Notas iniciais
Oi! Obrigada pelos oito comentários no capítulo anterior e pelos catorze acompanhamentos, que só aparecem como oito porque vocês não me deixam ver quem são :C mas tudo bem! Gente, pra quem achou o Miles chato no último capítulo, se preparem: vocês vão ODIAR a Mikaela! HUSAHUSAUHS Beijos, boa leitura e não me abandonem por eu só criar personagem pau no cu.

♚

Lá, logo à frente dela, na penúltima e relevante carteira da fileira próxima à parede, estava ele.

Sentava-se da forma mais certinha e irritante possível. Costas retas, tórax enfatuado e óculos limpos ocasionalmente empurrados nariz acima com um movimentozinho elegante do indicador. Um suéter azulado estava jogado sobre a camisa branca, ambas as peças contrastando com a pele clara e repleta de pintas do rapaz. Seus quase-cachos de tom caramelo eram a única desarrumação à parte da criatura irritantemente engomadinha na frente de Mikaela, que olhava para os ombros largos dele com a maior cara de estranheza.

Mikaela jamais se vira mais incomodada com a presença de um normal como ele. Que aparência e jeito entediantes, cara! Podia ter uma reação mais interessante diante de suas cutucadas, provocações e tudo mais, mas então por que só ficava olhando feio ou tentando revidar com ofensinhas ao nível dela?

Não era assim que funcionava assim o mundo ao redor de Mikaela. Nele, ou você era muito melhor do que ela, ou você era notavelmente pior. Não tinha essa de ficar em cima do muro, não.

Ele simplesmente não devia responder à sua altura.

Iludido, achava que era tão bom quanto ela em ser incomodamente petulante? Mikaela tentava contar mentalmente quantos petelecos na orelha aquele menino merecia, roendo o que sobrava de esmalte preto nas unhas e metralhando-o com os olhos puxados de mestiça tailandesa.

Mikaela olhava para o rapaz e, agora, já desistindo de perturbá-lo por enquanto, pensou em que vida chata uma pessoa com aquela cara devia levar. Aquele bicho alto e fail diante dela devia mesmo ser muito infeliz daquele jeito. Por isso ficava sozinho o tempo todo — ninguém quer ficar perto desse tipo de gente.

Certo, ninguém ficava perto dela também, mas isso era inveja.

Mikaela era extremamente original e eles, todos iguais. Queria estampar na testa a frase "eles riem de mim por eu ser diferente, eu rio deles por serem todos idênticos". Não existia uma única pessoa tão incrível como ela no mundo inteiro, ainda que muitos tentassem conquistar esse feito, claro. Mikaela demonstrava ficar brava, mas até que os entendia. Se não fosse ela, também desejaria ser ela.

Já ele era cem por cento pé no saco e cem por cento compatível com o tipo de gente que Mikaela detestava. Mika sequer parava de pensar no quão escroto o carinha era e achava mais do que merecido o fato de só vê-lo sozinho.

Tá, ela também era sozinha, já ficou claro. Mas tinha seus amigos fora daquela droga de colégio — e não eram poucos. Moravam do outro lado do país, mas eram amigos e ela não estava nem aí. Não precisava daquele povinho careta que achava que vivia um seriado adolescente da Disney, com direito à patricinha, o jogador de futebol americano e a mocinha considerada estranha que é mais normal que todo mundo junto e fica com o cara mais gostoso no final.

Total losers.

Mikaela sim era uma rainha.

Dentre as muitas coisas que ela não entendia no mundo, era a necessidade dos outros de sempre quererem ser normais. Pessoas normais eram sempre as piores, defecando regras e andando por aí como se nada as afligisse simplesmente por isso — por estarem dentro das normas do que era certo e do que era errado. Julgavam todos como se não houvesse amanhã.

Era sempre assim, todo mundo julgando todo mundo (porque, por mais que todas as pessoas digam que não para parecerem boazinhas, elas julgam). Isso nunca mudaria, anyway.

Mikaela, por exemplo, detestava julgamentos precipitados e estava ali, olhando aquele moleque em sua frente e pensando na vida de fezes que ele levava. Hipocritamente humana, ela era. E a cara dele já dizia tudo do que ele era: um filhinho de papai que não sabia nada da vida e que pegava melhor numa caneta que numa garota.

Só olhando para ele, dava para ver o início e o desfecho de sua vida:

Quando criança, ele sofria bullying por ser burro (e zoado).

Aí cresceu e ficou super inteligente e aplicado (porém continuou zoado).

Cresceu mais, ficou velho e rico, ao conseguir casar com uma mulher já estava velho demais e morreu virgem do mesmo jeito (e ainda zoado).

Era tão fácil ler a cara daquele moço e ver que era um fracasso social. Tão fácil para Mikaela quanto passar o dia inteiro lendo atualizações em suas redes sociais ou os livros que estavam na moda atualmente, claro. Ela revirou os olhos e começou a bater as unhas na carteira.

Mikaela adoraria o local sorteado para ela se sentar durante o ano todo se não fosse por ele, carrancudo ali na frente, ignorando a coisa toda. A localização dela era maravilhosa, longe de todo aquele povo ridículo e ainda escondida dos olhares dos professores! Mas tinham de botá-lo ali? Ele atrapalhava a possibilidade de Mikaela poder cochilar, já que até isso ela poderia fazer num canto escondido daqueles, do lado do armário e atrás de uns seis adolescentes cabeçudos.

Cansada, debruçou-se sobre a mesa, pensando no que comeria no lanche e procurando algum amassado nas costas do cara. Literalmente engomadinho. Nem para ser um nerd legal aquele menino servia. Podia ser cool e geek, ou ser o nerd clássico mesmo, de perninhas de saracura, vozinha trêmula e medo de tudo e todos. Mas, não, ele tinha de não se encaixar em coisa nenhuma.

Nem para ser mocinha de valentões serviria, afinal não aparentava ser muito fracote ou só muito medroso. Era só sério, chato e linguarudo — ninguém nem tentava bater nele, de tão sem-graça que seria. Para fugir de uma briga, seria só falar algumas palavras difíceis e sair correndo enquanto os grandões acéfalos ficavam com erro no cérebro.

Coisa mais chata.

— O que você achou da minha proposta? — minutos depois de encher o rapaz e não obter mais resposta, Mikaela decidiu insistir, jogando o fone pro lado e cessando a música da Evanescence por um momento. — Eu tenho muitas fotos boas, sabia?

— Cala essa boca — ele respondeu e nem virou-se para olhar para ela. — Ladre em outro canto, eu não vou te dar atenção.

Ofendida, Mikaela olhou-o de cima a baixo, fechando a cara e olhando para a janela com as mãos no rosto.

Estava um dia lindo e anuviado para ser alguém depressivo, mas ainda bem que ela não era assim. Era feliz só de ser ela mesma, ela pensava. Qualquer um seria. Ficou melancólica por um minuto antes de sorrir sozinha por causa disso.

Mikaela quase mandou um beijo para a parede pensando no quão diva era, passando o dedo por baixo da gargantilha de tatuagem e se perguntando se o cara teria lhe chamado de cadela só por conta daquilo.

Ela pensou que aquilo era uma tentativa de provocação mais do que clichê e fez bico, sentenciando mentalmente: "Esse mau humor é falta de sexo, certeza."

Decidiu não ser malvada dessa vez.

— Eu te deixo andar comigo no recreio se quiser — ela propôs como a dona de uma ONG para gente sem sal. — E posso arrumar o seu cabelo de uma forma menos "a-vaca-lambeu", assim você arruma uma garota.

— Eu não quero uma garota.

Mikaela ergueu as sobrancelhas e perguntou-se se ele seria gay, mas logo esqueceu isso. Se fosse, meninos já teriam descoberto e ele, já apanhado.

Belo colégio, aquele.

— Mas é pensando justamente assim que você não arrumará nenhuma!

— Ótimo, eu não quero mesmo.

Mikaela parou e pensou.

Havia uma menina na outra sala que era a cara dele e Mikaela já os vira juntos algumas vezes. Ele vivia carregando as coisas dela e querendo dar uma de educado para cima da menina. Mika não via a menor graça nela; era baixinha e negra, usava óculos e coque no cabelo crespo quase sempre. Bonita, mas outro pé no saco.

— É aquela bonitinha da outra sala, não é? — indagou. — Te arrumarei um encontro com ela.

O menino à frente pareceu hesitar antes de se levantar, fazendo todo mundo virar a cara para ele. Lá na frente, a professorinha levantou o quase-nada de sobrancelhas que tinha e ficou esperando algo da parte dele, que foi até a mesa dela e cochichou algo em seu ouvido enquanto olhava continuamente para Mikaela.

Percebendo a maldita intenção daquele menino, sentiu seu estômago cair no chão. Deu um sorriso amarelo, chamando-o de filho de uma meretriz silenciosamente enquanto a professora balançava negativamente a cabeça para ela.

Vagabundo.

Não ficaria assim, não.

Mas aí a professora cochichou algo no ouvido do garoto e ele encarou incrédulo a mulherzinha, parecendo super irritado com o que escutara e voltando a sussurrar algo para ela.

Virgie parecia decidida do que dissera e balançou negativamente a cabeça, dizendo as únicas coisas que Mikaela pôde começar a identificar naquela cochichação toda.

— Desculpe-me, querido, mas dessa vez não temos o que fazer e você terá de colaborar. — Ela enrolou o dedo numa mecha caramelo dele, sorrindo compreensiva. — Fique bem, Angelo. Será questão de tempo até tudo se ajeitar, meu amor.

Com impaciência estampada na cara, o agora nerd com nome, Angelo, retornou a seu lugar e escondeu o rosto nas mãos, soltando um grunhido de irritação que a sala inteira ouviu. Ela não segurou a risada.

— Por que tanta decepção, Angelozinho? — Mikaela ironizou, mordendo a língua e jogando o cabo de pirulito pela janela. — A tia não te deixou ir fazer caquinha no banheiro?

O tal Angelo virou-se para trás, com cara de desgosto e destroçando o lábio inferior de tanto mordê-lo. Dava para ver que estava explodindo de raiva; Mikaela adorou.

— É Miles — ele corrigiu — e as coisas não vão ficar assim, se é o que você está pensando.

Ela deu um sorrisão e bateu palminhas, fazendo seus olhos minúsculos sumirem em meio à quantidade absurda de bochecha que tinha. Sequer sabia o que ele havia ido falar para a professora, mas, se o "não" o deixara com raiva, ela já amava aquela velhinha trinta vezes mais.

Estava sentindo um prazer novo e maravilhoso em ver aquele abusado sair do sério e, tendo um fracassado em sua frente para perturbar quando quisesse, seu ano naquele colégio chulo poderia ser bem mais interessante. Seria só questão de não se deixar irritar com as respostas dele, é claro.

Mas isso não devia ser difícil — ele não a ignorava sempre, afinal.

Mika faria questão de fazer tudo piorar.

Notas finais
Espero que tenham gostado e que não descontem o ódio pela metidez e orgulho da Mika em mim. Quem sabe um dia ela muda, né? Então não judiem de mim. E tá na cara o que o Miles foi fazer lá, né, gente? Estou narrando com essas palavras estranhas em inglês porque isso é super da Mikaela, e eu queria deixar o cap mais com a sua cara, entendem? Nos do Miles, não vai ter isso. beijos. review pfvr.