Café em Tóquio
4 Quando a Ausência Revelou o Amor
Na manhã seguinte, ela acordou sozinha na cama. Durante alguns instantes permaneceu imóvel, observando o tecto enquanto recuperava lentamente do sono. A casa encontrava-se silenciosa, mas havia uma estranha sensação de tranquilidade que já não sentia há muito tempo. Levantou-se, preparou-se para mais um dia de trabalho e desceu as escadas.
Ao chegar à cozinha, encontrou-o junto ao fogão. O aroma do café acabado de fazer espalhava-se pelo ambiente, misturando-se com o cheiro agradável do pequeno-almoço que ele preparava. A luz suave da manhã atravessava as janelas, conferindo ao momento uma simplicidade reconfortante.
Sentaram-se à mesa e comeram em silêncio durante alguns minutos. Ela levou a chávena aos lábios e saboreou o café com evidente satisfação. Havia algo naquela rotina tão simples que a fazia sentir-se estranhamente segura.
Quando terminou, pousou cuidadosamente a chávena sobre a mesa e ergueu os olhos para ele.
— Gostava de te pedir uma coisa. — Disse com alguma hesitação. — Será que me podias dar um pouco do teu tempo livre? Quero falar-te um pouco sobre mim. Acho que é o mínimo que posso fazer.
Ele observou-a durante alguns segundos antes de acenar afirmativamente.
— Claro.
Pouco depois, saíram de casa. Cada um seguiu o seu caminho. Ele passaria primeiro pela sua residência para trocar de roupa antes de se dirigir para a empresa.
Ao chegar ao escritório, tudo parecia igual ao habitual. O som dos teclados, os telefones a tocar ocasionalmente e a rotina organizada do departamento criavam aquele ambiente familiar que ambos conheciam tão bem.
Algum tempo depois, ele apareceu.
Vestia um fato diferente, elegante e impecavelmente ajustado. Quando os seus olhares se cruzaram por breves segundos, algo mudou dentro dela. Foi apenas um instante, subtil e silencioso, mas suficiente para fazer o seu coração acelerar.
O resto do dia decorreu sem grandes acontecimentos.
Quando finalmente chegou a hora de saída, ambos abandonaram a empresa já tarde. Conforme tinham combinado, dirigiram-se a um restaurante familiar bastante conhecido nas redondezas.
O ambiente era acolhedor. O som das conversas misturava-se com música suave de fundo, enquanto o aroma da comida caseira preenchia o espaço.
Durante o jantar, ela bebeu um pouco mais do que ele. Talvez fosse o álcool. Talvez fosse o conforto que sentia na sua presença.
Talvez fossem ambas as coisas. Foi então que decidiu falar.
— Eu fui casada, — começou, mantendo os olhos fixos na caneca de cerveja. — não porque quisesse… mas porque fui obrigada.
Ele permaneceu em silêncio.
— O meu pai tinha dívidas. Muitas dívidas. E aquele casamento foi a forma que encontrou para as pagar.
Ela soltou uma pequena gargalhada sem humor.
— Passei anos a sobreviver. Não a viver… apenas a sobreviver.
As recordações eram dolorosas. Falou-lhe da crueldade do marido. Das humilhações. Do medo constante. Dos anos em que precisou de endurecer para não se partir por completo.
— Aquilo que viste ontem… foi apenas uma das muitas memórias que ainda me perseguem.
A voz vacilou.
— Houve uma altura em que tentei acabar com tudo. Já não aguentava mais.
Ele sentiu um aperto no peito.
— Mas o meu marido salvou-me.
Durante alguns segundos, apenas o som distante do restaurante os acompanhou.
— Depois… o destino decidiu afastá-lo da minha vida para sempre.
Ela ergueu ligeiramente os olhos.
— Acusaram-me de o ter matado.
O silêncio instalou-se novamente.
— Nunca liguei muito ao que diziam porque não existiam provas.
Baixou o olhar.
— Hoje sou viúva. E tento aproveitar a vida da melhor forma possível.
Um sorriso triste surgiu-lhe nos lábios.
— Mas confesso que tenho alguma inveja dos casais que vejo por aí. Talvez não esteja destinada a descobrir o que é o amor verdadeiro.
Ele percebeu imediatamente que o álcool estava a fazê-la baixar as defesas. Após alguns instantes, ela voltou-se para ele.
— E tu?
Ele inspirou fundo.
— Eu fui casado.
Ela ouviu-o atentamente enquanto ele explicava que a mulher o tinha traído após vários anos de casamento.
— Hoje sou divorciado.
Ficou alguns segundos em silêncio antes de acrescentar:
— Talvez eu também tenha alguma culpa. Trabalhava demasiado. Estava sempre focado na empresa. Negligenciei o casamento.
Ela abanou a cabeça.
— Não acredito que tenha sido só culpa tua.
Ele observou-a.
— As pessoas mudam. Os objectivos mudam. Talvez os dela tenham mudado e ela não teve coragem para o admitir. O conforto de ficar onde estava apenas acelerou o inevitável.
Bebeu mais um gole de cerveja.
— Cada pessoa é livre de escolher o caminho que quer seguir. Mas essas coisas devem ser ditas quando acontecem, não depois.
Ele sorriu ligeiramente. Ela também.
— É engraçado, não é?
— O quê?
— Duas pessoas com histórias completamente diferentes acabarem sentadas no mesmo restaurante a falar dos seus passados.
Ela soltou uma pequena gargalhada.
— O destino tem um estranho sentido de humor.
Quando saíram do restaurante, a noite estava fria. Ele acompanhou-a até casa. Pararam junto à entrada. Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou.
— Posso fazer-te uma pergunta? — disse ela.
— Claro.
— Posso confiar em ti?
Ele olhou-a nos olhos.
— Sim.
— E… se eu precisar de ajuda? Posso recorrer a ti?
Ele aproximou-se lentamente. Depois inclinou-se e depositou um beijo suave nos cabelos dela.
— Sempre.
Na manhã seguinte, o director do departamento anunciou que ele iria ausentar-se durante uma semana em trabalho.
A notícia atingiu-a mais do que deveria. Por fora manteve a compostura. Por dentro sentiu-se inquieta.
Sabia perfeitamente que viagens de negócios eram normais para alguém na posição dele. Faziam parte das responsabilidades do cargo.
Ainda assim, o desconforto permaneceu. Ao longo do dia, encontraram pequenos momentos para conversar.
Num deles, ela disse-lhe:
— Vou ficar à espera que regresses.
Ele percebeu perfeitamente aquilo que ela não disse. A preocupação. O receio. A saudade antecipada. Mas limitou-se a guardar tudo para si.
Quando ele partiu, ela tentou concentrar-se no trabalho. No entanto, nos dias seguintes começou a sentir um vazio crescente.
Primeiro foi algo subtil. Depois tornou-se impossível ignorar. Na paragem de autocarro, ao final do dia, percebeu finalmente a verdade.
Sentia a falta dele. Não da companhia ocasional. Não da amizade. Dele. Dos seus sorrisos. Das conversas. Da presença tranquila que a fazia sentir-se segura.
Em casa, o silêncio tornou-se incómodo. Os olhos pousaram nas chávenas de café sobre a bancada.
Aproximou-se lentamente e pegou numa delas. Passou os dedos pela porcelana. Pensativa. Percebendo finalmente que aquilo que desejava não era apenas voltar a beber café com ele. Era voltar a estar com ele. Independentemente do que estivessem a fazer.
Nessa noite, o sono demorou a chegar. Mas acabou por vencer o cansaço.
O dia do regresso chegou.
Foi durante a tarde que ele reapareceu na empresa. Quando o viu, o coração dela acelerou de tal forma que teve dificuldade em manter a compostura.
Ele conversava com o director, visivelmente satisfeito com os resultados da viagem. Tudo parecia normal. Mas para ela nada estava normal.
Na saída, ele ofereceu-lhe boleia. Durante o percurso, o silêncio instalou-se entre ambos. Ao chegarem à casa dela, ela manteve os olhos pousados nas próprias mãos.
Respirou fundo.
— A tua ausência fez-me perceber uma coisa.
Ele aguardou.
— Os sentimentos que desenvolvi por ti são reais.
O coração dela parecia querer sair do peito. Um sorriso nervoso surgiu-lhe nos lábios.
— Esquece o que eu disse.
Tentou sair rapidamente do carro. Mas ele segurou-lhe o braço com delicadeza. Ela voltou-se. Os seus olhares encontraram-se. E ficaram presos um ao outro.
O olhar dele era profundo. Seguro. Intenso. Ela simplesmente não conseguiu desviar os olhos. Então ele aproximou-se.
Os seus lábios tocaram os dela. Suavemente. Sem pressa. Ela não recuou.
O beijo aprofundou-se lentamente, carregado de sentimentos que ambos guardavam há demasiado tempo.
Quando terminou, ela ficou sem palavras. Ergueu a mão e acariciou-lhe o rosto. Como se quisesse confirmar que aquele momento era real. Depois abraçou-o. E ele correspondeu.
Ficaram assim durante longos minutos. Até que ela entrou finalmente em casa. Já no quarto, tocou nos próprios lábios. Ainda incapaz de acreditar no que tinha acontecido.
Os dias seguintes foram tranquilos.
No trabalho mantinham o profissionalismo. Sabiam exactamente qual era o seu lugar dentro da empresa. Durante as pausas trocavam algumas palavras. Nada que chamasse a atenção.
Mas fora dali tudo era diferente. Um abraço. Uma mão dada. Um beijo roubado. Pequenos gestos que faziam o relacionamento crescer dia após dia.
Foi numa dessas tardes que viram os primeiros flocos de neve cair. Ela observava a paisagem encantada.
Até que o telemóvel dele tocou. Após atender, a sua expressão tornou-se séria.
— O que aconteceu? — perguntou ela.
— A minha ex-mulher está na cidade.
Ela sentiu imediatamente um aperto no peito.
— Isso quer dizer que…
— Nada.
Ele interrompeu-a.
— Esse capítulo está encerrado.
Nesse momento ouviram palmas. Uma mulher aproximava-se. Ele reconheceu-a de imediato. O rosto endureceu. Ela aproximou-se e segurou-lhe o braço. Ele afastou-a imediatamente.
O olhar da mulher pousou sobre a jovem. Percorreu-a de cima a baixo antes de sorrir com desprezo.
— Foi isto que conseguiste arranjar?
A expressão dele tornou-se gélida.
— Chega.
O tom de voz foi firme. A mulher sorriu.
— Isto não vai ficar assim.
E afastou-se. Quando ele voltou a olhar para a companheira, encontrou insegurança nos seus olhos. Ela começou imediatamente a sugerir que talvez fosse melhor afastar-se. Mas ele percebeu. Não era lógica. Era medo. Apenas medo. Abraçou-a com firmeza.
— Não tens nada com que te preocupar.
Mas nessa mesma noite, já em casa, recebeu uma mensagem anónima.
“Ele não é especial. É igual aos outros. Quando se cansar de ti, vai abandonar-te.”
Ela ficou a olhar para o ecrã durante longos minutos. E a dúvida começou a instalar-se.
Na tarde seguinte, ao sair do trabalho tarde, encontrou uma cena que lhe despedaçou o coração. A ex-mulher dele estava a beijá-lo. Ele afastou-a imediatamente.
Mas já era tarde. As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela. Quando ele a viu, o sangue gelou-lhe nas veias. Ela virou-se e correu. Ele foi atrás dela. Conseguiu alcançá-la e segurou-lhe o braço.
— Deixa-me explicar.
— Não!!!
— É a ti que eu amo.
Ela soltou uma gargalhada amarga. O olhar que lhe dirigiu fez-lhe mais dor do que qualquer insulto.
— Talvez seja melhor cada um seguir o seu caminho.
Aquelas palavras atravessaram-no como uma lâmina.
— Tudo isto foi um erro.
Ele tentou explicar. Mas ela já não o escutava. Por fim soltou-lhe o braço.
— Se é isso que queres… não vou obrigar-te a ficar.
Ela afastou-se. E desapareceu lentamente na neve. Atrás dele surgiu novamente a ex-mulher.
— Conseguiste outra vez o que querias.
Ela sorriu.
— Se ele não for meu, não será de mais ninguém.
Os dias seguintes foram difíceis. Ela chorava sozinha junto à janela. No trabalho tornaram-se praticamente estranhos. E cada vez que ele passava por ela, era incapaz de desviar o olhar.
Até que, numa noite fria de Dezembro, uma senhora idosa se sentou ao seu lado na paragem de autocarro.
A conversa começou de forma simples. Mas acabou por mudar tudo. A mulher ouviu a história com atenção. Depois suspirou.
— Os jovens desistem demasiado depressa.
Ela ficou surpreendida.
— Mesmo depois de tudo o que vivi?
— Sim.
A senhora observou-a com ternura.
— Disseste que viste a ex-mulher a beijá-lo. Mas viste-o corresponder?
— Não.
— Alguma vez ele te tratou mal?
— Nunca.
— Alguma vez te pressionou ou te faltou ao respeito?
— Não.
A mulher sorriu.
— Então estás prestes a perder um homem raro.
As palavras ficaram gravadas na sua mente. Quando a senhora partiu, ela retirou do bolso o cartão dele.
Ficou alguns segundos a olhar para o número. Depois ligou.
Encontraram-se num pequeno parque perto da empresa. A neve cobria os caminhos e quase não havia ninguém por perto. Quando sentiu a presença dele atrás de si, voltou-se. Baixou a cabeça.
— Quero pedir-te desculpa.
A voz tremia.
— Tens todo o direito de seguir em frente.
Respirou fundo.
— Mas antes precisava de te dizer uma coisa.
Levantou finalmente os olhos.
— Amo-te.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ele avançou e abraçou-a com força.
— Como poderia seguir em frente?
Ela fechou os olhos.
— Porque a mulher por quem me apaixonei está exactamente aqui.
As lágrimas começaram imediatamente a cair. Mas desta vez eram lágrimas diferentes. Lágrimas de alívio. De felicidade. De esperança.
Ela apertou-o contra si. Como se tivesse finalmente encontrado o lugar onde pertencia.
O beijo que trocaram naquela noite marcou o início de uma nova etapa nas suas vidas. Nenhum deles sabia o que o futuro lhes reservava. Mas, pela primeira vez em muito tempo, estavam dispostos a enfrentá-lo juntos.
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