Café & Morango
2 O Desenho
Como sempre, Beatriz fora pontual. Chegou na hora no enorme edifício e rapidamente se dirigiu para a sala da doutora Bellini. Ao contrário do que pensava, sua mesa não ficava do lado de fora da sala dela, mas sim dentro da sala.
No início, Beatriz não entendeu o porquê disso, mas depois Manuela lhe explicou ao entregar o contrato de trabalho. Ela não estava procurando por uma secretária, como havia inicialmente anunciado na vaga de emprego. Durante as entrevistas, decidiu que precisava muito mais de uma assistente pessoal do que uma secretária para o escritório.
Isso era bom, de certa forma, porque Beatriz, embora nada jurídica, era muito burocrática. Organizar coisas, programar coisas, planilhar coisas era a sua praia.
— Eu estava olhando o seu currículo ontem à noite. — A doutora Bellini disse, aproximando-se da mesa de Beatriz, no canto esquerdo próxima a parede da porta. — Vi que no primeiro você tinha acrescentado que trabalhou como babá.
— Ah, sim. — Beatriz disse, um sorriso quase constrangido surgindo em seus lábios. — É, eu tirei porque achei que isso não é algo lá muito útil para se pôr num currículo para uma vaga num escritório de advocacia.
A doutora sorriu em compreensão.
— E também vi que não acrescentou suas habilidades artísticas em nenhum dos dois currículos.
Novamente um sorriso constrangido.
— É...
— Trouxe o desenho que pedi?
— Sim, sim. — Respondeu enquanto procurava a pasta com o desenho guardado dentro. Retirou o papel e o alcançou para a advogada.
— Wow... Nossa, você desenha muito bem. — Manuela elogiou enquanto analisava o desenho. — É alguém ou só um desenho aleatório?
O desenho era à lápis, uma mulher com um bebê no colo.

— Quando me mudei para cá, estávamos vindo e paramos num restaurante de estrada, e eu lembro que depois do almoço nós fomos dar uma volta do lado de fora e atrás, não muito longe, tinha uma casa meio de fazenda, e essa mulher estava brincando com o bebê no colo. — Ela contou, um sorriso em seus lábios ao lembrar da cena. — Achei tão bonito que tive que desenhar.
Manuela a fitou como se dissesse “você mentiu sobre sua verdadeira capacidade de desenhar”. Ela realmente parecia impressionada.
— Ficou muito bom. — Ela devolveu o desenho para Beatriz. — Ah! Eu esqueci completamente de te perguntar... Você leu que na vaga de emprego exigia a disponibilidade para viajar, certo?
— Eu estava desempregada até ontem, então meio que estou sempre disponível. — Beatriz proferiu divertida.
— Ótimo! Estamos expandindo os negócios do escritório e vamos começar a atuar em outros lugares também, o que implica em viagens seguidas.
— Legal. Tipo filiais em outras cidades?
— Estados e, ainda em discussão, mas talvez para o exterior também.
Beatriz arregalou os olhos. Exterior?
— Tipo para fora do país?
— Exatamente.
— Para onde? A Argentina?
— Eu tenho estudado e adquirido experiência em processos judiciais americanos.
Novamente Beatriz arregalou os olhos, sem se importar em ser discreta.
— Estados Unidos?
— Sim. — Ela disse simplesmente, voltando para a sua mesa. — Devo dizer que eu adoro a ideia de “advogados pitbulls” e queria experimentar defender um caso que exigisse essa manha.
Beatriz apenas assentiu em concordância, entendia bem do que ela estava falando. Os conhecidos “advogados pitbulls” são aqueles “agressivos”, experientes, sem medo que geralmente destroçam a outra parte numa audiência.
Por um lado, Beatriz ficou admirada que Manuela quisesse ser esse tipo de advogada. Por outro, ouviu histórias o suficiente sobre ela para saber que ela já era uma pitbull quando precisava ser.
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