Café com Coca-Cola
3 III. Miles
Notas iniciais
♔
Miles suspirou enquanto apanhava a última lata de sopa de tomate ao seu lado, dentro de uma caixa. Ele encaixou-a na prateleira do mercado e fechou os olhos em seguida, pois sua maior vontade no momento era atirá-la com força total naquela cabeça grande e chata da japonesa litorânea que surgira em seu colégio.
Ele estava muito ocupado para ficar pensando nisso, mas ainda não acreditava no que estava acontecendo, muito menos no quão ridícula e imatura aquela menina podia ser. Era óbvio que ela agia daquela forma só por saber que, dependendo da manteiga derretida que sra. Virgie era, nada lhe aconteceria — e isso havia ficado muito claro quando ela fora um incômodo, mas Miles é quem pagara pelo pato.
Cansado, ele bufou um palavrão, semicerrando os olhos para tentar ler o teor de sódio e a validade daquelas embalagens. Não apenas por estudar demais, Miles mal mantinha os olhos abertos. Ele havia dormido muito tarde no dia anterior.
Sempre parecia que os problemas que ele tinha nunca eram o suficiente. Era como se o universo quisesse conspirar contra Miles o tempo inteiro. Sua má sorte o desafiava diariamente, ele pensava.
E era tão, mas tão injusto que aquela garota sem cérebro ficasse rindo por aí enquanto ele se ferrava. Mesmo que Miles soubesse que a felicidade dela não valia de nada por ter como razão os outros se ferrando, aquilo o incomodava. E incomodava muito, na verdade.
O rapaz se levantou enquanto tentava mudar de ideia — afinal ele preferia mil vezes viver amargurado à sustentar uma montanha de atos estúpidos como os dela. E, nossa, como ele se saía bem em viver amargurado.
Mas ele obedeceria a professora Virgie e seria babá da mestiça idiota até ela melhorar, sim. Muito infelizmente. Mas não seria de boa vontade. Miles se ferrava pelos atos dos outros desde que nascera, porém isso não significava que o fazia de bom grado e dava seu melhor, ou seja: ele continuaria sentado diante dela e lhe passaria as lições, mas nada de se deixar levar e virar uma marionete — já que era muuuito óbvio que aquela garota era do tipo que queria manipular a todos.
Desde o primeiro dia, Miles percebia muito bem qual era a dela; mas não para cima dele, e sim para cima de outros garotos. Ela ficava encarando vários rapazes durante o intervalo e, quando não esbarrava neles de propósito, adorava ficar enfiando bilhetinhos nas coisas deles. Aquilo fazia Miles sentir vontade de enfiar o dedo na garganta e correr para um vaso sanitário.
A professora Virgie também via o jeito da garota, tanto que até avisara Miles para que ele não se deixasse enganar.
— Você é um moço tão bom que não deve enxergar as intenções das pessoas — ela havia dito. — Mas o que mais há por aí são mocinhas com o intuito de achar rapazes como você e levá-los para o mau caminho, meu amor. É bom não se descuidar.
Na hora, ele ficou tão incrédulo que quase riu na cara da professora. Mas agradeceu pelo conselho e saiu, mesmo que risse internamente e a única coisa que se passasse por sua cabeça fosse um lindo "até parece".
O fato era que a Pica-Pau era o tipo de garota que só queria atenção, porém o perfil que agradava a Miles era justamente o que não queria isso de forma alguma. Como Anissa, por exemplo — aquela mocinha da outra sala. Mas Miles não queria pensar nela, muito menos no "quase" que os dois tiveram.
Ele teria cortado totalmente Anissa de sua vida caso os professores não ficassem em cima dos dois o tempo todo, afinal. Ter de vê-la e ficar fingindo que não a odiava todos os dias era um pesadelo para ele. Miles não sabia nem expressar o quão horrendo era ouvir Virgie falar do quão lindos eles ficavam juntos.
Miles sempre sentia que morreria de desgosto a cada vez que escutava algo assim. Ter algo com Anissa era uma decadência extrema, uma vergonha irreparável, uma garantia de bullying e zoação na escola pelo resto da vida.
Aquela garota era muito grossa e extremamente falsa — seu rosto bonito jamais compensaria isso. Fingia-se de delicada só quando ia falar com Miles, pois de resto era tão educada quanto um certo professor de traseiro seco que o garoto amava de paixão.
A sorte era que, ao menos, ela também o odiava.
Miles perguntava-se se o ódio que Anissa começara a ter por ele era por conta dela, na época em que queria de todas as formas fazê-lo se apaixonar por si, achar que o garoto era fã de várias coisas de que ela gostava e ter ficado decepcionadíssima ao saber que Miles não tinha nada a ver com o nerd-magia que ela achava que ele era.
Ela pensava que, por ser inteligente e centrado, Miles necessariamente precisava ter gostos que se encaixassem no estereótipo de gostos de garotos nerds pelos quais Anissa alimentava um fetiche tremendo — fetiche esse que era conhecido pela escola inteira atualmente, aliás, e que era também mais um motivo para Miles querer morrer com um meteoro na cabeça a cada vez que alguma professora o obrigava a ficar ajudando e agradando a babaca da Anissa. Ela era mesmo muito fútil e seus motivos, mais ainda.
Na verdade, isso nem importava, afinal. Só o fato de ela não gostar dele era uma maravilha. Talvez por isso os dois não precisassem se fingir de bonzinhos um com o outro na frente dos professores.
Miles também achava que, se a moessem e ela virasse uma montanha de excrementos, a terra a rejeitaria e nem para adubo a menina serviria. Sinceramente, ela e a coreana tinham tudo para se tornarem melhores amigas. Andavam na mesma calçada das meninas sem conteúdo algum.
Ele suspirou de novo. Odiava tanto aquelas garotas quanto odiava trabalhar naquele lugar e ter de repor latas de sopa o tempo inteiro.
Voltou-se para a prateleira outra vez e respirou fundo, perguntando-se qual era o grande problema dos moradores daquela periferia para eles consumirem tanta sopa industrializada. Seu TOC o fez conferir se todas as latas estavam direcionadas para o mesmo lugar antes de ele apanhar a caixa vazia e ir para o depósito para deixá-la lá e, caso necessário, pegar uma outra.
Sr. Garcéz deve ter notado a ruga de preocupação na testa do menino, levando em conta ele ter parado de fumar apenas para segui-lo com o olhar quando o rapaz passou. Miles abriu a porta atrás do balcão e entrou, desmontando a caixa e deixando o cubo aberto numa pilha de papelão para enviar à reciclagem.
Ele conferiu a lista e notou que não havia mais sopa de tomate para repor, então desamarrando o avental. Estava saindo para perguntar se faltava mais algo ao homem de sotaque estranho em sua frente, mas o outro foi mais rápido.
— Que cara é essa, garoto? — ele perguntou.
Miles parou de mexer no nó do avental apenas para olhar o senhor de meia-idade esquelético que estava diante de si. Sr. Garcéz era notavelmente feio, tão magro que sua pele aparentava ser colada aos ossos. Mantinha um bigode asqueroso e olhava para todo mundo por cima dos óculos redondos, que estavam sempre com as lentes tão sujas que Miles imaginava que ele enxergasse em duas cores: preto e marrom.
Ele era um unha-de-fome detestável, mas pagava Miles, aturava a falação da avó dele quando ela fazia compras ali e até deixava a peste do priminho do garoto brincar com sua filha; então era isso. Se fazia tudo direito e não provocava o menino o suficiente para provocar uma crise de nervos em Miles, então estava mais do que ótimo.
— Que cara? — ele perguntou de volta. O garoto abriu a portinhola para sair de trás do balcão depois de pendurar o avental na porta, saindo em seguida e olhando de canto ao homem. — Eu vou indo, tudo bem? Não parece precisar mais de mim hoje.
— Não vai não. E "que cara"? — Sr. Garcéz indagou de volta, tentando perder o sotaque para imitar o tom de Miles. — Foi isso o que eu perguntei, rapaz. Se não gosta de ser chamado de burro, então não aja como um. E vá colocar esse maldito avental em outro canto, pois não aguento mais vê-lo pendurado nas maçanetas das portas.
Miles respirou fundo e assentiu, dobrando o avental e o colocando-o num suporte de chapéus próximo à porta. Sr. Garcéz abriu a boca para reclamar da nova localização, mas logo pareceu se incomodar mais com outra coisa.
— Mas o que é que você tem, hein? — perguntou.
Miles procurava sua mochila e suéter num canto próximo ao suporte de revistas de crochê. Ele moveu os olhos para o chefe e respirou fundo.
Paciência, Miles, ele voltou a pensar. Aquela devia ser a frase que mais se passava pela sua cabeça. Vivendo rodeado de gente sem noção, não era inesperado, de qualquer forma.
E, acima de tudo, sr. Garcéz era outra das várias pessoas que conheciam a forma perfeita de deixá-lo impaciente.
Apenas uma insinuação era o suficiente.
Miles odiava que lhe repetissem a mesma coisa várias vezes, mas odiava ainda mais que isso e que qualquer coisa ser chamado de burro.
— Não estou me sentindo bem — ele disse entre dentes, o que não era lá grande verdade, mas também não grande mentira. — Devo estar passando mal ou coisa assim, então me dê licença.
— Limpe o banheiro se for usá-lo — com um sorriso, sr. Garcéz ironizou, arrumando algum papel sobre o balcão tão velho e carcomido quanto ele. — Não é prisão de ventre?
— Se o senhor diz, provavelmente é. — Miles permaneceu calmo por fora, revirando os olhos e não escondendo a ironia. — Não era necessariamente isso que eu queria dizer, mas tudo bem; aliás, estou indo embora, eu disse. Já são quase sete da noite.
Ele levantou-se, jogando a mochila amarronzada sobre um ombro depois de vestir seu suéter e arrumar a gola da camisa. Devia estar frio lá fora, ele pensou, recolocando os óculos depois de tirá-los antes de vestir a blusa e empurrando-os nariz acima. Não sabia como tantas meninas conseguiam ir à escola seminuas diante daquela temperatura (se a filipina estava incluída? Sim, estava. Ela fazia parte de tudo o que não fazia sentido e era ruim).
Miles já abrira a porta repleta de adesivos em inglês para sair do mercado quando uma mão ossuda e feia puxou-o de volta pelo colarinho.
— Não se estresse — sr. Garcéz disse —, preciso da sua boa vontade para organizar a sessão de limpeza.
Miles virou ameaçadoramente o pescoço e desejou mais do que nunca enfiar um rolo de papel higiênico na guela daquela criatura caótica que era seu chefe.
— Bom fim de tarde para você, Miles. — O homem ergueu um balde, tirando-o de trás do balcão e colocando-o ao lado da caixa registradora para o garoto. — Acertamos o extra depois.
Ele pôs a mão no balde em puro desgosto. Se não precisasse tanto e não fosse tão controlado, sr. Garcéz com certeza passaria a conhecer melhor do que qualquer um o gosto do papel esfarelento e reciclável que vendia a altos preços por ali.
Céus. Miles só conseguia pensar no quão divertido devia ser fazê-lo de escravo para o mundo todo.
♔
Já era noite quando Miles finalmente pôde sair da mercearia — talvez umas sete, oito da noite. Ele sentia que estava com cheiro de suor e que suas pernas quase não se levantavam de tanto cansaço, mas manteve a postura enquanto passava pelas ruas escuras da periferia em que morava.
O bairro de Miles fazia parte das regiões da cidade em que todos imaginavam que só havia negros, tráfico de drogas e famílias grandes amontoadas em casas altas. De fato, era quase isso, mesmo, ainda que a família enorme de Miles fosse quase toda ruiva; mas ela se amontoava numa construção só, sim. E seus primos menores traficavam cartinhas de jogos e chicletes uns para os outros quando ninguém estava vendo.
Miles continuou andando. Ele passava pela frente de casas altas com escadas na frente, com varais pendurados entre uma e outra e crianças penduradas nos corrimões, despendurando-se rápido quando, de longe, viam seus pais chegando depois de um dia de trabalho. Corriam até eles e agarravam suas pernas, escalavam suas roupas e beijavam seus rostos, gritando "papai" milhares de vezes com suas vozes fininhas.
Quando era criança, Miles queria fazer isso também, mas nenhuma criança de sua família tinha um pai presente e ele não era uma exceção. Nunca sequer se vira um homem adulto morando no mesmo prédio que eles. Todos seus parentes mais jovens, ao menos que moravam pela região, eram filhos de mães solteiras.
Nisso, Miles era uma exceção.
Nem uma mãe assim ele tinha, mas não era como se ele se lamentasse o tempo inteiro por isso. Tinha mais o que fazer.
Depois de virar algumas ruas tranquilamente, ele chegou ao seu destino e havia algumas moças negras da vizinhança sentadas ao meio-fio diante de sua casa.
Elas lhe disseram "oi", falaram da peste que Jean estava sendo ultimamente com os filhos delas e ele ficou notavelmente envergonhado, porque já devia ser a terceira vez na semana que isso lhe acontecia. Pediu desculpas, disse "boa noite" e entrou quieto, sentindo o olhar delas em seu traseiro.
Enquanto subia as milhares de escadas e ouvia suas tias brigando com os filhos em diversos andares, Miles pensava no fato de Jean ser um lobo em pele de cordeiro. Céus, o tempo todo era aquilo. Como se não fosse o suficiente ser um mini-demônio no colégio, aquela criaturinha de sete anos que era o primo de Miles ainda lhe fazia o favor de perturbar a vizinhança toda.
Eles moravam juntos, já que a mãe de Jean sequer morava na mesma cidade (então Miles não era a única exceção, afinal; mas a mãe dele não poderia voltar e buscá-lo um dia). Eram os dois, a meio-irmã perturbada de Miles e a avó dos três. Viviam no antepenúltimo andar, com tia Virginia e tia Yolanda e suas pestes barulhentas, que dormiam o dia todo para não deixarem o resto do prédio dormir depois.
Vendo que já estavam acordadas, Miles quase rolou escada abaixo por três ruivinhos descabelados terem passado sob suas pernas. Passado o susto e berrado um "não corram nas escadas!", ele subiu o que faltava e empurrou com o ombro a porta da casa para entrar.
Estava um pouco quente lá e a TV estava ligada. Enquanto ele colocava os sapatos perto da porta e Jean atravessava correndo a sala, Emmeline assistia a um jornal de notícias assustadoras na televisão e desgrudou os olhos de lá para olhar para ele.
A aparência da irmã dele parecia ter saído de alguma espécie de filme de terror, ele pensava. Era muito baixa, tinha uma franjinha curta e rebelde e sempre fazia um rabo de cavalo bem no alto da cabeça. O cabelo era ruivo, felpudo e todo revolto, escapando do elástico e espalhando ondas e semicachos laranja pela nuca da menina.
Era engraçado. Mesmo que Miles nem fosse ruivo, o jeito do cabelo de Emmy era idêntico ao dele. Não era liso, mas não era cacheado e também não era só ondulado.
Cada mecha era um problema diferente.
Miles continuou a olhá-la. Com aquela boneca careca e rabiscada de canetinha ao seu lado, a aparência da garotinha não melhorava, tanto que na escola adoravam chamá-la de monstro da água de salsicha.
Mas Emmeline era uma boa menina. Bem, Miles achava. Ela era sim. E, dentre todas as pessoas jovens de sua família, somente ele e a Emmy não eram extremamente caóticas — ao menos não por fora, e não quando sua paciência era estendida até o limite.
É que já é clássico: pessoas quietas têm mentes barulhentas.
— Oi, Miles — quando ela disse isso, Jean já grudara na perna do primo e Miles tentava atravessar a sala com uma dificuldade absurda. — Você demorou.
— Eu sei — ele respondeu, tirando Jean de si e colocando-o sentado ao lado de Emmeline no sofá antigo. — A múmia me fez demorar um pouco por lá.
Jean hesitou um pouquinho e então riu, exibindo a falha entre os dentes de cima e a janelinha nos de baixo. Tinha gel no cabelos curtos, indicando que a avó devia ter acabado de banhá-lo, mas muitos fios ruivos já haviam escapado do lugar.
Ele era pequeno e meio feinho. A Emmy também era.
O consolo era que crianças feias geralmente ficam mais bonitinhas quando crescem — Miles pensava assim.
Só que ele não sabia dizer se fora uma criança feia ou bonita anos atrás.
— Tomarei banho — ele disse —, falo com vocês depois. Principalmente com você, Jean. Tenho algo muito sério para te dizer, então não deixe que eu me esqueça.
O mini-ruivo parou de rir de modo tão instantâneo quanto o preparo de um Cup Noodles. Usou uma expressão desolada, pôs a mão coração e soltou um "oh, não!" que devia ter visto em algum desenho animado, fingindo um desmaio em seguida. Miles mandou que ele parasse de ser tonto e, meio bravo, saiu daquele cômodo repleto de abajures e tapetes que era a sala de sua casa.
Escutava Jean rindo de novo lá atrás quando foi para o corredor, pretendendo fazer a curva para ir ao quarto quando ouviu um barulho de colher batendo duas vezes na beirada da panela na cozinha.
— Miles chegou? — ele ouviu a avó dizer esganiçada da cozinha.
— Oi — Miles respondeu. — Eu estava no mercado.
Ele andou um pouquinho apenas para entrar na cozinha, que era meio apertada e tinha uma geladeira maravilhosamente verde menta num canto. O rapaz colocou a sacola de mantimentos que trouxera sobre o armário, deu um beijo na irlandesa de roupão e ela disse o usual:
— Obrigada por hoje, filho. — E então fez uma cara feia. — Não precisava ter ficado mais do que o necessário por lá, entendeu? Nós não precisamos.
— Eu poderia ter vindo na hora, mas preferi ficar. Não foi nada.
— Não foi nada? Você está suado como um porco, Miles Angelo. — Ela saiu empurrando ele porta afora, fazendo Miles ficar mais bravo por isso do que por ter escutado seu segundo nome também. — Vá tomar um banho, menino. Seu rosto quase ficou colado no meu.
Miles estreitou os olhos, respirando fundo com as mãos enrugadas dela ainda em seus ombros. A avó se preocupava demais. Ele gostava, mas às vezes era meio chato.
— Certo, vó. Eu já pretendia mesmo fazer isso. — Ele coçou a nuca, saiu e deu meia-volta, indo até o batente e depois olhando para ela outra vez. — Inclusive, ninguém falou do Jean para a senhora hoje?
Ela fez cara de desentendida e Miles soube o que fazer. Não falava de Jean para prejudicá-lo com a avó, e sim porque o garoto era mesmo impossível e isso o preocupava um pouco.
Naquele momento, resolveu deixar passar. Ele mesmo falaria com o primo depois.
— Esqueça — disse —, não é nada.
— Tá bom — ela falou e recomeçou a empurração. — Tem roupa limpa do lado do armário. Vai logo, vai! Depois não vou esquentar o seu jantar.
Miles revirou os olhos e finalmente saiu.
Enxotou o priminho chato que grudou nele de novo, tomou banho, jantou macarrão com queijo e brócolis e depois teria desmaiado na cama de baixo do beliche se não houvesse se lembrado de que tinha uma montanha de tarefas dos outros para fazer.
Trabalhar para um chileno não era sua única forma de arranjar dinheiro, afinal. Ele fazia trabalhos, pesquisas e tarefas de pessoas da escola toda — inclusive para gente mais velha que ele. Talvez fosse por isso que nunca havia apanhado, sido humilhado ou coisa assim, já que ajudava na nota dos brutamontes e das meninas burras. De qualquer forma, mesmo que não ajudasse por dinheiro, ele não se deixaria ser tratado como lixo.
O fato era que, mesmo que ninguém mais de sua idade pensasse assim, Miles sabia que não era um perdedor.
Ainda que, atualmente, ele não fosse muito bem o que os adolescentes pensassem ser um alguém realizado, Miles preferia ser um antissocial com a cara enfiada nos livros hoje e alguém bem-sucedido amanhã. E não era como se ele tivesse vontade de beber, se drogar, se enfiar em festas, engravidar meninas e matar aula ao invés disso.
Sentado à mesa da cozinha para não ter de acordar as crianças no quarto, ele acabou as "encomendas" da semana depois de umas poucas horas. Sentia-se moído e estava bravo por seu cabelo molhado ter pingado água numa folha de trabalho. Sua mania de perfeccionismo o forçou a refazê-la toda e ele até já a havia feito, mas agora lembrara-se de que professora Virgie lhe pedira para fazer uma anotação com as matérias que já haviam visto até então para entregar à esquimó de cabelos vermelhos.
Ponderou se a faria ou não, mesmo que já dissera que sim para a professora. No fim, fez e não demorou. Não foi nem um pouco na boa vontade, mas não ficou ruim e Miles até achou o papel organizado demais para uma criatura burra feito ela.
Dormiu antes mesmo de ter tempo para rezar, se cobrir direito e prestar atenção na tia batendo num dos filhos no andar superior. Seu espírito saiu do corpo tão rápido que ele se esqueceu de ralhar com Jean e de tirar a boneca possuída de Emmeline do quarto da avó.
Se ela acordasse e desse de cara com o brinquedo, provavelmente acordaria o bairro todo de tanto berrar, mas ele estava tão cansado que nem escutaria.
Então estava tudo bem.
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