Cafeteria
1 Único
Notas iniciais
Eu ainda me lembro como se fosse ontem, ou quem sabe, hoje.
Éramos eu e ele, duas crianças que cresceram juntas, dois adolescentes que continuavam juntos, nas ruas de Ilsan, discutindo sobre tudo o que viesse a mente. Ele me ajudava a estudar, principalmente o inglês -o que eu devo a ele, já que hoje sou fluente- e eu o ensinei a compor. A juntar os sentimentos em um papel e transformá-los em arte. Hoje ele faz isso melhor do que eu mesma.
Quando menos esperávamos, tínhamos quinze anos. É nessa idade que os adolescentes realmente começam a experimentar coisas novas, a querer se aventurar. Foi essa a idade em que perdemos a virgindade… Juntos. Eu ainda me lembro como se fosse ontem.
Os toques ardentes, necessitados, como se dependêssemos um do outro. Os beijos tentadores em tentativas falhas de acabar com a distância, gemidos de prazer e a respiração descompassada. Se alguém perguntasse, apesar de ter sido a melhor noite de nossas vidas, nunca aconteceu. Nossa primeira vez tinha sido com pessoas diferentes e tinha sido terrível.
Eram tempos em que estávamos descobrindo os prazeres da juventude.
Foi apenas um tempo até ele ir para Seul. Queria seguir seu sonho, ser um rapper, lançar sua mixtape. Eu não iria segurá-lo, quando você ama, deixa ir, e foi isso que eu fiz, deixei que ele fosse. Acho que ele não interpretou desse jeito, ficou ressentido, achou que eu tinha o abandonado e foi embora sem se despedir.
Foi em 2013 que ele debutou, era um grupo de Kpop, mas eles cantavam Hip Hop. Não entendia. Bom, eles se classificavam como grupo de Hip Hop no começo. Infelizmente não fez sucesso no início, mas ele continuou trabalhando duro como eu sabia que ele faria… Como ele sempre fez.
Dito e feito, hoje faz parte de um dos maiores grupos de Kpop atuais. Eu tenho orgulho em dizer que os acompanhei desde o início. BTS.
Kim Namjoon era o maior exemplo de líder que eu poderia imaginar, dedicava cada momento de sua vida para que tudo desse certo e para deixar todos felizes e satisfeitos. Era seu maior defeito e sua melhor qualidade. Nada e nem ninguém poderia substituí-lo, nem no grupo, nem na minha vida.
Como ele parou de falar comigo após sua ida para Seul, eu nunca pude contar 'pra ele a novidade de que passei na minha tão sonhada faculdade de escrita criativa. Nunca o contei que agora estava morando em Seul ou que minha mãe infelizmente havia falecido. Nunca o convidei para minha formatura e nem mesmo o avisei de todos os namoros que tive e que não deram certo porque eu não conseguia tirá-lo da minha cabeça. Eu me odiava por isso, ele ainda estava ali, tão perto e tão longe.
Quem diria que agora eu estaria ali, sentada sozinha na mesa de uma cafeteria, o observando enquanto o mesmo estava com os amigos do outro lado do local.
Ele estava feliz, era isso que importava.
Como pode depois de anos ele ainda parecer o mesmo? As mesmas covinhas apareciam toda vez que ele dava os mesmos sorrisos, a risada nasalada. Eu ainda o conhecia como a palma da minha mão, mas eu tinha sérias dúvidas de que ele me reconheceria, ali sentada com minha roupa estilo vintage -estilo que eu gosto desde minha adolescência e ele sabe- e minha jaqueta da faculdade, com o meu nome e os dizeres “Escrita Criativa” gravados nas costas. Meu maior orgulho.
Eu estava sentada em uma mesa perto de uma das janelas do estabelecimento, o que havia sido uma péssima ideia, já que naquela rua só passavam casais de mãos dadas e naquele momento, me sentindo sozinha, aquela era a última coisa que eu queria ver.
Foi naquele momento que eu percebi o quão triste é sentar sozinha na mesa de uma cafeteria.
O sininho da porta de entrada tocou e, logo depois, alguém se sentou na minha frente. Era Hae soo, meu namorado. Sim, isso mesmo, eu estava namorando.
Eu tinha que falar com ele, fazia tempo que eu notava que não sentia mais tanto amor por ele. Não sentia mais o arrepio ao segurar em suas mãos, e nem as borboletas no estômago ao beijá-lo. Basicamente, eu não o tinha mais na cabeça, eu tinha outra pessoa. Não se pode substituir um amor por outro.
'Pra ajudar a situação, eu iria trabalhar nos Estados Unidos durante um tempo, recebi uma proposta para trabalhar em uma editora de lá. Era exatamente isso que eu estava tentando explicar para ele nesse momento, eu iria embora e nada me deteria, escolhi um lugar público para conversar pois assim ele não poderia surtar. Porém, como eu temia, ele surtou;
—Eu não permiti que você fosse! -Gritou. Todos no local olharam para nós.
—Eu ainda não fui. -Falei em tom baixo, envergonhada pela situação, mas o meu semblante triste pelo fato do meu “querido” namorado não entender meu lado era notável.
—Você não vai e ponto! -Hae Soo continuou gritando, todos os olhares direcionados a nós, inclusive os de Namjoon e de seus amigos.
Ele chamou um dos atendentes e falou algo, em seguida o atendente veio até mim.
—Está tudo bem senhorita? Precisa de ajuda? -O atendente perguntou com o semblante preocupado, Hae Soo o encarou indignado como se fosse brigar com ele por se intrometer, mas eu apenas sorri assentindo e sussurrei um “tudo bem”. Ele saiu.
—Eu não pedi sua permissão para ir. -voltei a discutir com meu namorado em um tom um pouco mais alto do que meus sussurros anteriores.- Apenas vim informar que estou indo. Está tudo decidido.
Os olhares continuavam sobre nós, algumas pessoas sussurravam nos encarando, inclusive os amigos de Namjoon, mas o próprio não. Ele parecia alheio à conversa de sua mesa, me encarava com um olhar que eu conhecia muito bem, estava preocupado, querendo interferir.
Lancei a ele um olhar que eu sabia que ele conhecia, o meu olhar de “não se meta”. Rezei internamente para que apesar de tudo ele não me reconhecesse, ele suspirou derrotado e continuou encarando. Teria ele me reconhecido? Impossível, já fazia muito tempo e ele definitivamente não tinha o semblante de alguém que o teria feito.
Voltei à realidade quando o meu namorado se levantou e segurou meu braço com força. Nesse momento homens e mulheres no local se levantaram preocupados, prontos para interferir.
Me levantei também, sendo puxada por Hae Soo em direção a porta, mas consegui me soltar antes, me segurando para não chorar.
—Você não pode me controlar! Você é uma pessoa terrível e impulsiva, mas eu não sou sua propriedade! -por mais que as lágrimas não saíssem, minha voz embargada deixava clara minha vontade de chorar. Eu estava praticamente gritando.- Eu nunca pedi sua permissão sabe por quê? Eu não tenho nada que me segure aqui, nem você, eu estou seguindo minha vida e se você realmente me amasse, me deixaria fazer isso.
Voltei a me sentar no meu lugar da cafeteria, observando o meu -agora- ex namorado sair do estabelecimento com raiva e batendo o pé como uma criança birrenta.
Esperei ele sair de vista, as pessoas da cafeteria estavam voltando às suas rotinas, mas ainda me olhavam com pena e preocupação.
Abaixei a cabeça e suspirei, focando em minha xícara de café -agora frio- e em meu braço com a marca vermelha no local em que Hae Soo havia me segurado.
Uma lágrima caiu dentro do meu café, fazendo eu me recompor e enxugar as outras que insistiam em escorrer. Onde fui me meter? Não havia nada mais humilhante do que chorar em um café.
Vi uma sombra parar ao meu lado e ergui a cabeça. Era o mesmo atendente de antes.
Namjoon e seus amigos saíram da cafeteria me olhando. Ótimo, passei vergonha na frente de famosos. Pior ainda. Na frente DELE. O atendente me entregou um novo café e um bilhete.
—Eu não pedi isso. -Falei estranhando enquanto apontava para o café.
—Pediram para a senhorita, já foi pago! -O atendente sorriu.
Agradeci e, mesmo estranhando, abri o pequeno recado que estava dobrado.
A caligrafia, parecendo um monte de rabiscos que nenhum professor entenderia, a mesma de anos atrás, não teria como eu confundir, aquela letra de quem escreve tão rápido quanto pensa. Aquela caligrafia que eu estava tão acostumada a ver nos antigos cadernos de música que ele largou em casa.
“Quando você ama, deixa ir”.
As mesmas palavras que eu utilizei como desculpa por não tentar impedir ele de ir embora, palavras essas que ele tinha ficado tão bravo ao escutar, pois nunca entendeu o sentido daquilo.
Ele me reconheceu.
O coração disparou e eu imediatamente olhei em direção a rua na esperança de encontrá-lo. Ele estava ali. Do outro lado da rua, sorrindo e mostrando suas covinhas que ele sabia que eu tanto amava. Ele acenou e eu tive tempo de acenar de volta antes dele entrar no carro com seus amigos e ir embora. Novamente.
“Quando você ama, deixa ir”.
A frase ecoou em minha mente durante o resto do dia. Eu tinha certeza de que continuaria com ela em minha mente daqui alguns anos.
Eu estava certa.
Aqui estou eu, um ano depois, escrevendo direto de New York a história da frase que eu uso em todas as minhas histórias. E já que “quando você ama, deixa ir”, eu finalmente vou deixar ir, eu finalmente vou deixar os sentimentos irem, as lembranças de Ilsan, desde o momento que nos encontramos na escola até o último momento que tivemos dois dias antes dele ir para Seul. Os nossos preciosos momentos, as nossas promessas… Lembranças da noite em que eu fui mais dele do que de qualquer outra pessoa. As esperanças de que um dia nos reencontraremos.
Se você veio aqui em busca de histórias de amor com finais felizes, veio ao lugar errado. Eu não sei o que são histórias de amor e não sei o que são finais felizes, eu nunca tive um. Tudo o que sei é que “quando você ama, deixa ir”, e é isso o que estou fazendo… Eu estou pronta para deixar ir.
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