Manuela levantou o olhar para Beatriz retornando do banheiro, agora seu blusão pendurado em seu braço e outra blusa listrada de tecido mais leve no lugar desse.

— Se você quiser ir, está liberada. — Manuela proferiu quando Beatriz voltou a sentar no sofá. — Podemos conversar de tarde.

— Não, tudo bem. — Beatriz recusou. — Qual o outro assunto?

— O meu aniversário. — Beatriz automaticamente deixou um pequeno sorriso surgir em seu rosto. — Na verdade, você sabia que fazemos aniversário no mesmo dia?

Ela levantou as sobrancelhas em surpresa.

— Sério?

— Uhum.

— Dia 30?

— É. — O sorriso de Manuela surgiu suavemente. — Minha família tem uma “tradição” de “festa dupla”. Os aniversários sempre são comemorados no primeiro fim de semana subsequente, no sábado é uma grande festa com toda a família, parentes distantes, amigos e colegas, e no domingo nós fazemos um almoço em família, só os mais próximos.

— Legal.

Apesar de Beatriz achar “muita festa” pro seu gosto, a ideia era realmente legal. Contudo, não parecia que Manuela gostava muito, ao menos foi o que seu semblante expressou.

— É legal quando se está fazendo 20 anos, mas nem tanto quando se está fazendo 34. — A loira comentou com um tom levemente sarcástico. Em verdade, soara muito mais... magoada?

— Você está fazendo 34 anos? — Beatriz perguntou, apenas para confirmar, já que entraram no assunto.

— É. ­­— A resposta foi seguida por um suspiro e um sorriso um pouco forçado.

— E por que é um problema?

Manuela deu uma pequena risada, mas não de graça.

— Porque a minha família é... tradicional? É, acho que eles se encaixam nesse termo. Eles acham que aos 30 anos de idade temos que estar casados e com filhos, e eu estou longe disso. — Mais um suspiro, dessa vez soando frustrada. — Não me leve a mal, eu sou muito grata por tudo o que tenho na vida, mas é como se... — A frase pairou no ar, incompleta.

— Não é o suficiente. — Beatriz completou. — Ao menos não para os outros.

Manuela assentiu em concordância.

— Eu amo a minha família, mas eles podem ser hostis quando querem.

— Eu entendo. — Beatriz puxou o ar para os pulmões, soltando lentamente. — A minha família é assim, acho que todas são. — Recostou-se um pouco mais no sofá, vagando seu olhar para a mesa de centro. — Eu, minha mãe e minha irmã somos tipo o “lado pobre” da família, e nós somos considerados classe média. — Ela levantou o olhar para Manuela, que atentamente a ouvia. — E parece que o resto da família só pensa em dinheiro, sempre essa pressão para fazer dinheiro. E se você não faz dinheiro, é como se não fosse parte daquele grupo seleto carregando o mesmo sobrenome.

Por um breve momento, o silêncio reinou na sala. Duas pessoas com famílias economicamente bem, muito bem, mas com princípios... confusos. Hostis. Manuela pigarreou, precisando interromper o silêncio.

— Enfim, sobre as festas, eu preciso que você organize para mim. — Ela voltou a pôr um sorriso leve nos lábios. — Você é minha assistente pessoal, então...

— Claro. — Beatriz prontamente disse. — Só me diga o que quer exatamente.

— Certo. — Manuela sentou com as pernas cruzadas no sofá, virada para Beatriz, aparentemente mais confortável agora. — Eu preciso que faça a lista de convidados, organize a decoração do local, sempre fazemos no mesmo lugar, e que garanta boa comida e bebida para todo mundo. Ah! Aliás, como você é minha assistente pessoal, vou precisar que foque um pouco mais nisso. As festas de aniversário são “o evento” na minha família.

O sorriso de Beatriz se intensificou.

— Vocês parecem gostar. Na minha, não fazemos muito. — Ela comentou enquanto anotava algo na agenda.

— Por que não?

A morena a olhou.

— Ah... sei lá, a família é um pouco distante. Tipo... fisicamente. E emocionalmente. — Sussurrou a última parte, mas não baixo o suficiente para que Manuela não ouvisse.

— Sinto muito.

— Tudo bem. — Ela deu de ombros. — Na verdade, não me importo muito. Poupa o trabalho de ter que interagir com os “parentes”.

— Você vai fazer 27 anos, né? — Beatriz lhe deu um olhar questionador. — Li no seu currículo.

— Ah, sim. É, 27 e desempregada. Bem... eu estava desempregada. Não mais graças a você. — Ela disse com um sorriso de lado.

— Fico feliz de ter ajudado. — Ela deu uma piscadela cúmplice. — Você vai para casa no seu aniversário?

— Não, geralmente não vou. — Respondeu com naturalidade. — Minha mãe trabalha e minha irmã se provalece quando eu estou lá, então é só estresse desnecessário, sem falar que o preço da passagem de ônibus é um horror e não tenho carona de ninguém, então não dá.

Manuela a olhou por um tempo a mais, silenciosamente, como se a analisasse.

— Beatriz, seja sincera, o salário que eu te pago é o suficiente?

Os olhos de Beatriz pareceram petrificar por um momento enquanto ela processava a pergunta.

— Acho que sim...? Eu nunca trabalhei como assistente pessoal antes...

— Mas o salário é bom? Você acha que precisa de um aumento?

Que chefe pergunta se o funcionário quer aumento?! Não apenas “Quer um aumento?”, era um “Se eu te pago pouco, por favor, me fala que eu te pago mais!”. Isso nenhum chefe faz.

— O salário é ótimo. — Ela respondeu com sinceridade. — Muito mais que já ganhei na minha vida.

— Ok... mas podemos renegociar seu salário caso queira.

A boca de Beatriz ficou levemente entreaberta enquanto ela pensava que sua chefe era a pessoa que estava sugerindo um aumento. Nada como ser uma Bellini com poder econômico!

— Tá bom, muito obrigada.

Ela sorriu em agradecimento, os lábios pressionados juntos e as bochechas levemente quentes por algum motivo. Não só as bochechas, mas o coração também. Ela tinha uma boa chefe, sabia muito bem disso.

— Acho que podemos continuar isso de tarde. — Manuela proferiu, vendo a hora em seu celular. — Você se importa de vir direto para cá?

— Claro que não.

— Ótimo. — Ela levantou do sofá, observando Beatriz juntar suas coisas. — Pode chegar pelas 14h.

— Tá bom.

— E... Bea. — Manuela a chamou pelo apelido, coisa que nunca fizera até então. Beatriz a olhou, um lampejo de surpresa e curiosidade em seu rosto. — Posso te dar um abraço?

Hã... Abraço? Curioso, estranho, incomum...

— Pode sim.

Os lábios de Manuela brilharam em um sorriso quase tímido e ela se aproximou de Beatriz, sendo envolvida pelos braços da mais nova.

Um pedido curioso, estranho, incomum e muito bem recebido.

Manuela escondeu seu rosto na dobra do pescoço de Beatriz, deixando-se ser envolta pelo calor dos braços dela.

Não foi um abraço rápido, mas também não foi longo. Elas se afastaram e Manuela mantinha um olhar sereno e quase agradecido, o hematoma do mesmo jeito de quando Beatriz o viu pela primeira vez.

— Até de tarde. — Beatriz proferiu, caminhando em direção da porta, sendo seguida por Manuela.

A garota saiu e a advogada ficou.

Foi quase um susto perceber que ainda podia sentir o aroma do perfume de Beatriz. E mais ainda por achar que ele ficaria marcado em sua mente por semanas, mesmo involuntariamente.

Notas finais
Agradeço ao Mando mais uma vez! Por ter criado uma fanart e uma pastinha no Pinterest para Café & Morango! ♥ Foi lá onde encontrei a imagem desse capítulo :3