Beatriz morava com esse pessoal há três anos.

Gustavo, que não morava lá, mas vivia por lá, foi quem a arrastou para esse apartamento cheio de jovens irresponsáveis após conseguir emprego na Bellini Advogados.

A sua namorada era uma. Muito bonita, pele negra, cabelo longo e trançado, e típico olhar de acadêmica de Direito arrogante. Marcela, 22 anos.

Além dela, havia uma acadêmica de Medicina de 26 anos, Rafaela, dona de bochechas fofas e mãe amável porém inexperiente da bebê de dois aninhos, Maitê, loirinha que nem o pai, que também cursa Medicina, mas na Argentina, e manda uma mesada bem razoável para bancar as despesas da filha.

Priscila tem 23 anos de idade e fala pelos cotovelos. Deveria cursar Jornalismo e não Arquitetura. A rainha do batom colorido.

E Arthur. 27 anos, formado em Administração, especializado em Marketing.

Beatriz era a responsável da casa. Ela estava desempregada até cerca de seis meses atrás, então, durante esse período obscuro da sua vida profissional, ela foi uma perfeita dona de casa. Limpava, cozinhava, fazia as compras, lavava as roupas, pagava as contas e cuidava da pequena Maitê. Em troca, tinha um lugar onde morar. Muito justo.

Porém, agora, ela não é mais desempregada. Agora, ela tem um emprego de dois turnos. E ainda assim, a casa não funciona sem ela.

Sempre louça suja na pia, alguém sempre falha na limpeza semanal, sempre alguém reclamando que não tem comida ou mantimentos... Só não esqueciam de pagar as contas pois Beatriz ainda era a responsável por isso. De resto, parecia que ninguém sabia viver sem uma mãe mandando que fizessem as coisas.

Beatriz morava com esse pessoal há três anos. E ela estava cansada de tanta irresponsabilidade.

Parada em frente a geladeira aberta, vendo uma caixinha de ovos sem nenhum ovo, ela sabia que havia chegado a hora. Fechou a geladeira, deu uma última olhada na montanha de louça suja dentro da pia e saiu da cozinha, indo direto para a sala de estar.

Seus companheiros de apartamento estavam reunidos assistindo a uma série que nunca atraiu Beatriz. Bem, as meninas e Arthur assistiam à série, e Gustavo mexia em seu celular com fones de ouvidos dependurados em suas orelhas, provavelmente assistindo a algum jogo de futebol. Maitê fazia bagunça no tapete da sala com seus brinquedinhos.

Além do som da televisão, havia a cacofonia desse grupo de jovens irresponsáveis. Beatriz se sentia uma velha toda vez que olhava para eles. Era como se fosse a mãe, a avó, que não gosta de barulho e quer tudo organizado.

Rapidamente foi até a mesa de centro e pegou o controle remoto, pausando o episódio. Todos a olharam, protestos sendo proferidos.

— O que foi? — Perguntou Arthur, sentado na ponta do sofá com uma perna erguida no apoio de braço.

— “O que foi” é que ninguém avisou que precisamos ir ao mercado. — Ela disse, rosto sério e voz firme. — E tem uma pia cheia de louça que ninguém lavou.

— Eu ia lavar mais tarde. — Priscila prontamente respondeu, dando de ombros.

Beatriz bufou.

— Vocês sempre “iam fazer”, mas nunca fazem, não é?

Gustavo tirou um dos fones do ouvido, olhando para Beatriz silenciosamente assim como os demais.

— Relaxa, a gente lava mais tarde. — Priscila voltou a dizer, sua expressão de desdém para o que Beatriz dizia.

— Gente, sério. Eu não sou a mãe de vocês.

— Claro que não. A gente é adulto. — Marcela proferiu revirando os olhos, o tédio nítido em seu rosto.

— Mesmo? Então por que ninguém aqui age como adulto?

— Ô Bea, desencana só dessa vez, tá? — Pediu Arthur, igualmente não dando importância para o que Beatriz dizia.

— Só porque começou a trabalhar começou a dar pitaco no que a gente faz. — Falou Priscila mais uma vez. — Parece que virou outra pessoa. Tá muito chata, viu!

— É porque só sendo chata pra vocês fazerem as coisas simples da casa.

— Ai meu Deus, não enche! A gente limpa depois.

Beatriz suspirou, frustrada. Eles limpariam, provavelmente amanhã quando não houvesse mais nenhum prato limpo no armário. Ela balançou a cabeça em negação, despausando o episódio e deixando o controle remoto sobre a mesa, saindo da sala direto para seu quarto.

O único lugar privado era seu quarto, e às vezes nem isso. Volta e meia ele era invadido por Priscila ou Marcela pedindo algo emprestado, ou Rafaela entregando uma chorosa ou sonolenta Maitê. Até mesmo Arthur aparecia só para fofocar, o que ele adorava. Era o “outro adulto da casa”, mas estava mais para uma versão um pouco mais velha dos jovens irresponsáveis que moravam com eles.

— Você fala que nem uma mãe. — Ela ouviu alguém falando atrás de si.

De onde estava, junto a sua escrivaninha, olhou para a porta para encontrar Gustavo parado no batente, um fone de ouvido ainda pendurado na orelha, mas o celular no bolso da calça.

— Eles agem que nem adolescentes. — Ela retrucou, voltando a organizar seu material de desenho sobre sua mesa.

— E são, basicamente. Cê sabe que não é só porque tem 18 anos que já se torna adulto automaticamente.

— Eu sei, Gustavo. — Ela bufou de novo. — Mas eles me deixam irritada. — Ela se virou para ele. — Quando eu estava desempregada, fazia tudo por aqui. Agora eu tenho um emprego e ainda faço tudo por aqui. Isso cansa.

— É, eu sei, mas você podia pegar um pouco mais leve, né?

Ela apertou os olhos na direção dele.

— Como assim?

Ele deu de ombros.

— Não queria dizer nada, mas a Pri meio que tá certa sobre você ter se tornado outra pessoa depois que arranjou esse emprego.

Beatriz levantou as sobrancelhas, cruzando os braços e encarando Gustavo, ela deu um passo para frente.

— É o que pensa mesmo ou só está dizendo isso por que sua namorada pensa assim?

Gustavo abaixou a cabeça levemente, como se estivesse constrangido, dando um olhar culpado para ela.

— Só pega um pouco mais leve no começo. — Ele pediu cautelosamente.

Ela se aproximou e segurou na maçaneta da porta.

— Primeiro, já faz seis meses que estou nesse emprego. E segundo, vou pegar leve quando você deixar de fazer todas as vontades da Marcela.

Fechou a porta ao final, quase não dando tempo de Gustavo se afastar para não ser atingido na cara.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.