Café & Morango
4 O Terceiro Dia
Já era o terceiro dia que Manuela não aparecia no escritório. Agora Beatriz tinha a chave, o que facilitava muito para quando ela chegava antes de sua chefe – sempre, os ônibus não esperam, ou você chega na hora ou chega atrasada. Beatriz nunca atrasava. E Manuela tinha um carro, então poderia sair cinco minutos antes do horário de expediente e ainda chegaria na hora.
Mas ela não veio ao trabalho na segunda nem na terça, hoje é quarta e cá ela não está mais uma vez. Manuela, ao contrário de muitos chefes, se preocupava com o profissionalismo e o bom andamento dos trabalhos, ou seja, se ela faltava, ela avisava. Se iriam se ausentar ou cancelar compromissos, ela avisava.
Ela nunca faltava. Mas ontem ela faltou. Anteontem também. E hoje outra vez. Havia algo errado.
Beatriz se perguntava se deveria questionar algum dos irmãos dela, advogados com seus escritórios em outros andares, mas isso seria... pessoal demais? Bem, Manuela já havia dado acesso a eles de qualquer forma, ela frequentemente pedia para que Beatriz ligasse para eles para perguntar coisas, trocar ideias, marcar almoços e etc.
Contudo, ela tinha essa proximidade para perguntar como sua chefe estava? Certo, ela já havia mandado mensagem na segunda e na terça, com teor profissional, mas não um “Oi, tudo bem? Por que não veio para o trabalho? Devo me preocupar? Precisa de alguma coisa?”. Sua alma de babá estava ganhando força cada vez que Manuela não lhe dizia nada.
[07:53, 12/06/2023] Manuela Bellini (Advogada): Bom dia, Beatriz. Não irei ao escritório hoje, desmarque meus compromissos.
[08:04, 12/06/2023] Beatriz: Bom dia! Certo, vou desmarcar.
O único contato que tiveram na segunda-feira.
[09:37, 13/06/2023] Beatriz: Bom dia! O seu irmão Heitor perguntou se a senhora vai vir trabalhar hoje.
[09:45, 13/06/2023] Manuela Bellini (Advogada): Bom dia, Beatriz
[09:45, 13/06/2023] Manuela Bellini (Advogada): Avisa ele que eu não irei, por gentileza.
[09:45, 13/06/2023] Manuela Bellini (Advogada): Desmarca para mim todos os compromissos que tiver na agenda...
[09:46, 13/06/2023] Beatriz: Certo!
[09:47, 13/06/2023] Manuela Bellini (Advogada): Desmarque todos os compromissos para essa semana.
[09:47, 13/06/2023] Beatriz: Tá bom!
Muito profissional, nada pessoal. Será que ela deveria perguntar como ela está?
[09:10, 14/06/2023] Beatriz: Bom dia! A senhora virá hoje?
Pronto. Mandou. Agora era só esperar. Beatriz era uma introvertida com habilidades sociais. Ela levava horas para ganhar coragem para interagir com as pessoas, mas no geral interagia muito bem. Por causa disso, ela largou o celular na mesa e ficou parada, olhando, esperando... Será que ela estava sendo muito intrusiva? Será que ela não deveria ter mandado a mensagem? Será que deve apagar? Será que...
Seu celular vibrou. Ela sempre o deixa no silencioso, mas ativou a vibração para saber quando Manuela iria lhe responder. Espiou pela barra de notificações, haviam mais de uma mensagem, de Manuela e de suas amigas, e outras notificações que ela não realmente estava interessada no momento, mas que impediam de ler toda a mensagem de Manuela.
Dando-se por vencida, curiosa e ansiosa como sempre, Beatriz abriu a mensagem.
[09:13, 14/06/2023] Manuela Bellini (Advogada): Bom dia, Beatriz!
[09:13, 14/06/2023] Manuela Bellini (Advogada): Não irei.
Apenas. Será que...
[09:13, 14/06/2023] Manuela Bellini (Advogada): Precisa de alguma coisa?
O cérebro de Beatriz congelou. Ela precisa de alguma coisa? Alguma coisa além de saber se sua chefe está doente, com câncer terminal fazendo quimioterapia em outro Estado do outro lado do Brasil? A ansiedade faz com que crie mil teorias em sua cabeça...
Seja sincera. Pergunte como ela está. Beatriz se encorajou. Tirar a dúvida era melhor do que ficar imaginando que a pessoa está morrendo.
[09:14, 14/06/2023] Beatriz: Só queria saber como a senhora estpa
[09:14, 14/06/2023] Beatriz: Está*
[09:15, 14/06/2023] Manuela Bellini (Advogada): Estou bem, e você?
Bem, ao menos ela disse que está bem, seja resposta padrão ou não.
[09:15, 14/06/2023] Beatriz: Bem também
[09:15, 14/06/2023] Beatriz: Precisa de alguma coisa?
Virando o jogo. Agora que ela tem a rodada de perguntas, talvez arranque algo de sua chefe. Algo verdadeiro. Tipo “estou doente”, “quebrei o braço”, “preciso de ajuda”. Qualquer coisa que indique seu real estado físico, psicológico ou emocional.
[09:16, 14/06/2023] Manuela Bellini (Advogada): Está ocupada hoje?
Beatriz não queria dizer “não tenho nada para fazer”, porque soaria muito relaxada. Também tinha coisas para fazer, como furar papéis para arquivar nas pastas, mas isso não era ocupação o suficiente para impedi-la de fazer outro trabalho que Manuela pedisse. Com a pequena demora de segundos, Manuela acrescentou:
[09:16, 14/06/2023] Manuela Bellini (Advogada): Preciso de uma ajuda
Bingo! Ajuda! Ela precisa de ajuda. Finalmente. Beatriz estava prestes a descobrir o que estava acontecendo com sua chefe...
[09:17, 14/06/2023] Beatriz: Do que precisa?
Pulou a pergunta que lhe fora feita, apenas para chegar direto ao ponto.
[09:17, 14/06/2023] Manuela Bellini (Advogada): Pode vir aqui em casa?
[09:17, 14/06/2023] Beatriz: Posso sim
[09:17, 14/06/2023] Manuela Bellini (Advogada): Já te mando o endereço
[09:18, 14/06/2023] Manuela Bellini (Advogada): Traga minha agenda e suas coisas, provavelmente não vai voltar para o escritório depois
[09:18, 14/06/2023] Beatriz: Certo!
Beatriz prontamente pegou sua bolsa, celular, a agenda e o tablet onde ela também havia feito uma agenda online para que Manuela também soubesse seus horários fora de horário – duas agendas, mas que por algum motivo Manuela, talvez por ter a posição de chefe, nunca olha, sempre espera que Beatriz a atualize.
Manuela enviou seu endereço, não era longe do escritório. Ambos eram no centro, o que facilitava muito o deslocamento. Beatriz nem precisaria pegar um ônibus ou táxi, só andar algumas quadras.
Demorou pouco mais de quinze minutos para chegar, o clima mais ameno da época do ano a fazia não suar tanto, embora sentisse um pouco de calor sob o blusão de lã bege que usava.
O prédio de Manuela era... como seu escritório. Colossal.

Sentiu-se quase envergonhada, pequena, por estar em um prédio tão... bonito – e chique – quanto esse. Prédio de rico, Beatriz já vira vários assim. Tocou o interfone e Manuela liberou sua entrada. No saguão de entrada, grande, limpo, arejado e chique, ela se direcionou ao elevador.
Aquele elevador era como o do escritório: lhe dava agonia. Parecia silencioso demais, fechado demais... Beatriz nunca gostara muito desse tipo de elevador. Enfim, chegou ao andar de Manuela. Seguiu pela esquerda no corredor, onde ela havia indicado. Haviam duas portas de dois apartamentos, um de frente para o outro. Conferiu os números, por fim tocando a campainha.
Não levou nem um minuto para que Manuela abrisse a porta.
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