dia.

— Tenho certeza que ele vai.

Darcy assentiu, ficando em silêncio por alguns minutos. Não um silêncio constrangedor. Apenas duas pessoas terminando uma garrafa de cerveja.

— Obrigado por me ouvir. – ele disse, de repente. – Eu tenho certeza que você teria coisa melhor para fazer.

— Não, na verdade. – ela deu de ombros. – Especialmente agora que ouvi você cogitar deixar o Café para trás. Meus fins são unicamente egoístas.

Darcy riu alto ao ouvi-la.

— É tudo interesse, então?

— Completamente. – Elisabeta sorriu. – Eu quase passo mais tempo aqui do que em casa.

— É bom tê-la por aqui. – Darcy disse, simplesmente. – Você, suas irmãs.

— Ernesto não parece gostar tanto assim. – Elisabeta disse, maliciosa.

— Ernesto é um preguiçoso. – Darcy sorriu. – Um bom rapaz, mas o quanto antes puder se livrar do trabalho, melhor para ele.

— As vezes eu sinto que ele vai me expulsar. – Elisabeta riu. – Estou feliz com essa troca. Você é uma companhia mais agradável.

— Você também, Elisabeta Benedito. – Darcy piscou para ela. – E acho que agora posso me considerar em débito. Estou a disposição para ouvi-la quando precisar.

— Com cervejas? – Elisabeta olhou para sua garrafa pela metade.

— A julgar pelo quanto você bebeu, eu acho que vou oferecer uma taça de vinho na próxima vez. – Darcy riu.

— Mas você não vende vinhos. – Elisabeta ergueu a sobrancelha. – Você está me chamando para sair, Darcy?

Darcy sentiu as bochechas corarem. Não havia pensado nisso. Será possível que tudo o que dizia perto dela tomava outra conotação?

— Não... – ele disse, e Elisabeta riu. – Bem, se você quiser, é um convite.

— É um convite, então. – ela piscou para ele.

Então levantou-se, pegando suas coisas, e despediu-se de Darcy.