Café, Ciúmes e os Acasos do Amor
20 Não faz isso com a gente
Notas iniciais
Sentado no sofá, Damien endireitou a coluna e tentou arrumar a roupa. Arregalou os olhos ao ver que era o irmão de Taylor à porta. O detetive particular que o ruivo contratou após o mal-entendido no parque avisara, há alguns dias, que havia encontrado o rapaz. Tim e o pai haviam se mudado de Ottawa para Toronto depois que Taylor foi embora e, por conta disso, foi difícil localizá-los. O ruivo entrou em contato com Timothy por telefone e contou onde Taylor estava morando. Só não esperava que ele aparecesse do nada sem aviso prévio.
Timothy, por sua vez, estreitou as pálpebras ao ver o ruivo todo amarrotado e o irmão com os lábios inchados. Ele viera o caminho inteiro refletindo sobre o que esperava encontrar e o que desejava falar. Pretendia escutar o irmão com calma e conversar de maneira madura, a fim de descobrir por que Taylor havia sumido daquela forma. Sua intenção inicial era tentar compreender a atitude do irmão, mas deparar-se com aquela cena foi como receber um soco no estômago e Timothy sentiu que estava sufocando em todos aqueles sentimentos ruins que ele vinha acumulando desde que Taylor saíra de Ottawa repentinamente, como um fugitivo.
— Então é aqui que você veio se esconder? – Tim disse enquanto cruzava os braços. Sua vontade ainda era de esquecer tudo e abraçar o irmão. Ele era seu ídolo. Tim o amava demais. Sempre quis ser um terço do que Taylor era. Mas não conseguiria superar aquele abandono tão cedo. – E está vivendo numa boa como se a gente não existisse?
Taylor continuou olhando em choque para o irmão. Como diabos ele o havia encontrado?
Agora que se encontrava frente a frente com Timothy, a culpa pelo acidente voltou a atingi-lo em cheio. Ele sentiu-se egoísta por, como o próprio Tim falou, estar vivendo numa boa depois do que havia acontecido. Do que havia deixado acontecer. Para completar, outra culpa o abateu: a de ter fugido como um covarde para não ter de encarar o irmão e enfrentar seu medo de não ser perdoado.
— N-Não é isso... – Murmurou confuso, sua expressão adquirindo rugas de nervosismo. – Tim, como você... Como você chegou até aqui?
— Aquele ruivo me ligou. Damien, não é? – O rapaz apontou para Damien, que xingou baixinho já imaginando o que Taylor iria dizer. – Mas, sabe, eu já me arrependi. Deixa pra lá. Eu vou voltar pra pousada e tentar remarcar a minha passagem de volta pra Toronto. Você não está interessado em conversar. Se estivesse, teria me procurado. Nem sei por que eu vim.
— Não! – Taylor exclamou e avançou alguns passos, segurando o pulso de Timothy quando ele deu as costas e começou a se afastar. Era seu irmão mais novo ali. Aquele que o via como um exemplo a ser seguido desde que eram crianças. Era tão difícil tê-lo magoado e, agora, vê-lo tão cheio de rancor e raiva nos orbes cor de mel era pior do que ser esmagado por um caminhão. – Tim, isso não é verdade. – Seus olhos marejaram e precisou inspirar fundo para se conter. – E-Eu pretendia entrar em contato...
Timothy suspirou e puxou o braço tentando não ser brusco demais. As lágrimas de Taylor não o comoviam. Não depois de ter chorado dias e noites pensando onde seu irmão poderia estar, se perguntando se estava tudo bem e por que ele havia desaparecido daquela forma. Menos ainda depois de acompanhar toda a preocupação que isso causara no pai dos dois.
— Eu estou cansado. – Disse em um tom seco que em nada parecia com ele mesmo. – Eu estou nessa pousada. – Pegou o papel com o endereço no bolso e estendeu para ele. – Vá até lá depois e conversaremos com calma. Vou esperar mais uns dias antes de voltar para casa.
Taylor pegou o papel e ficou olhando para ele por alguns minutos, estático, sem reação. Timothy já estava longe quando retornou para dentro de casa, encontrando Damien em pé no meio da sala, parecendo ansioso e nervoso. Taylor amassou o papel na mão, já tendo decorado o nome da pousada. Todos os sentimentos e sensações ruins, conflitantes, de culpa, arrependimento e tristeza, convergiram na direção do ruivo.
— Como você pôde...? – Sua voz saiu baixa, mas qualquer um na sala seria capaz de escutá-lo. Seus punhos se apertaram. – Como você pôde se meter na minha vida dessa maneira? Como pôde contatar meu irmão sem falar comigo? Sem o meu consentimento?! Nós nem sequer havíamos conversado direito sobre isso... Você só ficou sabendo sobre o Timothy e sobre o acidente por causa daquela brincadeira estúpida no parque!!! Quem você acha que é para fazer esse tipo de coisa pelas minhas costas!?! – Quase gritou a última pergunta enquanto olhava para o ruivo com raiva.
Damien encolheu os ombros e encarou o chão. Nunca havia visto Taylor com tanta raiva e estava com medo de onde aquele sentimento poderia levá-lo. Mal haviam se entendido e agora isso. O irmão de Taylor não poderia ter escolhido pior hora para aparecer!
— Eu não fiz nada de mal. – O ruivo tentou se defender. – Você parecia tão ferido naquele dia... Eu só quis ajudar. Não imaginei que ele fosse aparecer aqui. Nós só nos falamos uma vez pelo telefone e ele disse que não queria conversar. Pensei que ele não fosse vir.
— Você só quis ajudar... – Taylor riu irônico. – Parabéns, Damien. Você ajudou muito! Ajudou a destruir a confiança que eu tinha em você e piorar ainda mais as coisas entre eu e meu irmão. Você não tinha o direito de falar com ele e contar onde eu estava sem me consultar, não devia nem ter ido atrás dele. Que inferno! Isso não era assunto seu! – Taylor colocou uma mão sobre o rosto, tentando se segurar. Deus, como seu peito doía. – Eu não posso continuar aqui... – Avançou em direção ao corredor dos quartos.
— Não! Espera! Você não pode sair assim. Nós estávamos nos entendendo. Não é justo com a gente fazer isso! – Damien correu para segurá-lo pelo pulso e impedi-lo de se afastar. –Se eu não fizesse nada, você ia continuar se escondendo! Você não teria coragem de procurá-lo. Eu tive de fazer isso por você.
Taylor ardeu de raiva ao escutar aquilo. Talvez por que houvesse um fundo de verdade ali.
— E o que você sabe sobre mim?! Você não sabe nada sobre mim! Eu tenho 27 anos, quase 28, e quanto tempo da minha vida você conhece?! Três meses e meio! E você acha que já pode afirmar o que vou ou não vou fazer?! – Perguntou, mas não esperou pela resposta. – Eu não quero continuar vivendo sob o teto de alguém que me considera um covarde que nunca conseguiria resolver os próprios problemas sozinho! Eu me mudei para cá porque precisava me reencontrar, me redescobrir como pessoa e como médico. Porque precisava de um tempo para me perdoar. Mas você me tirou esse tempo, Damien. E eu não posso te perdoar por isso. – Puxou o braço e continuou o caminho para o quarto.
Chegando lá, pegou as malas com as quais havia chegado em Canmore, jogou-as sobre a cama e começou a pegar suas coisas para socar dentro delas sem muito cuidado.
Damien pensou em ir atrás dele, mas sabia que não adiantava. Taylor, nervoso como estava, não iria ouvi-lo. O ruivo afundou as mãos na cabeça pensando no que poderia fazer para impedi-lo, mas não havia nada. Taylor estava com ódio dele. E Damien só havia tentado ajudar! Inspirou e expirou profundamente, levantou e foi até o quarto do médico. Ele jogava as coisas dentro da mala e pareceu não notá-lo quando entrou no quarto.
— Pelo jeito que você falou. Foi por isso. – Ele disse como se a discussão não tivesse sido interrompida. – Eu não podia deixar você ser feliz pela metade. Eu estou acostumado a ter uma família emprestada, mas... Você não. O brilho nos seus olhos quando você falou no seu pai e no seu irmão... Você os ama tanto que não seria capaz de superar o medo. Eu não me arrependo do que fiz e faria de novo porque eu sei que você precisa enfrentar tudo isso. Você tem força para enfrentar.
— Para de falar como se você tivesse feito a coisa certa! – Taylor gritou parando o que fazia e olhando para o ruivo. Sua vontade era socá-lo. – Porque você não fez! Você poderia ter conversado comigo sobre isso, me ajudado a encontrar a coragem, se tem tanta certeza que eu sou um fraco! Mas não deveria ter agido pelas minhas costas!
Taylor terminou de arrumar o básico e pegou duas malas. Ele caminhou até a porta e parou bem à frente do ruivo.
— Me deixa passar, Damien. – Falou amargo. – Eu vou para a clínica. Só falta eles terminarem de arrumar o banheiro do segundo andar.
— Eu não posso deixar você sair daqui assim. – Damien disse sério enquanto tocava de leve a bochecha do médico. Seu coração parecia que queria parar. Estava doendo tanto só de imaginar que, quando acordasse no dia seguinte, Taylor não estaria lá, sorrindo e desejando bom dia. – Por favor...
Taylor virou o rosto, afastando-se do toque do ruivo.
— Você não tem poder sobre minhas decisões. Já decidiu muito mais por mim do que eu gostaria.
Damien abriu a boca, mas desistiu de continuar argumentando. Não iria implorar. Ele sabia, quando procurou pelo irmão de Taylor, que o médico poderia odiá-lo por ter feito aquilo. Mas o ruivo pensou que nunca teria uma chance com ele. Achou que Taylor ficaria com raiva, porém que acabaria entendendo e continuariam amigos. Mas não... Ele também sentia algo e esse algo havia se apagado completamente. Talvez um dia ele o perdoasse e pudessem continuar se falando. Entretanto, isso não importava mais.
Damien não conseguiria ser apenas amigo.
Ele deu um passo para o lado e desbloqueou o caminho. Ouviu quando Taylor saiu do quarto e quando ele bateu a porta da sala. Só então o ruivo permitiu que suas pernas cedessem, sentou e depois de algum tempo fitando a cama onde dormiram juntos, chorou.
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Taylor estranhou a cama quando acordou. Depois lembrou que estava no quarto do segundo andar da clínica. Era um espaço bom para uma pessoa. Pequeno, mas ficaria aconchegante quando começasse a decorar e ajeitar. Mesmo assim, ao se levantar e descer para o primeiro andar, onde havia um banheiro funcionante, ele percebeu o quanto era doloroso acordar sozinho, sabendo que prepararia um café apenas para si mesmo, e não para certo ruivo dorminhoco.
Ele suspirou tentando apaziguar a dor, que machucava em um lugar indefinido, espalhada por seu interior. Havia tantos sentimentos se misturando! A culpa por ter deixado Emily morrer e por ter fugido. A decepção que se sentia como médico e pessoa. Não salvara uma vida, e também deixara o coração do irmão ser destruído. Magoara profundamente Timothy e, muito provavelmente, o pai. Percebia isso agora. Seu egoísmo ao fugir sem explicar nada. Era mesmo um fraco...
Mas havia outras coisas que doíam também. A briga com o ruivo... O fato de que estava com tanta raiva, mas ao mesmo tempo queria se jogar nos braços dele em busca de consolo e carinho. Sentia-se tão sozinho naquele momento que era difícil respirar, como se houvesse uma fraqueza em seus pulmões. Os beijos e declarações do dia anterior vinham-lhe à memória e isso apenas piorava seu estado de ânimo.
— Damien, seu idiota... – Murmurou, mas quem deveria estar xingando era a si mesmo. Era possível se arrepender completamente de ter fugido para Canmore, quando ali, além de Sam, Carl, Camille, Dakota e as crianças, conhecera Damien?
Taylor tomou uma boa dose de café, pois sua noite estava longe de ter sido bem dormida. Depois disso, ele avisou Sam que não abriria a clínica naquele dia, apenas ficaria de sobreaviso em caso de alguma emergência médica na cidade. Então, após tomar banho e se arrumar, ele saiu e foi caminhando até a pousada onde o irmão estava.
Sabia que era cedo, mas não conseguiria esperar mais tempo. Precisava esclarecer as coisas. Precisava ver, nos olhos de Tim, que ele não o odiava, apesar de duvidar que merecesse perdão depois de tudo. Por saber que não merecia perdão é que fugira, para início de conversa.
Ele entrou na pousada e informou que era irmão de Tim. Como já era conhecido na cidade, a dona do lugar foi simpática e lhe indicou o quarto. Taylor precisou respirar fundo diversas vezes em frente à porta antes de criar coragem e, finalmente, bater.
Timothy estava meio dormindo meio acordado quando ouviu a batida na porta. Havia conseguido dormir com o dia amanhecendo e por isso estava totalmente grogue de sono. Mas despertou completamente ao abrir e ver que era o irmão. Tim gelou enquanto se lembrava da forma como o irmão sorria quando atendeu a porta na casa do ruivo e como doeu vê-lo feliz daquela forma. O rapaz queria muito ver o irmão feliz, mas queria estar presente na vida dele para ver isso pessoalmente.
— Não te esperava tão cedo. – Tim murmurou com a voz rouca enquanto dava passagem ao irmão mais velho. Com certeza estava com uma cara péssima, amarrotado e com olheiras. Não que Taylor estivesse muito melhor.
— Desculpe por isso. – Taylor falou enquanto entrava no quarto. Ficou incerto em pé, hesitante. – Tim... – Não aguentou e foi até o irmão, abraçando-o apertado.
O mais novo manteve os braços no ar por alguns segundos, surpreso demais para abraçá-lo de volta, mas quando Taylor fez o movimento de que se afastaria, Tim o segurou com força e o abraçou, sem conseguir conter as lágrimas. Era tão bom abraçá-lo. Quantas vezes Tim correu até o irmão e o abraçou daquela forma depois de algo dar errado? Taylor sempre foi seu porto seguro.
— Por quê? – A pergunta que estava entalada em sua garganta saiu em meio a soluços. – Por que você fez isso? Por que foi embora sem nos dizer nada? Papai e eu quase enlouquecemos.
— Desculpe. – Taylor começou a chorar também, escondendo o rosto no pescoço do mais novo. – Me perdoa. E-Eu... E-eu deixei a Emily morrer... N-Não consegui salvá-la. Não consegui! É minha culpa. – Seu choro se tornou mais forte. Era tão difícil lembrar daquilo. Era como relembrar um pesadelo que, infelizmente, não estava apenas em seus sonhos.
Tim arregalou os olhos, segurou os ombros do irmão para afastá-lo e poder encará-lo. Suas lágrimas ainda despencavam de seus olhos, mas o susto pela frase de Taylor foi tão grande que Tim parou de soluçar.
— Por Deus! De onde você tirou essa ideia absurda? Foi isso que você pensou o tempo todo? – O rapaz perguntou sem conseguir acreditar. – Como a morte dela poderia ser sua culpa, mano? Não havia nada que você pudesse fazer para mantê-la viva! Se há algum culpado sou eu que não insisti para que ela colocasse o cinto de segurança.
Taylor balançou a cabeça negando, os olhos apertados e úmidos. As lágrimas escorriam através dos cílios longos e negros.
— Eu sou médico! Eu deveria ter conseguido! Era possível! Foi irresponsabilidade e incompetência minha. Eu tinha bebido e fui dirigir... Talvez se eu estivesse totalmente sóbrio... – Ele não conseguiu completar a frase devido aos soluços. – Ela poderia estar viva... Me desculpa... E-Eu queria ter feito diferente... E-Eu... Queria ver vocês dois casando, tendo filhos, como vocês planejavam...
— Para! Para com isso, Taylor! – Tim voltou a abraçá-lo com força. – Você tinha bebido pouco e mesmo que não tivesse, não seria possível. Foi uma fatalidade. Você estava dirigindo corretamente e aquele louco avançou o sinal vermelho. O impacto da batida foi tão forte que ela estava com hemorragia interna... Você sabe disso. Ela teria morrido de qualquer forma antes mesmo de chegar ao hospital. Não foi sua culpa. Eu nunca sequer cogitei em pensar que a culpa foi sua. Mas doeu você não estar lá quando eu mais precisei. O pai tentou me consolar, mas você sabe que ele nunca foi muito bom com isso... – Tentou sorrir enquanto apertava o irmão ainda mais como se tivesse medo que ele fosse desaparecer outra vez. – Doeu chegar ontem naquela casa e te encontrar sorrindo como se nem se lembrasse da gente. – Sussurrou.
— E-Eu estava com tanto medo que você fosse me odiar... – Murmurou, sentindo-se péssimo por ter deixado o irmão sozinho em um momento tão delicado. – Eu sou tão egoísta. Me desculpa. Eu não conseguia me perdoar e tinha medo... M-Medo de perder meu irmão. Mas fiz você passar por isso. – Ficou em silêncio por um segundo, antes de sussurrar em retorno: – Eu sei que não tinha o direito de estar feliz depois do que aconteceu. M-Mas... Eu pensava em você e o pai todos os dias. – Segurou-o pelos ombros e o afastou um pouco para olhá-lo. – Como ele está?
— Você deveria ter conversado comigo. – Tim disse tentando controlar o choro. – Eu não consigo ficar bravo com você. Eu te amo, Taylor. Você é tudo pra mim. – O rapaz não conseguiu controlar um soluço e levou as mãos ao rosto enquanto fungava. – Você e o pai são tudo pra mim. Eu amei muito a Emily. Ela estará sempre no meu coração. Mas ela se foi e eu não posso perder mais ninguém, entende? Principalmente não você. – Ele respirou fundo e conseguiu se acalmar um pouco. – O pai está bem. Daquele jeito dele, você sabe. Sem você por perto ele anda relaxado na dieta e comendo todo tipo de porcaria gordurosa. Nós nos mudamos. Estamos vivendo em Toronto porque eu passei para o doutorado e vou começar daqui uns meses. Fomos para nos adaptar. Levei um susto quando aquele ruivo ligou, e eu meio que desliguei na cara dele depois que ele disse que você estava aqui.
Taylor sentiu todo seu coração se acalmar ao escutar aquilo. Ainda se culpava pela morte de Emily e se sentia um péssimo médico, mas batalharia, dia após dia, para se redimir por aquela noite. Fosse ajudando o máximo de pessoas que conseguisse, assim como nunca mais deixando o irmão se preocupar daquela forma.
— Aquele velho danado. – Taylor falou e soltou uma risada meio chorosa, que Tim acompanhou de leve. Quando ele sorria, as sardas que o mais novo tinha nas bochechas pareciam ganhar um realce. – Você já vai começar o doutorado? Você sempre foi o mais inteligente de nós dois. – Taylor sorriu e, emocionado, o abraçou de novo e o beijou na testa. – Eu também te amo, maninho. Me desculpa por não ser um irmão mais velho melhor...
— Tenho certeza de que você vai se redimir e voltar a ser o melhor irmão mais velho do mundo – Tim disse com os olhos cheios de lágrimas outra vez. – Eu tenho que ligar para o pai. Falei que ligaria assim que encontrasse você. Não comprei minha passagem de volta... Ainda faltam alguns meses para as aulas e eu pensei em ficar aqui um tempo. – Falou em um tom lento por estar com medo que pudesse atrapalhar a nova rotina do irmão. Ele e aquele ruivo certamente pareciam muito próximos, mas Tim não queria ser intrometido e já ir perguntando qual era a relação dos dois.
— É, eu vou... – Taylor sorriu e fez um carinho na bochecha do mais novo. – Eu deveria ligar para o pai. Ele vai soltar os cachorros em mim... – Riu fraco. – Eu deixei uma mensagem para ele antes de partir. Falei que estaria bem... Que precisava de um tempo. Mesmo assim, ele deve ter se preocupado muito.
Taylor andou pelo quarto, olhando em volta.
— Eu ofereceria para você morar comigo na clínica, mas é muito pequeno lá. Estou feliz que vai ficar um pouco! E-Eu... Eu talvez volte com você, mas precisaria encontrar um médico para me substituir. Não poderia deixar a cidade sem ninguém para cuidar dos moradores. – Taylor falou, adquirindo um ar um pouco distante. Ele e Damien... Não existia mais ele e Damien. O ruivo era a única coisa em potencial que o prenderia à Canmore depois de resolver-se com o irmão. Por mais que houvesse se apegado a outras pessoas e gostasse do clima da cidade... Também havia deixado muita coisa para trás em Ottawa. Porém agora seu pai e irmão estavam em Toronto, e Taylor se sentia meio sem chão, sem saber o que esperar do futuro.
Tim estava pegando o celular, mas parou quando ouviu o que o irmão disse.
— Voltar comigo? Pela forma como você estava sorrindo ontem, eu pensei que você estava feliz aqui. Eu não te via sorrir daquele jeito há... Nem lembro quando foi a última vez que eu vi seus olhos brilhando tanto. Você não precisa voltar comigo porque acha que eu te culpo por alguma coisa. Se você é feliz aqui, fique. Eu vi pouco, mas parece ser uma cidade ótima. Tenho certeza que o pai vai concordar comigo. Aliás, eu acho que ele deveria vir morar aqui. O ar daqui faria bem a ele. Toronto é um pouco... Sufocante.
O mais velho mordeu o lábio.
— Eu estou meio confuso no momento atual. Talvez seja melhor deixarmos rolar, pelo tempo em que você estiver aqui. – Taylor sorriu. – Mas se eu ficar, papai seria mesmo feliz aqui. Ele sempre falava sobre se mudar para uma cidade menor e mais tranquila... Bem, quem sabe eu te mostro a cidade depois de ligarmos para ele? – Perguntou, ficando mais animado. Sentira muitas saudades de passar o tempo com o irmão daquela forma.
— Eu ouvi falar que tem um lago aqui perto. Eu já imagino o pai nos arrastando até lá para pescar. – Tim falou animado. Ainda estava um pouco dolorido, mas agora iria passar. Com Taylor perto e os dois bem, iria passar. – Eu quero conhecer a cidade. Nós temos muita coisa para colocar em dia.
— Temos mesmo. – Taylor sorriu e passou um braço pelos ombros do irmão.
Juntos, eles saíram da pousada.
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Damien acordou com a campainha sendo tocada de forma insistente. Esperançoso de que fosse Taylor que havia voltado para conversarem com calma, o rapaz pulou da cama e foi atender, mas seus ombros caíram ao ver que era o dono da pet shop.
— Aqui, Damien. – Ele entregou uma cestinha para o ruivo, que a segurou confuso. Dentro havia um filhote de pomerian que ele havia encomendado para dar de presente para Taylor logo depois que Fubá encontrou a dona. O bichinho era branquinho, miúdo e estava dormindo todo encolhido na cestinha.
— Eu... Eu tinha esquecido que havia comprado esse cachorro. – Damien disse com a voz rouca enquanto olhava para o filhote sem saber o que fazer. O ruivo quisera fazer uma surpresa para Taylor e não contou que havia encomendado um filhote da próxima ninhada do canil do pet shop. – Eu e a pessoa para quem eu ia dá-lo não estamos muito bem agora.
— Sério? Que droga, cara. Talvez dar o cachorrinho fizesse com que vocês fizessem as pazes. – O homem comentou.
— Não. Eu acho que não. – O ruivo balançou de leve a cabeça. Nada seria capaz de fazer com que Taylor voltasse a ser como antes com ele. Damien havia arrebentado com tudo.
— Bom, se você não o quiser mais posso levá-lo. É uma raça muito procurada. – O rapaz ofereceu.
Damien olhou para o filhote, que havia acordado e estava de pé na cestinha. Ele usava uma coleirinha com o nome “Fubá” pendurado. O ruivo sentiu os olhos se encherem de lágrimas, com uma dor sufocante no peito, mas conseguiu se segurar.
— Não. Eu fico com ele. – Disse com a voz não muito firme. Ele colocou a mão dentro da cestinha e o Fubá filhote se aproximou para cheirar os dedos do novo dono.
O dono do pet shop pareceu ficar feliz com a decisão do ruivo e começou a explicar que Damien teria que ter cuidado e paciência com o filhote nas primeiras semanas.
— Ele só tem dois meses. Já começou a comer ração, mas você vai ter que ensiná-lo onde fazer as necessidades e de vez em quando ele vai errar. Você não pode bater nele. Tem que dar bronca, mas com carinho para que ele não fique com medo de você. Além disso, por ser novinho ele vai sentir falta da mãe e dos irmãozinhos nessas primeiras noites, aí eu trouxe esse paninho com o cheirinho da família dele pra que ele fique mais calmo. Coloque perto dele quando ele for dormir.
O homem ainda deu algumas instruções, mas Damien não ouvia com toda atenção. Depois que eles se despediram, com a promessa de o ruivo levaria Fubá para banho e tosa regularmente, Damien fechou a porta, colocou o filhote no chão e seguiu até o sofá em passos não muito firmes. Fubá o seguiu, em passos igualmente não muito certos, e ficou cheirando o chão e os móveis.
Ainda ontem aquela sala estava cheia de risos e alegria. Hoje parecia fria. Mais fria do que nunca. E Damien não sentia forças para nada. Ele deitou no sofá e ficou encarando o teto repassando mentalmente a briga com Taylor. Como tudo podia ter saído do controle de tal forma?
Ele gemeu, jogou um dos braços sobre o rosto e o outro deslizou pelo lado do corpo em direção ao chão. Fubá se aproximou, cheirou a mão dele e começou a lambê-la. Damien tirou o braço do rosto e olhou para o cachorrinho.
— Parece que seremos só nós dois, bola de pelo. – murmurou enquanto pegava o filhote e o colocava sobre o seu peito. Fubá o olhou curioso, deu alguns passinhos, mas acabou deitando por ali.
Damien nunca pensou que pudesse se sentir tão só. Como Taylor havia conseguido mudar a sua vida em tão pouco tempo? O ruivo nem conseguia se lembrar de como era antes que o médico chegasse. Era loucura.
E tudo o que poderia fazer agora era esperar para que aquele sentimento sufocante passasse. Não havia nada mais que pudesse fazer. Taylor havia deixado sua posição bem clara, e Damien não suportaria ver aquele ódio nos olhos do médico outra vez. Por isso, tudo que poderia fazer era esperar.
Porém, os dias foram se tornando semanas e as semanas estavam quase virando um mês e aquela dor e a sensação de solidão só pareciam aumentar. Ele até tentou manter a rotina, mas não conseguia mais levantar cedo para ir na academia (e como ele sabia que Taylor estaria lá, Damien acabava realmente evitando), também parou de ir ao restaurante e não estava conseguindo escrever. A sua editora andou ligando, mas ele ignorou todas as chamadas. Carl apareceu por lá e tentou conversar, mas o ruivo não o deixou entrar. Sam também apareceu um dia, mas Damien fingiu não estar em casa e não atendeu a porta.
Mas, da tia Camille, Damien não tinha como fugir. Ela estava naquele momento batendo na porta dizendo que iria arrombar se ele não abrisse aquela “joça”.
— Eu sei que você está aí, Damien Van Persen! — Ela dizia furiosa. – E não vou arredar o pé daqui sem falar com você!
Sem outra alternativa, o ruivo foi atender a porta e não ficou surpreso com a exclamação perplexa da tia ao vê-lo.
— Menino, o que você... Como você...?! Damien! – Camille exclamou em um tom preocupado enquanto o puxava para um abraço.
Damien estava só o trapo. Havia emagrecido, sua barba estava por fazer há dias, sob seus olhos havia olheiras profundas.
— Eu sei que estou péssimo. – Ele disse enquanto se afastava dela e voltou para o sofá pegando Fubá pelo caminho. O cachorrinho havia se adaptado bem naquelas semanas. No começo ele chorava muito de noite, então Damien o levava para a cama e o deixava dormir com ele.
— Péssimo é elogio! – Camille fechou a porta e foi sentar ao lado dele. – Eu soube que vocês brigaram. Não sei o motivo porque não fui tão intrometida, mas Taylor está tão triste quanto você.
Damien bufou.
— Ele me odeia. Não está nem aí. Quer mais é que eu exploda.
Camille puxou a orelha dele.
— Não fale assim! – Ela o repreendeu. – Ele não o odeia. Deixe de se fazer de vítima! Você não é assim. Onde está o Damien esperto e determinado que eu conheço?
— Acho que você está confundindo com outro Damien. – Ele ironizou.
— Não. Você que é um impostor! – Camille rebateu.
Os dois se encararam por alguns segundos até que Damien suspirou e deitou no colo dela. Ele começou a contar o que havia acontecido, inclusive que eles quase se acertaram antes da briga (deixando os detalhes picantes de fora, é claro) e como eles acabaram se desentendendo. A tia apenas o escutou sem fazer qualquer intervenção.
— Você deveria pedir desculpas a ele. – Camille disse quando Damien encerrou a narrativa.
— Por que eu deveria pedir desculpas? Não fiz nada de errado! Aposto que ele e o irmão se entenderam!
— Sim, eles se entenderam. Os dois tem ido ao restaurante juntos, mas o que você fez foi errado, Damien.
— Não foi! – O ruivo teimou e Camille teve que se segurar para não puxar as duas orelhas dele. Quando Damien resolvia ser teimoso... Era tão irritante!
— Você fazendo birra é pior do que Charlie. – Camille comentou.
— Não sou!
Camille soltou um “tsk!” e fez levantar para poder encará-lo melhor.
— Escute bem, menino, o que você acharia caso Taylor tivesse resolvido investigar a razão pela qual você não gosta de médicos?
Damien ficou pálido enquanto pensava na reação que ele teria.
— Pois é... Você pode ter tido a melhor das intenções, mas a forma como agiu foi errada. Depois de localizar o irmão dele, deveria ter dito o que estava fazendo e não ligar para o garoto para dizer onde Taylor estava! Os fins não justificam os meios, Damien. Mesmo que ele não tivesse a intenção de contar a você sobre o acidente, você acabou sabendo e traiu a confiança dele.
— Eu... Eu não consigo. – Damien murmurou enquanto balançava a cabeça de leve. – Não consigo pedir desculpas.
— Você vai ter que conseguir ou então superar tudo isso e seguir em frente. – Camille afirmou enquanto segurava a mão dele.
— Estou me sentindo tão sozinho, tia. Pensei que já estava acostumado com isso, mas desde que ele saiu... – A voz do ruivo se quebrou e ele voltou a deitar no colo dela.
— Hey! E nós? Você nunca esteve sozinho, querido.
Damien ficou quieto e fechou os olhos enquanto sentia o carinho que a tia fazia em seus cabelos.
— Eu estou apaixonado por ele. Não sei como isso aconteceu em tão pouco tempo, mas eu estou muito apaixonado por ele. – Confessou. Não havia dito isso em voz alta ainda e sentiu como se um peso tivesse sido tirado das suas costas.
— Não há um prazo para que alguém se apaixone, Damien. – A tia disse suavemente.
— Mas eu vou superar. É até melhor que isso tenha acontecido agora porque um dia ele iria perceber que eu não sou uma boa pessoa, terminaria comigo e eu ficaria muito pior.
— Não é uma boa pessoa? Melhor ter acontecido? Damien!!! – Camille praticamente gritou o nome dele, mas ele nem se abalou. Ele tinha uma forma péssima de fugir. Estava com medo de pedir desculpas e ficava inventando esse tipo de coisa. Mas ela sabia que não adiantava tentar mudar a opinião dele naquele momento. Pelo menos Damien já admitia seus sentimentos. Isso já havia sido um grande passo. Agora Camille teria que ter paciência para fazê-lo dar o segundo, que seria pedir desculpas para Taylor.
Eles permaneceram sentados no sofá sem dizer nada até que Damien adormeceu. Camille olhou para o cachorrinho que estava sentado pertinho do sofá, segurou-o e o colocou deitado do lado do dono.
— Cuide dele. Não o deixe fazer nenhuma bobagem. – A mulher disse ao filhote. Fubá piscou e bocejou em seguida.
Quando Damien acordou, horas mais tarde, havia uma nota sobre a mesa na qual a tia pedia para ele ir ao restaurante jantar, mas o rapaz ignorou. Não estava tendo fome de jeito nenhum e quando comia era bem pouco. Não iria até o restaurante dar trabalho.
Ao conferir o celular, ele viu que havia mais de vinte ligações da sua editora e uma mensagem de Sam o intimando para ir ao orfanato. O ruivo gemeu. Ele havia prometido para as crianças que iria vê-las e não teria como escapar disso.
“Tudo bem, mas não diga ao Taylor que eu vou lá amanhã”, respondeu ao loiro e depois se largou no sofá e tentou encontrar alguma coisa na televisão para se distrair.
Fubá latiu, pedindo colo, e Damien o colocou deitado sobre o seu peito.
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